[VARIEDADES] #SOMOS TODOS MACACOS e como o entretenimento pode tornar o mundo um lugar melhor

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Esta semana a internet foi tomada por uma campanha daquelas que sempre enchem o saco da sua timeline do facebook quando uma nova moda começa, porem a desta semana é algo que valhe a pena refletir a respeito.

Tudo começou em uma partida pelo campeonato espanhol foi atirada uma banana em campo contra o jogador brasileiro Daniel Alves, por ele ser negro. Como acontece direto tanto lá por aqui, alias.

Mas como dizia a velha máxima do jornalismo não é noticia quando um cachorro morde o homem, a noticia é quando o homem morde o cachorro.

E de fato foi o que aconteceu. Ao invés de ficar puto ou mesmo triste com a atitude o Daniel Alves simplesmente pegou a banana que foi jogada contra ele, descascou e comeu tranquilamente. A mensagem foi bastante poderosa e deflagrou ondas de protesto, apoio, gente querendo pagar de conscientizada e todo esse tipo de coisa que sempre acontece.

O que é muito bom, porque discutir os problemas é saudável e não raramente pode levar senão a solução pelo menos a melhora deles. Atitudes diferentes quebram o paradigma e fazem as pessoas pensarem, o que é bom. Como nos anos 50 quando Rosa Parks se recusou a ir sentar “no lugar dela” no fundo do ônibus em bancos separados para “pessoas de cor”.

As vezes a ficção também ajuda nesse sentido e algumas vezes ajuda a quebrar paradigmas e a forma de pensar e é sobre isso que eu gostaria de falar hoje. Alguns personagens fictícios que ajudaram a tornar o mundo real um pouquinho melhor.

TYRION LANNISTER (Game of Thrones)

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O “Duende” é o melhor personagem da melhor série da atualidade. Eu não vou discorrer muito sobre isso porque voce sabe que eu estou certo, até porque os Stark acabam morrendo mesmo ou então são psicopatas juvenis que precisam de ajuda psiquiátrica imediata. Não é sobre isso que eu quero falar.

Vamos pensar um pouco atrás, em um tempo antes de Game of Thrones. Em uma série ou um filme ou mesmo um programa de TV, qual seria o papel no qual voce esperaria ver um anão? Exatamente, como alivio cômico. Com mais ou menos dignidade (não raramente com menos), mas com a única função de fazer as pessoas rirem.

Tyrion Lannister

Tyrion, devido ao excelente texto do tio Martin quando a atuação genial de Peter Dinklage, mudou de alguma forma a percepção que as pessoas tem de um anão: se você sabe que vai ter alguém de estatura reduzida em um filme ou algo que o valha a primeira reação passou a ser “vou rir desse cara” para “uau, ele deve ser foda”.

E isso é alguma coisa.

Claro que não resolve efetivamente nenhum problema, e se voce é assim a sociedade te apresenta problemas de sobra não tenha dúvida, mas já é um primeiro passo. E primeiros passos são muito importantes.

FRANK UNDERWOOD (House of Cards)

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Tem uma coisa que eu não gosto sobre ações afirmativas que é o problema de que apesar de sanar problemas reais acabam piorando outros, sobretudo a coisa de acirrar um “nós contra eles”. As pessoas negras precisam ir a universidade tanto quanto qualquer um, e embora criar cotas resolva a questão pratica do ponto de vista social apenas piora a segregação.

Quando uma série, um filme ou o que quer que seja é sobre um personagem negro, homossexual, portador de AIDS ou o que quer que seja que o enquadre em uma casta discriminada da sociedade, usualmente é sobre um personagem gay (por exemplo) enfrentando problemas que um homossexual enfrenta e tudo isso. Usualmente é sobre isso.

E da mesma forma que as ações afirmativas, é importante que as pessoas tenham personagens, programas e histórias com as quais elas se identifiquem, mas por outro lado para quem está de fora acaba gerando a impressão de que são um outro tipo de pessoa, a impressão de que no fundo não somos todos macacos iguais.

Mas existe uma forma de fazer as coisas sem que ninguém termine odiando ninguém, pelo contrário: mostrar que não é isso que nos define. Uma boa história pode ter um personagem que é homossexual sem que ela seja sobre isso. Ser gay é só mais um adjetivo entre tantos outros que compõe o personagem e não aquilo que o define.
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House of Cards é, sem exagero, a melhor série que eu já assisti até hoje. E a atuação do Kevin Spacey é algo genial em tempo integral. E pesado, é poderoso, é carismático de uma forma que só os grandes vilões conseguem nos fazer ama-los e torcer por eles mesmo eles sendo quintessencialmente maus.

E entre os tantos adjetivos que compõe o protagonista Frank Underwood está o fato de que ele gosta de beijar outros caras. Mas a história não é sobre isso, isso é só um adjetivo do personagem tanto quanto ele gostar de jogar XBOX ou gostar de costelas de porco. E a sensação que isso passa não poderia ser mais clara: é absolutamente normal ser bissexual.E eu acho que de alguma forma isso ajuda.
JOHN SHAFT (Shaft)John_7c4c82_292250

Hoje um personagem negro em uma produção norte-americana normalmente implica em alguém muito foda, com principios rigidos, uma grande moral e a habilidade de dar um pau em quase qualquer um. Tanto é que pareceu apenas natural que o mestre da fodonice Nick Fury fosse transformado no reboot da Marvel em seu universo Ultimate em negro (vindo a ser interpretado pelo Samuel L. Jackson no cinema).

Esse paradigma de que personagens negros poderiam ser admiráveis e fodas não caiu magicamente do céu e se hoje o entretenimento entende que negros podem – e devem – ser mais do que apenas marginais não particularmente brilhantes no cinema isso vem de uma longa luta.

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O Blaxploitation foi um movimento cinematográfico criado nos anos 70 para criar filmes de negros para negros. Mas mais importante que isso: filmes fodas. Cores berrantes, perseguições incansáveis, humor ralo e chulo, heróis de caráter duvidoso, violência, violência e mais um pouco de violência era as marcas registradas do blaxploitation.

Se isso parece muito com a descrição de um filme do Tarantino, saiba que foi daí que ele tirou grande parte da inspiração para o seu toque.

E talvez o mais iconico destes filmes é o clássico Shaft, de 1971. O filme foi tão legal e fez tanto sucesso que teve duas continuações e uma série de TV (antes disso ser modinha #hipsterfeelings).

Shaft fez no cinema mais ou menos a mesma coisa que Michael Jackson fez na música anos depois, derrubando um pouco essa barreira que separava “coisas de branco” e “coisas de negro”, porque na real um bom filme é um bom filme que um personagem legal é um personagem legal seja ele preto, roxo, azul ou grena com listrinhas amarelas.

DENNIS NEDRY (Jurassic Park)139559167844Se voce é gordo, voce esta´fodido. Quer dizer, metaforicamente, porque ter um intercurso sexual real sendo gordo é muito mais dificil também. E diferente da maior parte dos preconceitos modernos voce não tem realmente com quem falar ou receber ajuda porque todo mundo pensa que foi uma escolha deliberada sua ser gordo e fazer gordices, então voce tem mais que se foder mesmo. Grandes são as chances de que voce estar pensando nesse momento que eu sequer deveria ter mencionado os gordos.

Mas embora hoje vivamos em um país que é socialmente errado dizer que “um preto fez pretisse” (não que as pessoas não pensem isso, mas pelo menos se sabe que não se deve falar isso e já é alguma coisa), dizer que um “gordo está fazendo gordice” é apenas engraçado.

Essa foi uma realidade que eu sempre soube. Porem Jurassic Park me ensinou algo diferente.

Dennis Nedry é, de alguma forma, o vilão do filme e como tal ele é retratado como a figura mais desprezivel possivel. Ele é gordo, ele é porco, ele é um babaca egoísta e mesquinho. O tipo Igordão que a minha mãe chamava de “gordo rampeiro” (não sei exatamente a origem, mas é um adjetivo fenomenal).

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Todas as pessoas do filme, em cada oportunidade que tem ressaltam o quanto ele é desprezível e o quanto gostariam que ele fosse embora. Mas elas não podem fazer isso, porque ele é um gênio.

Ele faz no parque sozinho e subpago o que uma empresa inteira de TI deveria estar fazendo e quando ele decide tocar o foda-se e fodanchar todo mundo geral ninguém, absolutamente ninguém mesmo consegue desfazer o que ele fez.

Em outras palavras, ele não pode ser vencido. Literalmente tudo que eles podem fazer contra o seu legado é dizer “seu gordo de merda” e sapatear nervosinhos.

O que foi uma grande surpresa pra mim caras porque gordos não são supostos a vencer, são? Quer dizer, tá, um dinossauro comeu a cara dele mas isso foi estiloso na verdade – e personagens gordos também raramente tem a honra de ter mortes legais.

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Mas isso me ensinou uma lição muito poderosa naquele dia: talvez as pessoas nunca irão gostar de voce, talvez elas nunca irão te aceitar, talvez ninguem nunca va ficar do seu lado e dizer que eles estao agindo errado com voce. Mas nada disso importa, porque se voce for bom o bastante eles vão ter que calar a boca.

Se voce for bom o bastante em alguma coisa as pessoas vão ser obrigadas a enfiar os seus preconceitos onde o sol não bate e se recolherem a sua insignificância.

Não importa o que alguém pense sobre as capacidades intelectuais dos negros (e a internet é repleta de idéias neste sentido), poucas pessoas neste país (e poucas mesmo, a contar nos dedos) podem debater de igual sobre questões legais com o Joaquim Barbosa.

Não importa o que voce pense sobre os transexuais, daqui a cinquenta anos as pessoas ainda lembrarão do Matrix de Lana Wachowski.

O Daniel Alves é um dos melhores, senão o melhor, lateral direito do mundo, isso é um fato. O idiota que atirou a banana será pra sempre lembrado só como “o idiota da banana”.

Dennis Nedry me ensinou isso.

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