[SÉRIES] Review: Doctor Who – The Time of the Doctor

Aviso:

“Nunca covarde ou cruel. Nunca desistir, nunca ceder.”

– A Promessa do Doutor

Nesta última noite de Natal, a BBC exibiu o especial de natal da série televisiva britânica Doctor Who: The Time of the Doctor, onde acontece o tão (dolorosamente) esperado momento em que o décimo-primeiro Doutor, Matt Smith, finalmente aposenta a sua gravata borboleta. Terceira parte duma trilogia iniciada no final da temporada passada em The Name of the Doctor e depois continuada no especial de 60 anos da série, The Day of Doctor.  Nessa despedida de Smith, o showrunner da série e escritor Steven Moffat não só faz questão de atar algumas pontas soltas deixadas desde que assumiu o fardo de guiar esse personagem junto com o ator, como também faz jus a todo o significado e legado que o Doutor representa.

Uma intrigante mensagem ecoa em todo o tempo e espaço, diversos povos alienígenas se reúnem ao redor do planeta que a está emitindo a espera de algo, mas ninguém faz ideia de seu significado, o único que pode decodificá-la é aquele a quem ela foi direcionada: o Doutor. Esse é o início da última aventura de Matt Smith como o personagem, que logo ao chegar ao tal local emissor, encontra uma cidade chamada Christmas (“Natal” em inglês) e descobre que o nome do tal planeta é Trenzalore, o mesmo lugar onde estará o seu túmulo no futuro (como revelado em “The Name of the Doctor”). Além disso, revela-se que a mensagem vem de outro universo, através daquelas rachaduras no tempo que marcaram presença em boa parte da quinta temporada, e ela é um pedido de ajuda ao mesmo tempo uma pergunta numa emblemática sentença: “Doctor Who? Doctor Who? Doctor Who?”.

Do outro lado das rachaduras, está Galiffrey, o planeta natal do Doutor, perdido em outro universo desde os eventos de “The Day of…”. Caso a mensagem seja devidamente respondida, eles entenderão que é a hora certa de retornarem ao nosso universo. Para que não ocorra trapaças, existe um campo da verdade ao redor de Christmas. E caso retornem, os diversos povos intergalácticos ao redor de Trenzalore, incluindo os Daleks, atacarão os senhores do tempo e iniciarão uma nova Guerra do Tempo, dessa vez, mais catastrófica que a anterior. Se não bastasse todas essas ameaças, ainda há igreja Papal Mainframe , que destruirá o planeta, caso o Doutor fuja, como forma de prevenir a volta de Galiffrey. Dessa forma, o personagem fica preso num cerco, onde a sua única alternativa aceitável é permanecer e lutar contra todos aqueles que tentarem tomar o lugar, numa longa e pesarosa guerra, assim protegendo aqueles que vivem em Christmas até o fim de sua vida, mesmo diante de seus maiores adversários.

Óbvio que Moffat não iria revelar o verdadeiro nome do personagem neste especial, afinal como bem sabemos ao longo de todos esses anos, ele é um escritor que se expressa através de enigmas. E apesar de aqui utilizar dos seus plot twists repletos daquele wibbly-wobbly-wimey-stuff de costume, subvertendo expectativas e, às vezes, subestimando o espectador num exercício narcisístico (“olha, só como peguei vocês direitinho!”, deve ser o que Moffat diz a si mesmo cada página que escreve), o roteirista consegue atingir uma sutileza narrativa e entrega emocional que poucas vezes vimos antes. Porque é notável como essa trilogia conseguiu encapsular todos os significados que o Doutor representa. Em “The Name of…” vimos o personagem descobrindo o futuro do seu legado e reencontrando uma parte do passado que sempre negou, em “The Day of…” tivemos uma ode a tudo que o Doutor acreditou e lutou em todas as suas encarnações e agora em “The Time of…”, o derradeiro final dessa trilogia, Moffat permite Matt Smith o espaço para relembrarmos a magia e intensidade que o 11° Doutor carregou em sua passagem.

E durante o tempo que passa protegendo Trenzalore, encontramos todos aqueles aspectos que nos farão lembrar de Matt Smith futuramente. Seu Doutor hipnotizante, insano, engraçado, pateta e até fatalista e mentiroso, pois o “O Doutor sempre mente” foi uma ideia recorrente em toda a fase de Smith, este que há todo momento faz caras e bocas, assim como balança tresloucadamente os braços e faz gestos expressivos com as mãos a todo momento, demonstrando toda sua entrega e liberdade em seus momentos finais na série. Mesmo com suas mentiras para proteger seus mais terríveis segredos que deseja esquecer e proteger aqueles que amam, podemos encontrar por debaixo desse homem imperfeito, alguém que possui a crença em que há sempre esperança, mesmo nos piores momentos, mantendo-se em pé com o seu juramento altruísta. E se há divergências sobre o apreço pelo uso de “deus ex machinas” de Moffat, deve ser compreendido que no surgimento deles resvale a importância no idealismo do Doutor em conseguir superar suas dificuldades da melhor maneira possível para todos. Pensando nisso que o escritor nos entregou aquela belíssima redenção e reafirmação de significados em volta do personagem no especial do sexagésimo aniversário da série, e aqui demonstra na forma como o próprio personagem pode vencer a sua própria morte por uma causa maior.

Breve e significante homenagem a Tom Baker.

“Time of the Doctor”, acima de tudo, remeteu ao tema principal da era do 11° Doutor: o poder de seu reconhecimento como um mito e suas consequências. Na estreia de Smith, em “The Eleventh Hour”, vimos o protagonista afugentar um alien apenas proferindo a sua própria alcunha, e assim, dessa forma, ao longo do tempo, compreendemos o quanto o Doutor é conhecido e temido através de todo o universo através dos seus feitos, que lhe tornaram uma lenda. E parafraseando Neil Gaiman em Os Livros da Magia – “nome tem poder”. Seja no discurso em Stonehenge durante “The Pandorica Opens” ou no resgate de Amy Pond em “A Good Man Goes to War”, o 11º Doutor não possuiu receio algum de utilizar sua fama como arma para aterrorizar até os seus mais perigosos inimigos. Permanecendo por eras em Christmas, honrando a promessa de proteger o lugar a qualquer custo, ele faz sua lenda prevalecer naquele povo, que ano após ano, continuaram acreditando em seus atos e suas crenças, transformando seus feitos em histórias e suas vitórias em celebrações que estarão presentes para sempre na memória dessa cidade.

E assim foi o conto do insano homem maltrapilho e de gravata borboleta preso numa caixa azul, cruzando o tempo e o espaço para ajudar aqueles que necessitam e criar novos laços. E que como todas as boas histórias, deverá ser lembrado não só como um herói ou um mero personagem de ficção, e sim como um amigo. Nesse pensamento que percebemos o quanto as regenerações do personagem são sempre tão dolorosas para o espectador, o desejo relutante em dar adeus a alguém que criamos laços e cultivamos respeito através de anos é o tipo de influência profunda que poderosas histórias nos trazem. Apesar do começo da regeneração de Matt Smith ser explosiva, grandiloquente e vivaz como o 11° Doutor também fora, é no momento de intimidade na TARDIS ao se despedir de Clara Oswald, sua companheira de aventuras até então, que Smith se despe de sua gravata borboleta (sua principal marca) num memorável discurso sobre as constantes metamorfoses que passamos durante a vida, e a importância das suas vidas passadas, finalmente sentimos a total noção da perda na saída do ator ao retirar todo o fardo de ter carregado esse personagem histórico por anos.

Mas no conto do Doutor, apenas um capítulo acabou, e logo outro foi aberto. O veterano ator britânico Peter Capaldi surge então como o 12° Doutor, com uma notável e hilária perda de memória ou crise de consciência, nos deixando uma curiosidade enorme em saber do que se tratará a sua nova jornada. Demonstrando que não faltará combustível e histórias para a saga de Doctor Who prosseguir por mais alguns anos. Ou décadas.

06

O Doutor está morto. Vida longa ao Doutor!

One thought on “[SÉRIES] Review: Doctor Who – The Time of the Doctor

  1. Melhor especial de Natal – ainda não vi o da 8ª temporada, só pra avisar – e melhor regeneração, depois da do 4º Doutor, que foi épica.

Comments are closed.