[SÉRIES/LIVROS] “Na verdade, nos livros…” 15 diferenças do texto para a TV em Game of Thrones (parte 1)

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(Nota: Texto originalmente publicado no A. V. Club, em 24/04/2014, de autoria de Zack Handlen, Rowan Kaiser, Todd VanDerWerff, Myles McNutt e Sonia Saraiya, com tradução de Fernando Sacchetto. O texto a seguir contém SPOILERS de toda a série até o episódio 5 da quarta temporada, ainda que não necessariamente dos livros.)

Há inúmeras diferenças entre á série de TV da HBO, Game of Thrones, e seu material-fonte, as Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin. O mundo de Westeros é massivo e ricamente detalhado, e o próprio Martin tem fama de fazer confusão com seus personagens. A TV é um meio completamente diferente da palavra impressa, e conforme a série amadurece, as diferenças entre os livros e o programa se tornam mais pronunciadas. Aqui está uma lista das maiores em que conseguimos pensar – aquelas que mostram as forças e fraquezas relativas de cada obra. Considere-a um guia se você não tiver lido os livros – ou pedantismo sem-vergonha, se tiver.

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1. Perder, e ganhar, pontos de vista

Os livros das Crônicas de Gelo e Fogo são narrados pela perspectiva de uma gama de personagens; no primeiro livro, é quase exclusivamente a família Stark (Ned, Catelyn, Arya, Sansa, Bran e Jon Snow) e dois outros notáveis: Daenerys Targaryen e Tyrion Lannister. Cada capítulo tem como título simplesmente o nome do personagem, e a história avança através de seus olhos. Portanto, no primeiro livro, A Guerra dos Tronos, o leitor experiencia a prisão de Ned Stark por sua perspectiva – mas sua filha Arya fornece uma janela para sua execução. Conforme o mundo de Westeros se expande rapidamente, o mesmo ocorre com os pontos de vista: A Tormenta de Espadas (N.T.: o terceiro livro) introduz a perspectiva de Jaime; A Fúria dos Reis (N.T.: o segundo) introduz a de Davos Seaworth. Os outros livros incluem capítulos de mais personagens ainda, os quais anteriormente haviam sido vistos apenas pelos olhos de outros, como Cersei Lannister e Brienne de Tarth.

Apesar de Game of Thrones, a série de TV, utilizar mais monólogos do que muitos outros dramas, ela não pode usar os capítulos de perspectiva para construir um todo multidimensional da mesma maneira que os livros – o que torna seus personagens inevitavelmente menos matizados do que suas contrapartes textuais. Uma vez que os personagens precisam ser estabelecidos rapidamente, momentos-chave de tomada de decisão e motivação às vezes são modificados. Para estabelecer o caráter materno de Catelyn e o senso de dever de Ned, o piloto faz Ned decidir ir a Porto Real, enquanto Catelyn tenta fazê-lo ficar. Nos livros, isso é invertido: Catelyn se mostra mais implacável, enquanto Ned tem mais tons de homem de família. Inevitavelmente, algo se perde na tradução. Mas a TV pode conferir profundidade a personagens marginalizados nos livros; Cersei Lannister, que não tem capítulos em seu ponto de vista até o quarto livro, tem muitas cenas privadas nas primeiras temporadas de Game of Thrones. Da mesma maneira, a série construiu personagens interessantes a partir de Robb Stark, Tywin Lannister e Ser Jorah Mormont.

2. Personagens originais

Apesar de já haver centenas de personagens para se utilizar nas Crônicas de Gelo e Fogo, a série de TV ainda assim tem vários personagens originais. Tais personagens frequentemente deixam os leitores dos livros desconcertados, e especulando fervorosamente sobre que função um novo personagem teria na narrativa mais ampla. Em alguns casos, eles servem o propósito de contar a história de maneira mais eficiente para personagens periféricos dos livros, como foi o caso de Ros e seus momentos trágicos em Porto Real. Em outros casos, eles tornam-se necessários pela ausência de um outro personagem, como foi demonstrado pela introdução de Locke (que cortou a mão de Jaime após Vargo Hoat ter sido excluído da série). Entretanto, no caso de Talisa, os roteiristas simplesmente escolheram criar uma história romântica totalmente diferente para Robb como antecedente para o Casamento Vermelho, desconcertando os fãs e levando a elaboradas teorias da conspiração sobre o motivo da mudança. A resposta simples, ao que parece, é que os roteiristas simplesmente quiseram contar sua própria história – uma tendência que deverá continuar, conforme a série progride e mais personagens originais são introduzidos por esses e outros motivos. (N.T.: Trocar Jeyne Westerling por Talisa também simplificou enormemente a história e removeu muitos elementos “conspiratórios”, além de tornar o romance mais convincente em minha opinião.)

3. Envelhecer as crianças Stark e Daenerys Targaryen

De todas as mudanças que Game of Thrones fez ao adaptar seu material-fonte, adicionar alguns anos à idade dos protagonistas mais jovens da série é a que faz mais sentido. No romance A Guerra dos Tronos, as crianças são introduzidas como se segue: Robb Stark e Jon Snow têm 14 anos cada; Sansa Stark tem 11; Arya Stark tem 9; Bran Stark tem 7; e Daenerys Targaryen tem 13. Nas páginas, a juventude dos personagens serve para torná-los mais vulneráveis, e estabelecer um cenário no qual a inocência da infância não oferece proteção especial para ninguém. Também fica fácil esquecer essas idades, o que é conveniente durante as cenas mais violentas ou sexualmente explícitas da série literária. A adaptação para uma mídia visual necessitou de certos ajustes, no entanto, com cada uma das crianças principais ganhando alguns anos na tradução das páginas para a tela. Ainda que os atores que interpretam Robb, Jon, Sansa e os outros sejam jovens, eles são visivelmente mais velhos que seus correspondentes literários, o que mantém aquele senso de vulnerabilidade e desespero enquanto amortece o potencial para horror ou comédia não-intencional.

(N.T.: Tem também um detalhe importante: consta que George R. R. Martin inicialmente pretendia colocar um intervalo de 5 anos entre o terceiro e quarto livros, mas eventualmente desistiu da ideia, porque isso demandaria muitos flashbacks e texto expositório para preencher essa lacuna, o que quebraria o ritmo da narrativa. A ausência desse intervalo fez com que a cronologia dos livros ficasse 5 anos mais curta do que originalmente planejado, o que se refletiu na idade dos personagens, que acabaram ficando jovens demais. Se bem que isso não muda nada em relação aos primeiros livros, onde ocorrem várias coisas “chocantes”, como a coroação e casamento de Robb, praticamente tudo o que acontece com a Daenerys, e por aí vai. Mais tarde, Martin chegou a comentar que deveria ter feito as crianças dois ou três anos mais velhas desde o princípio. Portanto, essa mudança na verdade atende à visão do autor.)

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4. Belwas, o Forte

Na escala “macro”, Game of Thrones parece um festival de violência severa e destinos deprimentes, mas o programa se certifica de que também é engraçado pra caramba. Quase todas as linhas de enredo têm fontes consistentes de humor: os cortesãos maliciosamente espertos de Porto Real trocando farpas, a “fodonice” ninja da Arya nas Riverlands, a ingenuidade entusiasmada de Sam Tarly na Muralha, ou aquele cara grandão de nome engraçado que carrega o Bran. A exceção? As aventuras excessivamente sérias de Dany além do Mar Estreito. Nos livros, o importante fator diversão é frequentemente fornecido por um gladiador chamado Belwas, o Forte, que se junta ao grupo de Dany no final do segundo livro. Belwas é grande, direto, e governado por seu apetite – um tipo de Homer Simpson medieval – mas ele não tem muitas coisas importantes para fazer na história que não possam ser feitas por outros. Sua ausência na série não é surpreendente, mas é uma decepção. (N.T.: Uma cena importante da qual Belwas participa é o duelo contra o campeão de Meereen – a mudança, e consequente discrepância com a caracterização de Daario Naharis, que o substitui na série, é comentada em minha resenha do episódio.)

5. As visões de Dany na Casa dos Imortais

Muitas das mudanças entre os livros e a TV decorrem do fato de que o que pode ser ambíguo nas páginas seria incrivelmente literal quando mostrado na tela – ao ponto de potencialmente entregar elementos futuros do enredo. A visão de Daenerys na Casa dos Imortais em A Fúria dos Reis é uma sequência debatida acaloradamente pelos fãs, que se perguntam quanto do futuro da série ela prevê. (Pode-se dizer que há momentos nessa visão que apontam para eventos significativos no livro seguinte da saga – e inclusive além disso.) Mas realmente mostrar a Casa dos Imortais tal como ela aparece nas páginas provavelmente seria caro demais e, pior, daria spoilers de surpresas futuras para os que não leram os livros. Ao invés disso, Game of Thrones optou por algumas imagens inquietantes mas ambíguas – como uma sala do trono queimada, sugerindo uma batalha enorme ainda por vir – e então mostrou o marido morto de Dany, Khal Drogo, tentando-a com uma oferta de ficar para sempre.

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6. “Devolvam-me os meus dragões!”

Apesar de ela ser uma das personagens mais memoráveis dos livros, a história de Daenerys é uma das que têm o ritmo mais errático, criando tramas um tanto quanto rasas na segunda temporada, em comparação com a primeira. Como resultado, os roteiristas tentaram injetar urgência e suspense em uma trama interessante, mas menos estruturada, com foco em questões de escolha e profecia. O resultado foi uma aia morta (que sobreviveu nos livros) (N.T.: e mais pra frente teria cenas de lesbianismo com a Dany… e aí HBO, como fica?), um tanto de diálogo exagerado, e um conjunto de profecias (diferentes) que Daenerys ganha, não devido a uma escolha consciente, mas sem querer, enquanto busca resgatar seus dragões da Casa dos Imortais. A trama tem os mesmos pontos A e B básicos dos livros, mas o espaço entre eles – e a fala memorável, “Devolvam-me os meus dragões!” – foi um exemplo da série lutando para trazer a narrativa lânguida de Martin à vida na tela. Um dos resultados inesperados disso é que a khalasar de Dany foi em grande parte relegada ao plano de fundo – seus “companheiros de sangue” não são vistos em lugar algum, em parte devido à logística de elenco e produção, mas também porque eles não são mais tão importantes. O programa tem feito correções de curso desde a segunda temporada, mas esse é um problema que os roteiristas deverão enfrentar novamente antes da conclusão da série.

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7. Mistérios e histórias

Um dos elementos mais empolgantes ao ler As Crônicas de Gelo e Fogo é tentar montar o quebra-cabeça do lore dos livros – uma teia vasta e complexa de mistérios inexplicados, detalhes históricos e profecias religiosas. A primeira temporada da série de TV ofereceu apenas um mistério, e logo em seguida trabalhou em sua resolução: desemaranhar a linhagem de Joffrey, Tommen e Myrcella Baratheon – e, por extensão, a morte de Jon Arryn. Mas não consegue competir nesse aspecto com as dúzias de histórias inexplicadas nos livros. A série tem feito um bom trabalho de introduzir o passado dos personagens e a história de Westeros em anedotas e digressões – mas Martin tem nacos enormes de texto à sua disposição. É improvável que o programa encontre uma maneira de criar uma aura de mistério em torno de trechos abandonados dos livros – Jenny de Oldstones, Summerhall, Tansy e “Prometa-me, Ned” provavelmente continuarão sendo prazeres exclusivos aos livros. Mas Game of Thrones está trabalhando duro para plantar as sementes de outros mistérios, e já teve sucesso em puxar o tapete sob os pés da audiência mais de uma vez. Um pouco de exposição necessariamente se perde, mas tendo isso em mente, é impressionante o quanto a série de TV conseguiu passar para os espectadores.

8. Harrenhal

Tanto nas Crônicas de Gelo e Fogo quanto em Game of Thrones, o tempo que Arya passa em Harrenhal é formativo; conforme cada possibilidade de proteção e apoio é retirada dela, ela aprende algumas duras lições sobre como sobreviver e o custo (e o valor) da vingança. Entretanto, essas lições vêm de mãos bem diferentes no livro e na TV. Em A Fúria dos Reis, Arya passa o tempo nas sombras do castelo em poder dos inimigos, usando as “três mortes” que Jaqen H’ghar deve a ela para apagar inimigos próximos. Quando ela percebe que está desperdiçando sua vingança em homens sem importância, ela manipula Jaqen para ajudá-la a libertar homens do Norte das masmorras. (N.T.: Na série, ela faz isso para que ele a ajude a fugir; no livro, com Jaqen já fora da situação, a própria Arya mata um guarda para fugir, o que na minha opinião é bem mais impressionante.) Os homens tomam Harrenhal de volta, abrindo o caminho para a chegada do lorde Roose Bolton. A Arya se torna uma das copeiras de Bolton, e por mais que ele a trate bem, os dois não formam nenhum relacionamento significante. Compare isso com a Arya da TV na segunda temporada de Game of Thrones : Tywin Lannister chega a Harrenhal logo após Arya ser levada para lá, e, reconhecendo sua inteligência, ele faz dela copeira dele. Ao longo de algumas cenas, Tywin oferece a Arya um tipo diferente de figura paterna, que tem a lógica fria da batalha e do poder ao invés de qualquer coisa que lembre emoções humanas. É um desenvolvimento de personagem inesperadamente brilhante para ambos. Ao substituir Roose por Tywin, o programa ajuda a dar uma presença maior a Tywin na série, e simplifica o arco de Arya, transformando o que seria uma jornada mais interna em algo mais abertamente dramático, ainda que não tão brutal.

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