[SÉRIES] Eastbound & Down – Um Adeus ao Mito Kenny Powers

E&D

Esse ano um personagem memorável se despediu do mundo do espetáculo das nossas reles telinhas duma maneira espetacular. Este, um homem que após uma drástica tragédia em sua vida, se viu obrigado a reconstruir ela diante de novas perspectivas em meio a situações nunca antes pensadas. Acabou aceitando um estilo de vida que jamais havia desejado ou sentido orgulho de ter, e nesse marasmo, logo a ambição megalomaníaca o possuiu e então decidira partir numa busca para conquistar o mundo como sempre sonhou, mesmo tendo atitudes moralmente questionáveis. Não, esse homem não é um careca barbudo envolvido com drogas azuis e cartéis, e sim um ser de cabelos cacheados, corpo fora dos padrões, personalidade inimitável e versado no exuberante universo do showbiz. Sim, senhoras e senhores, estou falando de Kenny FUCKING Powers.

Vídeo promocional da marca de calçados esportivos K-Swiss que encapsula a grandiosidade dessa figura.

Mas espera aí, você ainda não conhece Kenny Powers? Nem mesmo Eastbound & Down? Pára, pára, pelo menos sabe o que é a HBO, certo? Ok, prossigamos daí. Eastbound & Down é uma série cômica transmitida pelo canal pago já citado e comandada pela dupla de amigos Jody Hill (O Segurança Fora de Controle, Metendo os Pés Pelas Mãos) e Danny McBride (É o Fim, Segurando as Pontas) que há poucas duas semanas atrás teve seu fim, após a exibição do último episódio da quarta temporada, encerrando a jornada do personagem de McBride: o tal Kenny Powers, um ex-jogador de beisebol profissional fracassado capaz de tudo para não viver preso a uma vida pacata nos subúrbios dos EUA. Ao longo das quatro temporadas ele fez as pazes com a família, reencontrou sua alma gêmea, conheceu alguém que se tornaria o melhor amigo (e servo) de sua vida, passou um tempo numa terra surreal chamada México e ainda conseguiu saborear a fama e a glória do passado mais algumas vezes. Muito pode ser dito sobre a história de Kenny Powers como atleta, celebridade e artista (!). Legitimamente um gênio ou não, é um homem notável.

O sucesso da comicidade da série em si pode-se creditar em grande parte a ninguém menos que McBride, o ator de apenas uma personalidade. Não que isso o diminua como profissional, mas só reforça o brilhantismo do arquétipo de personagem que ele vem construindo há anos, e dele que se ramifica este universo e o humor da série. Powers é um homem obstinado e tremendamente ambicioso, gosta de farrear como um bom astro do esporte, mas como tudo tem um preço na vida, ele não possui tato algum em lidar com pessoas comuns, principalmente por considerar-se alguém à parte, como superior ao resto da sociedade fora do showbiz. Mas apesar da arrogância e pré-potência, descobrimos aos poucos que Powers é um bom homem que fora apenas corrompido pelos prazeres do mundo e sua obsessão por sucesso. McBride consegue passar essa incerteza do personagem muito bem, dando-lhe uma seriedade incomum e um tom de voz pretensioso, de alguém que acredita em tudo que diz, independente do quão absurdo, banal e (até) imbecil isso seja. Afinal, Powers também produz audiobooks de auto-ajuda nas horas vagas e vê em si mesmo como um verdadeiro “sensei” a ensinar grandes lições sobre o universo (cada episódio começa ou termina com um monólogo dissertado por ele).

Discurso inspirador.

Além dum perfeito ator para o papel, a série contou com uma equipe de roteiristas, produtores, atores e diretores que valem a pena serem citados como parte da confecção do que foi Eastbound & Down. Jody Hill comandou tudo com excelência, e graças a amizade com McBride desde os tempos da faculdade de cinema, a sintonia entre os dois na criação do seriado rendeu belos frutos. E entre os amigos deles, ainda há David Gordon Green, diretor do excepcional George Washington e da boa comédia Segurando as Pontas, que “quebra um galho” para dupla que comanda a série dirigindo alguns episódios. No campo dos atores, a lista é bem recheada, mas os mais válidos a citar são: o esquisito e desconfortavelmente hilário Steve Little como Stevie, o fiel escudeiro de Powers, Craig Robinson como um dos rivais que Powers enfrenta e Will Ferrell interpretando o dono duma concessionária Ashley Schaeffer, um dos maiores vilões da história televisiva recente. Uma sequência onde acontece um jantar em sua mansão na terceira temporada é um dos grandes momentos da série, é de um grau de estranheza e absurdo inquestionável, fora resumir bem o típico tom cômico da série em colocar seus personagens bizarros em situações completamente insanas e surtadas, que às vezes soam verossímeis na própria e particular lógica do mundo em que essas figuras vivem. O personagem de Ferrell é um velho sulista e preconceituoso, fala coisas abomináveis com um ar de normalidade, e no “choque de valores” que ele proporciona ao interagir com o resto dos personagens o texto e a emblemática atuação de Ferrell ilustram o quão deturpado é. E como se Ferrell não fosse o bastante, o controverso Sacha Baron Cohen aparece no último episódio para interpretar o antagonista definitivo: o showbiz em pessoa, na verdade, um diretor de TV capaz de engrandecer e humilhar qualquer um pelos simples prazer do espetáculo.

Weird.

O mais engraçado é perceber que o protagonista seguira ao longo de todos esses anos uma espécie de jornada do herói. Sim, aquela estrutura criada por Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces marcou presença na série em todas as temporada, assim como cada uma funcionou como parte disso quando observa-se a série como um todo. Porque, de qualquer forma, nesses quatro anos acompanhamos a saga de Kenny Powers entre suas ascensões e quedas, sempre tendo um oponente ou obstáculo a vencer e um objetivo a conquistar no seu atribulado e surpreendente percurso. Ele mesmo se vê como um legítimo herói “americano”, capaz de vencer e prosperar com apenas sua força de vontade, o que ao longo do seriado torna-se mais uma deixa para ironias e deboches ao próprio discurso idealista. Se não bastasse o discurso redentor durante o episódio final da série, os últimos resolvem mostrar o que há de melhor em seu protagonista. Porque num longo epílogo vemos o futuro de Powers através da sua própria imaginação em um raro momento onde compreendemos o fluxo de consciência deste e assim prova-se o quão incrível o personagem é. Kenny Powers encerra sua epopéia demonstrando-se como um verdadeiro gênio renascentista, capaz de realizar o que quer não importa o quão possível seja. E o que soava inimaginável, no fim acontece, Powers entende algo que sempre lhe ensinaram, mas nunca deu os ouvidos por pensar estar com uma coroa na cabeça a todo momento: o prazer do mundano. Conhecer essa faceta duma figura excentricamente multifacetada é algo recomendável a todos. Posso ter pensado inicialmente em escrever este texto como uma despedida minha a série, mas espero muito que sirva como uma introdução digna o bastante para que também conheçam este “mito” contemporâneo estadunidense chamado Kenny Powers.

THE END

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