[SERIES] ORANGE IS THE NEW BLACK (resenha, 1ª e 2ª temporada)

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Existem ao menos duas certezas inabaláveis nesta vida: os cylons têm um plano, e as séries originais da Netflix merecem ao menos uma conferida. Podem não ser brilhantes ou épicas sempre, mas no mínimo são boas.

Dito isso, “Orange is the New Black” tem um começo bastante decepcionante. Ao ser uma série sobre a vida em uma prisão feminina, a primeira coisa que um nerd pensaria é que é hora de desabotoar o zíper da calça, porque vai ter muito lesbianismo e peitos gratuitos, o que é prontamente entregue em abundancia.

O que é realmente desinteressante, a menos que você tenha 16 anos e por algum motivo nunca tenha ouvido falar da internet.

Mas hey, como é uma série da Netflix, ela merece uma chance, certo?

OTNB feira de empregosOTNB conta a história (baseada em uma história real) de Piper Chapman, uma patricinha sem sal que passa 15 meses em uma prisão de segurança minima por ser mula no tráfico de drogas. Não é exatamente uma versão feminina de Oz, sendo muito, muito, mas muito mais leve, ao ponto de se poder considerar uma comédia (mais na classificação dramática do que por ser engraçada).

Não levar a série a sério (me pergunto porque nunca falei essa expressão antes, é gostoso de dizer), e não esperar que ela tenha muito vinculo com a realidade, é um dos segredos de se divertir. OTNB está mais para Once Upon a Time do que Oz, por assim dizer: a prisão de OTNB é um lugar tranquilo, susse e divertido.

Diabos, aquela prisão é mais tranquila do que andar em qualquer cidade brasileira (sério), mas esse não é o ponto aqui. Então qual é? A série brinca de forma leve com os conceitos e estereótipos do imaginário popular de como é a vida na prisão, mas isso é apenas pano de fundo para as relações dos personagens.

Um episódio tipico de OTNB funciona em duas partes: tem o episódio padrão na prisão e, durante ele, cenas que contam uma segunda história da “detenta” do dia, sobre como ela foi parar na prisão. Mais ou menos como Oz funcionava.

E sabe o que mais? Nesse aspecto a série funciona.

are you fucking kidding me laura preponA série tem personagens estereotipadas bem divertidas, como a russa durona, a transexual de 1,80m, ou a caipira fanática religiosa, que por si só sustentam a série em sua comédia escrachada. E se tudo mais falhar, só de ver a Laura Prepon morena de óculos pegando novinhas sempre vale a pena.

Ao contrário da vida boa na prisão (ao menos na série), nem tudo são flores e arco-iris, e muitas coisas não funcionam como deveriam. A começar pela protagonista, que é chata e mimada ao ponto que você realmente torcer para que alguém meta a mão na fuça daquela branquinha azeda.

O bom é que a própria série percebeu isso, e na segunda temporada a participação da sua protagonista é muito reduzida, ao ponto de ter episódios em que ela mal aparece. Eu diria que o noivo dela ser o Stifler (Jason Briggs) é uma justiça poética, que dimensiona o nível da personagem.

first world problemsMas como eu disse, quando Piper não está dando xilique por “problemas de primeiro mundo”, a série funciona em mostrar uma versão comédia light da vida e dos problemas que as outras detentas enfrentam: discriminação de gênero, racial e sexual, a heteronormatividade vigente, corrupção e um sistema prisional que ninguém tem a menor ideia de qual o seu real propósito.

Ninguém vai compartilhar no Facebook como se fosse uma tirinha do Armandinho para “fazer pensar” (sério, se não inventaram um botão de socar as pessoas pela internet para quem compartilha esse lixo nada mais justifica), mas dá o recado e funciona na tonalidade que foi proposta. Dá o recado sobre problemas reais sem ser “ista” ou pedante, muitas séries e filmes poderiam aprender alguma coisa com isso.

A série não vai mudar a vida de ninguém e nem render grandes recomendações, mas tem o padrão Netflix de qualidade, e se você passar o fanservice exagerado, não encarar a série como uma comédia sem fazer correlação com a realidade (não é assim que funcionaria na vida real, quanto antes você aceitar isso, mais rápido vai se divertir), não é ruim de se assistir, e vale o seu tempo gasto (que não é tanto, afinal, apenas 13 episódios em duas temporadas até aqui).

nota-3