[SERIES] DOCTOR WHO s08e05: Time Heist (resenha)

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Uma coisa que sempre me impressiona bastante é como as mídias têm peculiaridades únicas. Existem histórias que só podem ser contadas em sua essência através de um livro, outras nasceram para ser um filme, e algumas ainda só funcionam em uma história em quadrinhos.

Braid, por exemplo, só funciona sendo um videogame. Poderia ser adaptado para outras mídias, mas muito da sua essência se perderia. Sin City nasceu para ser uma história em quadrinhos, e uma adaptação cinematográfica literal acaba por ter resultados menos do que… otimizados.

Mas por que eu estou falando isso? Ora, porque Doctor Who é quase uma mídia própria, e tem histórias que só funcionam se contadas em um episódio do bom (será?) Doutor.

Vejamos por exemplo esse episódio: o Doutor e uma equipe de experts têm que invadir e roubar o banco mais seguro do universo de todos os tempos (“se você tem dinheiro para comprar uma galáxia, é aqui que você guardaria ele”). Tipo 11 homens e um segredo, saca?

MAS, tem que ter um “mas”, é aqui que entra o “fator Doutor”, porque ele tem que roubar esse banco… sem sequer saber porque está fazendo isso! Acontece que o planeta-banco é tão seguro, mas tão seguro, que conta com um sistema que detecta automaticamente qualquer pensamento mal intencionada a pisar no planeta, então o único jeito de roubar este banco é roubar sendo o minimamente culpado possível.

Agora sim estamos falando de uma típica aventura whoviana!

Aparentemente o Doutor está muito interessado na sua opinião... sqn

Aparentemente o Doutor está muito interessado na sua opinião… sqn

O episódio abre com o Doutor ferrando novamente com as tristes (e o Doutor frisa bem esse ponto) tentativas de sua companion de ter uma vida social. O que me leva a admitir que a química entre os dois está ficando cada vez mais legal.

Neste aspecto o Doutor é quase tão alienígena quanto o 9º, sempre surpreso com as traquitanas e comportamento esdrúxulo dessa raça que ele insiste em salvar (para comparação, imagine como os bruxos se surpreendem com as invenções dos trouxas, por exemplo), e cabe a Clarinha e seu superpoder da paciência infinita administrar a falta de fato e excesso de sinceridade desse Senhor do Tempo resmungão e rabugento.

A interação entre os dois está algo realmente divertido de se assistir.

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Favor aplicar água na queimadura

Mas voltando ao episódio, nossos atemporais heróis estão presos dentro do banco em um tipo de “Jogos Mortais” em que sob ordens de uma entidade conhecida apenas como “O Arquiteto” eles tem que roubar o banco sem saber exatamente o porque ou o que, mas do contrário terão um destino pior do que a própria morte.

Dito isso, em termos de roteiro, o conceito é melhor do que a execução. Algumas soluções são óbvias e previsíveis (como a identidade do “Arquiteto” por exemplo), e acho que, como um bom filme de assalto, teria sido melhor dar uma ideia do que eles iriam enfrentar para criar aquela expectativa, sabe? O episódio em si é competente como entretenimento e “apenas” (como se uma série de TV tivesse que fazer mais do que isso) diverte. Apesar da edição do episódio estar cada vez mais impressionante.

O grande trunfo na manga do episódio vem no desenvolvimento dos personagens.

time_heist___quote_1_by_elvenwhovian-d80137eA começar que, apesar do tema, não há dinheiro envolvido no assalto. O que está em jogo são coisas de valor pessoal para todos os ladrões (mesmo que eles não saibam disso), inclusive para o Doutor.

O episódio joga muito com sentimentos e esse é o segredo aqui. Além da questão recorrente desta temporada (este Doutor é um homem bom?), vemos mais lados dele, como ele lida com a morte, por exemplo (e que mostra o quanto o 12º Doutor é bem diferente dos outros), ou sob pressão, ou como ele reage quando não está no controle da situação.

É de certa forma muito incrível ver o Doutor “capaldizando” com a sutileza de um coice de mula, e a Clara correndo atrás, tentando justificar que, no fundo, ele não é assim, e que ele não é assim. Por exemplo, enquanto o 11º Doutor não deixaria ninguém para trás sob hipótese nenhuma, este não tem a menor vergonha em admitir “ele já está morto, vamos embora”, quando ele não consegue pensar em nada para salvar seu companheiro.

Se é para roubar um banco, vamos fazer com estilo

Se é para roubar um banco, vamos fazer com estilo

E entre tantos altos e baixos, entre correrias e perdas, aventuras e flertes com um destino pior do que a morte (tipo o seu cérebro virar sopa e você continuar vivo), temos talvez revelada uma ideia que já estava no ar desde o começo da temporada, mas nunca tinha oficialmente visto a luz do sol: a de que o Doutor se odeia. Se pensar sobre isso, foi na verdade uma das primeiras coisas que ele disse, mas é a primeira vez que é efetivamente dito que a culpa por tudo que ele fez de errado, ou não pôde impedir, está finalmente levando a melhor sobre ele.

Afinal, são mais de dois mil anos (e pelo menos dois “reinícios” do universo, até onde eu contei) de perdas e erros…

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Amarguras do 12º a parte, outro ponto alto do episódio foram os coadjuvantes: o “time de assalto” do Doutor. Psy é um humano augumentado (vulgo ciborgue) e um dos melhores hackers de todos os tempos, Saibra é uma humana mutante com o poder de se transformar em qualquer um que tocar (sim, tipo uma Mística negra) e ambos os personagens são cativantes, têm uma personalidade interessante e motivações bem sólidas.

Realmente espero a hora que chegue o momento em que o Doutor tenha que “pedir alguns favores”, e vermos o retorno desses dois, porque eles são bem legais mesmo.

E no fim os personagens roubam a cena e transformam um episódio que seria apenas “ok” em realmente divertido. Mais uma vez, Capaldi delivers!