[VOCÊ JÁ JOGOU…] METROID PRIME? (ou o último Metroid rodou, a galáxia tá de boa na lagoa)

metroid_prime_coverImagine que estamos no ano 2000. De alguma forma você ainda está surpreso que o mundo não acabou no ano novo de 1999, nem as máquinas se rebelaram. Trata-se de um mundo louco no qual Doctor Who não voltaria à televisão por pelo menos mais cinco anos, e rede social era só a rede que o ambulante nordestino vendia na praia para ajudar sua comunidade.

Então você está lá, cuidando da sua vida, se metendo com suas próprias coisas, quando alguém bate na sua porta domingo de manhã enquanto você está escovando os dentes. “Malditas Testemunhas de Jeová”, você pensa, mas vai atender mesmo assim.

Para sua surpresa não é um crente safadão, e sim ninguém menos que Shigeru Miyamoto, apenas o maior nome da história dos videogames. Na verdade videogames só existem hoje, após o fracasso da Atari, graças a este homem. O homem que inventou Donkey Kong, Zelda e isso:

Eu já disse, mas não me custa repetir: a fase 1-1 de Super Mario Bros. é uma das grandes composições da história da humanidade, ao lado da 9ª sinfonia de Beethoven, o gol de Maradona contra a Inglaterra na copa de 86, e basicamente qualquer coisa que George Orwell tenha escrito.

Imagine um mundo em que as pessoas têm desprezo por música e alguém dissesse a Beethoven (bem alto, porque ele era meio surdo): “Certo, chucrute, você tem uma introdução para fazer as pessoas gostarem de música novamente”. Ou dissessem a Van Gogh: “Ta bom, orelhinha, você tem um único quadro para fazer as pessoas gostarem de pinturas novamente. E… vai!”. Foi exatamente esse o desafio que Miyamoto teve ao transformar a aversão que as pessoas tinham à palavra videogame após o fim lastimável da Atari em uma paixão novamente. E ele tinha apenas uma única fase de um minuto para fazer isso. Homens menores teriam desmoronado sob essa pressão. O simples fato de que eu estou escrevendo sobre videogames hoje mostra que alguma coisa ele fez certo.

Voltemos à nossa história. Agora que você entende quem Shigeru Miyamoto é. Lembre-se: é domingo de manhã do ano 2000, você está escovando os dentes, vai atender a porta com a escova ainda na boca, e esta lá parado o cara que criou o que nós entendemos hoje por videogames. E ele te diz a seguinte coisa:

– Olá, bom dia. Eu estou tentando criar uma continuação em 3D para o melhor jogo de todos os tempos mas, honestamente, já se passaram oito anos, e eu não consegui pensar em absolutamente nada. Você poderia fazer isso pra mim?

i-cant-do-itHomens menores teriam desmoronado e chorado. No entanto, essa é a história da Retro Games.

Vamos começar deixando uma coisa bastante clara: Super Metroid é meu jogo favorito de todos os tempos. O melhor. Mais de vinte anos depois eu não consigo pensar em uma única coisa que eu mudaria naquele jogo. Super Metroid é o equivalente em videogames aos monólogos do Matt Smith como Doutor, foi quando os planetas se alinharam e disseram “é, não fica melhor que isso”. Da trilha sonora ao gameplay, da sensação de solidão a respeitar a inteligencia do jogador, Super Metroid faz tudo certo.

Super Metroid é tão bom, mas tão bom, que mesmo um gênio como Miyamoto passou oito anos coçando a cabeça e chegou à conclusão de que “é, não tenho nada, caras”. Como eu havia dito antes, adaptar um jogo para o 3D não é adaptação porcaria nenhuma, e sim fazer outra obra-prima começando do zero. Miyamoto fez isso com Mario 64 e acertou a lua com Ocarina of Time. Mas pra Metroid ele não tinha nenhuma grande ideia no bolso.

Por sorte, a Retro Games tinha algumas boas ideias na sua manga sim.

A GENIALIDADE DOS PIORES CONTROLES DO MUNDO

A primeira coisa que me chamou a atenção ao jogar Metroid Prime foi o quanto seus controles são desnecessariamente complicados. Por que os controles não podiam ser apenas uma extensão do seu corpo como em Halo? Por que não podiam ser leves e naturais? Céus, eu tinha que operar tantos mecanismos laterais para fazer as coisas simples que parecia que eu não estava movimentando meu personagem e sim operando uma armadura!

… Hey, espera aí…. Espere um momento aí… O que foi que eu acabei de dizer?

Foi só então que eu me dei conta do que eles fizeram aqui. Os controles do jogo te passam a sensação de que você está operando uma armadura desnecessariamente complicada porque, adivinha o que, você ESTÁ operando uma armadura desnecessariamente complicada! O jogo não é sobre Samus Aran, o Rambo do agreste. O jogo é sobre a caçadora de recompensas em sua icônica armadura alienígena amarela.

sensor-oticoEm todos estes anos nesta industria vital eu nunca realmente havia sentido essa sensação de estar operando uma armadura! E quer saber? Foi legal pra caralho quando eu finalmente entendi isso! Eu me senti como eu me sentia quando era criança e o Jaspion usava o sensor ótico e eu achava tão infinitamente legal aquilo. Aqui a armadura é parte fundamental da experiência, de certa forma sua única companhia durante o jogo, mas não uma sem preço. O computador de mira da armadura te ajuda a atirar, mas em nenhum momento você tem a sensação de que é automatizado, ou que você não é parte importante daquilo, apenas que você está suando em bicas apertando botões para fazer o equipamento funcionar.

Então, diferente de outros jogos do gênero, onde sua armadura é só um floreio narrativo sem nenhum impacto no gameplay – e inclua-se até mesmo Halo nisso – aqui a armadura é parte essencial da sua experiência de jogo. Experiência que até hoje nenhum outro jogo conseguiu reproduzir.

metroid-prime-mundoFPA: FIRST PERSON … ADVENTURE?

Jogos de tiro em primeira pessoa (First Person Shooter, FPS) são bem o que você poderia imaginar pelo nome: você entra em uma sala ou corredor, mete bala em tudo que se mexe, em muitas coisas que não se mexem, e vai para a próxima sala. Essa mecânica consagrada por Wolfenstein é usada até hoje à exaustão com poucas variações, e mesmo jogos que pretendem fazer um mundo aberto de exploração, como Borderlands ou Dead Island só te dão outras salas para você meter bala em tudo.

A Retro Games teve uma ideia diferente: um jogo de aventura e exploração que, por acaso, seria em primeira pessoa. Como em todos os jogos da série Metroid, a dificuldade aqui está em descobrir como chegar em determinado lugar, não tanto em pavimentar seu caminho com corpos até lá.

Então o jogo tem um passo mais lento, é mais de exploração, com saltos e uso de power-ups. E muito backtracking. O jogo ser em primeira pessoa é só uma ferramenta de imersão nessa narrativa, e não a característica chave que o define como acontece em um FPS.

Metroid Prime poderia perfeitamente ter sido um jogo de tiro em terceira pessoa (quando você vê o seu bonequinho de fora) como Metroid: Other M é, mas perderia muito do seu charme. Eu diria que perderia inclusive o fator chave que define a franquia toda: a sensação de solidão.

samus-aranNO ESPAÇO NINGUÉM PODE TE OUVIR GRITAR

Como todos os jogos da série até esse ponto, Metroid não tem diálogos. Basicamente porque Samus não tem com quem falar: ela não tem amigos, não tem reforços, não tem um plano de reserva. Apenas você contra o mundo.

Metroid Prime apresenta uma alternativa a isso: você fica sabendo da história de Tallon IV através do que você consegue escanear com sua armadura de passagens deixadas pelos Chozo (os antigos habitantes do Planeta), assim como hackear as comunicações dos Piratas Espaciais.

Tallon IV tem uma história interessante: no auge da sua civilização tecnológica e moralmente avançada, os Chozo sentiram que estavam perdendo o contato com a sua essência espiritual e partiram pelo universo em busca de bolsões de paz, onde poderiam se reencontrar com sua essência xamanística. Tallon IV foi um desses mundos onde os Chozo encontraram paz e comunhão com a natureza.

Até o dia que o universo disse “FODA-SE!” e um meteoro carregado de uma substancia mutagênica venenosa caiu em Tallon IV. O veneno do meteoro (chamado de Phazon) se espalhou pelo mundo e o corrompeu, transformando Tallon IV num mundo hostil e predatório. Com muito esforço os Chozo conseguiram isolar o meteoro em um santuário, mas a corrupção venenosa do Phazon já havia se espalhado irremediavelmente.

Muitos anos depois, os Piratas Espaciais encontraram esse mundo e cresceram o olho em cima do Phazon: uma substancia química que permite transformar geneticamente criaturas para serem super soldados ou armas biológicas? Já estão lá.

Assim Tallon IV passa bem essa sensação de ser um mundo construído em duas camadas: a civilização inicial dos Chozo e, em cima disso, os laboratórios e equipamentos de guerra dos Piratas Espaciais. Trata-se de um design muito inteligente e único.

Metroid Prime se passa depois do primeiro Metroid e antes de Metroid 2. O que significa que, a essa altura, Samus já entrou na base dos Piratas Espaciais e matou seus lideres, chutou a bunda deles e apenas porque sim, explodiu o lugar todo. O que significa que, enquanto reconstroem seus recursos, os Piratas Espaciais estão apavorados com “A Caçadora”. Existem passagens muito interessantes sobre como os piratas estão tentando entender como a armadura e as habilidades de Samus funcionam (eles tentaram recriar o efeito da morphing ball com resultados tão desastrosos quanto você poderia imaginar), assim como entender como os Metroids funcionam.

Por favor Netflix, nunca te pedi nada!

Essa é uma parte particularmente interessante ali, porque realmente parece que os Piratas Espaciais estão tentando fazer ciência de verdade, e tentam entender como a habilidade de drenar energia dos Metroids funciona – apenas para descobrir que eles não sabem nem exatamente o que é a tal “força vital” que os Metroids drenam. Não é fluido, nem nenhum tipo de energia conhecida, o Metroid apenas suga “algo” do ser vivo e ele morre. Eles não entenderam sequer porque o ser vivo morre. A ciência moderna não sabe sequer o que ela não está sabendo.

Isso dá a sensação de um mundo vivo, importante, que estava ali antes de você chegar, e não é um cenário construído apenas ao redor do jogador, e isso faz toda diferença do mundo.

Em Vanquish existe uma ponte que desmorona quando você atravessa. Apenas porque sim, você sabe que o único motivo daquela ponte existir é para que ela desmorone enquanto você atravessa ela. Você sabe disso, e isso é muito broxante.

O mundo de Tallon IV parece existir por si próprio há milhares de anos e, posteriormente, os Piratas Espaciais estavam ocupados fazendo outra coisa. Você estar ali só está atrapalhando eles! Aquele mundo não existe em sua função do jogador, ele não poderia cagar mais se o jogador existe ou não. Durante o jogo você escaneia muitas criaturas e plantas nativas de Tallon IV, e enquanto muitas delas te dão informações úteis para o jogo (como destruí-las, qual sua meta-função), outras simplesmente tem entradas biológicas comuns.

“O capim místico de Tallon IV se retrai para o chão quando ameaçado e imobiliza pequenas criaturas, mas nada que vá afetar alguém do seu tamanho.”. Não te faz mais forte, mais rápido ou joga melhor. Na verdade a animação da plantinha recolhendo para o chão quando você atira ou algo do tipo deu trabalho para fazer, e praticamente não influencia em nada o jogo.

Só que é assim que se constrói um mundo de jogo memorável, crianças. Metroid Prime acerta nos detalhezinhos. Tudo foi feito com tanto cuidado para não parecer um jogo e sim uma exploração de verdade, que não tem como não reconhecer o jogo por seus méritos. A armadura alien que a Samus usa parece uma armadura alien (mais importante, você sente como se fosse), o mundo se esforça para parecer um mundo de verdade, ainda com o layout de fases para ser um grande jogo de Metroid. Na verdade não existem duas salas iguais nesse jogo, cada sala foi desenhada uma a uma, e o mapa geral do jogo foi muito bem pensado.

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SPOILER: o Metroid é uma garota.

HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM

Eu disse que não tem nada em Super Metroid que eu melhoraria mesmo 20 anos depois, mas isso não é verdade. Existem várias coisas que Metroid Prime faz melhor. O sistema de visores (visão termal, Raio-X, modo de escaneamento) funciona bem melhor e mais fluído do que Super Metroid. O sistema de misseis foi simplificado, e o Grapple Beam ficou menos burocrático também. E por incrível que pareça, a animação da morph ball faz muito mais sentido.

Mas a melhor parte é que o combate com os piratas espaciais é praticamente um mini-game à parte. A maior parte dos monstros de Tallon IV é apenas travar a mira e atirar, mas os piratas espaciais exigem uma certa agilidade mental (mas não manual, felizmente). Então você tem que saber que tipo de visor usar para enfrenta-los e que tipo de armamento, e tudo flui tão bem no jogo que é uma experiência muito satisfatória.

Outra coisa que fica muito melhor neste jogo são os Metroids. Sua habilidade de voar rapidamente em corredores apertados e drenar grandes quantidades de vida sempre foram sua marca registrada na série, mas aqui, em primeira pessoa, eles se tornam uma ameaça palpável. E o jogo foi muito bem pensado nisso.

Quando você usa a visão termal, você perde o radar, então, em salas escuras, você pode ver de onde eles estão vindo OU ver o que está acontecendo, mas não os dois ao mesmo tempo. E eles estão vindo pra cima de você, é um pouco agoniante, mas de uma forma controlada e divertida – não assustadora realmente.

Ou seja, é a melhor apresentação dos monstros icônicos da série que eu já vi até hoje.

E A BENS QUE VEM PARA O MAL

Metroid Prime foi feito para ser um jogo de exploração e aventura, e faz isso magnificamente bem. Quando foca no combate, no entanto, é menos do que excelente. Você se sente limitado nas batalhas contra chefes e, na reta final do jogo, claramente fazendo algo para o qual o jogo não foi feito.

O maior defeito que eu posso apontar em Metroid Prime é não ser Super Metroid. A narrativa minimalista não é nem de perto tão elegante quanto a do SNES (que tem a melhor introdução a um jogo de todos os tempos). A batalha final não é tão épica ou divertida, e certamente não tão emocionante (quando o único improvável amigo que você teve sua vida toda se sacrifica para salvar sua vida). Ou sua trilha sonora não é tão inspirada. Com efeito, as melhores músicas do jogo são aquelas que são remix dos jogos do SNES, e isso é dizer alguma coisa.

Nessa hora eu poderia ser o nerd chato que diz “Okay… porque ela não está usando a Gravity Suit mesmo? E definitivamente isso não é o Hyper Beam. Se querem usar minha nostalgia ao menos usem direito!”, mas vou apenas contemplar o quanto essa animação é legal.

Eu lembro de quantas horas eu passei na infância tentando imaginar como os lugares de Zebes fariam um mundo funcional, porque claramente aquilo havia sido um mundo muito tempo atrás em uma história que jamais será contada. Metroid Prime brinca com essa sensação, embora não com a mesma classe, por exemplo.

Se bem que, quando seu maior defeito é apenas não ser tão bom quanto o melhor jogo de todos os tempos, eu diria que você fez sim um trabalho danado de bom.

nota 5 jornada do escritor