[VIDEOCLIPE] “Iron Sky” de Paolo Nutini (análise interpretativa)

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A música Iron Sky foi composta no início de 2014, muito embora só tenha sido lançada pela Atlantic Records em agosto do mesmo ano.

Mas sucesso de verdade a canção fez no início deste ano (2015), quando do atentado ao editorial do Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos. A música, em alguns lugares da Europa, foi imediata e profundamente vinculada à tragédia. Não a toa.

Classificada como “Slow burner” logo que lançada, Iron Sky não causa indignação imediata, mas à medida que se escuta, a canção, entoada pela voz arranhada de Paolo Nutini, parece bater às portas de uma parte esquecida da mente, oculta pela zona de conforto. Aos poucos, escutando Iron Sky, nos revoltamos com a condição humana.

Casando com a música, temos um clipe minimamente incomum:

Uma realidade paralela que traz dores de cabeça e imagens impactantes com fumaças, lutas, corridas e gritos. O videoclipe, lançado pelo escocês Paolo Nutini para a canção Iron Sky, do disco Caustic Love, conta com quase nove minutos, e é formado por diferentes imagens desconexas entre si, porém relacionadas de alguma forma.

Não é difícil encontrar diferentes sentidos para o curta, porém, o diretor, Daniel Wolfe, disse que o clipe é “uma visão distópica do futuro na imaginação de uma criança nos anos 1980″. Essa alucinação conta com muita fumaça para distrair a insuportável dor de cabeça que todos sentem.

Muito bem sincronizado com a canção, o vídeo nos convida a entender um pouco do desespero de cada um que aparece nele. Então, fique à vontade para ver o clipe quantas vezes quiser e entender tudo o que Paolo quis dizer com Iron Sky.

Esse tal Paolo Nutini

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Paolo Giovanni Nutini é um cantor e compositor escocês. Apesar do nome italiano, que revela sua ascendência, a família de Paolo está na Escócia há pelo menos quatro gerações. Suas influências incluem David Bowie, Damien Rice, Oasis, The Beatles, U2, Van Morrison, Pink Floyd e Fleetwood Mac.

Nutini, que não tem qualquer tipo de formação musical, o que surpreende quando notamos a riqueza de suas composições e a amplitude musical/artística do rapaz.

Ele foi encorajado a entrar para o mundo musical pelo seu avô, Jackie, que adorava música, bem como por um professor que reconheceu o seu talento. Deixou a escola para vender camisas para uma banda chamada Speedway, e passou três anos a aprender sobre o negócio da música, tocando ao vivo, tanto sozinho quanto com a banda, e trabalhando como ajudante num estúdio de Glasgow chamado Park Lane Studio.

Infelizmente pouco conhecido no Brasil, Nutini guarda em seu talento a capacidade de compor obras de profundidade musical única. Ao tratar aqui, no caso de Iron Sky, de uma distopia, o autor não economizou em intensidade nas palavras e referências, fazendo inclusive uma inserção do discurso de Charlie Chaplin do filme “O Grande Ditador“.

Preciso ir além, ao dizer que o cantor/compositor em questão merece destaque?

Para ouvir mais do autor, clique aqui.

Da mitologia no clipe – o Escafandro que nos prende

paolo-nutini-iron-sky-escafandroIron Sky” é um nome bastante sugestivo, e pode ser interpretado como uma referência aberta ao mito de criação nórdico que diz, entre outras coisas, que a cúpula / abóbada celeste foi criada a partir do crânio do gigante Ymir.

Da mesma forma que os escandinavos restringiram o céu a uma redoma, cujo “teto” seria a cabeça do lendário gigante, Paolo nos aponta a limitação que nós nos impusemos – um teto de ferro. No entanto, não vamos ao céu. Nossas barreiras são infinitamente menores, se notarmos que Paolo nos guia cruamente pelas sendas da loucura humana, fazendo com que caminhemos por um ciclo apertado, que só pode existir dentro de um espaço limitado demais: nossa própria mente. Eis o que seria o “Iron Sky“: nossa cabeça.

É claramente como se nossas mentes estivessem presas nessa redoma de ferro, como um escafandro. E aqui vale mais uma referência, que seria ao livro O Escafandro e a Borboleta (leia uma resenha dele aqui). Só que no caso da música de Nutini, não há uma ideia de escapar do escafandro como uma leve borboleta… Há um mutirão de pensamentos presos, enclausurados. E, consequentemente, mentes que vão se enferrujando, funcionando ao contrário, se petrificando, tornando-se bagunçadas pela desordem do mundo e de si mesmas.

Tente andar um dia inteiro com um escafandro, fazer suas atividades normais… Talvez você chegue perto de entender 1/100000 do que está acontecendo de fato com sua cabeça neste exato momento.

Do diretor Daniel Wolfe

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O diretor do vídeo foi Daniel Wolfe, conhecido por trabalhos fortes, embora não exatamente muito conhecidos.

Wolfe trabalha em seu vídeo de forma caótica e, com sucesso, faz o espectador se perder na sensação de que não há um escape. Tudo, todos parecem presos. Seja à condição mental cada vez mais debilitada que toma conta da humanidade – como um todo ou a humanidade de cada um – , seja a deterioração das coisas do mundo, os cenários vazios e desolados, as pessoas excessivamente lunáticas. Tudo parece aumentado, não? Como se uma criança tivesse projetado esse vídeo…

É… eis a razão. Não é que Daniel Wolfe o tenha feito quando ainda era um infante. Mas ao produzir o vídeo de “Iron Sky“, seguindo a temática composta por Paolo Nutini, como já dito, Wolfe tentou produzir aquilo que seria a visão de uma criança criada nos anos 80 sobre o futuro.

Quem foi criança nos anos 80, sobretudo nos países em que havia maior ameaça de guerras, em razão de problemas políticos decorrentes de conflitos entre EUA e URSS, sabe que o futuro estava incerto demais. A ameaça nuclear era constante, e o medo rondava a mente de todos. Calcule o que não fazia com uma criança que, mal informada, apenas ouvia os ecos dos conflitos aqui e ali.

Por essa razão, por esse medo demonstrado, como que sob o olhar de uma criança da geração oitentista, temos a todo momento insinuações de que houve qualquer coisa relativa a um acidente ou ataque nuclear. Basta que notemos o aparecimento de usinas ao fundo dos cenários em momentos pontuais do vídeo.

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Assim, Daniel produziu um vídeo que mostra um presente. Mas que é, de alguma forma, uma memória de futuro. Algo que ele teve a chance de concretizar a partir da criação de Nutini.

Homem ou mundo?

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Como citado antes, durante o clipe há alguns importantes indícios de alguma espécie de mimesis, ou confusão proposital, entre o que seria o homem e o mundo. Vemos imagens à la Requiem For A Dream, por exemplo, de estruturas aumentadas daquilo que poderiam ser substâncias corpóreas se difundindo pela corrente sanguínea. Mas não se pode ter certeza. As imagens também pode ser uma mancha de óleo, uma parte orgânica de algum ambiente natural severamente envenenada por substâncias desconhecidas.paolo-nutini-iron-sky-breath-and-bleed

Da mesma forma, todos fumam, como se mimetizassem o mundo poluído, repleto da fumaça que o consome aos poucos. Mais que isso, assim como a natureza cada vez mais se revolta contra os mandos e desmandos do homem, as violências contra suas estruturas naturais, as agressões aos ecossistemas mais delicados e aos mais firmes, temos os próprios seres humanos em momentos de puro caos interior, confusão, desespero… até certo ponto as mesmas perturbações que sacodem o homem, sacodem também o mundo e vice-versa.

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Voltando um pouco à mitologia, os indícios de extermínio presentes ao longo do vídeo fazem também esse paralelo com a mitologia nórdica, uma vez que o corpo de Ymir se transforma em Midgard (o que seria o “middle garden”, a terra do meio, a terra média, nosso mundo), e está se deteriorando, ou já está completamente destruído. Da mesma forma vemos humanos e corpos humanos destruídos, ou sendo destruídos progressiva ou abruptamente durante o clipe.

Para além das fronteiras do desespero

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A loucura retratada no clipe de Iron Sky tem tamanha força que chega a ser nonsense para quem assiste.

Mesmo a loucura humana segue uma lógica externa bem simples: basta uma análise dos atos de um sujeito, ou de um grupo de sujeitos, para que se note que a pessoa ou o grupo de pessoas em questão está ou não mentalmente são.

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No entanto, no Short Film de Iron Sky, a loucura vai além da loucura. Sim…. isso mesmo… Os limites da insanidade mental, representados em curtas cenas de seres humanos desesperados, angustiados, raivosos, ou em um estado quase catatônico, são de tal forma perturbadores e sem sentido – o que deveria seguir a lógica da loucura, mas foge a ela, de maneira sublime – que fazem o espectador sentir-se imerso no sentimento de desesperança que permeia o vídeo.

Referências dentro de referências

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Se você jogar “Iron Sky” no Google, encontrará, antes de mais nada, muitíssimas referências a um filme com este nome.

O filme Iron Sky foi lançado em 2012 com pretensões de ser uma comédia satírica.

E a que se dirigia sua sátira?

Ao Nazismo… Como não poderia deixar de ser. A pior distopia passada da história pós-moderna.

Após cerca de 8 anos de guerra, e um déficit de milhões de vidas entre militares e civis, a ameaça nazista havia chegado ao fim. Ao menos é o que a História nos diz. Mas o que aconteceria se Independence Day fosse, na verdade, um plano arquitetado por nazistas remanescentes da Segunda Grande Guerra que se refugiaram na Lua?

Cheio de referências cinematográficas, das óbvias (O Grande Ditador), passando por não tão óbvias (Star Trek), tem seu destaque na referência à A Queda: As Últimas Horas de Hitler, onde tem-se a impressão de que foi feito no embalo daquela onda da brincadeiras com as legendas, que se via aos montes no youtube, na cena em que Hitler abre o verbo para seus comandados.

Ao compor Iron Sky, não é difícil pensar que Paolo Nutini pensou neste filme. Sobretudo pela maior referência estampada no longa-metragem: O Grande Ditador.

De Philip K. Dick

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Não há uma referência direta a K. Dick na obra de Nutini, mas é impossível não fazer ligações em um momento pontual, e também em razão de um fator que está presente em todo o clipe.

Ao ler um livro famoso do autor, chamado Androides sonham com Ovelhas Elétricas? (leia uma resenha dele aqui), sabemos de qualquer acontecimento muito intenso que abalou o planeta Terra, e que o deixou praticamente inabitável. Os poucos seres humanos que por aqui ficaram, acabaram se tornando vítimas diárias de uma poeira (não é revelada a natureza da poeira, mas pode-se imaginar que seja nuclear), que vai adoecendo e enlouquecendo as pessoas aos poucos. Como não olhar para este clipe e não sentir que estes pobres humanos remanescentes estão sendo infectados até os ossos pela poeira que Philip K. Dick descreve em seu famoso livro?

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O outro ponto que remete ao autor de ficção científica, e que muito bem se encaixa na ideia distópica do clipe, é o fato de que sobraram pouquíssimos humanos e animais. Apenas uns poucos provilegiados (financeiramente, é claro), são capazes de ter acesso a animais e a Andys (seres humanos de natureza biológica criada em laboratórios) para ostentação. Em uma cena rápida do clipe, vemos uma iguana e, em seguida, um salão suntuoso, com dois jovens desnudos encarados por homens de terno. Seriam eles (a iguana e os jovens) aquisições, “carne fresca”, em um mundo sem mais nada?

Fica a dúvida.

O Grande Ditador: sobre a libertação da mente.

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Em certa altura da música, ouvimos a voz de Chaplin, falando parte do famoso discurso proferido em seu primeiro filme falado: O Grande Ditador. O filme, conforme já apontado, é uma grande sátira à Alemanha Nazista. Uma crítica forte à guerra e às perseguições.

Tratando basicamente da parte do discurso colocada na música de Nutini, vemos Chaplin falar do retorno à esperança. Nós temos o poder de fazer da vida (desta vida) uma incrível aventura. Não somos máquinas, e não podemos nos render aos homens que estão no poder, homens que são como máquinas.

Segue o discurso em inglês.

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[Sample from “The Great Dictator” (1940) movie – Charlie Chaplin:]

To those who can hear me, I say, do not despair.
The misery that is now upon us is but the passing of greed,
The bitterness of men who fear the way of human progress.
The hate of men will pass, and dictators die,
And the power they took from the people will return to the people.
And so long as men die, liberty will never perish.
Don’t give yourselves to these unnatural men –
Machine men with machine minds and machine hearts!
You are not machines, you are not cattle, you are men!
You, the people, have the power to make this life free and beautiful,
To make this life a wonderful adventure
Let us use that power!
Let us all unite!

Depois dessa bofetada ideológica, basta-me dizer: até a próxima, nerds.