[TOP 5] Coisas “para meninas” que todo mundo deveria assistir

isso é para garotas eu pareço fabuloso

Hoje é dia intermundial da mulher, e com certeza você já deve ter visto 4 bilhões de mensagens dizendo o quanto as mulheres são lindas, perfumadas, poderosas e o cocô delas tem gosto de arco-iris, essas porcarias assim. Eu pessoalmente sou contra esse tipo de ações afirmativas, porque ao invés de gerar mais igualdade, acaba dizendo “ei, vocês realmente deve ser tratadas diferente”, e isso acaba gerando mais problemas do que soluções.

Sabe o que eu acho que funciona? Quando qualquer tipo de pessoa oprimida pela sociedade (e realmente tem muita coisa errada na forma como as mulheres são tratadas e se tratam) é tratada de forma normal, e não como um elefante branco a ser resolvido. Como é dito várias vezes em Katawa Shoujo, “só é um problema se você acreditar que é”.

Por isso eu separei 5 coisas que são consideradas como “para meninas” mas que são inteligentes, divertidas, agradáveis ou bem pensadas, e que qualquer pessoa deveria apreciar – porque no fundo somos todos seres humanos altamente capazes que pertencermos à mesma espécie, seja você homem, mulher, anão, negro, asiático, heterossexual, homossexual ou o Willem Dafoe. Se bem que não tenho tanta certeza assim do quão humano é esse último, na verdade…

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5) A CULPA É DAS ESTRELAS

PORQUE VOCÊ TORCERIA O NARIZ: À primeira vista, John Green é proeminente um discípulo de Nicholas Sparks. Para quem não sabe, Nicholas Sparks é o mestre dos livros “para meninas que colecionam os posteres da Capricho”, e parte do pressuposto que meninas não tem padrões de exigência muito elevados, atulhando seus livros com personagens impossivelmente perfeitos, mal construídos, com premissas que deixariam um dramalhão mexicano com vergonha, e uma escrita que não exige muito assim da leitora.

Com efeito, ele é um dos responsáveis por eu ter feito um bunker subterrâneo para pular nele sempre que alguma história envolve alguém com câncer, e olha que eu moro no quarto andar – porque no imaginário consolidado pela cultura pop, o câncer é uma doença bonita, graciosa e uma forma muito leve, porém dramática (ou seja, perfeita do ponto de vista literário). Peraí, que eu vou lá vomitar minha noção de realidade e já volto.

Por isso quando eu li a premissa de “A culpa é das estrelas” – dois jovens com câncer terminal se apaixonam, tem um amor impossível e triste e blablablá – eu revirei os olhos com tanto desprezo, que me senti uma máquina caça-níquel de desenho animado…

PORQUE VALE A PENA: A grande diferença de John Green para seu “mentor” – ou mesmo as Stephenies Meyer, ou a escritora de fanfics que fez 50 Tons de Cinza – é que Green não acredita que as mulheres são seres inferiores e pouco exigentes, que saltam alegremente apenas porque uma obra é “para elas”. O livro é muito bem escrito e mais importante: desvia dos clichês óbvios.

Não é um amor impossível ultra mega dramático, não, o livro não é sobre isso, e sim sobre dois jovens que estão tão fodidos quanto se pode estar, mas mesmo assim decidem viver o que dá pra viver. Hakuna Matata, nigga. Ajuda muito o casal dos protagonistas ser carismático, inteligente e gostável. Não são unicórnios mary-sues incríveis e mágicos, são apenas adolescentes fodidos pra caralho, tentando fazer o melhor que podem. A história é bonita e triste, sim, mas também é engraçada, divertida e inteligente.

4) NANA

PORQUE VOCÊ TORCERIA O NARIZ: No Japão, a divisão entre meninos e meninas é tão radical, que existe um gênero de mangás para meninas – inclusive com seu próprio estilo de traço, além dos clichés narrativos – chamado “shoujo“. A história é sobre duas garotas com o mesmo nome (Nana, para surpresa de todos) que se encontram por acaso, e como as duas estão indo para Tóquio, decidem o aluguel de um apartamento.

Nana não é sobre nada em especial, senão o cotidiano das moças: pagar as contas, manter a casa, correr atrás dos seus sonhos, esse tipo de coisa cotidiana. Nada de invasões alienígenas, tentáculos, batalhas épicas pelo fim do mundo, ou ninguém vestido de colegial. Apenas o bom e velho slice-of-life realista de duas garotas vivendo na Tóquio do começo dos anos 2000.

PORQUE VALE A PENA: Exatamente por esses mesmos motivos. As meninas têm relacionamentos plausíveis, e não a água com açúcar que você esperaria de um mangá/anime. Tipo, uma das Nanas é uma menina bobinha que tem “relacionamentos” que o cara na verdade só quer comer ela, mas ela é uma romântica sonhadora, certamente você já conheceu alguém assim. Porque é assim que as coisas são, as pessoas têm relacionamentos fodidos e disfuncionais – ainda mais na adolescência – e definitivamente o anime lembra muito mais Closer do que Sailor Moon.

A outra Nana é música, e vai para Tóquio justamente para batalhar sua carreira do zero, e isso é outra coisa muito legal de se ver, todo o processo desde selecionar membros, tocar em muquifos chinelões, até se tornar famosa. Toda a trilha sonora do anime é espetacular, e se mais nada, valeria a pena apenas por isso.

Com uma pegada madura e realista para o relacionamento entre os personagens, algo incrivelmente raro em uma obra japonesa, vale muito a pena acompanhar os rolos e desventuras das duas amigas, até porque, elas também parecem garotas de verdade, e não o seu tipico clichezinho mala de animes.

O lado negativo é apenas que a autora ficou terrivelmente doente, e decidiu “se aposentar”, devido a sua saúde (de fato trabalhar como mangaka é algo muito estressante, com prazos e tudo mais), ficando a obra incompleta. Mas quer saber? Vale a pena MESMO ASSIM. Acredite em mim.

madoka magica cover3) PUELLA MAGI MADOKA MAGICA

PORQUE VOCÊ TORCERIA O NARIZ: “Menina que ganha poderes mágicos de um bichinho fofo para derrotar o mal com a magia da amizade” não é exatamente a premissa mais atraente do mundo, depois que você passa dos 14 anos. Batalhas “épicas” envolvendo garotinhas de 12 anos de idade usando vestidos cheios de frufru, e disparando raios coloridos, não é tão atraente assim, há de se convir.

PORQUE VALE A PENA: Exceto que o anime brinca com esse gênero de “magical girl” apenas para desconstruí-lo de uma forma muito inteligente e impressionante. Porque, de todas as pessoas do mundo, logo uma menina é que tem que derrotar o mal? Não seria melhor, sei lá, colocar isso nas mãos de um adulto, de preferência com algum treinamento? E quais as consequencias para sua vida cotidiana, quando seu trabalho todas as noites é quase ser estraçalhada por monstros que deixariam Lovecraft orgulhoso? Você pode continuar sendo uma garota normal apenas “um pouco sem tempo”, ou os horrores que você vê cobrariam um preço em você?

O anime aborda essas questões e desenvolve magnificamente (e por “magnificamente” entenda que envolve aliens, viagens no tempo, zumbis e a entropia do universo), não deixe o aspecto “de menininha” dele te enganar. Eu escrevi uma resenha completa dele AQUI.

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2) MY LITTLE PONY: FRIENDSHIP IS MAGIC

PORQUE VOCÊ TORCERIA O NARIZ: não acho que eu precise me alongar muito nisso. É um desenho sobre pôneis, unicórnios e pégasus coloridos, que aprendem lições sobre amizade, sendo o remake de um dos desenhos mais cafonas dos anos 80. Quer dizer, eu não preciso realmente me alongar em porque qualquer um que tenha mais de oito anos de idade sequer prestaria atenção nisso.

PORQUE VALE A PENA: Apenas porque é um dos melhores desenhos animados da televisão, eu diria até que, junto com “A Lenda de Korra“, foi o melhor desenho animado de 2014. O desenho é gostoso de assistir, tem personagens bem construídos, é engraçado, o cenário é bem desenvolvido, e tem bastante história (Equestria, como cenário de fantasia, não deve muito para qualquer outro), tem muitas referencias geeks, e as tais “lições sobre amizade” são mais realistas do que bregas, na verdade, sem insultar a inteligencia de ninguém. Para o que se propõe a fazer, o desenho é fantástico – não por acaso foi criado por Lauren Faust, diretora e roteirista de Meninas Superpoderosas e Mansão Foster, então dá para ter uma ideia do que esperar.

A cinco anos atrás, eu poderia apostar que jamais diria um dia que My Little Pony é um dos melhores desenhos da televisão, mas tampouco eu diria que o Luigi viria a ser um dos caras mais badass dos games também. Para você ver como as coisas são. Eu escrevi uma resenha completa do desenho AQUI.

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1) THE LAST UNICORN

PORQUE VOCÊ TORCERIA O NARIZ: É um desenho animado de 1982 de traço suave, que não é da Disney. Unicórnios não são tradicionalmente associados a coisas épicas ou fodas, e de fato eu não poderia achar a premissa desse filme mais desinteressante: todos os unicórnios do mundo desapareceram, e o último unicórnio parte em uma viagem de magia e deslumbramento, para descobrir que fim levou sua espécie. Se soa bastante brega, é porque o é.

PORQUE VALE A PENA: Porque o diabo está nos detalhes, e toda produção foi feita de uma forma muito cuidadosa e rica. O último unicórnio do título realmente parece uma criatura mística e mágica, no sentido bom da palavra, e transmite uma sensação de sonhar e misticismo que poucas vezes uma animação conseguiu fazer. Todo o roteiro do filme foi muito bem polido, ao ponto de que quase metade das falas do filme dão ótimas citações. Se você acha que 300 gerou excelentes frases de efeito, é porque nunca viu “O último unicórnio“.

last unicorn quotes 1Em algo também raro para a época, a produção conta com um elenco de peso na dublagem: Christopher Lee, Mia Farrow e Jeff Bridges – e você quer ouvir Christopher Lee e Jeff Bridges no mesmo filme, acredite. Adicionalmente, como se já não fosse o suficiente, a trilha sonora fica a cargo do grupo América, e apenas por si só já valeria o filme.

Saca só a música tema, que foi escrita baseada em uma passagem do livro que deu origem ao filme:

Quando a ultima águia voar
Sobre a última montanha desgastada
E o último leão rugir
Na última fonte empoeirada
Nas sombras da floresta
Embora ela possa ser velha e gasta
Olharão fixamente, sem acreditar
Para o último unicórnio…

O último unicórnio” é uma linda jornada de magia, reflexão e excelente qualidade visual e musical, não faço ideia de como isso é um clássico cult e não uma obra reverenciada dos anos 80.