[ANIMES] YOUJO SENKI [Saga of Tanya the Evil] – ou e se Hitler fosse uma loli?

Olhe para esta menininha de anime fazendo o olhar mais sanguinário que os artistas conseguiram desenhar. Esta é Tanya, a Maligna (sim, o nome ocidental do anime é esse mesmo). Oh, Deus, la vamos nós… Deixa eu adivinhar: este anime é sobre uma loli no campo de batalha, mas a piada é que ela não luta direito e vence através de altas confusões. Não, não, já sei! Deve ter um oni-chan aqui para salvar nossa loli sanguinária, ou algo do tipo. Serio, isso fede a cliché de anime a milhas de distância. Vou assistir só para ver quais clichés usaram dessa vez, porque, sério, o que é o pior que pode acontecer?

Otakus fazendo fila depois que disseram que tem uma loli na guerra

De qualquer forma, a premissa deste anime é que estamos na Segunda Guerra Mundial, e tem uma loli loira de nove anos no campo de batalha. O começo do primeiro episódio é uma das coisas mais estranhas quando você vê pela primeira vez. A cena abre com soldados morrendo nas trincheiras, bombas explodindo por toda parte e, em seguida, essa loli aparece. Ela é uma coisa completamente deslocada ali, e o anime não se toca disto. Pelo contrário, ele leva a história muito a sério, como uma história de guerra real, e isso realmente incomoda. Por Deus, Japão, o quão longe você está disposto a ir para agradar otakus pedófilos?

Mas, sério gente, mais alguém notou que tem uma menina 9 anos no meio do campo de batalha? Essa menina deve ter se perdido, alguém tire ela dali antes que…

Espera, a loli voadora acabou de matar dois soldados, arrancando a cabeça de um deles no processo? Quer dizer… o quê? O QUE TÁ ACONTE SENO, COSSENO E TANGENTE, JAPÃO? Me responde, Japão! Não adianta fingir que você não está aí!

Bem, assistindo o primeiro episódio, fica bastante claro que o título “Tanya, a maligna” não é apenas figura de linguagem. A guria é o diabo mascando mariola, e não apenas devido às suas sobrenaturais habilidades no campo de batalha: ela é podre por dentro de verdade. Do tipo que redireciona alguns soldados seus, que questionaram ordens dela, para ficar de vigia em uma casamata. “Ah, mas isso nem é tão maligno assim. Eles até saíram da linha de frente do combate. Isso nem parece uma puniç- Espera, por que ela tá sorrindo desse jeito?”

Oh, bem, alguém devia ter avisado aqueles sujeitos que pontos militares fixos, como casamatas, são o primeiro alvo de bombardeios inimigos…

Okay, essa guria realmente é mais ruim que o cramuião bebendo mertiolate. Você tinha minha curiosidade, Japão, agora tem minha atenção. Existe algum motivo razoável pelo qual essa criança está no campo de batalha e por que ela é tão ruim assim?

“ESTOU FELIZ QUE VOCÊ TENHA ME PERGUNTADO ISSO”, o anime te responde.

Oh… eu vou me arrepender de ter feito essa pergunta, não vou?

“E COMO!”

Essa história sobre a Segunda Guerra Mundial começa no Japão, nos dias de hoje. Nosso herói aqui é um executivo muito filho da puta, do tipo que não hesita em arruinar a carreira dos colegas, se isso possivelmente tem alguma chance de fazê-lo parecer melhor e subir na carreira corporativa. Ok, talvez o sujeito que foi demitido, apenas para dar uma melhoradinha nos números, tivesse família, e provavelmente se suicide depois disso, mas quem se importa com isso? Dica: NÃO ESSE CARA!

Então nosso executivo malvadão morre subitamente e, no momento da sua morte, Deus (não fica claro se é “O” Deus ou “um” deus) vai tirar as caras com ele. Não devido aos seus modos malignos, mas porque o cidadão não tinha fé alguma no seu criador. Tudo bem ser um babaca que arruína vidas de pessoas sem ligar a mínima pra isso, mas não ser puxa-saco de vossa inexistência? Tá de miserinha com Deus, né, mermão?

O nosso questionável herói, então, responde que Deus existir não faz o menor sentido lógico, e é absolutamente absurdo que ele espere que qualquer um vagamente instruído acredite nisso, a menos que a pessoa se encontre em uma situação absolutamente desesperadora. O que é um argumento bastante racional, mas, por algum motivo que me é misterioso, não parece agradar o cara que nos deu a Kate Upton.

Se o que você precisa para ter fé é uma situação desesperada, então eu tenho exatamente o que você precisa bem aqui“, Deus lhe responde.

E é assim que nosso executivo tiozão de meia-idade acaba reencarnando como uma menininha órfã, em um mundo de fantasia onde a guerra parece durar perpetuamente. Como Deus já tinha jogado This War of Mine (com gente de verdade), e viu o que acontece com menininhas órfãs durante a guerra, ele estava confiante que isso ensinaria uma boa lição ao nosso salaryman-kun.

Claro que, para a lição ter algum valor, só adiantaria se o salaryman-kun mantivesse as memórias da vida anterior, e assim foi feito. Foi assim que ele renasceu como Tanya Degurechaff, no equivalente mágico da Alemanha Imperial em 1915.

Qualquer um de nós ficaria chateado, desmotivado, sem vontade de cantar uma bela canção, mas não Tanya Degurechaff! O pensamento do cara, agora uma loli, é bastante simples: vou conseguir um emprego bem mocorongo e ficar de boa na lagoa. Deus pode enfiar a guerra dele no toba e sair cantarolando se quiser. Mas qual emprego se pode ter quando você é uma menininha de 9 anos? Bem, neste mundo para aqueles com aptidões mágicas sempre há a guerra.

Claro que a guerra é um negócio altamente perigoso, então o plano de Tanya é conseguir um emprego qualquer no exército e ficar sussona. O que teria dado certo, não fosse algumas coisas. Em primeiro lugar, Deus não parece satisfeito com essa sequencia de eventos e solta um Deus Ex-Machina para apimentar as coisas para o lado de Tanya – neste caso, literalmente. Mas, em segundo lugar, e essa é a parte realmente divertida do anime, Tanya descobre que o exército alemão de 1925 funciona exatamente como o serviço público brasileiro em 2017: qualquer minimo raio de qualidade será exemplarmente punido.

No caso de Tanya, a punição são promoções e avanço na carreira militar, quando ela claramente não queria nada disso. Só que em uma sequencia de trapalhadas e deslizes, somado ao seu conhecimento de história de como essa guerra termina, Tanya não consegue evitar em ser terrívelmente eficiente. Adicione a isso sua mente prática, incapaz de dar a minima para qualquer coisa que não resultados, uma boca grande demais e, quando vê, Tanya já é líder do seu próprio batalhão de magos nas extremidades mais perigosas da guerra.

Quando vê que não tem mais volta, Tanya decide que, se tá no inferno, então abrace a si mesma. Ela vai é ganhar essa porra de guerra, isso sim! Chupa que é de uva, Deus!

Tanya adora o cheiro de napalm pela manhã

A maior atração do anime é, obviamente, sua personagem principal. Tanya von Degurechaff é um deleite de se assistir. Seus discursos são cativantes, e sua sede de sangue é insana. Ela gosta de matar pessoas, e ela adora fazer isso pessoalmente. O foco principal do show é, na verdade, suas façanhas nesta guerra. Dada a circunstância única de seu país, ela sempre está ocupada indo de um lugar para outro. O anime segue principalmente suas façanhas nos vários lugares que ela visita. Nós também conseguimos testemunhar a sua ascensão de um soldado humilde no campo de batalha a uma comandante temível conduzindo os rumos da guerra.

Não há nada de bom dentro de Degurechaff. O anime pinta esse ponto de forma bastante clara. Ela usa a guerra como uma desculpa, mas nada que ela faz é heroico. Ela sempre leva as coisas longe demais, avança em campanhas sangrentas sem pestanejar em dobrar as regras das convenções de guerra, e até mesmo matar civis, se for dada a ordem. E, sim, ela recebeu a ordem em algum momento. O psicopata que vê as coisas em preto e branco realmente prospera neste mundo fodido tomado pela guerra.

É óbvio que Tanya jamais deixaria seu pelotão para morrer! Quer dizer, isto ia ficar horrível no seu currículo, né?

O mais impressionante, no entanto, é que, embora Tanya se divirta muito encarnando o papel do Demônio de Rhyne – como fica conhecida – seu raciocínio é perfeitamente lógico. Ela não é má apenas pelo prazer de ser má, tudo que ela faz você não pode questionar sua necessidade.

Ela entende que civis sobreviventes vão se tornar soldados ressentidos para lutar contra seu país, e ela usa esse raciocínio para matá-los agora antes que isso aconteça. Ela também entende que muitas pessoas devem morrer para que essa guerra termine, e assim o pequeno demônio sedento de sangue se responsabilizaria por isso. Logo você verá imagens horríveis do caminho de sangue que esta loli criou, e é bem cruel e impressionante – mas sempre muito lógico.

À medida que o anime progride, mais você começa a temer (e se maravilhar) com essa psicopata de nove anos de idade (que é um tiozão de meia-idade). Ela é incrivelmente maravilhosa de assistir. Você quer saber o quão longe ela vai chegar, e o anime te mostrará com prazer. Mas, infelizmente, você também saberá uma outra coisa sobre Degurechaff.

War. War never changes. Até colocarem a loli nazi. Aí mudou a porra toda.

Ela é uma Mary Sue. Aliás, “A” Mary Sue, que, em comparação, quase faz a Rey em Star Wars VII parecer um personagem razoável … a Rey um personagem razoável… O anime praticamente é sobre o quão perfeita ela é, e ela nunca falha em nada.

Em um cenário em que a perda é lugar comum, uma vez que os dois lados perdem as pessoas na guerra, nossa loli não experimenta nenhuma causalidade. Ela já é overpower no começo, e ainda recebeu uma joia especial que só ela pode usar. Essa joia amplifica sua magia, e, literalmente, ninguém no anime pode bater de frente com ela.

Mas uma Mary Sue que se preze não para apenas em duas ou três coisas impressionantes. Bem, Degurechaff também é muito inteligente. Com seu conhecimento de guerra de sua vida passada ela ajuda a elaborar planos para que seu país tenha sucesso. Ok, essa parte soa razoável, certo? Quer dizer, ela (ou ele, na época) veio de um mundo onde a Segunda Guerra Mundial já aconteceu. Meio que dá para ter uma ideia de como as coisas vão acontecer.

O problema é que boa parte das vitórias de seu país podem ser creditadas exclusivamente a ela. Isso quer dizer que ela elaborou os planos, executou a missão e matou um bando de pessoas fazendo isso sem sofrer nenhum arranhão. Essa garota é simplesmente perfeita. Seu esquadrão também nunca falha em nada, e começa a ser insultante ver um personagem tão perfeito em um cenário de guerra. Por que ela não começa logo a ressuscitar pessoas, pelo amor de Grop?

Oh…

Verdade seja dita, eu meio que entendi o que o anime quis fazer aqui. O país da Degurechaff é o equivalente da Segunda Guerra Mundial da Alemanha, e isso só pode significar uma coisa: Oh fuck yah, ela é o equivalente loli de motherfucking Hitler. Seus discursos sobre morrer pelo seu país, sua ascensão ao poder, você simplesmente não pode afastar a imagem de Hitler. O anime não diz claramente ao público que ela é Hitler, mas há nuances que indicam esse sentido para esse ponto. Há pequenas dicas sobre por que essa loli é tão sanguinária e porque até mesmo Deus a odeia. O maior ponto para a comparação entre Hitler é a própria guerra. Esta é uma batalha inspirada em alguns dos eventos da Segunda Guerra Mundial.

É uma interpretação muito livre da guerra, mas alguns momentos reconhecíveis inspiraram eventos semelhantes no show. O primeiro que se destaca é quando Degurechaff invade um país chamado Dakia. O país está horrivelmente mal equipado, e eles não tinham magos para lutar contra batalhas aéreas. A unidade altamente avançada de Degurechaff massacrou todo o batalhão de Dakia. O equivalente histórico disso é quando a Polônia, depois de saber que a Alemanha estava tentando invadir, mandou sua cavalaria contra o inimigo. Eles pensaram que seria como a Primeira Guerra Mundial, então eles mandaram seus cavalos para enfrentar os alemães. Claro, os invasores tinham tanques. Muitos deles. A defesa da Polônia foi rapidamente estraçalhada pelos panzers alemães.

Oh, Polônia, o país cuja bandeira devia conter “pareceu uma boa ideia na hora”

Esta é uma parte muito legal do anime, porque não é sempre (pra não dizer nunca) que vemos um anime sobre a Segunda Guerra Mundial. E o autor da light novel em que o anime se baseia deu muitos saltos laterais para falar sobre um assunto tão sensível para os japoneses (acho que todo mundo sabe o porque, né?)

Em algum momento da série, temos a revolta civil na Bélgica, os bombardeios de Londres e a invasão da França apresentados no anime. Mais uma vez, eles nunca mencionam os eventos da vida real, mas as pequenas nuances visuais dão as dicas. Além disso, a Alemanha no início da guerra estava à frente de seus inimigos em termos de tecnologia. O antigo modelo de tanque que eles usaram na Primeira Guerra Mundial foi melhorado. Eles se tornaram mais destrutivos e podiam lidar com qualquer terreno. Os Aliados realmente jogaram na defensiva por um bom tempo, e isso soa verdadeiro para o país de Degurechaff também. Eles eram muito mais avançados do que seus inimigos, e é assustador observar como eles se assemelham ao exército nazista (sem a parte do holocausto, isso é, apenas geopoliticamente falando)

E essa é a parte onde o autor queria chegar, porque se você não vê Hitler em Degurechaff, então você vê apenas uma Mary Sue loli matando pessoas. O autor criou tantos pequenos detalhes da Segunda Guerra Mundial na história porque ele quer chegar nesse ponto. Você deve ter medo de Degurechaff, porque ela, na verdade, é a vilã da história, e ele está recriando Hitler na frente de seus olhos.

A loli Hitler. Uau, Japão. Apenas… uau.

Pessoalmente eu acho que, por mais que eu tenha entendido onde o autor queria chegar, a falta de desafios à altura da Tanya é um pouco frustrante de se assistir. Nem mesmo Deus (ou “Ser X”, como Tanya o chama) é uma grande ameaça para nossa heroína do mal – porque ele aparece relativamente pouco.

Possívelmente as coisas melhorem na segunda temporada, que vai retratar a entrada dos US and A na Segunda Guerra, e então o caldo entorne para o lado dos comedores de xucrutes.

O que mais eu posso dizer? Se Deus existe, ele tinha um propósito muito claro ao criar o Japão. Esse propósito era contar a história de “Tanya, a maligna”. Sim, eu estou ciente de que estou falando do mesmo país que nos brindou com um anime esportivo muito sério sobre duelos de bundadas. Mas acredite, Keijo não é nada comparado a isso….

Ah sim, uma última coisa: vale a pena ser dito que o anime foi feito pelo Studio NUT, e esse é o PRIMEIRO anime deles. Puta merda, hein? Sabe qual vai ser o próximo? A continuação de FLCL (em parceria com a Production I.G., de Ghost in the Shell). Pois é, Santa Efigênia da puta que pariu, se preparem, porque os caras já mostraram que são mais loucos que a Gainax era depois que o caminhão de LSD tombou na porta deles…