[VARIEDADES] Dossiê Mary Sue: Os personagens mais insuportavelmente perfeitos da ficção

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Na vida real, ninguém é perfeito. Na ficção, entretanto, a coisa pode ser bem diferente. Sabe aquela pessoa que sabe tudo, ganha de todo mundo a ponto de ser invencível, e que está sempre certa e é amada por todos? Um pé no saco, não? Se isso soa familiar, é porque você encontrou a famigerada Mary Sue.

O termo surgiu no meio da fan-fiction (ou “fanfic” para os íntimos), que, pra quem não conhece esse universo fascinantemente zoado, consiste em histórias escritas por fãs de alguma série de TV, livro, filme ou qualquer coisa assim, e que se passa no mesmo universo. O exemplo mais clássico (e de onde o nome Mary Sue se origina) é a “fandom” (conjunto dos fãs) de Star Trek. Muitos Trekkies ao longo das décadas resolveram expressar seu amor pela série de TV escrevendo histórias de sua própria autoria envolvendo a Federação, Kirk, Spock, Picard, klingons, borgs e por aí vai. E o fenômeno não se restringe a Star Trek – praticamente toda franquia que atinge certo nível de popularidade tem uma comunidade viva e vibrante de fan-fiction, sendo Harry Potter e Sonic dois exemplos de fontes inesgotáveis de fanfics em tempos mais recentes.

Esquerda: personagem normal; direita: Mary Sue.

Esquerda: personagem normal; direita: Mary Sue.

Obviamente, a qualidade dessas histórias tende a ser meio… duvidosa. Pra ser bem generoso. A razão disso é bem simples: a maioria das histórias são nada mais do que a manifestação das fantasias pessoais do autor. Tipo, que moleque nunca quis ter um sabre de luz e o poder da Força pra sair por aí galáxia afora chutando a bunda de aliens esquisitos? Ou uma varinha do Harry Potter e o domínio da magia de Hogwarts? Ou que não quis ir pra Pandora entrar no corpo de um homem-tigre azul gigante e conectar seu cabo USB biológico com a mina mais gostosa da tribo? Pois tudo isso pode se concretizar… pelo menos na ficção. É só se dar ao trabalho de escrever a história. O resultado é o que se conhece como fanfic self-insert, ou “auto-inserção”, que, como o nome diz, consiste em inserir a si mesmo no mundo da ficção.

Histórias de self-insert geralmente colocam o personagem-autor como o centro das atenções – o Jedi/bruxo/avatar etc. mais poderoso, amado e admirado por todos, como a pessoa gostaria de ser, e com amizade íntima ou mesmo romance (dependendo das preferências de cada um) com os personagens mais notórios da série. Isso, claro, soa absurdamente babaca, motivo pelo qual a self-insert é muitas vezes disfarçada por meio de uma personagem “nova”, mas que no fundo é só uma versão idealizada do autor. O resultado é o mesmo: uma história extremamente chata, sem nexo, na qual as coisas acontecem de forma completamente aleatória e o personagem principal não tem qualquer desafio ou mesmo profundidade. Em 1972, uma trekkie chamada Paula Smith parodiou essa tendência com uma historinha chamada A Trekkie’s Tale, e o nome da protagonista – Mary Sue – virou desde então sinônimo desse tipo de personagem irritante.

Uma típica Mary Sue em seu habitat natural

Uma típica Mary Sue em seu habitat natural

Apesar de o termo ter sido criado para o universo da fan-fiction (e encontrar lá a sua expressão máxima), tem-se discutido ultimamente a aplicação dele a personagens “oficiais” de obras comercialmente publicadas. Afinal, autores também são gente, e também estão sujeitos à tentação de satisfazer seus desejos através da ficção. Além disso, principalmente em obras voltadas para adolescentes, é comum encontrar protagonistas feitos para dar vazão às fantasias do público, que mesmo não tendo criado a personagem, se identifica com ela do mesmo jeito e a assume como “avatar” de seus próprios sonhos. Um exemplo notório disso é Bella Swan, de Crepúsculo, que aliás é supostamente é um avatar da autora Stephenie Meyer, inclusive na aparência. (E não, não vou fazer o teste nela, pois não li nem assisti absolutamente nada de Crepúsculo.)

Portanto, para investigar a extensão desta praga na ficção, resolvi lançar mão de uma das principais ferramentas de detecção de Mary Sues que a internet nos proporciona: The Universal Mary Sue Litmus Test (“O Teste Universal de Mary Sue”). Esse teste é um questionário com características que são pistas de “mary-suísse” em um personagem, com seções diferentes que se aplicam a personagens de “ficção original” (obras criadas pelo próprio autor), fan-fics ou RPG. Ele foi lançado com o intuito de ajudar autores iniciantes a evitar essa peste em suas histórias, mas vou usá-lo aqui para descobrir quem dentre as figurinhas carimbadas do cinema e literatura é mais insuportavelmente perfeitinho. Então vamos lá!

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Harry Potter: 59 pontos

Na faixa mais alta (50 pontos ou mais), característica de Mary Sues das mais sem-vergonha, Harry Potter se destaca por ser um tipo de “Escolhido” (no caso, “O Menino que Viveu”), e tudo o que cerca essa condição, como sua fama instantânea, sua relação especial com Voldemort, as profecias ao seu redor, e os poderes especiais que ele tem e que salvam o dia de forma meio arbitrária, por exemplo, em seu grande confronto no final do quarto livro. Sua relação com a família Dursley (bem propícia à revolta aborrescente que a galerinha propensa a Mary Sues adora), e sua mania de fazer todo tipo de cagada, quebrar todas as regras etc. e não se dar mal de forma alguma por isso também são sinais bem típicos.

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Luke Skywalker – 49 pontos

Quaaase ali no patamar mais alto (50+), Luke ganha a maioria de seus pontos por ser um dos Jedis mais poderosos, mesmo com pouquíssimo treinamento (e começando a treinar depois de crescido, o que supostamente seria impossível), além de sua relação com Darth Vader – redimir o vilão principal vale bastantes pontos. Aliás, logo de cara ele já toma 10 pontos só pelo nome, que pode ser considerado uma variação do nome de seu criador – George Lucas – o que é um tremendo sinal com sirene e luzes vermelhas piscando de personagem Mary Sue. Entretanto, o fato de ele não ter uma pontuação ainda mais alta apesar de tudo isso indica um personagem surpreendentemente equilibrado e maduro, ainda mais para uma obra fantasiosa como Star Wars.

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Katniss Everdeen – 34 pontos

Nota: Eu não li nenhum dos livros da trilogia Jogos Vorazes. Eu fiz a avaliação baseado nos dois filmes que já saíram, complementado por uma rápida pesquisa na internet. O score dela é razoavelmente baixo, ao menos em comparação com outros “suspeitos” que andei avaliando, apesar de ainda estar em uma faixa considerada de risco (chance “alta a muito alta” de ser Mary Sue). A pontuação vem principalmente da “fodonice” dela, que logo de cara se mostra uma das competidoras mais capazes dos Jogos Vorazes, mesmo sem treinamento específico para isso, e impressiona a todo mundo com suas habilidades (impressionar as pessoas é uma marca importante da Mary Sue). Entretanto, ela tem bastantes descontos devido à sua falta de tato e traquejo social, e por entrar em situações genuinamente embaraçosas por causa disso, coisa que geralmente não acontece com Mary Sues.

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Paul Atreides – 66 pontos

Se os 59 pontos de Harry Potter pareciam muita coisa, lá vem o protagonista da saga Duna e detona completamente seu recorde, por um motivo simples: Paul Atreides é O FODÃO. Ele é simplesmente o melhor de todos em um monte de aspectos – combate, estratégia, dedução, habilidades Bene Gesserit etc. – e, frequentemente, é melhor inclusive do que pessoas bem mais experientes ou que deveriam ser mais capacitadas. Além de que ele vai ganhando ao longo da história uma série de poderes, por ser o Kwisatz Haderach profetizado há milênios (o que, aliás, também conta bastantes pontos), tornando-o praticamente invencível. Além disso, outra característica bem clássica de Mary Sue é ser “adotado” por alguma cultura ou povo diferente com muita facilidade, logo dominando técnicas e outras coisas que as pessoas dessa cultura às vezes levam muito tempo para aprender, e inclusive tornando-se um herói e/ou líder desse povo – o que Paul encarna perfeitamente em relação aos Fremen. A maioria dessas características são justificadas na história (que, como comentei em minha resenha de Duna, é uma desconstrução do mito do herói), mas fatos são fatos, e a pontuação tá lá.

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Jake Sully – 50 pontos

No limiar da faixa mais alta, a estrela de Avatar não escapa da pecha de Mary Sue, principalmente por conta de sua relação privilegiada com os Na’Vi, e por ser adotado por uma raça da qual ele se torna o salvador (veja Paul Atreides). Entretanto, ele não tem assim tantas características Mary-Suísticas.

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Frodo Baggins – 16 pontos

Depois dessa renca de “Escolhidos” especiais que são mais foda do que os guerreiros mais treinados e salvam o mundo com um pé nas costas, é gratificante achar alguém que não tem nada, mas nada mesmo de Mary Sue. O protagonista de O Senhor dos Anéis é um hobbit comum, que ok, acaba salvando o mundo, mas somente com a ajuda de seus amigos (incluindo gente realmente qualificada para o serviço, como Aragorn e Gandalf), e que não tem nenhuma grande habilidade ou virtude além de sua inabalável coragem. Eu forcei a barra para arrancar o máximo de pontos (contando coisas como a descrição dele como “mais belo que a maioria” no livro, os itens mágicos que ele recebe, e outras coisinhas aleatórias), mas mesmo assim ele não fica acima dos 16 pontos, que significa “chance muito baixa de ser Mary Sue; faixa muito segura”. É, amigo, Tolkien era um profissional que sabia o que estava fazendo.

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E aí, quem mais você gostaria que recebesse essa prova de fogo? Quem você desconfia que seja simplesmente uma Mary Sue – ou, por outro lado, quem escapará desse destino? Deixe sua sugestão nos comentários, que aproveitaremos para uma eventual segunda parte dessa nossa investigação!

6 thoughts on “[VARIEDADES] Dossiê Mary Sue: Os personagens mais insuportavelmente perfeitos da ficção

  1. E da onde a Katniss não tem treinamento especifico? A unica skill foda dela é com o arco porque ela caça para sobreviver a vida toda dela, tanto que um dos pontos da série é que ela é mosca morta sem um arco. O que tem de Mary Sue nisso? é tipo dizer “sim, seu Tarzan, é um pouco forçado o senhor saber lidar com animais porque, ve, nunca teve treinamento formal para isso, sabe?”.
    Outro ponto da série é que ela é a heroína da rebelião porque ela estava no lugar certo na hora certa, e na boa, qualquer um que erguesse meio dedinho do meio para a Capital seria o estopim de uma rebelião. Foi a conjuntura do cenário e não porque “oh mels dewwwwws que pinto enorme essa menina teeeeim”.

    • Parece que alguém é fanboy… hahaha 😛 Sei lá, o pessoal treina por anos especificamente pra competir nos Jogos, e a minazinha mal sabia como esse troço funcionava. Ela saber atirar bem com o arco ok, mas pôxa, não é só isso. Aliás, o rapaz lá ser um mestre em camuflagem porque ele fazia COBERTURA DE BOLO?? Ah, não fode né? Mas como ele não estava sob avaliação, deixa pra lá…

      • Na verdade não, o pessoal não treina anos especificamente para os jogos – apenas os boyzinhos do distrito 1 fazem isso. Todos os outros são Zés que nunca pegaram uma arma na vida.

        Não é fanboyismo, é que as vantagens dela são fundamentadas dentro do cenário e ela tem problemas justamente por ser grossa e imperfeita – exatamente o contrário do que o conceito de Mary Sue deveria ser.

        Quanto a cobertura de bolo, tenho que concordar com vc. Aí já é força a amizade…

  2. Mas era com os “profissionais” dos distritos 1 e 2 que eu estava comparando. Mas sim, ela é mostrada de forma bem equilibrada, e com problemas reais que não deixaram de afetá-la em momentos chave, o que deu a ela uma pontuação bem mais baixa que a maioria dos heroizinhos adolescentes do momento. Ela não é nenhum exagero, mas ainda é bem “fodona”, o que garante certa dose de “suísse”. Mas ok, fique à vontade pra fazer o teste tomando como base sua interpretação e postar aqui o resultado 🙂

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