[VOCÊ JÁ JOGOU…] CASTLEVANIA 3: Dracula’s Curse? (NES, 1989)

O “Você já jogou..?” de hoje é especial, porque falaremos do jogo no qual a série animada da Netflix se baseou. Embora não seja necessário conhecer o jogo para apreciar homões da porra descendo o relho nas hordas do inferno, conhecimento nunca é demais, certo? (exceto saber como os figos se formam – você não vai querer saber isso)

Se você acha que a expressão “em time que está ganhando não se mexe” é tradicional, saiba que ela é muito mais recente do que você poderia imaginar. Ou, ao menos, que não estava em vigor durante os anos 80, porque os criadores de jogos tinham o estranho hábito de seguir um título de imenso sucesso… por outro absurdamente diferente. Quase outro gênero.

Verdade seja dita, para lançar sequencias quase anuais dos jogos, as empresas usavam outras equipes de desenvolvimento, enquanto os criadores do 1º já estavam trabalhando na terceira parte – prática que continua até os dias de hoje (sim, Devil May Cry 2, estou olhando pra você).

Zelda teve um inexplicável Zelda II, que era um jogo de plataforma; Alex Kidd in Miracle World foi seguido pelo jogo menos Alex Kidd possivel, e Castlevania teve… Castlevania II: Simon’s Quest. E como a segunda parte do Castelo do Vania se saiu?

Bem, não é ruim o jogo ser de um tipo diferente (com efeito, foi uma das fundações para o genero Metroidvania), mas, infelizmente, ele é um jogo tão profano, tão hediondo, tão nefasto, que a fúria de jogá-lo criou um dos maiores personagens da internet: o Angry Video Game Nerd. Isso é o quão ruim foi esse jogo.

Eu sempre me perguntei porque o Simon diz “Que noite horrível para ter uma maldição”. POR QUÊ? Existem boas noites para ser amaldiçoado, por acaso?

O que é mais irritante é que consertar os problemas desse jogo nem era tão difícil assim. Faltou só organização da Konami para ter uma janela de tempo maior e entregar algo mais polido. Mas isso não importa, o que importa é que eles tinham que se desculpar, ou do contrário uma franquia promissora morreria em suas mãos. Sim, isso foi antes da época das pré-vendas, em que o jogo já tinha sua produção paga apenas ao ter o título anunciado, então a empresa não poderia cagar mais para o produto final… Gamers de hoje são retardados, eu te juro… Mas, enfim, a Konami tinha uma chance, e uma chance apenas, para provar que Castlevania não era um nome que desapareceria na noite calado sem lutar.

– Sypha, todo material promocional do jogo, e até a série da Netflix te retratam como uma mulher, mas o manual usa pronomes masculinos para falar de você… – Digamos que isso não é uma estaca no meu bolso, lindinho

E foi o que eles fizeram. Castlevania 3 é um dos melhores jogos do Nintendinho, e a experiência definitiva que os 8 bits poderiam proporcionar no campo “dar chicotadas em mortos-vivos” (que é um campo que só existe nos videogames e no cinema porno alemão, mas isso é outra história). Vejamos o porquê.

Em primeiro lugar, a Konami decidiu chutar o balde de vez e ignorar Castlevania 2. Seu protagonista agora não é mais Simon Belmont, e sim seu tataravô, Trevor Belmont. Não, isso não quer dizer que temos uma continuação com um herói geriátrico, e sim que a história se passa 215 anos antes dos eventos de Castlevania 1 e 2. Puta merda, tu tem cada ideia também, viu… Mas, que seja, essa é a primeira treta dos Belmont com o nosso não-comedor de alho favorito.

Nessa época os Belmont são mal-vistos como esquisitões que possuem algum tipo de poder sobrenatural, vivendo em exclusão da sociedade… Não que você precise de motivos além de noções mínimas de higiene para viver longe da sociedade do interior da Europa no século XV… Mas que são chamados para salvar o dia quando exércitos de capirotos e tranca-ruas da família Tepes toma conta da porra toda.

Ao invés de postar fotos de “Se você não me quis assim, não me procure quando eu estiver assim!” no Facebook, Trevor pega seu chicote e vai lá salvar o dia.

Agora, o que esse detalhe importa para o jogo? Nada, de imediato. É um videogame dos anos 80. Não é como se a historinha fizesse lá muita diferença. Vampiros me mordam, não é como se “historinha” fizesse muita diferença na maioria dos jogos de 2017, na verdade. Mas a série da Netflix é uma prequel desse jogo, então achei que esse background fosse importante.

Agora, dito isso, podemos fazer o que realmente viemos fazer aqui: dar chicotadas em esqueletos! Fuck yeah!

Ou você pode apenas ver o Let’s Play do Amer sobre o jogo, que é o nepomuceno mais engraçado deste lado da internet

Bem, quando falamos em Castelo do Vania para o Nintendinho automaticamente nossa mente se enche com algumas expectativas. A saber, pular plataformas, dar chicotadas em mortos-vivos e queima-los com água benta. O que posso dizer? Eu sou um homem simples de expectativas simples.

E, à primeira vista, o jogo parece falhar espetacularmente nisso. O chicote é inconvenientemente curto, e os pulos parecem mesmo feitos por um ancião geriatra. Oh noes, estaria a série Castlevania condenada a ser devorada pela inclemência do tempo?

Não. Ao contrário, a Konami teve uma ideia genial que transformou Castlevania III em um jogo eterno, que é a sacada de colocar um senso de progressão no gameplay do jogo. Veja, inicialmente o ataque de Trevor é mais curto que a minha capacidade de fazer analogias engraçadas, MAS, veja bem, MAS é exatamente isso que o jogo quer, porque você coleciona power ups para não só alongar o seu chicote (ui!), como deixá-lo mais poderoso.

Mas o melhor mesmo vem na parte dos pulos: Trevor realmente é um homão da porra, e homões da porra não saltam, eles marcham por cima dos seus problemas. Isso quer dizer que o jogo é um parto de ponta-cabeça, porque saporra de protagonista é mais gordo que eu depois que descobri rodízio de pizza com refri liberado? Bem, não.

Ao longo de sua jornada, Trevor encontra companheiros que igualmente odeiam o vilão do mal que odeia o bem, e você pode trocar de personagem apertando Select no controle. A grande sacada é que cada um dos companions tem regras de movimentação completamente únicas, e complementam com perfeição a macheza da porra de Trevor.

Grant DaNasty é um pirata que decidiu tirar as caras com o Drácula, e isso acabou tão bem quanto soa, sendo transformado em um tipo de ghoul ou algo assim. Seu ataque é ridículo (ele só tem uma faquinha muito curta, e que causa pouco dano), mas em compensação ele tem o poder de grudar nas paredes ao estilo Ninja Gaiden – e os programadores desenharam as fases de modo que você possa cortar muito caminho jogando com Grant – além dos seus pulos serem ágeis.

O segundo companion que Trevor pode encontrar em seu caminho é Sypha Belnades, uma bruxa cujo coven foi queimado na fogueira quando crias da noite escureceram os corações dos homens, e ajudaram a provocar os grandes julgamentos de caça às bruxas. Sypha então, fez pactos com todos os espíritos que conseguiu encontrar pelo caminho para dominar os quatro elementos, e ter sua VINGAAAAAAAAAAAAAAANÇA AZAGHAAAAAAALLL contra os cramuiões que enganaram os homens a respeito das bruxas.

Mas Trevor encontra ela transformada em pedra por um ciclope, porque sua jornada de vingança solitária contra o Senhor-de-Tudo-Que-Não-Presta também terminou tão bem quanto essa ideia soa… Sério, esse pessoal devia notar um padrão aqui, e deixar essas coisas para Belmonts devidamente habilitados… A movimentação dela não é muito diferente da de Trevor, mas, em compensação, ela caga magia até não poder mais, e seus ataques têm o maior alcance de todos.

Claro que, depois desse jogo, Alucard deixou o cabelo crescer e deu uma descolorida, porque aquela legião de fangirls não vão se conquistar sozinhas, né?

O último parceiro de jornada que Trevor pode encontrar é um velho conhecido dos gamers: Adrian Fahrenheit Tepes, mais conhecido como Alucard. Sim, AQUELE Alucard do Symphony of the Night do clássico do Playstation. O meio-vampiro (filho de Drácula com uma humana) quer botar um fim nas putarias do seu coroa, e empresta uma ajuda aos Belmont. Ele é o maior e mais lento de todos os personagens, mas, em compensação, consegue se transformar em morcego e voar à moda louca pela tela (enquanto houverem corações, isso é).

Você só pode ter um desses três helpers (ao pegar um, o anterior pica a mula), mas a flexibilidade de gameplay que isso permite ao jogo é algo simplesmente impensável aos padrões do Nintendinho. Via de regra, o ideal é ter Trevor (ou Sypha) com o ataque no máximo de power-up para descer o cacete nas partes de linha reta, e alterar para Grant ou Alucard nas partes de plataforma (pessoalmente eu achei mais divertido jogar com o Grant, mas isso é uma opinião pessoal minha).

Como se isso já não fosse IMPOSSIBIRU o suficiente, a Konami ainda conseguiu colocar múltiplos caminhos a escolher no jogo. Ao terminar algumas fases, você pode escolher qual caminho seguir, e isso leva a estágios diferentes (e encontrar aliados diferentes), dando ao jogo um fator replay incrível, porque você vai querer jogar de novo e pegar os caminhos que não pegou da primeira vez.

Adicione a isso o nível de dificuldade que você esperaria de um jogo do Nintendinho (mas uma dificuldade feita do jeito certo, devido ao bom level design e os inimigos criativos, e não por controles ruins e instadeaths sacanas), um sistema de passwords que é eficiente, e temos uma verdadeira aula de como se faz um jogo de plataforma nos anos 80. Os gráficos também são o cream de la cream do que o NES pode fazer (é impressionante o quanto de coisas eles conseguem animar na tela ao mesmo tempo), e a trilha sonora… Bem, é um jogo que tem Bloody Tears na sua trilha sonora. Isso já não diz tudo que precisa ser dito?

De aspectos negativos eu posso mencionar apenas as escadas (sério, você fica absurdamente vulnerável quando está subindo ou descendo escadas) e… Bem, isso é tudo que eu consegui pensar. De verdade. Puta jogão. Se você quer matar vampiros e tem apenas 8 bits, não tem como ficar melhor que isso. Estamos falando de um jogo de Nintendinho com múltiplos finais possíveis. Sabe o quão filhadaputamente improvável isso é? Pois é.

Agora você já sabe o que precisa saber para assistir a série da Netflix… O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI AINDA?!