[TOP 5] Livros que viraram moda e influenciaram o mercado literário

livros modinha

tradução de Cilon Mello

Livros são uma das formas mais antigas de entretenimento (quase par a par com a pornografia rupestre), entretanto uma das últimas a entrar no grande circuito das modinhas pop. Foi apenas em meados dos anos 90 (apenas nos anos 2000 no Brasil) que, com o lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal, livros passaram a ser um fenômeno popular discutidos em bares, na escola e rodinhas para ver pornografia rupestre (os clássicos nunca morrem). Os livros sempre existiram antes disso (e continuarão a existir depois, salvo um surto inacreditável de Febre Amarela ou um revival do boom da pornografia rupestre), mas foi apenas depois deste grande sucesso que se tornaram queridinhos não apenas de nerds e intelectuais, mas nossa amada população analfabeta funcional.

E como acontece com todas as grandes mídias do entretenimento, os livros também estão sujeitos a modinhas passageiras. Se o hoje o grande lance do cinema são adaptações de heróis em quadrinhos, e o segredo do sucesso nos games são os multiplayers online sem campanha solo, de tempos em tempos o mundo da literatura comercial é abalado por um novo grande hit, que influencia os escritores que querem ganhar algum cascalho e novinhas de topless.

Eu separei alguns destes títulos que, para o bem ou para o mal, influenciaram as vitrines das livrarias por algum tempo.

Dafuq tem haver essa capa italiana de Herry Potter e a Pedra Filosofal? Comeram provolone estragado?

Dafuq tem haver essa capa italiana de Harry Potter e a Pedra Filosofal? Comeram provolone estragado?

1) HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (J.K. Rowling, 1997)

Comecemos pelo começo, naturalmente. O livro do bruxinho mocorongo de J.K. Rowling não só a tornou a pessoa mais rica, ricaaaaa, RICAAAAAAAA do Reino Unido, como elevou os livros ao patamar de produto pop. De repente, contra todas as expectativas, o mundo descobriu que os jovens não só sabiam ler como gostavam disso.

Harry Potter causou efeitos nunca antes vistos por gente normal (desculpe otakus, vocês não contam como gente), como filas em lançamentos de um livro, e garotinhas apaixonadas mandando suas calcinhas pelo correio para a autora (ou esse último eu apenas sonhei que acontecesse comigo, sempre confundo essas coisas). O que importa é que Harry Potter fez a alegria de muita garotada, adultos, e principalmente executivos de editoras agora tinham um mundo ideal que era um privilégio ver dali à sua frente.

Tudo mudou para sempre no dia que a Nação do Fogo, e no dia que Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado.

LIVROS QUE FORAM INFLUENCIADOS POR ESTA MODA: livros de aventura infanto-juvenis, como as séries Percy Jackson, Millenium (que é tido por muitos como um “Harry Potter para adultos”) e mesmo outros livros desta lista, como Crepúsculo e Jogos Vorazes. Escrever para jovens era pop agora!

twiliteaparody2) CREPÚSCULO (Stephenie Meyer, 2005)

Logo após o grande boom da série Harry Potter, as editoras batiam cabeça para encontrar o “próximo Harry Potter” e continuar ordenhando ouro de sua vaquinha. Stephenie Meyer teve uma ideia diferente – e isso fez dela muito, muito rica. A Faninha se ligou que, enquanto todos se soqueavam para ser o próximo épico adolescente de aventura, ainda havia toda uma miríade de leitores que estavam completamente abandonados.

Como as meninas que leem a Capricho (ou a Safadinha, ou como quer que se chamem essas revistas hoje em dia), e que escrevem fanfics ruins homo-eróticos (porque quando você tem 14 anos, escrever sobre dois meninos se pegando é totalmente legal e subversivo). A moça estalou os dedos e decidiu: fiquem com seus Potteres, eu serei a deusa destas crianças esquecidas.

Esse foi o segredo do sucesso: escrever a coisa certa do jeito certo para o publico certo. Sim, a série Crepúsculo não é nada além de um grande fanfic ruim com todos os defeitos, tanto de escrita quanto de roteiro, que você poderia esperar de um fanfic ruim, mas e daí? Meninas de 14 anos também tem papais com cartões de crédito como qualquer um.

Escreva para nichos específicos carentes de atenção, e você será um deus, não precisa sequer ser muito bom.

LIVROS QUE FORAM INFLUENCIADOS POR ESTA MODA: livros de romance mela-calcinha para meninas entediadas como A Culpa é das Estrelas (que incidentalmente é bom, mas isso é outra história), a série Fallen ou Comer, Rezar e Amar.

osegredo-v1-579x10243) O SEGREDO (Rhonda Byrne, 2006)

Ao longo da história da humanidade, nunca foi segredo nenhum que as pessoas te darão tudo que você quiser se você disser a elas, da maneira certa, exatamente o que elas querem ouvir. É apenas da natureza humana procurar a saída mais fácil para tudo (e não faria sentido ser diferente, afinal), só que se a sua inteligencia for limitada o suficiente, não haverá um limite para o quão ridículos serão os absurdos nos quais você acredita pela lei da preguiça universal.

Como eu disse, isso nunca foi segredo nenhum: dezenas de religiões e centenas de milhares de livros de auto-ajuda surgiram com base nessa premissa de que a preguiça mental sempre vencerá a noção da realidade (também conhecido como bom senso), mas nenhum escritor maestrou essa arte de dar aos trouxas exatamente o que eles querem como Rhonda Byrne.

O seu livro “O Segredo” é uma lição quase didática de como explorar a ignorância, superstição e preguiça das pessoas. De um ponto de vista técnico, é verdadeiramente interessante como sua construção foi otimizada para máxima eficiência. A fonte em letras garrafais e amigáveis, o conteúdo absurdo amaciado por toneladas de pseudo-ciência (que é tão bobagem quanto, mas soa profundamente cientifico e “sério”, se você for o tipo de pessoa que começa a ter dor de cabeça se tiver que ler uma frase com mais de quatro palavras), termos científicos que as pessoas não sabem o que significam, então podem ser usados para nomear qualquer coisa (a bola da vez é a “física quântica“), o pensamento positivo (escrever sobre algo que as pessoas querem que seja verdade), e o toque de mestre com o tom de teoria da conspiração em cima de tudo (“O Segredo” é algo que “eles” não queriam que você soubesse, o pega-trouxa mais manjado do mundo).

Some tudo isso a um grande timing da autora, dado que tira proveito da atual legião de céticos que querem acreditar numa mudança mágica, mas sem precisar passar pelo filtro da religião.

A mulher deu uma aula de como empurrar livros para manés preguiçosos de inteligencia limitada (o que representa, chutando baixo, uns 3/4 da população ocidental), não é surpresa que acabou se tornando paragon de um novo modelo literário.

LIVROS QUE FORAM INFLUENCIADOS POR ESTA MODA: aconteceu mais ou menos o mesmo que com “O Código Da Vinci“, lembra que tinha uma onda de livros falando sobre o livro, dissertando e discutindo o mesmo? Só que aqui o fenômeno foi muito maior, com diversos livros do tipo “o Segredo do Segredo” ou coisas do tipo. E claro, um exponencial aumento do sucesso do gênero auto-ajuda – não que a auto-ajuda precise de muito estímulo para vender, dado seu público-alvo.

the odds are never in our favor4) JOGOS VORAZES (Suzanne Collins, 2008)

Eu já traduzi aqui uma vez um artigo explicando o segredo do sucesso e o timing correto de Jogos Vorazes – sua maestria em ser o livro certo na hora certa. Clique aqui e leia mais sobre isso.

LIVROS QUE FORAM INFLUENCIADOS POR ESTA MODA: Livros de ação ainda juvenis mas com temas mais pesados (como morte, drogas, ou uma combinação de ambos), preferencialmente envolvendo distopias como O Jogo do Exterminador, Maze Runner e Divergente, entre outros.

5) GUERRA DOS TRONOS (George R.R. Martin, 2011)

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=25KABvPbq-U]

Na verdade “A Game of Thrones” foi publicado por George Martin em 1996, mas foi apenas com a adaptação para a televisão em 2011 que o livro alcançou status de ícone pop – que é o que conta para os propósitos deste artigo.

Curiosamente, apesar de ser um sucesso, tio Martin costuma ser lembrado justamente por suas características negativas – como o abuso de truques narrativos baratos para manter a atenção do leitor, tipo matar personagens do nada, ou escrever cenas intencionalmente revoltantes para chocar apenas por chocar.

O que na verdade é uma injustiça, porque quando não está sendo clichê, o senhorzinho que se veste como maquinista judeu conseguiu fazer um trabalho realmente impressionante no mundo literário. Em quase um século, foi a primeira vez que um épico de fantasia conseguiu sair debaixo da sombra quase onipresente de clássico dos clássicos O Senhor dos Anéis, e isso não é pouca merda.

Ninguém em seu juízo perfeito descreveria “As Crônicas de Gelo e Fogo” como “tipo um Senhor dos Anéis só que…”, Martin cunhou seu próprio espaço no cenário de fantasia a gelo e fogo, de tal forma que muitas vezes até se esquece que a série se passa em um cenário de fantasia fantástica, com dragões e zumbis no meio da politicagem, traições, guerras e putaria.

LIVROS QUE FORAM INFLUENCIADOS POR ESTA MODA: Graças ao sucesso de Game of Thrones, livros de fantasia épica voltaram a ser publicados pelas editoras sem o medo de serem comparados a Senhor dos Anéis, como O Nome do Vento e The Malazan Book of the Fallen (uma série que é um enorme sucesso mundial, mas que ainda não foi lançada no Brasil).