[SÉRIES] Os planos infalíveis de House of Cards

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De tempos em tempos, muito de vez em quando, surge alguém que se depara com uma situação nova e não-familiar e consegue NÃO agir como um completo idiota. É raro, admito. Quase sempre, as pessoas reagem às novidades com medo e ignorância, agarrando-se desesperadamente àquilo que funcionava no passado. Foi assim com a democracia, com a ideia de que alguém não nascido na nobreza poderia governar ou ser alguém na vida, com os computadores, o rock’n’roll, o cinema falado, a troca do vinil pelo cd, e está acontecendo agora em relação ao casamento gay, por exemplo. Sempre tem gente esperneando que onde já se viu, nunca foi assim, tudo funcionava muito bem do jeito que tava, essa modinha não vai pegar e por aí vai. Defendendo sua obsolescência com unhas e dentes, como se o novo fosse um atentado a seus direitos fundamentais.

Dentre as várias novidades que o mundo informatizado das redes neurais, produção coletiva de conteúdo e memes de boneco de palito nos trouxe, poucas têm sido tão controversas como a pirataria, ou “liberdade de informação” como defendem alguns. As grandes empresas e associações de cinema, música etc. tratam como se fosse o Anticristo, e os governos geralmente seguem a mesma linha. Mas há quem defenda que a torrentagem desenfreada é uma alternativa válida quando o conteúdo é restringido (por exemplo, filmes ou séries que não saem em determinado país, ou demoram pra caramba pra sair), ou tem seu preço absurdamente e artificialmente inflado como nos cinemas de hoje, ou até mesmo que faz bem pro pessoal que produz o conteúdo (um executivo da HBO e um diretor da série admitiram que a pirataria ajudou bastante a divulgação de Game of Thrones, e Tropa de Elite também é um ótimo estudo de caso).

Em todas as mudanças de paradigma, como eu disse, de vez em quando tem algum iluminado que resolve não ser uma besta quadrada pra variar um pouco, e nesse caso não foi diferente. A Apple, notando que as pessoas gostavam de baixar músicas, resolveu simplesmente dar meios para que fizessem isso de forma fácil e rápida, mas pagando pelo serviço. Pra desespero do pessoal que achava que Kazaa era obra do cão, isso deu certo, e hoje ganham uma boa nota com isso, mostrando que o pessoal não se importa tanto em ter as coisas de graça, mas sim em não ser tratado como idiota.

A internet resumida em uma imagem

A internet resumida em uma imagem

Pra televisão, a coisa fica pior ainda, pois (no caso de canais abertos) qualquer um que esteja sintonizado no canal em questão, na hora programada e dentro da área de cobertura, a coisa é “de graça”; entretanto, quem quiser gravar e/ou transmitir para que se possa assistir em outra hora ou local é um ladrão marginal FDP, mesmo se tratando de material grátis. A coisa fica esdrúxula com serviços como o Hulu, que permite assistir TV aberta de grátis na net… mas só se você estiver localizado fisicamente nos EUA (verificado através do IP do seu computador). Tipo, a internet teoricamente é a mesma no mundo todo, mas Deus me livre se você tentar assistir um programa pago pelos anunciantes dos Estates Uniteds no Brasil.

Pois muito bem, essa putaria toda vinha acontecendo até chegar alguém colocando em prática a mesma ideia simples e revolucionária do iTunes: nossa mãe e salvadora dos nerds, a Netflix. “Vocês querem baixar filmes e séries no computador pra ver a hora que quiserem, seus nerds? Então TOMA, e com qualidade e conexão decente, desde que paguem.” (Aliás, achei bem significativo o fato de a sede da Netflix ser numa cidade chamada LOS GATOS.) E, novamente, a geekaiada pagou de bom grado.

Claro, ainda tinha o problema de as séries chegarem meio (MUITO) atrasadas, depois que todo mundo já viu, e dá-lhe BitTorrent. E foi aí que a empresa do logotipo vermelhinho quebrou as pernas ao mesmo tempo da concorrência e da pirataria, tomando uma atitude extremamente ousada: Ela fez sua própria série, e uma série FODA. Não é uma sitcomzinha de fundo de quintal não, é coisa fina, padrão HBO, com atores de primeira linha e bastante grana envolvida. Tudo isso pra soltar na net (bem, em seu site pago, mas enfim), e – algo inédito na história da TV – a temporada inteira de uma vez. O resultado foi House of Cards, série aclamada e cheia de prêmios (não ganhou em Melhor Série Dramática no Emmy, mas chegou perto, e faturou outras categorias), e cuja segunda temporada está saindo próximo dia 14 (novamente, tudo ao mesmo tempo).

Esse sangue é de executivos de todas as grandes emissoras.

Esse sangue é de executivos de todas as grandes emissoras.

A série acompanha as maquinações e artimanhas do deputado Frank Underwood, do Partido Democrata (aliás, é raro terem o colhão de colocar personagens de ficção em um partido político real, ainda mais o protagonista). Ele é o whip, que nos EUA é o responsável por botar ordem nessa zorra toda que é o lado Democrata do Congresso, indicando como seus colegas devem votar e aplicando penalidades disciplinares quando eles não se comportam. No primeiro episódio, acabou de tomar posse um novo presidente dos EUA que Frank praticamente colocou lá com seu apoio, mas que não cumpre com o prometido ao nomear outra pessoa pro cargo que ele queria (Secretário de Estado, o chefe da diplomacia e política externa). Traído, Underwood coloca em prática um plano diabólico para… bem, não sabemos direito qual é o objetivo final dele, muito menos os detalhes do plano, além de que ele vai foder com a porra toda.

Logo aí já entra uma pequena crítica ao enredo da série: Ao estabelecer que Frank tem um puta plano maquiavélico, mas sem revelar como ele é, fica muito fácil fazer com que todo tipo de coisa aleatória pareça friamente calculada, mesmo que tenha todo o jeito de ter sido tirada da cartola. Isso às vezes acontece, ainda que a maioria das maquinações de Frank soem plausíveis. Tudo bem que entregar tudo logo de cara tornaria o resto da série chato, mas sei lá, seria legal se a série mostrasse de vez em quando que existe um plano, que não é tudo na base do improviso.

Dito isso, o aspecto onde House of Cards mais brilha é nos seus personagens. Frank vai além do espertalhão diabólico que prevê tudo, se mostrando um personagem complexo e cheio de facetas. Ele fica destemperado quando as coisas não saem como ele queria (principalmente quando as pessoas o desafiam), agindo às vezes por impulso; seu ego e sede por poder vez por outra tomam conta, levando-o a tomar atitudes questionáveis; ele tem um lado carinhoso, demonstrado principalmente em relação à sua esposa Claire; e seu humor sarcástico, presente nas olhadas que ele dá pra câmera, dá um toque todo especial. (Aliás, vale destacar esse recurso que a série adota de quebrar a “quarta parede“, com Frank falando com o telespectador o tempo todo; de princípio, isso parece estranho pra caramba, mas logo você entra na brincadeira, e essa atitude dá uma tremenda sensação de intimidade com o protagonista.) Claire, a esposa de Frank, é igualmente determinada e focada em seus objetivos, o que às vezes gera conflitos entre os dois (e com terceiros); Zoe, a jornalista com quem Frank se relaciona e que usa para vazar notícias ao público, está em busca de seu lugar no mundo da imprensa, muitas vezes dividida entre a integridade e o sucesso; Peter, o deputado alcoólatra e drogado que Frank manipula, quer simplesmente acreditar que vale alguma coisa no mundo; e por aí vai. Até os personagens mais passageiros demonstram profundidade.

Então é daí que vem o nome?

Então é daí que vem o nome?

Às vésperas da segunda temporada, House of Cards ainda está mostrando a que veio, mas já provou ser uma obra bastante caprichada. O enredo é envolvente, com complicações surgindo a toda hora pra infernizar a vida do nosso nobre deputado, que cada vez mais mostra que não tá pra brincadeira. As tramas se sucedem em um ritmo alucinante, que até agora tem se mantido bem firme, sem enrolação ou “barriga”. Se você parar pra pensar que a série mostra os bastidores da política no Congresso, ela tinha tudo pra ser um pé no saco, mas consegue surpreender e te deixar ansioso pro próximo capítulo (que, aliás, você sempre pode assistir logo em seguida – afinal, é Netflix). Que venha então a segunda temporada!

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One thought on “[SÉRIES] Os planos infalíveis de House of Cards

  1. Muito bom!!! Fui um pouco reticente sobre assistir a série. Sempre dava um jeito de dar uma enrolada do tipo: Ah sim, vamos assistir…. ou Outro dia a gente assiste… Lamentei e muito por não ter começado a assistir antes! Achei q seria complicado e tedioso.. afinal, quem gosta de política? Hoje eu mal posso esperar para a segunda temporada!!

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