[SÉRIES] Os horrores reais de American Horror Story: O Homem do Machado

The Axeman

Depois da Madame LaLaurie e Marie Laveau, retornamos mais uma vez às nossas investigações sobre as figuras reais por trás de algumas personagens de American Horror Story: Coven, dessa vez com um misterioso matador (que, na série, comete um grave engano ao se meter com as bruxas da Academia da Srta. Robichaux) conhecido apenas como o Homem do Machado de Nova Orleans (ou The Axeman of New Orleans em inglês).

Dessa vez não há muito o que se falar em biografia, pois, apesar do Homem do Machado ter sido uma pessoa real, ninguém sabe ao certo quem foi ele. Afinal, trata-se de uma série de crimes que nunca foram definitivamente solucionados, apesar de haver suspeitos – um verdadeiro caso de serial killer, digno do legado de Jack o Estripador.

A nossa história começa na manhã de 23 de maio de 1918, em plena Primeira Guerra Mundial. Os irmãos Jake e Andrew Maggio, por volta das quatro da manhã, acordaram com barulhos estranhos vindos da casa ao lado, onde seu irmão Joseph morava com sua esposa. Após bater na parede, sem resposta, eles resolveram entrar lá. Chegando na porta da cozinha, perceberam que um painel da mesma tinha sido removido usando um cinzel, o qual estava no chão em cima do painel. Entraram e, chegando ao quarto de seu irmão, viram ele e a esposa na cama, cobertos de sangue. Joseph tinha ferimentos graves de corte na cabeça; ele foi encontrado ainda vivo, mas morreu antes que a ambulância chegasse. Sua mulher, Catherine, já estava morta quando os irmãos chegaram, também com ferimentos cortantes no rosto e pescoço. No banheiro, logo ao lado, havia dentro da banheira uma pilha de roupas masculinas e um machado, limpado às pressas mas ainda com traços de sangue (o qual pertencia ao próprio Joseph Maggio). Uma navalha ensanguentada estava também na cama. Nada foi roubado da casa.

Assassinato do casal Maggio

A cena, dramatizada em uma HQ de Rick Geary

A polícia logo concluiu que o casal fora golpeado com o machado e “finalizado” com cortes de navalha no pescoço. Ao questionarem a vizinhança, descobriram que Andrew esteve circulando pelo local de madrugada (consta que estava voltando de uma noite de bebedeira), e que a navalha pertencia a ele. Logo ele foi preso, apesar de jurar que era inocente, tendo sido solto após alguns dias por falta de provas.

Pouco mais de um mês após o duplo assassinato, a casa do comerciante polonês Louis Besumer foi invadida por um desconhecido que atacou a ele e à sua amante, quase matando-os, antes de fugir. Novamente, o criminoso entrou removendo um painel da porta com um cinzel (o qual ele deixou no local), e novamente a arma do crime foi um machado, que também pertencia à vítima (e foi deixado no local). Novamente, nada foi levado. As coincidências eram grandes demais para se ignorar – entretanto, não parecia haver qualquer conexão entre as vítimas. Besumer não foi capaz de descrever o bandido; sua amante primeiro disse que fora atacada por “um mulato” (um empregado negro de Besumer chegou inclusive a ser preso, e liberado pouco depois por falta de provas), e depois mudou sua versão, dizendo que tinha sido atacada pelo próprio Louis, que supostamente teria dado machadadas na própria cabeça após atacá-la, e seria (segundo ela) um espião dos alemães. Por mais absurda que fosse a história, ele acabou sendo preso logo após a moça morrer de seus ferimentos no hospital, e passou nove meses na cadeia antes de ser inocentado. Entretanto, ele claramente não era o responsável, pois o Homem do Machado atacou novamente.

Bifur

Louis Besumer, óbvio culpado

Em agosto, o empresário Edward Schneider chegou em casa à noite e encontrou sua mulher, que estava grávida, coberta de sangue e com enormes ferimentos na cabeça e rosto. Ela ainda estava viva, e pôde ser socorrida a tempo (inclusive dando à luz uma filha totalmente saudável dois dias depois). Novamente, nada foi roubado, e nenhuma porta ou janela foi quebrada (os registros não dizem se o tal cinzel foi usado para abrir a porta). A única coisa de que ela se lembrava era “um vulto sombrio” a atacando. Dias depois, as irmãs Pauline e Mary Bruno acordaram de madrugada com um ruído no quarto de seu tio idoso, com o qual moravam; ao investigar, o vulto fugiu, de forma impressionantemente rápida, “como se tivesse asas”, segundo Pauline. Elas encontraram o tio, Joseph Romano, coberto de sangue e com cortes profundos no rosto; ele foi levado ao hospital, mas não sobreviveu. Novamente, os detalhes do machado deixado no local, o painel da porta removido com um cinzel e a ausência de furto se confirmaram.

O pânico estava instaurado na cidade. Os jornais alardeavam que havia um maníaco à solta. Começaram a surgir vários relatos de pessoas que diziam ter encontrado machados ou cinzéis na porta de casa. O fato de que as vítimas nunca conseguiam descrever o assassino só aumentava o mistério, dando um ar sobrenatural ao criminoso. Um detetive aposentado chamado John Dantonio apontou semelhanças com uma série de assassinatos que ele investigara, em 1911, nos quais comerciantes italianos foram mortos em suas camas, à noite, com machadadas na cabeça, com indícios de que o assassino entrou no local removendo um painel de uma porta. Dantonio teorizou que o assassino seria uma espécie de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” – um cidadão correto e acima de qualquer suspeita, mas com um lado sinistro, que tomaria conta dele de vez em quando, levando-o a cometer atos terríveis. Esse “Mr. Hyde” teria estado dormente entre 1911 e 1918, explicando assim o intervalo de sete anos. Outros, vendo a conexão entre comerciantes italianos, sugeriam que a Máfia estava envolvida, apesar de haver dois incidentes (Louis Besumer e a Sra. Schneider) que não se encaixavam na teoria.

Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Prova nº 1 da tese de Dantonio

Após o assassinato de Joseph Romano, os ataques cessaram, ao menos por um tempo. Pouco a pouco, a calma foi retornando a Nova Orleans, e a história do Homem do Machado foi sendo gradualmente esquecida. Até que, exatos sete meses depois, em 10 de março de 1919, o comerciante Iorlando Jordano ouviu gritos vindos da casa de seu vizinho, Charles Cortimiglia. Ao socorrer, Jordano deparou-se com Rose, esposa de Charles, gravemente ferida, e carregando no colo o cadáver de sua filha de dois anos, que levara uma machadada na nuca. Charles estava no chão, em uma poça de sangue, ainda vivo. Novamente, o atacante entrou por um painel da porta, e foi encontrado um machado ensanguentado na casa; Charles disse ter lutado brevemente com o assassino, mas não pôde identificá-lo. Jordano e seu filho, rivais dos Cortimiglia no comércio, foram acusados pelas vítimas e presos, apesar de haver controvérsias sobre seu envolvimento. Seja como for, uma coisa era clara: o Homem do Machado estava de volta.

Três dias depois, a cidade foi surpreendida por uma reviravolta no caso: uma carta a um jornal local, supostamente de autoria do próprio Homem do Machado, o qual dizia ser um demônio invisível e assinava a correspondência como sendo do Inferno. Na carta (que é lida no início do sexto episódio de Coven, que introduz o Homem do Machado), após se gabar de como pode matar qualquer um e a polícia nunca irá pegá-lo pois tem medo dele, ele diz ser um fã de jazz (???) e propõe matar qualquer pessoa que não estivesse ouvindo uma banda de jazz às 12:15 da madrugada, quando “passaria” sobre a cidade. A carta poderia muito bem ser uma bela duma trollagem (eu mesmo acho que foi), mas ninguém foi besta de arriscar; naquela noite, todos os salões de jazz estavam lotados, e a cidade famosa por sua festividade e vida noturna agitada teve a maior festa de sua história. Ninguém foi morto na ocasião.

Troll escrevendo

O autor da carta para o jornal

Apesar da ameaça, os assassinatos pararam novamente por vários meses, retornando apenas em uma sequência de três crimes em agosto, setembro e outubro do mesmo ano. As vítimas foram o comerciante Steve Boca, que sobreviveu (mas não se lembrou de detalhes sobre o atacante); a jovem de 19 anos Sarah Laumann, que também sobreviveu sem memórias do incidente; e o comerciante Mike Pepitone, cuja esposa esbarrou com o atacante enquanto este fugia, mas não conseguiu identificá-lo na ocasião. Todos os três casos reuniam as características dos crimes do Homem do Machado (exceto no caso de Sarah Laumann, cujo algoz entrou por uma janela, ao invés de um painel da porta). Entretanto, a morte de Pepitone foi a última ação do serial killer; depois disso, os crimes pararam tão misteriosamente quanto começaram.

Se a história parasse por aí, já seria um caso eletrizante de crimes em série não solucionados; no entanto, existe um epílogo. Em dezembro de 1920, em Los Angeles, um tal de Joseph Momfre estava andando pelas ruas tarde da noite quando uma figura sombria, toda de preto, saiu de uma porta escura e atirou nele. A assassina não era ninguém menos que Esther Pepitone, viúva da última vítima do Homem do Machado, que (após se entregar para a polícia) disse ter reconhecido o homem como sendo o assassino de seu marido. Investigações recentes revelaram que o homem (na verdade Leone J. Manfre, também conhecido como Frank “Doc” Mumphrey) estava realmente envolvido com a Máfia italiana, e esteve preso justamente nos intervalos entre os assassinatos do Homem do Machado (inclusive no período entre 1911 e 1918). E mais – seu parceiro em seus primeiros crimes (em 1910) era Pietro Pepitone, pai de Mike.

Arya Stark - Kill Ilyn

A aprendiz de Esther Pepitone

Há quem negue esta teoria, dizendo haver poucas evidências da existência de Momfre e seus crimes. Os atentados contra pessoas alheias à comunidade italiana também confundem bastante a história, e a carta, apesar de ter toda a pinta de trote, permanece misteriosa. Mas, que a história é alucinante, isso é certeza – ainda mais com a perspectiva de uma vítima que conseguiu solucionar os crimes e foi buscar vingança com as próprias mãos.

Fontes: Crime Library on truTV.com, Charles Fort Institute, Wikipedia

Veja também:

The Terrible Axe-Man of New Orleans (Treasury of XXth Century Murder) – uma HQ-documentário de Rick Geary sobre o assunto

Os horrores reais de American Horror Story: Madame LaLaurie

Os horrores reais de American Horror Story: Marie Laveau

American Horror Story: Coven – Mid Season Review

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