[MÚSICA E VÍDEO] A Simbologia de Losing My Religion – No fim das forças.

img-197266856Para quem viveu a década de 90 em qualquer idade, Losing my Religion não foi uma música simplesmente. Foi um evento, verdadeiramente. Rompendo as barreiras das canções amorosas, fugindo do lugar-comum do enaltecimento da pessoa amada, ou das repetições de juras de um amor eterno.

Surgindo em janeiro de 1991 nos Estados Unidos, como o primeiro single de Out of Time, o sétimo álbum de estúdio da banda R.E.M., Losing my Religion foi um verdadeiro grito de “Basta” a todos os cantos de fidelidade ao sentimento de amor que se pretende “para sempre”. O que poderia haver de eterno em um sentimento banhado no mais profundo vurmo das chagas de uma obsessão?

Desesperançada, carregada de referências literárias e artísticas, cheia de uma sinceridade crua demais até para quem perdeu toda a fé (literalmente), ela pode ser uma canção sobre a crença em qualquer coisa, ou melhor, sobre a descrença em algo que outrora foi o centro de tudo.

Losing My Religion” tornou-se o maior hit do R.E.M. nos Estados Unidos. A música ficou durante 21 semanas na Billboard Hot 100. Conquistou o 19º lugar nas paradas do Reino Unido, e o 16º e 11º lugares nas paradas do Canadá e da Austrália, respectivamente. O álbum Out of Time e a canção “Losing My Religion” fizeram um sucesso que ia além das expectativas da banda. Em 1992, o R.E.M. foi indicado a sete prêmios Grammy, sendo que boa parte das indicações que a banda recebeu naquele ano foi pela canção “Losing My Religion“. Na cerimônia, a banda acabou levando dois prêmios por ela. Em 2004, a canção ficou em 169º lugar na lista das 500 melhores canções de todos os tempos da revista Rolling Stone.

Talvez devesse ter ficado em primeiro.

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Ao falar de Losing my Religion não se pode dissociar esta canção maravilhosa de seu clipe riquíssimo em significados. Ambos estão unidos como um organismo, e como tal funcionam.

E que fantástico clipe repleto de símbolos e coisas misteriosas, não? Muitas delas nós não compreendemos.

Bem… Até agora…

Vamos por etapas entender as sendas que levaram Michael Stipe e sua banda à produção daquele que pode ser considerado um dos maiores clipes da história da música, por sua carga semiótica e por seu peso dramático.

Muitas das referências estarão cruzadas… então, prepare-se para ler, ver e rever imagens, e assistir ao clipe em moto perpétuo. 😉

Mas antes de começarmos nossa análise dessa obra áudio-visual, vamos revê-la abaixo:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=xwtdhWltSIg]

Da obsessão de Stipe – “I wanted to write a classic song about obsession.”

Quando indagado acerca da produção da música, Michael Stipe, vocalista e compositor da banda R.E.M. (Rapid Eyes Movement) declarou que uma de suas inspirações fora a música “Every Breath you take“, também muito conhecida na época.

Para quem não sabe, “Every Breath you take” trata basicamente de um amor de tal forma obsessivo, que vigia até mesmo os passos, os olhares e a respiração do objeto de seu amor. A canção do grupo The Police emplacou com o sucesso, mostrando que ser apaixonado além dos limites da normalidade poderia ser artisticamente aceitável. Michael Stipe quis então ir além, muito além. “I wanted to write a classic song about obsession.”, Michael, afirmou… E, de fato, Michael fez o clássico da obsessão. Não só no que tange ao amor (que pode, sim, tornar-se uma religião), mas acerca de tudo aquilo em que podemos depositar nossas expectativas, e receber em troca a maior e mais dura decepção.

Ao escrever Losing My Religion, Michael não descreve mais a luta para seguir amando e lutando pelo amor e a atenção da pessoa amada. Losing my Religion é o sangue que o guerreiro enxuga após a batalha. Não há mais luta, perseguição. Há apenas a contagem das baixas e as recordações dos momentos perdidos e dos esforços vãos.

O desespero é velado, mas é tamanho, que a música sequer tem refrões, pausas de respiração, ciclos de recomeço… A música toda parece um só lamento de inquietude.

Michael Stipe foi, sim, muito mais efetivo ao falar da obsessão, alcançando seu objetivo. Ele tratou do objetivo desprovido de esperanças, mas que parece impossível de ser apagado.

Daí a lembrança ao início da música : “Life is bigger than you… “

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Se o ciúme tem olhos verdes, a obsessão tem a cor ocre…

“Ter a coragem de dizer em versos, o que a dor do ciúme é capaz de causar, é ter a certeza do desespero, que o mesmo causa. Não só cega, não só enlouquece. Ele começa a roer a alma, antes de abater a carne, como se houvera um verme insano dentro da essência. Pedir ajuda a si mesmo, quando a ajuda é incapaz de sê-la, é ter a certeza da dor incessante, que só termina, quando a luz da vida se apaga.” – Silmar Honorio

Do Bandolim

Os primeiros acordes de LMR foram, admiravelmente, criados ao acaso pelo guitarrista da banda, Peter Buck. O músico estava tentando praticar bandolim e, ensaiava, sem compromisso, sentado no sofá da sala de casa, alguns acordes mais agudos, diferentes… E que lhe soaram bem aos ouvidos. Guardou-os para mostrar ao grupo.

A partir dos primeiros acordes montou-se toda a canção, que mantém uma curiosa estrutura sem refrão, como já dito.

Por acaso ou não, Caravaggio também pintou um homem tocando um bandolim.

Curiosamente, o bandolim, que foi a base instrumental para a música, casa com uma das referências históricas, uma vez que o artista Caravaggio é amplamente “utilizado” – por meio da releitura de seus quadros para fins dramáticos. E Caravaggio tem um quadro famosíssimo de um homem tocando… um bandolim!

Não por acaso, o guitarrista é focalizado logo ao início do clipe dedilhando as primeiras notas.

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Dos deuses Hindus de Tarsem Singh

AiGCR As figuras hindus que aparecem no vídeo chamam a atenção dos espectadores logo à primeira vista.

Não à toa.

Lembremos que Losing My religion não é apenas uma música que fala de amor. Ela pode ter essa interpretação, mas Michael Stipe (e toda a produção do clipe) tentou abranger a falta de força/fé a tudo aquilo que dependesse de um impulso maior que a mera vontade. Toda fé, podemos dizer, é uma forma de amor e vice-versa.

Assim, ao vermos a deidades hindus apresentadas quase como humanas – mas sem serem tocadas, note-se! – estamos lidando com o enaltecimento da fé, da crença no místico e das possibilidades de se crer (ainda).

Mas por que deuses do hinduísmo?

A resposta é mais simples do que pode parecer à primeira vista: o diretor do clipe, Tarsem Singh, é indiano, tendo, portanto, os fundamentos de sua fé – ao menos superficialmente – no folclore Hindu.

Se Tarsem fosse judeu, veríamos Rabinos e símbolos hebreus; se fosse africano, possivelmente orixás e deuses da natureza.

O interessante aqui é notar que o foco do clipe musical é em toda forma de perda de fé, ou desilusão. Seja no que for.

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Do escárnio de Hieronymus Bosch

Além das cores, que além da influência fortíssima de Singh, tiveram também uma influência grande das obras de Bosch, há que se ressaltar uma referência curiosa, praticamente indireta.

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St. Jeronimus Prayer

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Uma cena icônica de Stalker (possivelmente uma das mais famosas do filme de Andrei Tarkovsky) foi feita com base na gravura St. Jeronimus, de Bosch. E Stalker, como filme que fala da falha da, fé é a grande base para a montagem do clipe de LMR.

Das heresias de Caravaggio

Obsessivo pelo realismo – e a esta altura você já notou que obsessão e fé são as duas palavras de ordem do texto – Caravaggio era capaz de reproduzir gravuras quase tão fiéis quanto o que a visão pode captar. No entanto, nem tudo o que pintava era do gosto da igreja. Como pintor renascentista, Caravaggio fora considerado um grande herege de seu tempo. Intempestivo, brigão, herege, o artista recebeu a alcunha de “Pintor Maldito”.

CaravaggioComo exemplos de pinturas,  não relacionadas ao clipe, mas que certamente demonstram a ideia de rebeldia presente na obra de Caravaggio, temos:

A Crucificação de São Pedro é toda em diagonais agudas que se entrechocam, simbolizando o conflito da brutalidade com a pureza. A colocação destacada, em primeiro plano, do traseiro de um dos algozes, mereceu a acusação de vulgaridade. Na Deposição de Cristo, acentuam-se os elementos popularescos. A figura de Maria Cléofas, na extrema direita, que abre os braços num gesto incomum em Caravaggio, é considerada por críticos autorizados como um adendo posterior e anônimo. Tal posição é confirmada pela famosa cópia desse quadro, feita por Rubens, e que exclui essa figura. Embora relativamente inferior, a tela apresenta notável realismo nas pernas dos santos atendentes, com as veias saltadas pelo esforço, e no rosto envelhecido da Virgem. “Como ela devia ser exatamente”, dizia o pintor, quando, mais afável, se dignava a explicar um pouco sua concepção da divindade que se encarna temporariamente como criatura mortal, assim vulnerável a todos os malefícios da carne.

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A Ceia em Emaús foi feita em seguida à representação do mesmo tema com o Cristo totalmente imberbe. Os que se escandalizaram ignoravam a tradição bizantina que mostrava Cristo, de preferência adolescente, como que simbolizando fisicamente a eterna juventude e validez da Sua mensagem. Mas Caravaggio não dava importância à ira dos que consideravam seus quadros “heréticos”: ele já não havia pintado uma morte da Virgem Maria, que a mostrava com o ventre inchado, os pés para fora do leito, como uma mulher da plebe que sucumbisse de inanição ou de parto, numa atmosfera carregada de miséria?

Esta ceia – sem a pompa de um Tiepolo ou um Veronese – apresenta os santos como figuras do povo, campônios rudes mas de expressão firme. A luz que inunda a cena antecipa em um século o chiaroscuro de Rembrandt, ou o tratamento requintado de Vermeer.

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A trajetória de Caravaggio aproxima-se do fim. Em Roma, corroído de dívidas, recusa a oferta do Príncipe Doria Pamphili para decorar uma parte de seu palácio, hoje sede da embaixada brasileira na Itália. Insiste em pintar “quadros verdadeiros”, certo de encontrar compradores e assim melhorar de situação. É dessa fase a Virgem do Rosário, também denunciada por “vulgaridade”. Peca apenas, porém, pelo excesso maciço e confuso de personagens, enquanto Virgem de Loreto caracteriza-se pela sobriedade clássica, pelo realismo das poucas figuras retratadas, e pela ausência de qualquer sentimentalismo no orgulho da mãe que apresenta o filho à veneração de dois humildes peregrinos. Na Adoração dos Pastores, Caravaggio atinge talvez o ponto supremo de uma pintura sacra ortodoxa, que constitui exceção dentro de sua tendência sempre inovadora.

Da Adoração dos Reis Magos, tradicional na pintura toscana ou norte-européia, a tônica social se desloca para os pastores, num quadro simples e comovente, onde a intensificação dos tons escuros prenuncia o desenlace fatal de uma vida perigosa.

Alheio a qualquer maneirismo, mas sensível à interpretação poética e transfiguradora do mundo real, Michelangelo Merisi da Caravaggio foi um artista despojado numa época marcada pelo excesso ornamental barroco. Contra a corrente saudosista de seu tempo, plasmou uma arte arraigadamente humana, realista e original. Seu critério quase “funcional” de pintura, à moderna, teve o condão de enfurecer muitos donos da cultura e árbitros do gosto da época. A esses, Caravaggio sempre deu de ombros: pintava para todos os séculos, não para o seu.

Como disse, um herege…

Pelo nível altíssimo de sua arte, e por sua ideologia desafiadora das crenças que permeavam toda uma civilização – pensamento digno de alguém que perde sua fé – Caravaggio, o pintor Herege, foi escolhido para dar o toque essencial ao clipe. É nos momentos mais teatrais que apreciamos a releitura de suas obras.

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Da ousadia de Pierre et Gilles

REM-saint-sebastianUma das referências usadas para desafiar a fé ocidental – quase como um escárnio, eu ousaria dizer – foi a colocação de uma imagem de São Sebastião com flechas colocadas com esparadrapos – ou seja, de uma falsidade gritante – e com uma aparência excessivamente efeminada. Essa figura seria uma transgressão da imagem não só do Santo em particular, mas de toda santidade e dos mártires que morreram em nome de Cristo; uma verdadeira subversão da ideia cristã, uma vez que a tradição cristã não aceita a homossexualidade.

Indo anda além nos hiperlinks, podemos notar a influência do fotógrafo francês Pierre et Gilles, conhecido por seus trabalhos de teor altamente homoerótico. Ele também retratou um São Sebastião bastante ousado. Um desafio à fé:

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De Gabriel García Márquez

Não bastassem todas as ligações e camadas de significados colocadas neste vídeo clipe, temos ainda a influencia de um conto do famoso escritor Gabriel García Márquez (falecido em 2014).

184310_1GGO conto, bem pequeno, tem um nome bem extenso e uma história curiosa: “Um senhor muito velho com umas asas enormes” fala da queda ocasional de um homem muito velho em um povoado esquecido por Deus e pelo mundo no Caribe. Ao ser encontrado por moradores do local, o homem não recebe o tratamento de ser místico, como deveria. Afinal, um homem alado em um país de tradição judaico-cristão deveria ser visto normalmente como um anjo.

Singelo trecho do conto de Gabo.

Singelo trecho do conto de Gabo.

No entanto, o senhor muito idoso e alado é posto com as galinhas, e exposto aos curiosos como um animal. Até que um dia vai embora.

Neste conto, Gabriel García Márquez joga não apenas com a ignorância do povo, mas com o pouco caso diante de algo fantástico. O ser de origem desconhecida, no ínfimo conto, é chamado de anjo, uma única vez, se muito. Ou duas.

Seria o escárnio? Seria a morte da última centelha de fé?

Do Projeto Icarus e a Constante Aparição de Asas

Esta parte do clipe é especialmente misteriosa, posto que não existem registros oficiais do Projeto Icarus, que supostamente teria dado origem às imagens de agentes da União Soviética trabalhando num projeto de aviação em meio às imagens místicas e aos devaneios angustiados de Stipe.

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Há teorias acerca destas imagens, sobre a possibilidade de serem apenas um grande apanhado das tentativas inúmeras da URSS de ir além em seus avanços tecnológicos ao longo da história do século XX. Mas nada há de confirmado.

Faria sentido colocar tanto um projeto de criação de uma máquina voadora diversa do nosso conceito atual de avião (ideia do Projeto Icarus), quanto todos os esforços de uma nação fragmentada em crescer tecnologicamente ao longo de um século.

De todo modo, esse seria o modo de exaltação daquilo que se crê. Seria a forma de reacender, de tempos em tempos, em pequenos frames para os bons entendedores, as chamas da credulidade. Quem sabe criar asas poderá acreditar acreditar em tudo. Muito embora o nome do projeto seja um nome que guie à ideia de desilusão…

Mas, caro leitor. Atente para um importante detalhe.

Notou que o que mais se vê são asas ao longo de TODO o vídeo?

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Deva – Figura do misticismo indiano que se aproximaria do nosso conceito de anjo. Mais uma vez uma influência do diretor Tarsem.

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Não por acaso!

Asas, são, antes de mais nada, símbolo de alçar voo, isto é, do alijamento de um peso (leveza espiritual, alívio), de desmaterialização, de libertação – seja de alma ou de espírito -, de passagem ao corpo sutil. Em toda tradição, as asas jamais são recebidas, mas, sim, conquistadas mediante uma educação iniciática e purificadora por vezes longa e arriscada.

Seriam, neste caso, uma libertação da aflição, um desejo de liberdade, um rompimento com o antigo estado de lamúria e um reforço do crer/não crer, pelo teor místico que as asas contém.

De Stalker

Outra grande base para a produção do clipe de Losing My Religion é a influência fortíssima do filme russo Stalker, do diretor Andrei Tarkovsky. As cores, as cenas, e o próprio ambiente em que atuam os integrantes da banda e o resto do elenco do clipe atua são uma influência daquilo que seria a Zona no filme.

Mas, afinal, o que seria Stalker? De que fala este filme, e qual conexão teria ele com a ideia que vem sendo pregada aqui?

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Cena de Stalker do diretor russo Andrei Tarkovsky

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Cena de Stalker

Ora… O filme gira em torno da busca da fé, da reconciliação com um imaginário fundador, da odisseia de cura dos medos e desinquietação das pulsões. (Nas grandes obras de arte, é comum perdermos de vista a ideia central, que, de tão coesa, atua até mesmo invisivelmente.) A atmosfera peculiar de Stalker emerge como resposta do meio-ambiente ao filme. Os corpos, os objetos, as paisagens, o vento, a água, tudo no filme responde a esse conceito que não sabemos exatamente o que representa, que não mostra sua face definitiva (ainda que o final entregue algumas de suas coordenadas), mas que incrivelmente existem, e são os elementos que fornecem solo firme para o filme ser o que é: um estudo cuidadoso sobre a movimentação de corpos e a topografia de uma superfície (da imagem, dos rostos, das paredes) para além de qualquer noção prévia de profundidade.

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Cena de Stalker

Em Stalker, as aparências são o jogo atraente da vastidão de superfície, algo muito distinto da acepção pejorativa – e mais usual – que as toma em oposição à essência. A aparência é o que recobre todas as coisas, é a pele do filme, mas também sua medula. E por que ultrapassar a superfície, se quem olha (dentro do filme e para o filme) não acredita na profundidade?

“Eles não têm fé!”, reclama o Stalker. Algo que deve ter a ver com “Losing the religion”

“Mas o que há em Stalker?”, a pergunta permanece. No excelente texto que Serge Daney escreveu na ocasião do lançamento do filme, ele começa com a definição de dicionário da palavra título. “To stalk” é um verbo inglês, que significa caminhar pé ante pé, dar passos longos, marchar titubeando. Essa definição nos faz voltar a analisar o clipe de LMR com espanto: por várias vezes, Michael Stipe parece andar manco, tropeçar em passos fracos a mal dados. Coincidência?

To stalk” é o andar característico de quem invade um território desconhecido, e pode significar também caçar um animal ocultando-se atrás de outro. Uma forma bastante peculiar de aproximação e de perseguição – quase uma dança. (Mais uma vez, pensamos em Stipe dançando descoordenadamente no clipe).

losing-my-religion-oEm Stalker, cada personagem tem sua marcha própria, sua envergadura física, sua “presença orgânica”. Tudo é orgânico em Stalker, incluindo a água, a terra, o vento, o fogo, tudo. A recorrência dos quatro elementos na obra de Tarkovsky, como bem sabemos, tem muito mais uma função física do que simbólica. A água possui uma aparição constante em Stalker, o filme mais úmido da história – à semelhança do clipe, uma vez mais, que possui o barulho constante de um gotejar infinito – e sua importância está justamente na sua natureza, ou seja, em ser uma matéria primitiva, um dos constituintes fundamentais e preponderantes de tudo que existe no mundo, a começar pelos homens. E não é só a imagem-miríade da água (lago, poça, chuva, goteira), é também seu som em diversas modalidades (ora um barulho de cachoeira, ora um gotejar que ocupa praticamente toda a banda sonora). Embora passe por entre os dedos, a água tem um peso. Embora passem perante nossos olhos e não voltem, as imagens de Tarkovsky têm um peso: a densidade não só do tempo que elas materializam, mas também do estranhamento que, mesmo terminado o filme, não se esgota em nenhuma interpretação.

Enfim… O filme como um todo está repleto de significações, mas assistir a ele e compará-lo ao clipe é um exercício de caça a easter eggs e sincronias.

A fé e a busca por ela (aquela que resta, a que ainda resta) é a chave, o fio que une estas duas obras e faz uma (Losing My Religion) filha de outra (Stalker).

Da Queda e da impossibilidade de ir além.

Um dos grandes marcos na história da mitologia hebraico cristã, no que diz respeito à quebra da fé, foi a queda do homem, que tinha o asilo no paraíso, e o perdeu por desobedecer a Javé, e por provar da árvore do conhecimento. Outros mitos mostram a queda do homem de outras formam, ciclicamente ou não. (Livro de Gênesis)

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A constatação da perda de uma convicção religiosa, do amor, ou da fé, é algo que causa ansiedade, desesperança…

Stipe canta uma letra onde o eu lírico se diz acuado, se movimenta como quem busca libertação de teias invisíveis, tenta escapar de tudo e  todos… Mas debaixo de um holofote!

A letra diz “that’s me in the corner/that’s me in the spotlight” ou algo como “este sou eu num canto/este sou eu sob o holofote”. Trata-se de um sacrilégio perceptível só pelas deidades; Aquelas hindus… que apenas observam, intocadas, a queda sem-fim do humano sem fé.

Esse tipo de perda é um caminho sem volta.

Se constatado, não chore pelo leite derramado…

Em algum momento as forças findarão...

Em algum momento as forças findarão… (?)

4 thoughts on “[MÚSICA E VÍDEO] A Simbologia de Losing My Religion – No fim das forças.

  1. Muito boa a leitura. Incluiria ainda uma outra pequena “intercessão” do filme Stalker no clipe: o final do filme Stalker tem uma cena linda e emblemática – quando a filha do stalker começaria a movimentar os copos à distância numa espécie de telepatia. O clipe começa igualmente com a jarra caindo. Como bem apontando no texto as influências, vale ressaltar que foram “baitas” referências. Abraço!

    • Pensei em inserir isso. Mas pensei que estaria jogando a carga demais para Stalker, embora eu creia mesmo que o clipe foi feito no molde do filme, e depois ganhou outras referências…

      Lembrando que Stipe é muito parecido com o Stalker.

  2. Meus amigos, posso estar enganado mas na verdade parece ser uma tentativa de tentar falar que não acredita em deus, frustada pela incredulidade do seu meio, uma vez que fala, era apenas um sonho. tentei falar, falei de mais, falei de menos, mas era apenas um sonho!!!

  3. Gostei bastante da análise.

    Eu acrescentaria uma informação. “Losing my religion” é uma expressão idiomática comum no sul dos EUA que significa algo como “cheguei no limite”. É comum quando alguém explode e, por exemplo, fala palavrões, dizerem que está “losing your religion”.

    Acho que eles trabalharam com esse duplo significado não só no título ou nesse trecho, como durante toda a música.

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