[VOCÊ JÁ JOGOU…] ALEX KIDD IN THE HIGH TECH WORLD? (Master System, 1987)

“Você já jogou?” é uma série de reviews de jogos do passado que podem ter passado por você. Revisitando a nostalgia com um olhar atual, um jogo de cada vez.

Por mais que se ame a Sega, não tem como não admitir que eles fazem umas jogadas que você se admira como eles conseguem piscar e respirar ao mesmo tempo sem ter um enfisema cerebral (nota do editor: WTF?! ><). Estamos falando de uma empresa que “surpreendeu” os varejistas do país ao lançar seu console Saturno seis meses antes, e apenas para algumas poucas lojas. Estamos falando de uma empresa que não só lançou o Sega CD, mas também o Sega 32X. Uma empresa que consegue tornar difícil algo tão fácil como tornar o Sonic um personagem decente. Essa é a SEGA, uma empresa que parece eternamente determinada a dar um tiro no pé a cada dois passos.

E se você foi criança nos anos 80/90, poucas memórias são mais dolorosas do que o Garoto Alex no Mundo da Alta Tecnologia. Ora, considerando que um dos maiores sucessos do Master System é o clássico “Alex Kidd in Miracle World“, o que você possivelmente poderia esperar de um jogo chamado “Alex Kidd in High Tech World“?

É claro que você esperaria outro jogo do mesmo estilo. Considerando que não existia a internet na época (nota do editor: não no Brasil), e que revistas de videogames eram incipientes (quando não inexistentes), tudo que você tinha para se orientar era o nome do jogo e a capa. Bem, e o que a capa do jogo dizia?

Ok, então vamos recapitular: o jogo se chama “Alex Kidd in alguma-coisa World“, e tem um ninja levando porrada na capa? Me vê dois desses, caro mameluco-descendente!

Qualquer coisa menos que isso eu nem comemoro!

Bem, o que poderia dar errado, não é mesmo? Nada… exceto, talvez, a Sega PASSAR UM DOS MAIORES CACHORROS DA HISTÓRIA DOS VIDEOGAMES NOS JOGADORES! ISSO PODERIA DAR ERRADO!

Sim, em uma atitude que transcende a cara-de-pau para o madeira-mithril award direto, eles pegaram um ADVENTURE e empurraram uma nova aventura do menino Alex. Manja Adventure? Achar item no local A, descobrir onde usar, pegar item no local B, descobrir onde usar, e daí pra frente? Pois é.

Não que tenha alguma coisa errada com esse gênero de jogo. Existem ótimos títulos assim, mas você não pode enganar o seu público desse jeito! Ah, mas vão se foder usando sabonete Dove, seus manquitoleiros!

Porque não bastava adaptar outro jogo de aventura para ser Alex Kidd (como a Nintendo fez ao transformar Doki Doki Panic em Mario 2), não, é claro que não! Isso não saciaria a sede da Sega de sacanear com o seu próprio público! Eles escolheram o jogo MENOS parecido possível com Alex Kidd para que a quebradeira de cara da molecada fosse geral.

O jogo original japonês era Anmitsu Hime, inspirado em um anime popular (feito pelo estúdio Pierrot, o mesmo de Naruto) da época sobre uma princesinha do barulho que gostava de se comportar como “princesinha” e aprontava altas confusões.

E sabe o que é o pior dessa história? Mas sabe qual é o pior disso TUDO? É que Anmitsu Hime não é um jogo ruim. Não no que ele se propõe a fazer, pelo menos. Tá certo que ele não é nenhum Secret of the Monkey Island ou nenhum Full Throtle, mas como adventure do MASTER SYSTEM é um joguinho bastante decente.

No jogo você tem que recolher 8 pedaços do mapa para Anmitsu dar aquela escapadinha do castelo e conhecer a nova loja de bolos antes que ela feche. O castelo é um mapa estilo metroidvania, e você tem que conseguir itens, resolver as quests dos NPCs para descolar os pedaços do mapa e tudo mais. Algumas quests têm horário especifico para acontecer até.

Embora não haja inimigos no castelo, por si só há uma série de formas incrivelmente estúpidas de se perder o jogo. Se você vestir uma armadura legal, você ficará imobilizado e perderá. Uma peça de mapa que você encontra está queimada – se você a pegar sem pulverizar primeiro em algum “pó de restauração”, ela vai desmoronar e, novamente, o jogo terminará. Há um conjunto particular de escadas que parece inócua, mas se você caminhar, descobre rapidamente que está quebrada, então você vai cai e, mais uma vez, o jogo acabou.

Sério, é bem gostosinho e me lembrou um pouco Zelda: Majora’s Mask, que você tem que aprender a rotina dos moradores e resolver as tretas deles.

Depois de conseguir o mapa, tem uma fase curtinha de plataforma onde Anmitsu tem que escapar dos ninjas do pai dela (que não quer que a princesa fique dando rolê por aí… o que é bastante compreensível na capital mundial do hentai de tentáculos, afinal).

Aí você chega na cidade e tem outra parte de adventure (bem menos trabalhada que a primeira, verdade), onde você precisa de um ticket para seguir adiante, e existe mais de uma maneira de consegui-lo – o que é incrível para a época. Os game over aqui são ainda mais divertidos do que no castelo. Você pode realmente encontrar uma arma na cidade, apenas para ser preso como um criminoso se você tentar sair (é proibido carregar armas no Japão – você nunca assistiu Samurai X?). Você pode tentar forjar um ticket, mas vai ser preso por falsificação, e assim vai.

E depois tem uma última parte de jogo de plataforma… que não é muito boa, mas não é longa. Como eu disse, não é um jogo nada ruim AO QUE ELE SE PROPÕE FAZER. Só que o que a Sega fez com seu público no ocidente foi basicamente isso:

Lembrem-se crianças: se tem algo que a cultura pop nos ensinou é que estupro é um assunto muito sério, e nunca deve ser motivo de piadas. Exceto se acontecer com um homem, porque nesse caso é hilário.

A história de Anmitsu Hime faz algum sentido. Ela é uma princesa e seu pai quer que ela seja princesóide, o que inclui nada de sair dando role por aí no meio dessa cambada de pobre! Então ele sambou em cima do mapa da loja de bolos nova e mandou os seus ninjas (porque não adianta ser um rei feudal se você não tem um séquito de ninjas) trazerem a menina pela orelha pra casa se encontrarem ela. Rochelle aprova!

Já na versão ocidental nada faz o menor sentido. Um fliperama novo abriu, e Alex tem que achar os pedaços do mapa porque… ele não pode ir perguntar para as pessoas? E no meio do caminho tem ninjas que te atacam porque… sério, eu sei que vocês nem ao menos tentaram, Sega, mas puta merda, né?

Enfim, o jogo poderia ter sido feito um adventure feito pelo John Lucas Arts em pessoa que não faria muita diferença quando você vende que o seu jogo é Alex Kidd em Miracle World 2. E se você acha que filhadaputice pouca é bobagem, a capa americana do jogo ainda, ao menos, mostra imagens na contracapa, dando sinal que é um jogo de texto. A Tectoy incorporou todo espirito huehue BR e colocou só imagens das partes de plataforma curtinhas que o jogo tem. Porque não tem sacanagem no mundo em que o brasileiro não consiga levar mais uma vantagenzinha em cima, né?

Então, se um dia você se perguntar que carma a Sega estava pagando para ter fracassado com um videogame do qual ninguém fala mal (o Dreamcast), foi por causa de Alex Kidd in High-Tech World. E do Sega CD. E do 32x. E do Saturn. E de Eternal Champions. E de Sonic 2006… porra Sega, vocês são foda mesmo, viu? Na moral, vocês mereceram…