[SÉRIES] JESSICA JONES (ou precisamos falar sobre o Kevin)

Seguindo nosso esquenta para a série do Luke Cage, que estreia essa semana, é hora de dar outra olhadinha no que a parceria Marvel/Netflix fez até aqui:

jessica-jones-1De todas as formas que eu poderia resumir Jéssica Jones, a melhor foi um tweet que eu li por aí:

“Jéssica Jones é uma série onde todas as personagens importantes são mulheres e os homens existem apenas para serem vilões ou serem gostosos… ah, então essa é a sensação!”

Mas estou me adiantando um pouco, vamos começar do começo.

Depois do sucesso de Demolidor, a parceria Marvel/Netflix estava com a cama feita diante de si para deitar em berço esplêndido e apenas nadar nos louros do seu trabalho. O que quer dizer que qualquer série de super-herói que eles soltassem seria mais assistido que nudes da Scarlett Johansson. Sério, era só colocar uma novinha de colant em um beco escuro e tava tudo certo.

Como a maioria das pessoas, eu não fazia caralhos de ideia de quem era Jéssica Jones – sabia que era uma detetive com superforça que orbitava a 3ª divisão de heróis da Marvel. Obscuro mesmo, nível Guardiões da Galáxia de obscuro.

zebediah_killgrave_earth-616Eu conhecia mais o vilão da história, porque ele somava ter um dos poderes mais subaproveitados do universo Marvel (sério, um cara que faz o que ele pode fazer não pode ser um vilão de 5ª) com um dos visuais mais idiotas dos quadrinhos. Ele era um cara roxo, daí sua alcunha de “Homem-Purpura”. Ok, pensando melhor, acho que entendo, sim, porque ele é subaproveitado.

Seja como for, eu não esperava grandes coisas da Jéssica Jones, porque grades seriam as chances de que seria apenas um tipo de Elektra sem grife. Para minha grande surpresa, Jéssica Jones não é uma série sobre esse tipo de super-herói.

Para minha surpresa maior ainda, não é sequer uma série sobre super-heróis.

Jéssica Jones está para o universo cinematográfico Marvel como Torchwood está para Doctor Who. Salvo algumas referencias aqui e ali, você só diria que está na mesma cidade que o Demolidor por causa da ambientação (e a participação da enfermeira do Demolidor, que em determinado momento diz que pode “chamar um amigo que faz essas coisas” e você fica “vai vai chama ele logo!”)

Isto posto, a série faz algo que eu respeito muito do ponto de vista narrativo: usa a aventura e as figuras populares como metalinguagem para falar de um outro tipo inteiramente diferente de assunto.

Esta série usa super-heróis e poderes sobre-humanos para falar de coisas bastante humanas: relacionamentos abusivos em todas suas variedades (chantagem, tanto financeira quanto emocional, violência doméstica, estupro, etc).

Com efeito, não faria TANTA diferença assim pra série se ninguém tivesse nenhum tipo de poder. A Jéssica poder arremessar um cara do outro lado da rua com um soco é algo absolutamente trivial ao cerne do seriado; os poderes do Kilgrave são menos prováveis de serem desprezados, mas a série AINDA ASSIM funcionaria se ele fosse só um filho da puta manipulador (seria diferente, mas sua essência seria a mesma).

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Mal sabia você que Jessica Jones tem um prequel chamado Breaking Bad

IGUAL, IGUAL, IGUAL, DIFERENTE, MAS IGUAL.

A protagonista em particular é uma mistura dos traços de quem cresceu em um lar violento com uma vitima de estupro. A srta. Jones é fechada e distante, mas não no sentido badass da palavra, tipo Terminator, e sim como uma pessoa quebrada e nada funcional – nada tão diferente do papel da atriz Krysten Ritter em Breaking Bad. E isso funciona perfeitamente aqui.

Mas a principal característica da personagem é que, como usualmente acontece com as vitimas de estupro, ela se culpa muito. “Se eu tivesse usado outra roupa”, “se eu tivesse pego outra rua”, “eu não deveria ter bebido tanto”, “eu deveria ter lutado mais”, são pensamentos bastante recorrentes, e Jéssica transpõe essa culpa para a linguagem fictícia da Cozinha do Inferno.

Com efeito, a Jéssica da Krysten Ritter é tão quebrada e sozinha, que no primeiro episódio ela tem a cena de sexo mais triste da história da televisão (se você achou aquilo sensual, recomendo procurar ajuda).

Todas as ações da personagem, toda motivação dela na série, são no sentido do processo de catarse. De conseguir dizer em alto e bom som que não foi culpa dela, por causa desse processo de cura é tão importante para ela inocentar a Hope – e ela não querer matar o Kilgrave desde o começo é o que faz a série andar.

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Bem nos seus feelz

E se a Krysten faz uma versão de luxo do seu papel anterior, em algum sentido o mesmo pode ser dito sobre David Tennant. Seu vilão, Kevin Killgrave, é na realidade o personagem principal da série e o que faz ela existir. Sem a Jéssica outra pessoa iria atrás dele de uma forma ou outra. Seria diferente, mas a série existiria. Sem Kilgrave não haveria história nenhuma.

Dito isso, Kilgrave aparece surpreendentemente pouco na série. Até o episódio 5 ele sequer aparece, e apenas em dois ou três episódios ele aparece o suficiente para constar mais do que como figurante em tempo de cena. Na teoria isso parece difícil de funcionar, mas na prática é construído um mito tão grande em torno da figura de Kevin Kilgrave, que apenas o fato dele existir no mesmo mundo cria tensão o suficiente para manter a série coesa.

Claro que nada disso adiantaria não fosse David Tennant na atuação da sua vida. Com o pouco tempo que aparece em cena, Tennant constrói seu lugar como um dos grandes vilões da história do entretenimento. Assim como Krysten, ele carrega alguns trejeitos de seu trabalho anterior, mas igualmente aqui é uma apresentação de luxo.

Eu costumo dizer que não acho que o Doutor do Tennant era um mal Doutor: ele era um Doutor mau. E aqui Tennant eleva o patamar de maldade a níveis inteiramente diferentes. Ele é cruel a patamares que até o Estado Islâmico pararia e diria “ow, calma ae, meu roxo, também não é pra tanto”, e nas mãos de um ator menos competente teríamos um aprendiz do Dr. Evil em cena.

tumblr_nisugxldsd1sg9ebxo1_500No lugar disso, Tennant entrega um ser humano podre até a medula (literalmente, nesse caso), mas que ainda assim é um ser humano. E esse é todo ponto aqui.

Não é possível gostar do Kilgrave, mas o ator torna perfeitamente possível entendê-lo: imagine que durante toda a sua vida, desde que você era criança, todos simplesmente fizessem tudo que você pedisse, não importa o que.

Apenas fizessem. Imagine que esse foi o único mundo que você conheceu, que o mundo literalmente girasse ao seu redor, e você tivesse que se esforçar muito para não ser assim (escolhendo cuidadosamente cada palavra). Num cenário assim, que tipo de pessoa você seria? Que tipo de vida você levaria?

Não é possível perdoar o Kilgrave, mas é possível entende-lo.

E a atuação do Tennant leva a um passo além: por alguns momentos você realmente torce por ele. Um cara com os poderes dele poderia resolver a maior parte dos problemas do mundo em poucos minutos sem nenhum esforço. Quando a Jéssica oferece a possibilidade dele ser um herói não tem como não pensar nisso, no que ele poderia fazer se os seus interesses fossem mais tornar esse planeta um lugar incrível, e menos mandar que gente mutile os próprios membros apenas porque deu vontade.

Na verdade, quando a Jéssica trai ele e desiste dessa ideia, eu realmente fiquei com raiva DELA (embora a série seja bem construída para dar a entender que ela pensou seriamente nessa ideia).

Mas, realisticamente, no fim ela estava certa. Não poderia ser feito, sob hipótese alguma, e assim como quando ele interpretava o Doutor, é muito fácil gostar dele e se encantar de verdade com ele quando tudo está bem, e tudo vai conforme os desejos dele. Mas é só o primeiro olhar atravessado para ele e a verdade volta inconvenientemente à tona.

De fato tão inconveniente que, por ele, você considera mais do que normal (ou aceitável) apenas olhar para o outro lado, e essa é a raíz de um relacionamento abusivo. Jessica Jones consegue te fazer ter como espectador, até certo ponto, uma noção de relacionamento abusivo com o Kilgrave.

b_6zqvbwyaaklgcComo eu disse, a série funcionaria mesmo que ele não tivesse nenhum tipo de poder.

Diz-se que os grandes vilões se veem como heróis da sua própria história, e o mesmo vale para Kilgrave no que vale as metáforas propostas na série. Se Jéssica é um escapismo para a violência doméstica, sexual e relacionamento abusivo, Kilgrave é o outro lado da história na pantomima.

Se a reação da vitima é se sentir culpada, a reação do agressor usualmente é se auto-desculpar. “Não, na verdade ela gostou”, “No fundo ela estava querendo”, “Quando uma mulher diz não quer dizer sim”. Kilgrave, como a maior parte dos estupradores, acha pessoalmente ofensivo ser chamado por essa palavra. Só que o que o incomoda é a palavra, não o ato – novamente, tal qual ocorre na vida real.

Em um país que uma em cada três pessoas (incluindo as mulheres) acha que a culpa do estupro é da vitima e que violência doméstica deve ser “resolvida” sem envolver a policia, colocar essa discussão através de simbolismo na cultura pop é muito importante. Mais do que isso até: incomoda. E por isso Jéssica Jones é uma série bem pesada. Não como Game of Thrones, que é “madura” em um sentido bem juvenil da palavra, com violência e sexo, mas sim porque a série é sobre temas que achamos melhor não discutir a respeito.

Aqui entra o parágrafo que abre esse texto sobre a inversão de expectativas na série: o seriado é repleto de conceitos assim. Todos os relacionamentos da série refletem, em algum grau, algum tipo de abuso (a melhor amiga, a advogada, os vizinhos, etc). Meio creep quando você para pra pensar nisso.

Teve uma cena em particular em que o Luke Cage (que, aliás, é um personagem muito interessante, espero muito ver o seriado dele) está só de toalha mostrando seu corpo de negão de 2m de altura por 2m de largura, e a primeira coisa que me veio a mente foi “nossa, que desnecessário…”. Só que aí que está a pegadinha: e por acaso não é assim que o entretenimento se comporta há mais de 40 anos?

Ou precisamos discutir a Leia escrava de novo? Aliás, pensando bem, precisamos, sim, discutir isso, porque, pelo que eu leio por aí, parece que ninguém assistiu esse filme. Enfim, mas isso é outra discussão.

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Além de super força, Jéssica tem o poder de conseguir puxar meia garrafa de uísque de qualquer lugar da casa dela. Pelas minhas contas tem umas trinta garrafas pela metade espalhadas pela casa.

NEM SÓ DE PÚRPURA VIVERÁ O HOMEM

Jéssica Jones (o seriado, não a personagem, que saco escrever sobre títulos homônimos ao protagonista) brilha em seu melhor quando faz o que foi concebida para fazer: expor verdades invertendo expectativas, discutir assuntos pesados através de simbolismo, e apresentar personagens com várias camadas de complexidade.

Entretanto, o seriado fracassa como um nerd no Tinder ao tentar sair da sua especialização, e quase tudo mais é feito com um nível de qualidade que beira uma esquete dos Trapalhões.

As cenas de ação são tronchas, para dizer o melhor. Ok, a Jéssica não tem treinamento marcial, ela não luta, ela briga. Mas, mesmo assim, é muito mal feitinho, ainda mais se considerarmos que veio do mesmo estúdio que nos deu cenas como a luta do corredor em Demolidor.

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Jessica explicando toda vez que ela tem uma “ideia”

Mas, pior do que isso, na maior parte do tempo parece que a Jéssica tem seus planos feitos pelo Willy Coiote, e claramente ela parece não ter pensado direito no assunto. Com efeito, os Três Patetas teriam inveja da cena em que Jéssica e sua gangue tentam sequestrar o Kilgrave.

Veja, tudo bem, ao contrário da maior parte dos personagens da Marvel a Jéssica não é um super gênio. Certo, ela é só uma garota fodida, ok. Só que ela empilha ideias tão ruins uma atrás da outra, que é difícil sequer acreditar que ela possa funcionar efetivamente como detetive particular, investigando qualquer coisa mais complexa que teste de fidelidade do João Kleber.

De uma certa forma, lembrou um pouco Breaking Bad, sabe? Breaking Bad é sobre um nerd querendo se meter a gangster, só para descobrir que na prática a teoria é outra. De igual modo, Jéssica Jones parece um bando de amadores querendo brincar de detetive, com os resultados que você esperaria de um bando de amadores.

Essa incrível “inteligenzia” da Jéssica não só contamina outros personagens, como as subtramas paralelas são construídas com a mesma elegância que a Jéssica decora seu apartamento. Do nada cai do céu uma mulher que atrai a Jessica para uma emboscada, porque ela é uma caçadora amadora (enfase no amadora) de super seres. Do nada a ex-vitima do Kilgrave, que tentou matar a melhor amiga (mas não amiga AMIGA, percam as esperanças nerds) da Jéssica, que começou a namorar ela, participava do mesmo programa que aparentemente deu os poderes a ela. Santo mundo pequeno, Batman! Justamente o cara que fazia parte do programa secreto das drogas da loucura começa a namorar a melhor amiga da Jéssica Joana?

Eu até diria que o Capitão América genérico da Trish é intencionalmente mal escrito para representar o tratamento que as mulheres recebem em filmes de ação, mas mesmo as personagens femininas emburrecem exponencialmente sempre que saem da trama principal.

Nada fora do plot principal é sutil, nada é introduzido gradualmente. Fica aquela sensação de “Kurumadização” da coisa, que alguém inventou na hora apenas porque pareceu legal. Todo cuidado com a relação da Jéssica e de tudo que cerca o Kilgrave é aplicada ao inverso aqui, com uma falta de atenção que fariam os roteiristas do Flash se sentirem orgulhosos.

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Será que alguém lembra desse meme ainda?

Todas as coisas consideradas, Jessica Jones era uma série da qual eu não esperava nada e dialoga de uma forma muito inteligente sobre temas bastante complexos. Precisa de um cuidado maior nas subtramas, mas acho que isso é meio que coisa da primeira temporada.

Ainda mais se considerarmos essa escolha acertadíssima da Netflix de não produzir séries de forma industrial: cada uma das suas super séries é sobre um tema inteiramente diferente do outro, com sua própria identidade e até mesmo seu próprio gênero. Eu não poderia desejar algo melhor.

nota-4