[SÉRIES] Os horrores reais de American Horror Story: Madame LaLaurie

Delphine LaLaurie

Quem acompanha American Horror Story sabe que um dos maiores diferenciais da série são os personagens fascinantes e macabros (ou pelo menos esquisitos) que povoam a série, desde o casal com profundos problemas matrimoniais da primeira temporada, passando  pela freira possuída pelo capeta em Asylum, até o “time” de bruxinhas de Coven. (Pra não falar das personagens de Jessica Lange, que simplesmente domina sempre que entra em cena.) Quase todos são complexos e ambíguos, provocando um misto de simpatia e arrepio com suas bizarrices. Mas o que dá um toque todo especial às histórias é a maneira como elas às vezes se conectam com a vida real, inclusive com personagens saídos das páginas da História (ou das lendas).

A terceira temporada, Coven, não decepciona neste aspecto, e traz uma série de figuras horripilantes do folclore de Nova Orleans, geralmente desconhecidas do público de nossas terras onde canta o sabiá. Logo no início do primeiro episódio, conhecemos Madame Delphine LaLaurie (fantasticamente interpretada por Kathy Bates), uma socialite do século 19. Ela não demora para mostrar seu lado profundamente maligno, pois logo vemos que ela mantém um sótão onde inflige as torturas mais cruéis possíveis a seus escravos (e, como descobrimos depois, até a pessoas de sua família). Na série, ela tem um destino verdadeiramente pior que a morte, nas mãos de sua inimiga Marie Laveau (que será abordada no próximo post), o que a coloca bem no meio da trama que conduz esta temporada.

Seguindo o fio da meada deste post, você já deve ter sacado que realmente existiu uma Madame LaLaurie no mundo real. A pergunta que fica é: o quanto essa figura histórica tem a ver com o monstro retratado na série? O assustador é que as duas são, sim, terrivelmente semelhantes. LaLaurie nasceu (com o nome de Marie Delphine McCarthy) por volta de 1775, já em Nova Orleans. Ela casou-se três vezes: a primeira em 1800, com um oficial espanhol chamado Don Ramon (sem relação) de Lopez y Angullo, que morreu em 1804 em Cuba, no caminho de uma viagem para a Espanha; a segunda em 1808, com um rico homem de negócios e traficante de escravos chamado Jean Blanque, o qual morreu em 1816; e a terceira em 1825, com o médico Louis LaLaurie. Não se sabe as circunstâncias das mortes de seus primeiros dois maridos, o que, dado o caráter ~benevolente~ da figura, pode dar margem a todo tipo de especulações.

Delphine LaLaurie

A verdadeira Madame LaLaurie

Foi juntamente com seu terceiro marido que Delphine adquiriu a mansão luxuosa onde morou até seu fim trágico (e que é retratada na série), e passou a participar ativamente da alta sociedade de Nova Orleans dando as festas mais chiques e opulentas da cidade. Ao menos publicamente, consta que a senhora LaLaurie era gentil e afável, aparentando inclusive tratar bem seus escravos e preocupar-se com a saúde deles. Entretanto, os rumores sobre sua verdadeira natureza cruel já circulavam na época, ao ponto que um oficial chegou a visitar sua mansão para advertir sobre as leis contra os maus-tratos a escravos (sim, elas existiam), não encontrando nada de estranho naquela ocasião.

Estes rumores foram finalmente confirmados quando uma vizinha, certo dia, viu Delphine correndo enfurecida com um chicote atrás de uma pequena escrava de doze anos. Consta que a menina estava penteando os cabelos de sua “dona” quando, provavelmente por ter encontrado em algum nó, acabou puxando sem querer os cabelos da senhora, o que provocou esse acesso de ira. O caso é que, em sua fuga aterrorizada, a garotinha foi para o telhado, de onde pulou da casa (que, vale lembrar, tinha três andares bem altos). A menina morreu com a queda, e foi enterrada em uma cova rasa no quintal. O “espetáculo” rendeu uma investigação mais aprofundada sobre o estado dos escravos dos LaLaurie e, desta vez, foram constatadas diversas violações da já mencionada lei contra maus-tratos. Nove escravos foram apreendidos pelas autoridades e colocados em leilão – o que de nada adiantou, pois a Sra. LaLaurie convenceu parentes a comprá-los e passá-los de volta para ela logo em seguida. O escândalo foi fatal para a reputação pública da socialite e seu marido, que se tornaram “párias” perante a alta sociedade.

Os maus-tratos, claro, continuaram (e provavelmente até pioraram), culminando no incidente em abril de 1834 que finalmente expôs ao público os horrores da mansão LaLaurie. Na ocasião, um incêndio iniciou-se na cozinha, e acabou se espalhando pela casa. Dizem os relatos que ele foi causado pela cozinheira de setenta anos, que foi encontrada acorrentada ao fogão, por não suportar mais as torturas que sofria nas mãos de sua mestra. Enquanto o fogo se alastrava, LaLaurie fez o possível para salvar suas roupas, joias, pratos etc., aparentemente nem se lembrando de seus servos, que estranhamente não podiam ser vistos em lugar algum. As pessoas que estavam participando do socorro ao incêndio questionaram se os escravos estavam trancados na senzala; quando os LaLaurie se recusaram a entregar as chaves, os socorristas derrubaram a porta, e se depararam com uma cena dantesca e revoltante, saída das mais insanas histórias de terror.

escravo na jaula

Começando por aí.

Os detalhes exatos do que encontraram ali dentro não são certos, pois com o tempo, as lendas e exageros acabaram se misturando com a realidade. O certo é que havia ali vários escravos acorrentados de maneira grotesca (com os membros esticados até quebrar, ou contorcidos em posições não-naturais), alguns com coleiras com espinhos (para dentro), outros tantos gravemente feridos e até mutilados. Reza a lenda que uma escrava estava com seus braços e pernas quebrados e rearranjados no formato de um caranguejo; outra tinha todos seus membros amputados e a pele rasgada em anéis, de forma a parecer uma lagarta; havia um homem com seu sexo “trocado” de maneira brutal; outros tantos com os olhos e boca costurados; e várias outras histórias que foram crescendo com o tempo.

Seja o que for que encontraram lá dentro, foi tão absurdo e horripilante que imediatamente formou-se uma turba para linchar LaLaurie. De nada adiantou, no entanto – antes que pudesse ser capturada ou levada às autoridades, ela e seu marido desapareceram e nunca mais foram vistos. Dizem os rumores que uma carruagem foi vista correndo loucamente pelas ruas de Nova Orleans, supostamente carregando Delphine para o porto, e de lá para Paris, onde reputa-se que ela viveu por mais muitos anos. Outros dizem que ela conseguiu, de alguma forma, continuar vivendo na região. Entretanto, não há evidências conclusivas sobre o que aconteceu com a monstruosa dama após o incêndio. Claro, American Horror Story: Coven oferece uma resposta alternativa muito bem-bolada… e perfeitamente plausível (quer dizer, uma vez que se aceite a magia que a possibilita), dado o fim misterioso da Madame.

Mansão LaLaurie

A infame mansão LaLaurie

Quanto à mansão, ela passou por sucessivos donos ao longo dos anos. Após um período de abandono, no qual eram comuns as histórias de assombrações e de pessoas que iam passar a noite lá e nunca mais voltavam, ela foi comprada em 1837 por um homem, que (pelo que dizem) ouvia barulhos, gritos e grunhidos estranhos de noite, e abandonou o local três meses após a compra. Décadas depois, foi restaurada e transformada em uma espécie de reformatório, que fechou pouco tempo depois. Virou então um conservatório de música para jovens senhoras da sociedade, que foi logo fechado devido a um escândalo de abusos sexuais por parte de um dos professores. Em 1892, foi descoberto no local o cadáver de Jules Vignie, um membro altamente excêntrico de uma família rica de Nova Orleans, o qual estava vivendo secretamente na mansão (então abandonada) havia anos, em condições miseráveis e rodeado de antiguidades e outros tesouros. A casa foi então convertida em uma série de apartamentos baratos, cujos habitantes duravam pouco tempo no local; muitas histórias impressionantes de assombrações datam desta época. Foi também um bar e uma loja de móveis (cujo dono reclamava de frequentes roubos, até ficar de vigília uma noite, na qual vários itens sumiram mas ninguém foi visto entrando no local). Atualmente, a casa, já reformada, tornou-se uma residência de luxo, cujo último dono conhecido foi ninguém menos que Nicolas Cage (que comprou a mansão em 2007, e a perdeu devido a suas dívidas em 2009). O endereço é uma espécie de ponto turístico da cidade, devido a seu passado aterrorizante e sua fama de mal-assombrada.

Fontes: Wikipedia, The LaLaurie Legacy, Haunted New Orleans, NOLA.com, FrenchQuarter.com

Veja também:

Os horrores reais de American Horror Story: Marie Laveau

 American Horror Story: Coven – Mid Season Review

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