[SÉRIES] The Walking Dead – 4ª temporada: Quando a série aprendeu a crescer

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Para uma temporada que começou com a difícil missão de desfazer o gosto amargo deixado na boca dos espectadores pelo final broxante da 3ª, a 4ª se saiu admiravelmente bem, e no geral superou as expectativas. Abaixo comentarei o que houve de melhor e de pior neste 4º ano de The Walking Dead.

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De início o que chamou a atenção foi a mudança na direção que a série tomou com relação à sua história base nos quadrinhos, detalhe para o qual eu chamei a atenção em meu review sobre o primeiro episódio da temporada, e que destaquei como um dos pontos positivos do início da 4ª temporada.

ATENÇÃO: daqui pra baixo o texto está infectado com SPOILERS ZUMBIFICANTES para quem não assistiu a temporada inteira.

A nova dinâmica estabelecida entre os sobreviventes do presídio, incluindo novos personagens que, apesar de terem durado pouco tempo em sua maioria, foi eficiente o bastante para que nos importássemos, se não com eles, com a importância que ganharam para nossos velhos conhecidos.

Outro ponto a ser elogiado foi a ameaça que movimentou a primeira metade da temporada: a epidemia no presídio. Ajudou a renovar o interesse no desenrolar da trama ao dar um tempo para os mortos-vivos, e maior urgência na narrativa, além de dificultar ainda mais a luta deles para sobreviverem. Foi um ótimo artifício para perturbar a relativa paz em que viveram durantes os meses que se passaram entre o final da temporada anterior e o início desta. E ainda rendeu o excelente e sufocante episódio Internment, focado em Hershel, que conquistou um pouco mais da admiração do espectador, e funcionou como uma bela despedida do personagem.

Hershel em sua melhor atuação na série inteira no episódio "Internment"

Hershel em sua melhor atuação na série inteira no episódio “Internment”

Em contrapartida tivemos dois episódios de desenvolvimento de personagem dedicados ao Governador, que soaram monótonos e destoantes da tensão crescente no presídio. Pareceram mais uma tentativa de fazer pelo personagem o que a temporada anterior já havia feito de maneira mais sutil, e acabou passando uma sensação de redundância.

Porém, o retorno do Governador serviu para corrigir aquele que julgo o maior erro do final da 3ª temporada: a falta de um clímax catártico, e de um conflito definitivo entre ele e o grupo de Rick. Foi ali que a temporada finalmente entrou nos eixos, retomou o tom trágico e angustiante dos quadrinhos, e mostrou que ainda é capaz de ser corajosa para tomar decisões difíceis a fim de levar a série para uma nova fase, como matar Hershel, um dos personagens mais queridos da série após o Darryl.

A morte de Hershel, um dos momentos mais impactantes da temporada.

A morte de Hershel, um dos momentos mais impactantes da temporada.

Coragem que os roteiristas também exibiram ao abordarem a psicopatia de Lizzie, trama que nos quadrinhos foi vivida pelo par de irmãos gêmeos que Carl foi obrigado a matar para eliminar a ameaça que representavam aos demais sobreviventes. Sem dúvida o episódio em que Carol é forçada a tomar a mesma decisão, cuja dificuldade é ainda maior para ela, devido ao papel materno que assumiu para a menina, já entrou para a lista dos mais memoráveis e dramáticos de toda a série.

The Walking Dead mostrando colhões ao fazer Carol matar Lizzie.

The Walking Dead mostrando colhões ao fazer Carol matar Lizzie.

E merece muitos elogios a divisão da equipe de Rick em pequenos grupos após a fuga do presídio, a fim de que cada um fosse desenvolvido individualmente, por episódios dedicados a eles. A metade final da 4ª temporada conseguiu o que três temporadas inteiras da série não conseguiram: tornar as relações interpessoais dos sobreviventes mais críveis e envolventes. Foram raras as vezes em que a série conseguiu fazer com que eu me importasse com a sobrevivência dos personagens nas temporadas anteriores, mas nesta o texto estava surpreendentemente bem escrito, as falas mais naturais, e menos piegas e redundantes.

Foi admirável, por exemplo, o que esta temporada fez para melhorar a imagem de Michonne, que na 3ª temporada era bad ass e insuportável demais. Nesta o modo como trabalharam sua relação quase maternal com Carl foi fundamental para que a personagem finalmente conquistasse a simpatia do espectador. E o próprio Carl deixou de ser só uma criança irritante para ganhar mais profundidade e peso dramáticos.

Carl e Michonne bbf.

Carl e Michonne bbf.

Darryl também brilhou ao lado de Beth, sendo o episódio totalmente focado na dupla um dos melhores desta 4ª temporada. Ambos tornaram-se personagens mais interessantes e críveis graças a ele.

Daryl e Beth: o melhor casal de Walking Dead?

Daryl e Beth: o melhor casal de Walking Dead?

Mas Rick, sem dúvida, continua o personagem mais trágico da série. De longe um dos que mais sofreu nesta temporada, o que contribuiu para a atitude explosiva e selvagem que tomou no episódio final que foi ao ar no último domingo.

Rick após lavar a alma com sangue no final da 4ª temporada.

Rick após lavar a alma com sangue no final da 4ª temporada.

E já que mencionei o season finale, devo dizer que neste os roteiristas pode até não terem decepcionado tanto quanto no final da 3ª temporada – até porque foi um episódio muito bem dirigido, e trouxe alguns momentos memoráveis, com destaque para o confronto de Rick com o grupo com o qual Darryl se envolveu após separar-se de Beth, de longe o melhor momento dele – mas provaram novamente que The Walking Dead não é uma série que se sustenta com ganchos angustiantes para a temporada seguinte, mas com belas esfriadas em nossa expectativa pelo que virá a seguir. Eles sabem que todo mundo reclama da falta de uma cena final explosiva, mas, com os índices de audiência da série cada vez mais altos, isto parece não preocupá-los tanto, pois sabem que os fãs da série voltarão pra assistir a 5ª temporada, simplesmente porque ela já viciou muita gente.

Independente de seu encerramento, a média final é muito satisfatória, e só pelo modo como trabalharam os personagens neste 4º ano, e o equilíbrio que alcançaram entre ação, suspense e terror, já pode ser considerada a melhor temporada da série até aqui. Créditos a toda a equipe de roteiristas, atores e diretores, e a Scott M. Gimple, atual showrunner da série, um dos grandes responsáveis por essa mudança de abordagem do drama de sobrevivência. Fica minha torcida para que ele permaneça na função na temporada seguinte.

Terminei de assistir a 3ª temporada sem a menor vontade de conferir a 4ª, e só fiz isto, confesso, pra escrever algo sobre ela para o Nerd Geek Feelings, e não me arrependi. Pelo ótimo trabalho que fizeram este ano, The Walking Dead me deixou curioso o bastante pra acompanhar a 5ª temporada. Já foi um belo avanço, e que este progresso continue, pois Walking Dead merece sua chance de amadurecer ainda mais, e tornar-se uma série tão fascinante quanto sua versão em quadrinhos. Nesta temporada ela se aproximou muito disto.

Nota: 8,0