[VOCÊ JÁ JOGOU…] THE LEGEND OF ZELDA: OCARINA OF TIME? (ou hey, listen!)

“Você já…” é uma nova série que eu gostaria de compartilhar com vocês. Minha formação nerd não se deu sem falhas, e tem muitas coisas que eu nunca joguei ou assisti ou li quando de seu lançamento, e não cheguei a conhecer apropriadamente até que eu já fosse um homem formado. Então é hora de voltar no tempo e tirar a poeira daquele jogo/série/filme, e vamos chegar chegando: The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Alegadamente um dos melhores jogos de todos os tempos…. será?

legend-of-zelda-ocarina-of-time-beat-blindfoldedThe Legend of Zelda: A Link to the Past” (do SNES) é um dos meus jogos favoritos de todos os tempos. Não, sério, como eu joguei essa porra. Quantos fins de semana eu aluguei o jogo (era assim que nós rolávamos naquela época) e jogava até conseguir o Magic Mirror, virar coelho e não saber como seguir dali. Naquela época não havia internet, e revistas com detonados eram raridade, porque uma vez que passava o mês de lançamento ela sumia das bancas e perdeu preiboi.

Lembro de uma vez que, como presente de aniversário, eu pude alugar quatro, eu disse QUATRO jogos de uma vez. Foi a apoteose nerdica, e eu aluguei quatro entre os meus favoritos de todos os tempos até então: Vegas Stakes, The Legend of Zelda, Super Metroid e Goof Troop (me julguem). Aquele final de semana foi louco.

Seja como for, depois do Super Nintendo eu não viria a ter videogame novamente até a época do PS2, de modo que eu nunca realmente joguei nenhum jogo do Nintendo 64, e muito menos a sequencia de Zelda, o tal do Ocarina of Time. Não que seja uma sequencia no sentido tradicional da palavra, é mais um reboot. Ok, não exatamente, mas a cronologia da série é tão confusa quanto a prestação de contas da Dilma – com efeito, Zelda disputa na unha com Kingdom Hearts a pecha de história mais confusa dos videogames.

E não  apenas isso, mas Ocarina of Time é considerado por muitas listas como o melhor jogo de todos os tempos. Tipo o melhor do melhor do oeste.

Então, recapitulando: o sucessor de um dos jogos mais queridos da minha infância é uma versão hypada pra caralho, em 3D e pela qual eu não tenho como ter nenhuma memória nostálgica? Puta que pariu, o adolescente revoltz dentro de mim chegou a vibrar com a possibilidade de quebrar as pernas da internet. A primeira coisa que eu pensei é: vou detonar esse joguinho de fanboy babaca, vou chegar esmerilhando, porque ficou quicando dentro da área. É hoje que eu me consagro!

E foi assim que, pronto para o crime, apenas em 2016 que eu joguei pela primeira vez The Legend of Zelda: Ocarina of Time.

 Acima, o remake lançado para 3DS em 2011. Abaixo, o original do N64 lançado em 1998

Acima, o remake lançado para 3DS em 2011. Abaixo, o original do N64 lançado em 1998

VAMOS CHEGAR CHEGANDO: DETONANDO OS GRÁFICOS

Falar mal dos gráficos de um jogo de 18 anos atrás não é sequer uma questão, por mais que você queira avacalhar o jogo. O que pode ser analisado é se os gráficos são bons para a época e se eles não quebram a imersão do jogo. O que com muita satisfação eu posso responder que… é, bem, os gráficos funcionam surpreendentemente bem para a época.

Na verdade, é notável como a Nintendo espremeu cada byte que podia do cartucho em 1998 para dar texturas e colocar itens nos cenários, apenas a fim de não fazer o mundo parecer vazio e desabitado. Parece não fazer diferença as casas terem cadeiras, estantes com livros, camas e caldeirões – coisas com as quais você não pode interagir e não tem função prática no jogo – mas a verdade é que passa sim a sensação de imersão, de estar em um mundo em que pessoas moram ali de verdade.

Quanto à imersão, o N64 tem uma paleta de cores limitada e as texturas são borradas, mas, de alguma forma, isso contribuiu para que o jogo adquirisse um clima de fantasia, de conto de fadas. Por algum motivo eu lembrei de Fable, por exemplo. Em 2011 foi feito um remake do jogo para o 3DS (remake mesmo, os gráficos foram refeitos quase do zero) com os anos luz de poder que o 3DS tem sobre o N64… e não ficou tão bom assim. Ficou apenas comum, sabe.

Seria mais ou menos o mesmo que relançar Shadow of the Colossus na Unreal Engine 4: certamente ficaria lindo pra caralho, mas perderia a sensação mistica onírica do jogo que as limitações do PS2 acidentalmente impunham.

Certo, nada contra os gráficos, eu concedo isso, mas esse jogueco não perde por esperar!

HORA DE USAR A MUNIÇÃO PESADA: A TRILHA SONORA

A Link to the Past do SNES tem uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos. Não só de videogames ou como trilha sonora, mas como música mesmo. Eu não vejo porque o tema de Zelda não fica no mesmo nível que o Bolero de Ravel ou a 9ª Sinfonia de Beethoven. Serinho mesmo, escuta só essa parada:

Serinho do meu Brasil baronil, arrepia cabelo até do professor Xavier! Então, rá, é agora que eu desmascaro Ocarina of Time e esse joguinho vai sambar bonito!

… exceto que a trilha sonora do jogo é boa. Eu digo, realmente muito boa. Excepcionalmente boa. Puta que pariumente boa. Quando você cavalga por Hyrule Fields, a música faz sentir como se você estivesse cruzando uma planície imensa (quando na verdade o sandbox do jogo é um mapa muito, muito pequeno para os padrões de hoje). Na floresta Kokiri você pode sentir as árvores dançando, e em Gerudo Valey você consegue sentir a essência das ladinas do deserto apenas através da música. A música carrega metade do jogo nas costas e é muito, mas muito boa, e complementa a limitação gráfica do jogo.

Assim, Ocarina of Time não parece um mundo pobre, e sim elegantemente rústico. Não parece parado, parece bucólico. A trilha sonora é espetacular e, embora possa ser discutida se faixa A ou B é melhor no Link to the Past ou no Ocarina of Time, de modo geral ela faz muito lindão até para os padrões de hoje em dia.

Em um jogo onde a música é parte muito importante da mecânica do jogo, é nota 11/10 fácil.

E também Taylor Davis é amor, né?

tumblr_me43gnatMU1rbrsoao1_500AGORA EU TE PEGO SAFADO: AÇÃO 3D

As pessoas falam mal das adaptações de videogames para o cinema porque não fazem ideia da desgraça que eram as adaptações dos jogos 2D para o 3D. Levou muito tempo para as empresas acertarem a mão e não cagarem até entenderem o básico: não existe adaptação de 2D para o 3D, existe um jogo inteiramente novo com os mesmos elementos, e que tem que ser tão bom quanto começando do zero.

E quanto melhor o jogo 2D a ser adaptado, mais difícil era atingir essa expectativa. Tanto que algumas franquias até hoje nunca conseguiram acertar a mão em fazer isso. Era apenas de se esperar que eles cagassem fora do penico com Zelda, porque o jogo 2D é um dos melhores de todos os tempos, não tinha como eles começarem do zero e emparelharem outro sucesso tão bom quanto, só que em 3D.

Só que foi exatamente o que eles fizeram. Mesmo para os padrões do hoje, eu consigo pensar em poucos jogos com os quais eu me senti mais confortável e mais no controle do personagem do que em Ocarina of Time. Sério, até em Assassin’s Creed IV: Black Flag eu patino muito mais com a gordice do personagem do que nesse cartucho de 18 anos atrás.

Mas tão importante quanto isso, o jogo não é 3D apenas por ser 3D porque era modinha na época. Ele possui mecânicas únicas de níveis, mira e diversas outras coisas que funcionam apenas porque foram feitas desse jeito. Muitos dos designs das fases jamais funcionariam em um jogo 2D, e a cada segundo ele te passa essa sensação de que foi feito explorando o melhor que podia dessa nova perspectiva. O que nos leva ao próximo ponto…

 Water Temple é a dungeon que separa homens de comedores de quiche!

Water Temple é a dungeon que separa homens de comedores de quiche!

… THE LEGEND OF DUNGEONS

Mas o que é Legend of Zelda, afinal? É um jogo de exploração de masmorras. Você completa uma dungeon, dá uma volta no mundo (sidequests e tal) para testar o brinquedo novo que ganhou, e então parte para outra dungeon. O jogo de verdade mesmo são as dungeons.

E puta que o pariu, como isso é divertido. A cada masmorra que você entra, estala o pescoço e diz “ok, let’s do this”. Quando sai é uma sensação de vitória de que você realmente superou um desafio intelectual satisfatório, de tão interessante, bem desenhadas e boladas que são as  masmorras do jogo.

Em quase todos os aspectos, eu vou dizer que a comparação com A Link to the Past é subjetiva (música, história, jogabilidade), mas aqui não. Em design de fases, Ocarina of Time é gostoso pra caralho como eu nunca vi em um jogo até hoje. Ocarina of Time tem as melhores dungeons. Não é cansativo, não desnecessariamente difícil, não é nada disso. Foi exatamente o que deveria ser.

Aqui tem um artigo inteiro falando sobre o Water Temple, que na minha opinião é a melhor dungeon do jogo, mas o que diz a respeito dela pode ser extrapolado para todas as dungeons do jogo. E como as dungeons são 90% do jogo, isso é muita coisa.

E eu repito, até HOJE eu não vi um design de masmorras tão inteligente e divertido de se jogar. Se a ideia de que Ocarina of Time é o melhor jogo de todos os tempos, com certeza vem daí.

 Talvez se os hylians não fossem babacas racistas, nada disso teria acontecido

Adicionalmente, talvez, se os hylians não fossem babacas racistas, nada disso teria acontecido

TÁ, MAS PELO MENOS A HISTÓRIA É RUIM, NÉ?

Tradicionalmente, os jogos da Nintendo não têm grandes coisas de história, quando se pode dizer que tem alguma. Sério, Super Mario RPG é um fucking RPG sem nenhum desenvolvimento de personagem do Mario! (apesar do jogo ser legalzaço). Então, seria de se esperar que Zelda fosse grandes pérolas narrativas.

Surpreendentemente, no entanto, a narrativa minimalista funciona. Com o lance de viagem no tempo, então, funciona pra caralho. A história é bem simples: as deusas que criaram o mundo o fizeram e picaram a mula, mas deixaram para trás um artefato que poderia remoldá-lo caso fosse do interesse de seus habitantes: a Triforce. Pense na triforce como um “Executar como Administrador” de Hyrule.

Então um cara mal como pica-pau surge e quer usar a Triforce para dominar o mundo. Simples, rápido e prático, não?

Bem, não exatamente.

Pra começar, o vilão da história não é mau como um pica-pau. Ganondorf, o rei dos bandidos, é um gerudo. E o que são os gerudos? Gerudos são uma tribo de mulheres do deserto que, por motivos nunca explicados, foram banidas da sociedade, e vivem como bandidas no lugar mais inóspito de Hyrule (que em qualquer outro lugar é uma terra paradisíaca). Todos os gerudos são mulheres, mas a cada cem anos o avatar renasce nasce um menino que será o próximo rei dos gerudos, e Ganondorf é o rei dessa geração.

Conforme você conversa com as pessoas do jogo, todas são unânimes em dizer que os gerudos são para eles como nós veríamos uma mistura de ciganos com leprosos, e se todos pegassem fogo bem longe das suas terras tanto melhor. Então é realmente surpresa que Ganondorf queira a triforce para mudar o status quo das coisas? Mesmo?

Assim, ele engana a princesa Zelda (que por sua vez saboneta o trabalho para o moleque Link) fazendo-a achar que estava sendo ameaçada para a abrir a Porta do Tempo, e com isso põe as mãos na Triforce. E olha só, isso só acontece porque a própria princesa Zelda, assim como todos os Hyllians, é racista pra caralho e tem um pesadelo apocalíptico no qual coloca toda a culpa no gerudo que estava por ali (sério, ela culpou o gerudo que estava de hóspede no castelo por ela ter tido um pesadelo).

Aliás, note-se que os gerudos têm a pele escura e são narigudos (como é o estereotipo racial dos judeus), para o simbolismo disso ficar mais claro só se pendurasse uma placa no pescoço.

hhgysA Triforce, como o nome dá a entender, é constituída de três elementos: Força, Sabedoria e Coragem. E se o usuário que a possuir não estiver em harmonia com esses elementos, ela refletirá apenas o elemento dominante em seu coração. No caso de Ganondorf foi a Força, e o mundo espelha o rancor de seu coração – ao mesmo tempo que é consumido por esse poder. Rancor esse totalmente justificado, na minha opinião.

Aliás, se Ganon fosse tão ruim quanto as pessoas o descrevem, ele teria matado Link criança quando teve a chance, e nada teria interrompido seus planos. A grande falha no seu plano foi justamente não ter matado uma criança, e eu não consigo ver alguém que faz isso como um monstro completo. Um vilão impressionantemente complexo para um jogo da Nintendo, não?

E é aí que as coisas ficam loucas: quando Ganon consegue a Triforce, e o mundo se transforma em trevas, Link, que tava no meio do rolo todo, acaba congelado dentro da Porta do Tempo e acorda 7 anos depois, já adulto. Nesse ponto o jogo dá uma guinada de visual, e a mensagem é bem clara: a infância acabou.

Link passa a usar armas de verdade, os inimigos agora são monstros e mortos-vivos, o mundo que era idílico e bonitinho agora é sombrio e perigoso. Verdade seja dita, não é TÃO legal quanto o Dark World de Link to the Past, mas ainda sim o simbolismo de perda da Inocência é muito bem feito.

E temos também que Link é um fodido. Ele cresceu sofrendo bullying porque era a única criança entre os kokiri que não tinha uma fada guardiã, e quando consegue a bendita fada, é apenas para perder sua infância. Ele literalmente perdeu sua infância, e se você pensar nisso é bastante triste.

A metalinguagem do jogo é elegante e magnifica.

Ainda quando ele é criança, Link encontra outros personagens que voltará a ver quando adulto, e se revelarão os seis sábios capazes de selar Ganon dentro da Porta do Tempo. Embora não sejam primores de personagens, cada um é carismático o suficiente para você reconhecê-los e se importar minimamente com eles. Em cinco falas um sábio de Ocarina of Time consegue ser mais carismático que todo elenco de Bleach em 200 episódios. Nas poucas cenas que aparece, eu realmente sinto pela friendzonagem rude que a Saria toma do Link, porque secretamente ele quer a ppk do tempo da família real. Pela Ruto eu não sinto tanto – não porque eu sou racista e ela é uma mulher-peixe azul, e sim porque eu odeio tsunderes com a fúria de mil sois amarelos.

Então, para uma narrativa minimalista, como tradicionalmente são nos jogos da Nintendo, Ocarina of Time tem não só um mundo bem construído, como personagens razoavelmente motivados e que te passam sensações e pensamentos. Honestamente, eu não pediria muito mais do que isso. Pra época, então, onde narrativas profundas de jogos eram muito raras, tá anos luz de bom.

Vencedores não usam drogas, já dizia o grande William S. Sessions

É, TA NA HORA DE ADMITIR QUE NÃO É HOJE QUE EU ME CONSAGRO…

A mecânica é excelente, o 3D é vital para o jogo, o clima funciona, a música funciona, os menus têm o padrão Nintendo de qualidade, o design das dungeons é sem paralelo até hoje, os controles funcionam de forma a fazer inveja a qualquer Uncharted, tem sidequests e detalhezinhos para te divertir por horas e horas explorando e fuçando (embora o mapa central seja meio vazio em coisas a fazer, comparando com seu antecessor do SNES), o final é plenamente satisfatório (spoilers: Link volta a ser criança e pode ter uma vida normal e feliz, uma recompensa justa por tudo que ele passou e teve que abrir mão em sua missão heroica – é mais gratificante do que a minha descrição dá a entender) … não tem como não dizer que esse não é um dos maiores e melhores jogos de todos os tempos MESMO PARA OS PADRÕES DE HOJE.

Tenho que admitir que eu não tenho como fazer uma comparação objetiva com A Link to the Past, porque o segundo está tão entranhado nas minhas memórias e nostalgias que eu sei que não tenho como olhar friamente para ele. E nem quero. Você pode discutir qual dos dois é efetivamente o melhor por dias, mas apenas o fato de poder haver essa discussão com um dos melhores jogos de todos os tempos mostra o quão bom e maravilhoso esse jogo é.

O que eu sei é que eu realmente sinto ter perdido muito por não ter conhecido esse jogo jogando ele alugado na época do N64. Eu me diverti pra caralho jogando ele hoje, mas sei que me divertiria 15x mais se fosse algo intrínseco da minha infância.

Bem, mas essa é uma dessas coisas da vida. Assim como é o fato que, sim, Ocarina of Time merece todo o hype ao qual as pessoas se referem, assim como merece estar lado a lado na galeria dos maiores entre os maiores, junto com Shadow of the Colossus, Super Mario World, Super Metroid e The Last of Us. E, claro, o próprio Link to the Past também.

E isso era tudo que eu queria dizer a respeito deste assunto.

nota 5 jornada do escritor