[TOP 10] Batman: As Contribuições de Grant Morrison ao Mito do Homem Morcego

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(texto original de Graeme McMillan, traduzido e adaptado por Rodrigo F. S. Souza)

O Legado do Morcego

Ao longo de sete anos Grant Morrison conduziu o Batman por uma fase épica composta por quatro séries e três diferentes Batmen (sem mencionar os maravilhosos artistas com os quais trabalhou, como Andy Kubert, J.H. Williams IIIFrank Quitely, Cameron Stewart, Chris Burnham, entre outros). Começando em Batman #655 de 2006 [republicada recentemente pela Panini Books no encadernado Batman e Filho], Morrison envolveu Bruce Wayne em uma série de situações que normalmente não ocorriam em histórias do Batman, como viagens no tempo, Novos Deuses interdimensionais ou simplesmente uma Gotham muito fora de seu controle, tudo isto enquanto redefinia o que o Batman era e poderia ser.

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Na grande lista de contribuições de Morrison para o mito de Batman, algumas se destacam pela forma como enriqueceram a vida ficcional do mais precioso herói de Gotham City, e mudaram para melhor (e em alguns casos para a pior) o mundo do Maior Detetive do Mundo. Abaixo você pode conferir dez delas.

10 – Bruce Wayne, O Cruzado Social

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Por décadas a face pública de Bruce Wayne foi a de um “almofadinha desinteressado” – uma persona tão diferente do sério e sincero Batman que ninguém jamais conectaria os dois, não importando com quantas causas filantrópicas a Fundação Wayne investia seu dinheiro. Agora, graças ao patrocínio público de Bruce Wayne à Corporação Batman – e às razões por que ele financiou a organização quando a lançou – Wayne não é mais um riquinho indiferente, pelo menos até um futuro escritor pensar numa maneira convincente de mudar isto. Por enquanto os cidadãos de Gotham sabem quão preocupado e envolvido Wayne está com o que acontece em sua cidade.

9 – BatMundo

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Ao ressuscitar o conceito da Era da Prata do “Clube Internacional de Heróis” – super-heróis inspirados pelo Batman a combaterem o crime – e transformá-lo na mais organizada e melhor direcionada Corporação Batman, Morrison não apenas criou uma comunidade de super-heróis mais distantes dos personagens americanos mais familiares e provincianos que lemos normalmente, como também posicionou o Batman no centro dela. No Universo DC pré-Ponto de Ignição [a saga que reiniciou o Universo DC em 2011], isto pode não ter parecido grandes coisas – aquele mundo era cheio de super-heróis – mas nos Novos 52 é uma raridade.

Com os primeiros super-heróis tendo surgido há apenas cinco anos atrás, a ideia de o Batman ter inspirado vários heróis ao redor do mundo a assumirem suas personas combatentes do crime em tão pouco tempo demonstra quão bem conhecido – e muito respeitado – ele é no atual Universo DC. Claramente ele não é mais o velho e sombrio mito urbano.

8 – Bat-Zoológico

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Sejamos francos: se alguém tivesse te contado há alguns anos atrás que o Batman teria não apenas um Bat-Cão mas também uma Bat-Vaca e um Bat-Gato nos Novos 52, você provavelmente teria rido destes adoráveis conceitos da Era de Prata. E ainda assim, no final de Corporação Batman, é exatamente isto que encontramos.

A Bat-Vaca, que ficou famosa ao aparecer na primeira edição do segundo volume de Corporação Batman [o primeiro como parte dos Novos 52, que aqui no Brasil corresponde ao Volume 3 dos encadernados onde a Panini publicou todas as edições da série], ganhou até uma história solo [publicada em Corporação Batman – Volume 4]. O gato foi um presente que Alfred deu a Damian em Corporação Batman – Volume 3, e embora Titus, o Bat-Cão moderno, tenha surgido na série Batman e Robin de Peter Tomasi e Pat Gleason, ao invés de numa história de Morrison, ele claramente se encaixou no conceito. Não seria uma boa hora para um especial da Legião dos Bat-Bichos?

7 – Quem e o que é a ESPIRAL?

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A misteriosa organização no cerne de Corporação Batman – liderada, pelo menos no início, por Otto Netz – a Espiral terminou a série quase tão desconhecida quanto na época em que foi introduzida. O que sabemos é que ela costumava ser uma agência de espionagem sancionada pelas Nações Unidas, antes de cair em ruína… mas também sabemos, graças ao que um certo alguém disse em Corporação Batman – Volume 4, que ela ainda é um “grande poder” cuja especialidade é cuidar de “super-criminosos internacionais.”

Seja o que for a Espiral, ela é uma organização que continuamente confundiu e enganou Batman, conseguindo infiltrar vários agentes na Corporação sem que ele suspeitasse. Esqueçam a Liga da Justiça ou mesmo a A.R.G.U.S. de Amanda Waller: A Espiral é a verdadeira face do poder no Universo DC atual? [vale lembrar que Dick Grayson se tornará um agente da Espiral na série Grayson, que estréia dia 2 de julho]

6 – A Outra Batwoman

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E como estamos falando da Espiral, vamos considerar por um momento o fato de que, graças à Corporação Batman, a Kate Kane original – perdão, Kathy Kane, antigo amor do Batman e a primeira Batwoman – está firmemente de volta à continuidade (ou, pelo menos, tão dentro da continuidade quanto qualquer coisa vista em Corporação Batman, uma série que brincou livremente com – e em alguns casos ignorou – a continuidade dos Novos 52. Eu estou te vendo, Metamorfo).

O que isto significa para os Novos 52 continua um mistério. A Kate Kane que estrela a série mensal Batwoman conhece sua predecessora com quem compartilha ambos os nomes? Na compassada linha temporal dos Novos 52, há quanto tempo a Batwoman original está na ativa em Gotham? Alguém voltará a mencionar Kathy Kane algum dia, ou teremos que jogar a culpa disto no Superboy Prime socando as paredes da realidade, porque, de outra forma, isto pode ficar bem estranho? [pra quem não sacou a referência, ela vem de um momento na saga Crise Infinita, escrita por Geoff Johns, em que várias ocorrências estranhas na história recente da DC, pré-Novos 52, foram explicadas pelo fato do Superboy Prime (até então visto pela última vez no final da clássica Crise nas Infinitas Terras) ter, literalmente, socado a realidade (numa dimensão superior), o que gerou anomalias espaço-temporais no Universo DC]

5 – Os Filhos do Batman

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Talvez o mais famoso legado que Morrison deixará para o Batman seja Damian Wayne, o último e trágico Robin, que acrescentou muito mais à série do que muitos esperavam, e à mitologia do Batman como um todo. Damian, porém, estava longe de ser o único filho do Batman na fase de Morrison: Afinal, ele foi morto por seu próprio clone, que foi criado para tornar-se o Batman após a [suposta] morte de Bruce Wayne [na saga Crise Final, também escrita por Morrison].

A ideia dos “filhos do Batman” percorreu toda a fase do Morrison, de seu primeiro arco de histórias – com Damian e Tim Drake disputando o direito de considerarem-se filhos de Bruce Wayne – à fase em que Dick Grayson, filho adotivo de Wayne, assumiu os negócios da família, até a última página da edição final. Muitas pessoas já falavam da “Bat-Família” com a qual o Batman cercou-se, mas Morrison pegou esta metáfora e a tornou literal, de uma forma que parecia ridícula no início, mas inteiramente natural quando ele a fez.

4 – A Linhagem Wayne

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Outro tema duradouro desenvolvido por Morrison foi a natureza recorrente da iconografia do morcego através de toda a história da família Wayne. No passado ela era mencionada como predestinação ou simples coincidência, mas graças à minissérie O Retorno de Bruce Wayne [cujo encadernado já está em pré-venda em algumas comic shops], Morrison a tornou mais do que isto: Bruce Wayne foi, ele próprio, o responsável por estas recorrências através da história, conforme ele saltava através do tempo perseguido por um demônio criado unicamente para ele.

Além de explicar várias coincidências e amarrar pontas soltas narrativas, este conceito também resultou na ideia de um ramo corrupto dos Wayne graças ao demônio criado por Darkseid – algo não apenas desenvolvido por Morrison, mas também enriquecido tangencialmente pelo arco A Corte das Corujas de Scott Snyder. Gotham, aparentemente, é corrompida por algum motivo… e este motivo pode ser o próprio Batman.

3 – Batman, Um Ícone Imortal

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Um dos temas primordiais da fase de Morrison, que percorreu todos os títulos do herói escritos por ele, foi do Batman como uma ideia invencível; conforme exclamado no começo de Batman Descanse em Paz, “Batman e Robin nunca morrerão!” Isto não significa que as pessoas usando estas personas não possam morrer – Morrison fingiu matar Bruce Wayne e realmente matou Damian para provar isto – mas que alguém, em algum momento, assumirá os nomes e uniformes depois delas, para manter vivo este sonho em particular, como a fase de Dick Grayson como Cavaleiro das Trevas, e o próprio conceito da Corporação Batman ilustraram.

Como Morrison escreve na última edição, “O Batman sempre volta, maior e melhor, mais brilhante e renovado. O Batman nunca morre. Nunca acaba. E provavelmente nunca acabará.”

2 – Batman, o Super-Herói

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Uma ideia que Morrison trouxe de volta durante sua fase – que foi particularmente um retorno bem vindo, na minha opinião [e na deste tradutor também] – foi a do Batman como um super-herói. O Batman de Morrison lidou com coisas numa escala que o personagem evitou sucessivamente por décadas, até que o autor assumisse suas histórias. Duendes alienígenas multi-dimensionais! Invasões dos Novos Deuses! Viagens através do tempo! Sobreviver à própria morte!

Depois de anos em que o personagem parecia, às vezes, envergonhado de seu passado e origens, Morrison voltou a trabalhar o Batman como um personagem que pode (e deve) aparecer ao lado do Superman, da Liga da Justiça e nas partes mais estranhas do Universo DC, sem envergonhar-se disto ou desculpar-se por isto. No processo o autor abriu incontáveis possibilidades para histórias do Batman que pareceriam impossíveis – ou, na melhor das hipóteses, extremamente improváveis – há pouco tempo atrás.

1 – Batman, o Ser Humano

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Há um vislumbre disto na edição final, quando Wayne diz que “Há pessoas cujas mágoas podem desencandear guerras. Pessoas cujos corações partidos tornam-se grandes óperas num palco internacional.” No cerne do tumultuado arco de histórias em que ele e sua corporação enfrentam a Leviatã, conforme Morrison apontou, há duas pessoas com um relacionamento particularmente mau conduzido, cujas ações levaram as coisas bem além do que o mundo real tende a permitir.

De toda a reconstrução de Batman por Morrison como um super-herói e um ícone imortal, o presente mais precioso que o autor deu ao personagem pode ter sido num nível mais pessoal. As histórias do Batman de Morrison, especialmente a segunda metade delas, foram bem emocionais para um personagem tradicionalmente não-emocional. Ao longo de seus anos com o Batman, Morrison o transformou num pai, e o tornou ciente de que não tinha que trabalhar sozinho – a posição padrão do Batman – a fim de concluir seu trabalho. Pelo menos por um tempo, seu Batman foi mais amável, gentil e humano do que aquele ao qual estávamos acostumados. Se ganhamos um Batman mais humano como resultado de todo o trabalho de Morrison, tudo se tornará melhor como resultado.

Fonte: Newsarama