[SÉRIES] DOCTOR WHO: s08e07, s08e08, s08e09 e s08e10 (resenha)

Este sábado agora termina a oitava temporada do Doutor Quem, a primeira de Peter Capaldi com o manto do último dos Senhores do Tempo, então seria um bom momento para rever as aventuras  do Doutor até o momento, e colocar em dia algumas resenhas.

Por isso mãos de sogra, digo, mãos de sobra, digo, mãos à obra!

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s08e07 – Kill the Moon

Plot: Clara dá um ataque de piti porque o Doutor não está tratando sua aluna como alguém especial depois dos eventos de The Caretaker, então, para fazer sua companion calar a boca, ele leva as duas para o ano de 2049, quando algo muito estranho está acontecendo com a Lua, que ameaça destruir a Terra – mas não se a Terra a destruir primeiro!

Opinião: A ideia do episódio é muito boa. Uma aventura na Lua – todos amamos a Lua – com uma  pegada de Alien – O Oitavo Passageiro – e que abre dizendo que a humanidade terá que fazer uma escolha maior que a própria vida, porque o Doutor vazou. Adicione um senso de urgência, e temos a receita de um grande episódio.

Na prática, no entanto, não funciona tão bem assim. Para começar que o que realmente me incomodou neste episódio foi que a ficção científica foi para o espaço. Sem trocadilho intencional desta vez.

Veja bem, eu amo Space Operas galhofadas, e nenhuma série pode ser mais galhofada do que Doctor Who, mas desta vez a coisa foi longe demais. O episódio é ofensivo ao nível em que não é forçado, é apenas preguiçoso. Nada daquilo faz sentido, e isso meio que mata o clima todo.

Outro problema são os personagens: a aluna da Clara que vem a tiracolo é a coisa mais chata e obnoxiosa que eu já vi nessa série em muito tempo. Ela é uma adolescente enjoada, agindo como uma adolescente enjoada. Embora isso sirva a um proposito mecânico de roteiro (Doctor Who não é Alien, afinal), a execução é massante.

Mas o grande problema do episódio, sem duvida, é o espirito da coisa. A grande sacada do episódio é que há uma grande escolha moral a ser feita – no que diz respeito a coisa que está “matando a Lua” – e o Doutor deixa a escolha a ser feita nas mãos dos humanos presentes. Só que como os humanos, a Clarinha jamais tomaria qualquer decisão relevante enquanto acreditar que o Doutor vai puxar um truque do bolso e salvar o dia (o que os Daleks aprenderam do jeito difícil).

O que pega é que a Clara dá um piti monstruoso pelo Doutor estar brincando com a humanidade, e sendo condescendente com os homens, e o argumento dessa discussão é tão sólido quanto tudo mais no episódio. Termina de um jeito que não fica realmente claro pelo que ela esta chilicando, e se é para tanto assim.

Novamente, dá pra ver que tem um objetivo de roteiro a ser seguido, e a grande sequela do episodio é que a Clara e o Doutor têm uma briga realmente feia, e ela pede as contas, ou fica em vias de fazê-lo, mas a execução é forçada para atingir esse objetivo.

Por estes motivos eu achei o episódio “forçado”, apesar do excelente conceito e proposta criativa de atmosfera.

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s08e08 – Mummy on the Orient Express

Plot: em algum ponto do futuro existe uma réplica do lendário Expresso Oriente – imortalizado pela obra da mestra Agatha Christie – no espaço. As coisas ficam loucas quando uma múmia aparece para um passageiro, e este empacota 66 segundos depois. O nosso viajante do tempo favorito e sua companion se metem nessa quando estão em uma viagem “de despedida”, depois da briga feia no episódio anterior.

Opinião: Uma coisa que marca os grandes episódios de Doctor Who são os pequenos elementos marcantes, são as pequenas coisas. Os DVDs em “Don’t Blink“, ou os Ood em “Satan Pit“. São as coisas épicas que nos marcam, mas são os detalhes que nos ganham.

E faz tempo que não tínhamos tantas “coisinhas” em um episódio. O marcador de tempo estilizado quando a múmia aparece, as inúmeras auto-referências (como as icônicas jujubas do 4º doutor , e o mítico “are you my mummy” do 9º Doutor). Além, é claro, das referências à obra de Agatha Christie, que são muito mais sutis do que o título do episódio pode levar a supor.

O relacionamento entre o Doutor e a Clara também funciona muito bem, dado que você ignore os motivos do episódio anterior, e é abordada uma das grandes verdades da vida: quem quer terminar apenas termina, não fica discutindo sobre isso ou faz “passeios de despedida”.

E como o roteiro do episódio é muito mais simples do que o anterior, a sensação de urgência acaba sendo transmitida de forma muito mais eficiente. A pressão para resolver o enigma antes da “múmia” voltar, e o próprio limite de tempo de 66 segundos quando ela aparece, exponenciam o clima e o mistério.

O que, afinal, é a múmia, que só aqueles que estão prestes a morrer podem ver? E qual o critério ou objetivo da “múmia”?

O episódio é, no geral, muito bom, porém, tem alguns… poréns.

O principal problema do episódio é o ritmo: normalmente esse tipo de episódio seria dividido em duas partes, algo que não acontece mais nesta temporada. O que implica que temos muita informação, referências e  peculiaridades compiladas em pouco tempo, e isso tira um pouco da graça do episódio. O melhor exemplo possível são as referências que são tão jogadas no meio do texto, que apenas porque eu sou nerd pra caralho que deu pra pescar algumas coisas, não tem aquele timing certo para o publico se sacar.

A resolução do conflito com a múmia também é menos do que otimizada, e fica um gosto estranho na boca que o mistério é muito melhor do que a resolução, algo que nunca aconteceu com Agatha Christie, já que estamos falando disso.

Bom episódio, mas a direção prejudica algo que poderia ter sido muito acima do bom.

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s08e09 – Flatline

Plot: Aliens de outra dimensão – uma que é composta apenas por duas dimensões – começam a invadir a nossa realidade absorvendo uma das dimensões e “2Dlizando” a realidade. E como efeito colateral, a TARDIS, que afinal é a materialização do fluxo espaço-tempo, começa a encolher por fora ao ter uma de suas dimensões sugadas.

Opinião: Se sintetizar todos os elementos que constituem uma bom episódio de Doctor Who teremos uma ideia criativa de monstro (confere), uma abordagem diferente (confere), atuações inspiradas (confere), e o Doutor sendo badass (confere).

A ideia dos aliens que “grafitizam” a realidade e as pessoas é muito boa, e dá um “monstro do dia” muito original e com cenas tensas e criativas de perseguição. Mas o ponto alto do episódio vai do fato que o Doutor fica preso dentro da TARDIS encolhida, e por isso ele fica apenas assistente da Clara, que assume os sapatos do Doutor.

O que a princípio começa como uma grande piada por parte dela, eventualmente se desenvolve de uma forma interessante para mostrar que ser o Doutor não é nada fácil. Liderar os desesperançados, mentir para salvar vidas, fazer as escolhas “menos piores”, todas essas coisas que o Doutor faz o tempo todo e deixavam ela putinha. Ela aprende do jeito difícil que salvar os humanos – muitas vezes da própria burrice deles – não é um passeio no parque, e no fim das contas ela tem que fazer as mesmas coisas que ela tanto criticava no Doutor.

Agora o ponto alto do episódio, sem dúvida, é o próprio Doutor. Como a TARDIS encolheu, com o Doutor dentro dela, sua companion carrega seu pokémon Doutor na bolsa para todas as necessidades domésticas. Some isso ao cinismo Mr. Beaniano de Peter Capaldi, e  temos excelentes momentos, ótimas gags visuais (como a cena da “Mãozinha” do gif).

Um típico episódio bom de Doctor Who é dificil de explicar e divertido de se assistir, e com uma “lição de moral” bem sacada. E este é claramente o que se enquadra como um bom episódio.

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s08e10 – In the Forest of the Night

Plot: Do dia para a noite, uma floresta surge do nada em Londres, e apenas uma aluna muito especial da professora Clara pode ser a chave para este mistério.

Opinião: Vamos começar falando de coisa boa? Então, Tekpix!

Não, o grande momento do episódio é justamente a interação divertidíssima entre o Doutor House/aspergiano e um bando de crianças fazendo bagunça na TARDIS. Se o 11º Doutor (Matt Smith) era o Doutor das crianças, e seus melhores momentos eram quando estava lidando com os pequerruchos, aqui temos toda falta de tato e jogo de cintura do 12º Doutor sendo catalizadora de muita diversão.

Curiosamente, o ponto fraco do episódio são justamente as crianças também. Temos muitos clichês desinteressantes e fáceis do tipo “oh, alguém pense nas criancinhas, tudo menos as criancinhas!”

Agora, de longe, o maior problema do episódio é que ele é confuso e estranho. Eu sei que quando falamos de Doctor Who “estranho e confuso” é bom, mas esse não é o tipo bom de estranho e confuso.

O roteiro não faz nenhum sentido, e a explicação da floresta ter surgido do nada faz a falta de coerência de “Kill the Moon” parecer digna de um Nobel de astrofísica. E daí vai ladeira abaixo, a única coisa que parece ser importante no roteiro do episódio é o “fator legal”. Se é para fazer uma ceninha legal (que nem são tão legais assim), vale qualquer coisa. Mesmo que não faça sentido. Mesmo que estupre a suspensão da descrença.

Um dos exemplos mais fáceis, mas nem de longe o pior, é que o supercrescimento global de florestas do dia para a noite é algo que acontece frequentemente na história do planeta (tipo, aconteceu duas vezes no último século), e nós não lembramos apenas porque… sei lá, por motivo nenhum. Sério que o episódio é preguiçoso assim.

Adicione muitas correrias sem sentido – ao nível “Fim dos Tempos” de sem sentido – porque tudo se resolve por conta própria, lições de paz e amor para a humanidade nível “ET Bilu”, muito de “oh, pensem nas criancinhas” e muito ecochatismo, e temos um episódio fraco, que só se salva por parcos grandes momentos do Capaldi.

Definitivamente a melhor coisa do episódio é a preview do próximo episódio…

Que venha a season finale!