[TV] Guia do Iniciante para a Luta Livre (ou wrestling)

Se você é como eu, alguma vez na vida deve ter assistido os clássicos episódios de Super Catch que passavam na falecida rede Manchete, onde víamos homens do tamanho de armário encenando lutas e tretas em um ringue que balançava muito.

Era um tempo estranho e sem internet, então, tudo que tínhamos para nos divertir eram os jogos de Super Nintendo e a programação da Manchete, que tinha a regularidade do Michael J. Fox fazendo neurocirurgia. Ok, mas isso era então, e agora é agora. Não há desculpas para não assistir o show que nos deu perolas como Dwayne “The Rock” Johnson e Dave Bautista (o Drax, de Guardiões da Galáxia).

Foi o que eu fiz esse ano… e em um primeiro momento, achei terrivelmente confuso. Não sem surpresa, afinal, estou começando uma série pela metade, e ninguém gosta de ser aquele chato que chega no meio do filme e fica perguntando tudo. Então, sem mais delongas, vamos a tudo que você precisa saber para começar a acompanhar os mais carismáticos homens e mulheres da televisão, que jogam pessoas do alto de escadas!

ESPERA, MAS O QUE É WRESTLING? POSSO BATIZAR MEU FILHO COM ESSE NOME?

Vou responder a segunda pergunta primeiro, porque é mais curta: pode, mas eu não aconselho.

Quanto à primeira, acompanha o meu raciocínio:

Foi aqui que pediram uma dose de VOADORA NAS TETA?!!!

O esporte é capaz de nos dar momentos realmente mágicos, alguns tão inacreditáveis que sequer poderiam virar filme porque, bem, ninguém acreditaria. Eu já comentei sobre isso aqui. O problema é, veja você, com que frequência isso acontece realmente?

Com mais frequência do que não, o esporte falha em nos entregar contos cinematograficamente emocionantes. Bem, não é como se tivesse alguém escrevendo roteiro para essas coisas. Momentos dramáticos do esporte apenas acontecem. Mas… e se tivesse?

É aí que entra os circos itinerantes norte-americanos do começo do século e os teatros de Vaudevill – a mesma coia que nos deu o arquétipo do Super-Homem (sim, ele usa cueca por cima da calça por causa da luta livre).

Entre as atrações caça-niqueis que esses “circos” (embora a concepção moderna da palavra seja enganosa) tinha, figuravam coisas como apresentações de cantores populares, museus baratos, acrobatas, comediantes, imitadores, literatura burlesca e “circos de aberrações” – coisas como a incrível mulher barbada ou o “homem mais forte do mundo”. E é aí que começa nossa história.

Parte da atração do “homem mais forte do mundo” era (além de levantar objetos cenográficos) desafiar alguém da plateia para durar 10 minutos numa luta com ele para mostrar sua força. Muitas vezes isso era armado, e o “membro do publico” era outro ator, e a luta era de mentirinha.

Porém, com o tempo, as pessoas foram tomando gosto por essas lutas de mentirinhas (também porque a outra opção de diversão era o quê? Tentar não  morrer de pólio?), e os circos investiam cada vez mais em personagens e na apresentação. A ideia faz mais sentido do que pode parecer a uma primeira vista.

Porque, ao invés de por dois filhos da puta hospitalizando um ao outro na porrada, E SE, veja bem, E SE pegássemos esses homões da porra e lhe déssemos golpes visualmente impressionantes, visuais únicos pra que todos não pareçam uma massa borrada de carne, como se a merda estivesse sendo dirigida pelo Michael Bay, e até mesmo historinhas de tretas e vinganças para que os combates fiquem mais dramáticos ainda? Diabos, vamos fazer até vilões, para o público torcer quando esses filhos de uma ronca e fuça tomarem uns sopapos!

Isso é muito mais a cara do teatro Vaudeville do que um clube da luta do começo do século. E foi assim que nasceu o wrestling moderno.

Pode parecer estranho dizer isso, mas o wrestling tem muito menos haver com o UFC e muito mais com o Cirque Du Soleil, caso este fosse escrito pelo autor de Jojo, já que é uma apresentação teatral acrobática com gente fisicamente foda pra caralho e que acontece de ter um “vencedor”.

TÁ, PARECE UMA BOA IDEIA

E é.

É fato que as pessoas não se incomodam em torcer por lutas de mentirinha, desde que elas gostem do que estão vendo e se importem com os personagens. É meio que o que o cinema faz, na verdade.  Mas E SE, vamos imaginar, E SE alguém pegasse esse conceito e fizesse não apenas um filme sobre isso, nem mesmo uma série… MAS UM ESPORTE INTEIRO SOBRE ISSO!

Sério, imagine só: atores interpretando exclusivamente um atleta durante ANOS em um programa que está no ar há VINTE E QUATRO ANOS. Imagine, tipo, O Show de Truman, só que no lugar do apresentador do Shoptime (sério, ninguém me convence que o melhor amigo do Truman não é o Ciro Bottini), temos homões de 200 quilos pulando de dois metros de altura em cima dos outros.

Conseguiu imaginar? Pois bem, agora você está começando a entender o que é a “luta livre profissional”. Ou wrestling.

MAS, SE AS LUTAS NÃO SÃO DE VERDADE, POR QUE EU DEVERIA ME IMPORTAR?

Sei lá, por que você se importa se o Jon Snow morre? Por que você se importa que os Vingadores enfrentem  o Thanos? Por que você se importa se o Pica-Pau não comunicou as autoridades? Nenhuma dessas coisas é “de verdade”, mas isso não te impede de torcer menos por seus personagens favoritos, e ficar chateado quando coisas ruins acontecem com eles, ou feliz quando eles têm sucesso. Mesmo eles não sendo “de verdade”.

A essência do wrestling é exatamente a mesma. Torça por seus personagens favoritos, fique chateado quando eles forem sacaneados ou perderem, vibre quando eles forem à forra. Não é tão complicado assim, realmente.

PARECE INTERESSANTE, MAS NÃO ESTOU TOTALMENTE CONVENCIDO AINDA…

Imaginei que você poderia dizer isso. Nesse caso, me permita te mostrar uma coisa:

OK, VOCÊ TINHA MINHA CURIOSIDADE, AGORA TEM MINHA ATENÇÃO. ONDE EU ASSISTO ESSE TAL DE WRESTLING?

Sabia que você era uma pessoa sensata. Então, existem dois programas principais diferentes de wrestling atualmente: às segundas-feiras vai ao ar o WWE RAW, e nas terças o WWE Smackdown. Existem vários outros subprodutos e programas periféricos, mas o Raw e o Smackdow são o que realmente importa.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE O RAW E O SMACKDOWN?

A grande diferença é que cada programa tem seu próprio cartel de lutadores, que compete exclusivamente naquele programa – exceto em eventos especiais, onde rolam crossovers, claro.

Ou seja, o Raw e o Smackdown são como a Marvel e a DC: ambas fazem quadrinhos de super-heróis, mas eles não coexistem no mesmo universo (exceto, novamente, em eventos especiais).

Então, se você quer ver a besta encarnada Brock Lesnar (sim, o mesmo do UFC) assista ao Raw. Se você quer ver Jooooooohn Cenaaaaaaaaaaa, assista ao Smackdown.

Se isso não é arte, não sei mais o que poderia ser

E SOBRE O QUE É O PROGRAMA, AFINAL?

A melhor forma de descrever a luta livre é que ela não é uma competição esportiva e sim um show de TV sobre uma competição fictícia. Então, quase tão importante quanto homens e mulheres grandes pacaraio dando golpes visualmente espetaculares no ringue são as cenas entre as lutas, em que os atletas daquele mundinho criam suas tretas e rixas.

Esse é o grande diferencial e atrativo da WWE (WWE significa World Wrestling Entertainment, que é a empresa que administra a coisa) os lutadores têm que ser atores tão bons quanto, porque é do seu carisma que vem a satisfação de ver determinado personagem ganhar ou perder. Como funciona em qualquer programa de TV, na verdade.

Por exemplo, este ano, na Wrestlemania (já chego nisso), o lutador mais antigo e carismático do plantel se aposentou, o Undertaker. Só que ele perdeu em sua última luta, e o público ficou muito chocado que ele não se aposentou com uma vitória. Por isso o público agora quer as tripas do cara que fez isso, derrotá-lo, e banhá-las em molho marinara.

Como nosso novo vilão, Roman Reigns, reagiu a isso?

Oh, como odiamos esse cara! Vamos torcer ansiosamente pelo dia que ele quebrar a cara, porque um dia ele vai vomitar strogonoff. Pode demorar um mês, pode demorar um ano, mas quando esse dia chegar, nós estaremos lá para dizer “Buuuuuuuuuuuuuuu!”.

Viu? É assim que o jogo funciona. Heróis são construídos, assim como vilões. Tem caras que lutam sujo e vencem, e você torce para que o dia deles chegue. E quando chega, há muita alegria. Mas, as vezes, os caras que você detesta continuam se dando bem, e a torcida só aumenta para quando o dia chegar…

Existem dois tipos de treta na WWE: aquelas que são construídas para o episódio, e algumas que são a longo prazo. Algumas são construídas até mesmo ao longo do ano inteiro, ou de anos e, quando se resolvem, são mega eventos que promovem a catarse de anos de programa.

Essa, usualmente, é a Wrestlemania.

O QUE É A WRESTLEMANIA? TU JÁ TINHA MENCIONADO ESSE NOME ANTES.

Wrestlemania é tipo a “Copa do Mundo” da luta livre. Quando os melhores lutadores da Raw e a do Smackdown participam de um mega-evento a céu aberto, e finalmente acertam suas tretas. É tipo a “Season finale” do show, e normalmente são eventos memoráveis.

Existem dois grandes eventos especiais por ano na WWE: a Wrestlemania – que é o maior e mais importante – e o Summer Slam.

Além disso, todo mês tem um evento pay-per-view para resolver as tretas do mês, disputa de cinturão, ou qualquer coisa do tipo. Acredite, se tem uma coisa que os americanos sabem fazer é criar um espetáculo e promove-lo.

TÁ, MAS E AS LUTAS?

A principal diferença entre o UFC e o WWE, do ponto de vista do espectador, é que, enquanto o primeiro é sobre violência, o segundo é carisma. Dã, é claro, as lutas da WWE não são “de verdade”, mas não é isso que eu quero dizer.

Isso parece um trabalho para… o capitão cadeirada nas fuça!

Tudo, desde a entrada do personagem na arena aos seus movimentos, é feito para ser marcante e plasticamente bonito. Não importa se não é assim que as coisas aconteceriam numa briga “de verdade”, o objetivo do wrestling não é ter os golpes mais eficientes, e sim mais vistosos. O que a WWE vende é espetáculo e entretenimento, não produtos de limpeza para tirar as manchas de sangue do ringue depois.

O segredo é escolher aqueles de que você gostar mais e apenas torcer pra eles, não pensar muito, se deixar entrar no hype, e se divertir com a experiencia.

Bem, agora você já sabe o básico para começar a assistir os episódios semanais do Raw ou do Smackdown (ou ambos, se você for ambicioso).

ME CONVENCEU. ONDE EU ASSISTO ISSO?

No Brasil, o programa passa na Fox Sports 2. O Raw passa segunda às 23h, o Smackdown passa terça às 23h.

É possível, ainda, assistir online na WWE Network, que tem uma interface muito parecida com a Netflix, e também é o único lugar onde passa os pay-per-view. A assinatura é U$ 9,90 por mês, e tem um mês de free trial.

Na Network tem todos os programas semanais do Raw e do Smackdown, desde os anos 90, e muito mais material original (“mesa redonda” com os atletas, documentários sobre eles, etc). A desvantagem é que os programas semanais só ficam disponíveis um mês depois de passar na TV, então, assistir por aqui é a arte de driblar os spoilers.

Agora você sabe, e saber é metade da batalha!