[TOP 5] Livros SUPER famosos que NINGUÉM leu

Alguns livros são tão importantes, tão influentes, que mesmo após SÉCULOS da sua publicação eles ainda são a fundação não só da cultura pop (que é o tema desse site), mas de toda sociedade ocidental moderna. Por isso mesmo é impressionante o quão frequentemente você ouve falarem sobre alguns livros ESSENCIAIS da vida e fica pensando: “vem cá, te conheço?” Porque claramente ninguém leu realmente esses livros.

Ou, se leu, suas impressões foram cooptadas por adaptações cinematográficas que … não pegaram muito bem o espírito da coisa…  Me permitam aqui dar alguns exemplos.

O MÉDICO E O MONSTRO (de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886)

O QUE AS PESSOAS ACHAM QUE É:  se você perguntar para qualquer pessoa, ela vai te dizer que é basicamente a versão século XIX do Incrível Hulk. Um cientista cria uma droga muito louca e transforma ele em um monstro QUE SAIU DA JAULA! VEM MONSTRO! SÓ VEM RAAAAAAURR!!!

Leo Stronda literatura, fazendo sua resenha de “O Médico e o Monstro”

As interpretações mais modernas entendem ele FISICAMENTE virando um monstro. Ou que atire o primeiro pirulito aquele que não vê o nome desse livro e lembra imediatamente dessa cena:

SE TIVESSEM LIDO O LIVRO, SABERIAM QUE NA VERDADE… a genialidade da obra do Roberto Luis Filho do Estevão é que ela não é sobre “virar um monstro”. Nem fisicamente, nem em sentido nenhum realmente. O bom e gentil Dr. Jeckyl nunca “vira nada” realmente.

Não existe nenhum Sr. Hyde.

Esse não é um caso de “dupla personalidade” nem nada do tipo. Edward Hyde não é uma personalidade separada que vive no mesmo corpo que Henry Jekyll. “Hyde” é apenas Jekyll, tendo transformado seu corpo em algo irreconhecível (em postura e fisionomia, e não um monstro bombado de anabolizante), agindo por instintos que não seriam decentes para alguém de sua idade e posição social em uma Londres vitoriana. A tortura é especificamente mencionada.

Jekyll não criou uma poção para remover as partes malignas de sua natureza. Ele fez uma poção que lhe permitiu expressar seus impulsos sem se sentir culpado, e sem quaisquer conseqüências manchando seu bom nome. É também por isso que ele nomeia seu alter ego “Hyde”, porque Hyde (de “hide”, esconder) é um disfarce, para ser usado e descartado como uma máscara.

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LOLITA (publicado por Vladimir Nabokov em 1955)

O QUE AS PESSOAS ACHAM QUE É: Opa, vamo esfregando as mãos ae, que é hora de colocar o palhaço pra fora e assar a mandioquinha! Um clássico da sensualidade, Lolita é sobre uma adolescente seduzindo muito um tiozão, que relutantemente embarca em tomar as praias inexploradas da novinha.

Isso é tão enraizado na mente das pessoas, que “lolita” se tornou um adjetivo próprio na cultura pop hoje – que normalmente serve para designar pré-adolescentes sexualmente ativas. Se duvida de mim, jogue lolita no Google então… Só não me culpe depois, quando a polícia federal bater na sua porta.

SE TIVESSEM LIDO O LIVRO, SABERIAM QUE NA VERDADE… Se você leu Lolita, e acha qualquer coisa daquilo sensual, você tem mais problemas do que qualquer psiquiatra pode te ajudar. Sério. Independente da sua opinião pessoal sobre sexo com adolescentes (em boa parte da Europa, a idade do consentimento sexual é 14 anos, embora 13 não seja descartado), o ponto é que Lolita não é um livro nada sensual. Pelo contrário, é uma das coisas mais tristes e depressivas que já foram escritas.

O livro não é uma coletânea de contos eróticos, e sim uma sombria história sobre como a vida de uma criança foi destruída por um pedófilo obsessivo. Bem menos sensual agora, não é?

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O PRÍNCIPE (publicado por Niccolò Machiavelli em 1532)

O QUE AS PESSOAS ACHAM QUE É: Tal qual Lolita, esse é outro livro que gerou um adjetivo usado ainda nos dias de hoje.

Da forma que é tratado, o livro de Maquiavel parece algo como o “manual da política brasileira em 2017”. É sobre colocar a lógica fria acima de todas as coisas e tratar as pessoas como números, como aprimorar a arte de estar pouco ou nada se fodendo para a população, desde que isso implique em ganhos para você.

Machiavel ensina, não, ele recomenda que um bom líder político tem que mentir e quebrar seus juramentos, porque se isso o ajudar a esmagar sua oposição, que assim o seja. Faça do povo o seu melhor amigo, mesmo que seja mentindo para ele. Prometa proteger seus interesses contra elites e estrangeiros. Incite ódio contra um inimigo comum, de modo que você sozinho seja a última esperança de fazer o seu país grande novamente, ser o salvador da pátria.

Ele, literalmente, diz “Se você vai matar pessoas, faça isso de forma rápida e brutal, então trate bem os sobreviventes, porque eles ficarão assustados com você, e agradecidos por você os poupar”. Coisas desse tipo. Eficiência acima de qualquer coisa, certo?

SE TIVESSEM LIDO O LIVRO, SABERIAM QUE NA VERDADE… As pessoas leram o que Maquiavel escreveu, mas passaram batido pelo que ele realmente quis dizer com isso. Entenda que o texto original foi publicado em italiano popular e não em latim, como seria esperado de um manuscrito destinado aos governantes.

Mas não é preciso um contexto tão grande assim da politica italiana de 1500 (ou ter jogado Assassin’s Creed 2) para perceber o óbvio: Maquiavel estava trollando os líderes da sua época.

E essa é a pegadinha aqui: Maquiavel não escreveu um “manual do que eu acho que deveria ser feito”, e sim uma sátira do que já acontecia na prática. É mais ou menos o House of Cards da Renascença, e esse é o brilhantismo da coisa. Ele escreveu aquilo como uma forma de protesto ao governo dos Medici, mas não um choque de frente (o que não acabaria bem para ele), e sim uma chacota levando a porra toda muito a sério.

Com efeito, a Corte de Roma, na época, chegou a proibir esse livro, porque o chapéu servia direitinho e eles ficaram profundamente ofendidos em ver alguém colocar por escrito todas as filhadaputagens que eles efetivamente faziam como um “texto educativo”.

Rousseau definiu magistralmente a obra

Seria mais ou menos como se daqui a 500 anos as pessoas achassem que Frank Underwood era um modelo proposto a ser seguido, ou que a Operação Lava-Jato… Deixa pra lá, nós nunca vamos conseguir convencer as gerações futuras de que o que acontece hoje no Brasil é realidade e não uma uma comédia debochada.

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DON QUIXOTE (publicado por Miguel de Cervantes, em 1615)

O QUE AS PESSOAS ACHAM QUE É: Ah, o que dizer sobre a obra prima do cavalheirismo que já não tenha sido dito antes?

Don Quixote é sobre um homem que aspira ser um grande cavaleiro, no sentido mais nobre e honrado da palavra, mesmo que o tempo dessas coisas já tenha passado. É a bela e épica história de um homem lutando por ideais de honra, princípios e sonhos de outros tempos. Em outras palavras, Don Quixote é o Rocky Balboa do século XVII.

SE TIVESSEM LIDO O LIVRO, SABERIAM QUE NA VERDADE… Tal como “O Príncipe“, Don Quixote é outra chacota, mas desta vez no lugar de concentrar suas farpas em direção às castas superiores da sociedade, o autor se diverte às custas de um certo tipo de gênero literário.

Hoje ninguém parece ter entendido a piada, porque Dom Quixote, quando analisado, é encarado como uma carta de amor a contos de cavalheirismo; quando, na realidade, o objetivo é tentar acabar com um gênero que Cervantes acreditava ser deficiente.

Papo sério, poucas pessoas entenderam mais Don Quixote do que Roberto Gomes Bolanos

Quando Don Quixote foi publicado pela primeira vez, foi visto quase universalmente como uma comédia escrachada. Foi apenas mais tarde que, entre traduções pobres e contexto perdido, o livro passou a ser considerado o grande romance de cavalaria que hoje se acredita ser.

O que aconteceu com Don Quixote foi mais ou menos o que aconteceu com Watchmen: um texto escrito por um autor que desprezava aquele gênero para ser uma pá de cal escarniosa sobre a coisa toda, que, ao invés disso, acabou revitalizando a “coisa toda”. Os dois maiores tiros pela culatra da história da literatura.

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ORGULHO E PRECONCEITO (publicado por Jane Austen, em 1813)

O QUE AS PESSOAS ACHAM QUE É: Orgulho e Preconceito é a pedra fundamental de toda nossa concepção moderna de romance na ficção. Se alguma vez você já assistiu qualquer comédia romântica ou novela da Globo, então está vendo o esqueleto de “Orgulho e Preconceito” ali.

A mega bem-sucedida autora Helen Fielding, da série “O Diário de Bridget Jones“, disse “Jane Austen estava … escrevendo sobre namoro, mas em seu tempo as regras eram muito claras “.

Toda nossa definição de tensão sexual / romântica entre dois personagens, os contratempos que os separam, tudo terminando com um belo casamento. Quer dizer, Jane Austen escreveu uma obra-prima do romance, algo que só encontra rival em influencia apenas em, sei lá, Romeu e Julieta?

Enfim, essa é a obra quintessencial do romance, certo?

SE TIVESSEM LIDO O LIVRO, SABERIAM QUE NA VERDADE… Orgulho e Preconceito, em sua essência, não é uma grande história de amor. Honestamente, eu diria que sequer É uma história de amor. Claro, o amor desempenha um papel, assim como o preconceito e, de fato, o orgulho, mas o cerne do livro é sua crítica sutil da norma social da época, em especial o tratamento às mulheres, mais especificamente ainda às filhas, como meio de subir na escala social.

Esta mensagem, criticando o que equivale essencialmente ao casamento arrumado, se perdeu ao longo dos anos. Porém, quando você pensa sobre a figura de Jane Austen, é até ofensivo você imaginar que o livro dela é um :wub :wub feito para passar na Sessão da Tarde da época (sei lá, era o Sarau da Tarde?). Austen, que nunca se casou e realmente não gostava de pessoas, não tinha paciência nem com o romance nem com as restrições colocadas sobre ela pela classe e gênero. Ela era muito inteligente e estava muito entediada, como qualquer um estaria se o seus papéis primários na vida consistissem em “bordar” e “ser encantadora”.

O livro não é apenas iluminado sobre essa visão de mundo, Elizabeth está abertamente tentando entender a lógica (ou a falta dela) de uma sociedade que faz as coisas dessa forma. Duzentos anos depois, entretanto, tudo que ficou da ideia original para as pessoas foram as bitoquinhas e o queixo do Colin Firth.

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Agora, se você já sabia de todas essas coisas, parabéns! Você é a mudança que a internet precisa!

 

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