[SÉRIES] Os horrores reais de American Horror Story: Marie Laveau

Marie Laveau

Na semana passada começamos uma investigação sobre as surpreendentes pessoas reais por trás de alguns personagens icônicos de American Horror Story: Coven, falando da terrível Madame Delphine LaLaurie e dos acontecimentos macabros que ocorreram em sua mansão, tanto em vida quanto após sua morte. Hoje, falaremos sobre uma contemporânea de LaLaurie, e sua mais ferrenha inimiga na série: a misteriosa Rainha do Vodu, Marie Laveau.

Nascida em 1794- ops, quer dizer, 1801… ou seria 1783? Ao pesquisar um pouco sobre essa estranha senhora, fica claro que eu não a chamei de “misteriosa” à tôa. Os poucos dados existentes a seu respeito são incrivelmente contraditórios e confusos, geralmente com várias versões conflitantes sobre cada detalhe de sua vida. Isto se deve não apenas à falta de registros confiáveis da época (ainda mais para pessoas não-brancas), mas principalmente à aura de mistério e às lendas que envolvem Laveau, e que ela certamente buscou incentivar – afinal, isso aumentava seu prestígio e inspirava medo e admiração nas pessoas.

Enfim, Marie era uma “pessoa livre de cor”, parte de uma classe social muito específica da Louisiana pré-Guerra de Secessão – os negros ou (geralmente) mulatos livres há várias gerações, que tinham um nível razoável de riqueza e educação, formando uma espécie de classe média. Seu pai, dependendo da fonte, era ou um mulato pertencente a esse estrato social ou um rico latifundiário branco, e sua mãe uma mestiça com sangue negro e indígena (ou metade branca, segundo alguns). Você já deve ter sacado a confusão. Enfim, seja como for, Marie fazia parte desse grupo social à parte já mencionado, era mestiça, e (provavelmente) veio de uma família com uma situação financeira confortável e criação católica – longe da escrava negra “vodunista” que entrou mais tarde para o imaginário popular.

Laveau casou-se em 1819 com o haitiano Jacques (ou Santiago) Paris, talvez um carpinteiro mestiço, o qual desapareceu misteriosamente seis meses depois. Claro, correm soltas as especulações sobre as circunstâncias e razões de tal desaparecimento, bem como o envolvimento que Marie teve ou não na história. O fato é que, pouco depois, ela ficou “amaziada” (sem casamento formal) com um senhor chamado Christophe de Glapion, um militar(?) mestiço(?) de Santo Domingo, República Dominicana(?), com quem teve ou 15 ou 5 filhos, e que morreu em 1835 ou 1855… ah, você sabe como é. O importante é que, em algum momento, ela teve ao menos uma filha, também chamada Marie Laveau, que teve um papel altamente importante em sua lenda, como veremos mais adiante.

Apesar de ser uma católica professa até o final da vida, é sabido que Marie também era praticante do vodu, em um tipo de sincretismo religioso comum na época (e semelhante ao que se verifica também no Brasil). O título “Rainha do Vodu”, aliás, não é algo aleatório. Esse título era concedido às principais líderes do culto africano, principalmente àquelas mulheres que conduziam a dança ritual semanal na Praça Congo (hoje Parque Armstrong). Sabe-se que Marie participou assiduamente dessas danças, e foi aclamada Rainha do Vodu logo que entrou para esse meio (se por puro mérito, esperteza, intimidação ou sei lá o que mais é objeto de especulação). Ela fazia (e vendia) amuletos tradicionais chamados gris-gris, e praticava também os mais diversos rituais (nos quais misturava elementos católicos e africanos) para trazer a pessoa amada (ou afastar a indesejada), curar doenças, amaldiçoar pessoas, praticamente qualquer coisa que o pagante quisesse. (Ela foi, aliás, uma das pioneiras na exploração comercial do vodu.)

Até aí, tudo dentro dos padrões oferecidos por qualquer “vidente espírita, jogo búzios, ponho cartas e tarô” que você vê em inúmeras propagandas espalhadas pelos postes da cidade. O que fazia de Laveau um espetáculo à parte, no entanto, eram seus aparentes poderes relacionados à adivinhação e ao controle sobre o destino das pessoas, que pareciam ser bem reais, apesar de não terem nada de vodu. Explico.

sumo com a pessoa amada

Herdeiros da Rainha do Vodu

Dizem algumas fontes que Marie foi uma cabeleireira, ao menos quando era mais jovem. Este trabalho fazia com que ela tivesse contato com moças e senhoras da sociedade de toda a cidade, as quais passavam um tempão sentadas em sua cadeira, geralmente tagarelando, como costuma acontecer em salões de cabeleireiro. A diferença aqui é que Marie prestava atenção na tagarelice, e tinha a memória e inteligência para conectar os pontos, desvendando assim tudo o que se passava dentro dos lares de suas clientes. Dizem outros que ela era cafetina, e conseguia informações através de suas “funcionárias”. Outra versão é que ela obtinha seus dados através das pessoas que vinham consultá-la enquanto “mãe de santo” (para usar o palavreado brasileiro) e/ou compravam seus gris-gris. A verdade provavelmente é uma combinação dessas e outras fontes.

Seja como for, algo com o que todos concordam é que Marie Laveau tinha um conhecimento impressionante sobre tudo o que acontecia em Nova Orleans. Dizem que não existia nenhum segredo, por mais íntimo e bem-guardado que fosse, que ela não soubesse. Além de seus conhecimentos próprios, ela tinha uma rede de contatos e informantes de fazer inveja em Petyr “Mindinho” Baelish. Isso permitia que ela não só respondesse praticamente qualquer pergunta de forma sobrenaturalmente precisa, mas também que conseguisse fazer proezas como tirar qualquer um da cadeia (ou colocá-lo lá), ou causar a prosperidade ou ruína de qualquer pessoa, conforme lhe fosse conveniente, só mexendo seus pauzinhos. Isso, claro, se você acreditar nas lendas – pra variar, as fontes discordam, algumas dizendo que ela nunca fez nada do tipo. Mas, que ela era uma das pessoas mais influentes e bem-conectadas da cidade, disso você pode ter certeza.

Littlefinger

Marie Laveau? É a minha mentora.

Marie Laveau morreu em junho de 1881, um fato amplamente noticiado pelos jornais da época, aparentemente de forma pacífica e em sua cama. Esta morte seria perfeitamente normal, exceto pelo fato de que isso não mudou em nada os encontros de vodu na Praça Congo e no Lago Pontchartrain, que ela continuava conduzindo do mesmo jeito de sempre. Isso mesmo – apesar de ter tido um enterro público com muitas testemunhas, ela continuou serelepe e faceira, como se nada tivesse acontecido… aliás, faceira até demais, pois não parecia ter nem metade dos seus 87 anos (ou 98, como reportado erroneamente na época). Ela estava viva e jovem. Parecia que a Rainha do Vodu realmente tinha poderes sobrenaturais…

Se você for perspicaz, já deve ter sacado o esquema – assim como algumas pessoas da época também o sacaram, claro. Mas a coisa só foi resolvida definitivamente quando Marie Laveau morreu novamente em 1897, agora “de vez”. A resposta do mistério era simples: como já disse antes, a Rainha do Vodu teve ao menos uma filha também chamada Marie, a qual, pelo que consta, era parecidíssima com a mãe. Isso mesmo, o velho truque do Fantasma. Marie Laveau II (como passou a ser conhecida) simplesmente assumiu as funções da mãe quando esta ficou doente e frágil demais para isso, e continuou após sua morte. Apesar da simplicidade dessa ilusão, ela serviu para aumentar ainda mais a mística ao redor de Laveau, levando à crença de que ela era imortal (tal como retratado na série).

Marie Laveau screams

Quer dizer que não são fatos verídicos? :(((

No final das contas, e bem diferente da Madame LaLaurie, a conclusão final é que a Marie Laveau da vida real foi muito diferente da retratada em American Horror Story, bem como em diversas outras peças de mídia (como a personagem da Marvel), pra não dizer nada das lendas populares. Ela parece ter sido uma pessoa que soube usar muito bem não apenas as informações privilegiadas à sua disposição, mas principalmente uma forma extremamente eficaz de propaganda, que fez com que ficasse, no imaginário popular, muitas vezes maior e mais poderosa do que na vida real. Ainda assim, foi uma pessoa impressionante, uma personagem que fascina mesmo sem quaisquer elementos sobrenaturais.

Na semana que vem, retornamos com mais um personagem macabro de American Horror Story: Coven, o misterioso Homem do Machado!

Fontes: Wikipedia, The New York Times, New Orleans Historic Voodoo Museum, The Commitee for Skeptical Inquiry

Veja também:

Os horrores reais de American Horror Story: Madame LaLaurie

American Horror Story: Coven – Mid Season Review

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