[ANIMAÇÃO] Sym-Bionic Titan – Uma Declaração de Amor

Dia 30 de agosto eu completei 30 anos de pura nerdice, e a aproximação do grande dia, semanas antes, me fez pensar num texto bacana sobre minha relação com as histórias em quadrinhos durante boa parte da minha vida. Já tinha feito até umas poucas anotações, mas acabei tendo outra ideia num daqueles momentos clássicos em que você está tomando um banho quente gostoso, e começa a pensar em coisas banais como o cheiro do perfume natural da Mulher-Maravilha (o que me faz lembrar de uma história da personagem que li uns meses atrás em que o escritor, Phil Jimenez, descreve o cheiro da heroína, que tem praticamente o efeito de um êxtase orgástico olfativo no felizardo que senti-lo). Entre uma ideia e outra acabei me perguntando o que me proporcionou mais prazer ultimamente, e a resposta veio na forma de um desenho animado de 2010 que estive assistindo nas últimas semanas, injustamente cancelado após apenas uma temporada com 20 episódios concebida pelo gênio Genndy Tartakovsky chamada Sym-Bionic Titan (Titã Simbiônico, aqui no Brasil, mas continuarei usando o nome original neste texto, assim como os títulos em inglês dos episódios citados). Sim, esta foi uma das experiências mais prazerosas que tive recentemente, mais prazerosa até do que… seja lá o que eu estava fazendo debaixo do chuveiro quando me veio esta ideia (e isto não é da sua conta!).

Mutradis, os bárbaros alienígenas.

Mutradis, os bárbaros alienígenas.

Falemos da premissa. Lance e Ilana, um casal de aliens adolescentes humanoides e o “robô” Octus (as aspas farão mais sentido nos próximos parágrafos) vêm para a Terra fugidos de um planeta chamado Galaluna, que enfrenta a invasão dos Mutradis, uma raça alienígena rival, guerreira e totalmente agressiva, comandada pelo General Modula, um cara que parece uma mistura de Vandal Savage com um macaco de Planeta dos Macacos (o de 1968), dono de uma voz imponente e uma presença temível. No meio da devastação e caos que rapidamente se espalhou por seu mundo, o Rei de Galaluna toma a difícil decisão de enviar sua filha, a Princesa Ilana, para um planeta distante, enquanto ele tenta retomar o controle da situação (algo que dificilmente acontecerá, pois logo descobrimos que o rei tornou-se prisioneiro de Modula).

bscap0003

General Modula e seu maior inimigo, o Rei de Galaluna.

Já na Terra, Ilana contará com a ajuda de Lance, um rapaz impulsivo, guerreiro por natureza, e Octus, um ser artificial capaz de realizar várias tarefas que vão desde fornecer informações sobre a cultura local do planeta onde foram parar, até simular a presença de uma figura paterna para os vizinhos da casa que compram, e de irmão mais velho quando os três se matriculam num colégio local a fim de se enturmarem e esconderem sua presença no nosso planeta.

Claro que as coisas não são tão simples assim. Logo o General Modula descobre que a fuga do trio para a Terra deixou uma fenda no tecido do espaço por onde ele pode enviar monstros para rastreá-los, capturá-los e trazê-los de volta para Galaluna. Assim, enquanto tentam se misturar com os terráqueos, Ilana, Lance e Octus ainda têm que se preocupar com ameaças monstruosas que, de tempos em tempos, saem da fenda espacial. Com isto temos a premissa básica da série. Para encarar os bichos, Ilana e Lance contam com dispositivos parecidos com relógios (sempre eles!), que, quando acionados, formam armaduras robóticas sobre seus corpos. Porém, nem sempre (na verdade todas as vezes) eles são capazes de derrotá-los usando as armaduras individuais, e é aí que entra o Titã Simbiônico, um coringa criado pelo pai de Illana, embutido na programação de Octus. Quando a coisa fica feia ele infla feito um balão e engloba as armaduras individuais de Illana e Lance para formarem um robozão cheio de gadgets iradas de combate a monstros gigantescos.

O Titã contra o Xamã do Medo, num dos melhores combates do robozão.

O Titã contra o Xamã do Medo, num dos melhores combates do robozão.

Mas, Sym-Bionic Titan não é só sobre dois adolescentes alienígenas e seu Octus de estimação espancando, mutilando e esquartejando monstros gigantes numa cidade americana genérica (e podem apostar que Tartakovsky deu um jeitinho de fazer cenas de combate tão violentas quanto é possível dentro dos limites da classificação etária, o que é outro atrativo da série), mas também sobre três pessoas que mal se conheciam antes de embarcarem numa viagem para outro planeta, e que são forçadas a se descobrirem, se tornarem amigas, e, por fim, formarem uma família. E por mais clichê que o tema possa parecer, os realizadores da série conseguem dar conta de abordá-lo de uma maneira MUITO LEGAL. E quando digo isto significa que a equipe de produção, e o dedo sempre constante do Tartakovsky (ele dirigiu todos os episódios), conseguem criar situações divertidas e autênticas que tornam toda a experiência de assisti-las prazerosa, do jeito que uma animação inteligente voltada para adolescentes deve ser.

Isto mesmo, o desenho não é pra crianças. Por mais bacana que possa ser para os baixinhos ver um robozão sentando a porrada em bichos feios do tamanho de prédios (afinal, simbolicamente falando, é uma das melhores representações da fantasia de alguém combatendo seu medo do desconhecido com suas próprias forças), os temas abordados na série estão em maior sintonia com a turma dos 12 aos 17 anos.

Prova de que Sym-Bionic Titan não é pra crianças: esta coisinha fofa aí em cima é na verdade um Tamagoshi de destruição em massa. Se deixá-lo morrer ele explodirá o seu planeta.

Prova de que Sym-Bionic Titan não é pra crianças: esta coisinha fofa aí em cima é na verdade um Tamagoshi de destruição em massa. Se deixá-lo morrer ele explodirá o seu planeta.

Usando os estereótipos de colégios estadunidenses, como líderes de torcida, valentões, góticos, nerds, grandalhões cabeças ocas de bom coração, os criadores de Sym-Bionic Titan transformaram os três protagonistas em representantes de três tipos distintos. Ilana é a certinha da turma, é vegetariana, usa roupas “new hippie” fofas e coloridas, é sempre a otimista e a mais empolgada com as possibilidades de seu novo lar. Lance é introvertido, anda o tempo todo com uma expressão tensa e cara de poucos amigos, mão nos bolsos, pose de “bad boy”, e no colégio não troca palavras e olhares com ninguém, o que acaba, ironicamente, tendo o efeito contrário, pois ele se torna muito popular e “cool” por essa atitude “tô nem aí pra nada”. E, por fim, temos Octus, que no colégio assume a forma de Newton, um nerd grandalhão, todo quadrado e de movimentos duros, que parece um bonequinho de LEGO gigante (!). É ele que garante a maior parte das risadas da série, mas sem jamais soar forçado.

Aliás, este é outro aspecto de Sym-Bionic que eu não posso definir menos do que amar. Genndy Tartakovsky e sua equipe de roteiristas, diretores e animadores são mestres em fazer humor sem que este pareça artificial ou formulaico. Se tem uma coisa que eu detesto em qualquer desenho animado são os “momentos engraçadinhos”, que na maioria das vezes são protagonizados pelo “personagem engraçadinho da série”, que é aquele ser, na maioria das vezes descartável, cuja única função é interromper o fluxo da trama central do episódio só pra realizar uma gag visual pra “romper com a tensão”. Não que eu seja contra momentos em que a tensão dramática, o suspense ou a urgência de algum problema são aliviados pelo humor, mas já cheguei num ponto em que usar o velho truque da tirada cômica surpresa não funciona mais. É bem mais divertido quando a situação se constrói naturalmente, e a comédia da cena está em algo que normalmente não seria tão engraçado, mas que naquele exato instante fica muito divertido. E Sym-Bionic Titan, ao lado de outras séries produzidas pelo meu querido Tartakovsky, sabe a hora certa de inserir estes alívios cômicos.

Newton em "Lessons of Love", um dos melhores episódios da série.

Newton em “Lessons of Love”, um dos melhores episódios da série.

O funcionamento do Titã Simbiônico é outra ideia que merece uma atenção especial, a começar pela forma como ele é formado: Octus se posiciona de braços abertos, como se estivesse esperando para abraçar Lance e Ilana, e infla. Daí entra outro conceito bacana que Tartakovsky e sua equipe adaptou para a premissa de robô gigante. Para que o Titã tenha o melhor desempenho contra os monstros gigantes que enfrenta, os três devem agir não apenas como uma equipe, mas como uma família, com cada membro abrindo espaço para que um atue em sintonia com os outros dois. Um conflito entre os três no “modo titã” gera descoordenação nas ações do robozão. Há vários episódios em que a inter-relação dos três no meio de uma luta é mais importante do que a luta em si. No episódio “A Lógica do Elefante” (“Elephant Logic”), por exemplo, Lance e Illana não conseguem se entender, o que prejudica a performance do Titã durante uma luta, até que Octus resolve pôr em prática uma lição que aprendeu de um desenho animado infantil que havia assistido pela manhã (e a cena em que isto acontece é SENSACIONAL!). Já no episódio “Embaixo das Três Luas” (“Under the Three Moons”) Octus e Illana estão preocupados com seus problemas pessoais, deixando Lance, o mais focado na luta, sem meios de alcançar o total desempenho da máquina de combate. Portanto, por mais cheio de recursos que o Titã seja, eles só podem ser habilitados quando todo o trio está focado na batalha. E o que aprendemos com isto crianças? Que só através da união familiar conseguimos superar o problema monstruoso que recaiu sobre nós e a cidade inteira. E isto, meus amigos, é uma forma legal e não-açucarada de tratar um tema clichê!

O Titã no "modo espacial".

O Titã no “modo espacial”.

Mas até agora falei somente dos protagonistas, enquanto eles são apenas uma parte de toda a diversão. Além dos monstros enviados por Modula, na Terra o trio ainda têm que lidar com mais duas organizações que entram em cena logo no primeiro episódio para dificultar ainda mais sua missão de manter um low profile em nosso planetinha azul: a primeira, pra variar, é o exército americano, liderado pelo General Steel, provavelmente o estereótipo do militar casca grossa bigodudo mais divertido e tenso da história das animações! Sério, só olhar pra cara dele já é garantia de algumas risadas, junte a isto suas explosões de raiva, e já temos mais um motivo para adorá-lo como obstáculo para os nossos heróis. Já a segunda é a G3, uma agência secreta que lida com ameaças alienígenas ao nosso planeta. Digamos que ela é uma versão mais “fashion” dos Homens de Preto, com influência de super-heróis japoneses, e um líder que parece a versão masculina da Carmen Sandiego (!). Puro estilo, né?

General Steel mostrando quem manda.

General Steel mostrando quem manda.

Solomon e agentes do G3, mostrando que agências secretas podem ser estilosas.

Solomon e agentes do G3, mostrando que agências secretas podem ser estilosas.

E Tartakovsky não sossega conforme a história avança, mesmo dentro da estrutura básica de um monstro gigante por episódio, pois, ainda que saibamos como a maioria dos episódios vai terminar, o recheio é o que realmente faz a diferença. Daí temos algumas preciosidades, como um episódio que homenageia o clássico racha de Juventude Transviada (“O Rugido do Dragão Branco” / “Roar of the White Dragon”), até um em que Lance enfrenta um bando de criminosos que parecem diretamente saídos de um filme de ação policial da década de 90 (os membros vão desde um cara com sotaque estrangeiro, pinta de europeu e cavanhaque, até um grandalhão parrudo de cabelos loiros longos e soltos, todos elegantemente vestidos), passando por lendas urbanas (“A Balada da Mary Assustadora” / “The Ballad of Scary Mary”), mudanças físicas grotescas da adolescência (“Dentro do Demônio” / “The Demon Within”), paqueras, e até mesmo um relacionamento amoroso inter espécies que é, de longe, um dos pontos altos, e uma das melhores viradas de toda a série, o que a torna um produto diferenciado entre tantos desenhos animados que se restringem apenas em seguir fórmulas de sucesso.

Solomon, Jesse e Ilana num episódio que homenageia Alien e 2001.

Solomon, Jesse e Ilana num episódio que homenageia Alien e 2001.

Sem medo de ousar, Sym-Bionic Titan ainda consegue variar no gênero dos episódios. Há o terror claustrofóbico do colégio cercado por aliens (“Batalha em Sherman High” / “Showdown at Sherman High”); o romance muito bem construído entre estereótipos opostos (“Lições de Amor” / “Lessons in Love”); o suspense psicológico de “Xamã do Medo” (“Shaman of Fear”) em que Illana e Lance se tornam vítimas de uma criatura capaz de torná-los prisioneiros de seus maiores medos; o drama de alguém incapaz de definir sua própria identidade (“Eu Sou Octus” / “I Am Octus”), ou em busca de um meio de expressar seus sentimentos reprimidos (“Marginalizados” / “Disenfranchised”). Quem assistiu Samurai Jack saberá do que estou falando quando digo que Tartakovsky é mestre em levar o espectador a projetar-se no ambiente em que se encontra seus personagens, com o uso de tomadas bem planejadas, ângulos de câmera bem escolhidos e sons diegéticos sugestivos o suficiente para que nós possamos preencher as lacunas mental e intuitivamente, e transformar aquele mundo, por alguns instantes, no nosso. Fora o fato de que ele domina a arte de dirigir cenas de ação explosivas e completamente empolgantes.

Lance em ação contra o G3, numa de suas melhores lutas corpo a corpo.

Lance em ação contra o G3, numa de suas melhores lutas corpo a corpo.

A série ainda usa episódios inteiros de flashbacks que aprofundam nosso envolvimento com os dramas dos três protagonistas, como “Sombras da Juventude” (“Shadows of Youth”), focado na infância e adolescência de Lance, onde são reveladas suas motivações, e o episódio “Fuga de Galaluna” (“Escape from Galaluna”), que funciona como um episódio zero para a série, por retratar eventos imediatamente anteriores à primeira cena do episódio 1, um verdadeiro épico que, em  apenas 20 minutos, não deixa nada a desejar para qualquer produção cinematográfica do gênero (ele seria a minha escolha para o piloto da série, por seu imenso potencial de atrair a atenção do espectador desavisado, mas quem sou eu pra questionar as decisões do Tartakovsky?).

Tartakovsky mostrando em "Escape from Galaluna" todo o seu domínio na direção de cenas de ação. Esta sequência em particular é de tirar o fôlego. Montagem extremamente dinâmica e posicionamentos de câmera que carregam na potência e na amplitude dos golpes.

Tartakovsky mostrando em “Escape from Galaluna” todo o seu domínio na direção de cenas de ação. Esta sequência em particular é de tirar o fôlego. Montagem extremamente dinâmica e posicionamentos de câmera que carregam na potência e na amplitude dos golpes.

E, acima de tudo isto, Sym-Bionic Titan é visualmente linda. Percebe-se um capricho acima do padrão em cada cenário pintado à mão, cada efeito de iluminação e sombra, todos interagindo em perfeita harmonia, como poucas vezes se viu em séries animadas. Minha única ressalva é para o uso da computação gráfica na criação das armaduras individuais de Lance e Ilana, que além de parecerem meio deslocadas do restante do cenário e elementos animados em 2D, têm designs pouco inspirados perto da excelência apresentada pelo restante da produção. Felizmente eles são meros instrumentos, componentes do personagem-título, este sim uma pérola do design que merece figurar entre os melhores mechas já concebidos, tanto pelo conceito por trás de sua formação, como pelo visual vítreo, imponente, e de transparências muito bem distribuídas, que ajudam a integrá-lo melhor ao cenário e elementos 2D, mesmo sendo totalmente feito em computação gráfica.

Cores, iluminação e cenários em plena sintonia neste vôo triunfal do Titã.

Cores, iluminação e cenários em plena sintonia neste vôo triunfal do Titã.

Resumindo, Sym-Bionic Titan é uma daquelas séries que você começa a assistir torcendo pra não terminar nunca, tamanho é o prazer e a diversão que ela proporciona, apresentada numa qualidade que jamais despenca ou se torna irregular. Trata-se do produto do amor puro de um gênio artístico por sua arte, que, infelizmente, pelo fato da série ter sido cancelada na primeira temporada, deixou sem solução e desenvolvimento alguns mistérios e subtramas (o desaparecimento do pai de Lance, a identidade da figura enigmática por trás do G3, que tem papel fundamental no último episódio, e a definição do destino de Galaluna). Mas nada disto desqualifica a série, que merece ser assistida. Ilana, Lance e Octus já garantiram um espaço no meu coração nerd, agora é a SUA vez de recebê-los no seu.

Pra encerrar, um dos momentos mais poéticos da série:

7 thoughts on “[ANIMAÇÃO] Sym-Bionic Titan – Uma Declaração de Amor

  1. Oi,querido. Você poderia me dizer qual é o nome daquela garota que o Lance (Sym-Bionic Titan) pediu para que ela fosse com ele para o baile da escola?Ah,sim,a que lutava e que não aceitou.

  2. Olá, eu adoro essa série e gostaria muito de rever ela, vc por acaso teria algum site para me indicar para eu assistir a série novamente.

Comments are closed.