[SÉRIES] DOCTOR WHO: o 1º Doutor (ou hmmm?)

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Doctor Who é minha série favorita e, nas horas vagas, também a série mais longa da história da televisão. São 35 temporadas ao longo de 53 anos, e a série continua tão bem como no dia em que começou. Na verdade muito melhor, porque ao invés de ser uma produção tapa-buraco da BBC com o orçamento de um Plets e um aperto de mão, é um fenômeno pop de proporções globais.

Mesmo, saporra tem fandom até no Japão, e uma produção estrangeira fazer sucesso em uma das culturas mais xenófobas do mundo significa alguma coisa.

Você consegue imaginar uma série de televisão que esteja na sua 35ª temporada e tão boa, na verdade melhor ainda, do que quando começou?

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Usualmente, se uma série passa da quinta temporada já começa a implorar para ser posta para descansar. Imagine passar da trigésima quinta! Isso não é um feito ordinário, não senhor.

E esse acontecimento extraordinário só foi possível graças a uma série de… cagadas do destino. Sério, foi quase puramente sorte. A história de como Doctor Who improvavelmente deu certo é uma das mais interessantes da televisão. Limitações técnicas e infelizes acontecimentos fizeram Doctor Who ser o que é hoje, mas também a coragem e criatividade de uma equipe… e o talento de um homem.

Hoje não há na internet quem não tenha ouvido falar do alienígena que possui uma caixa que é maior por dentro. Mas nem todos conhecem a origem dessa história: a balada de Bill e a caixa azul que é maior por dentro.

HOMENS DA CAVERNA, DOUTORES E CABINES DE POLICIA QUE DESAPARECEM… NUNCA VAI DAR CERTO.

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Em 1963, a BBC de Londres tinha um buraco na programação no fim de tarde dos sábados que precisava ser preenchido, entre o programa esportivo Grandstand e o programa de música pop Juke Box Jury. O desafio da BBC era encontrar algo que fizesse a transição do público padrão de esportes para o público mais jovem, ou seja, algo que pais e filhos assistissem juntos.

Assim sendo, ficção científica era perfeito para o papel! Mas apenas porque a BBC era a renomada BBC (tipo o “padrão Globo de qualidade” só que britânico, manja?), talvez uma ficção científica que fosse meio que educativa… mas de um jeito descolado, que a garotada não percebesse que estava sendo educada até que fosse tarde demais!

Houveram diversas ideias para fazer um programa assim: discos voadores, aventuras futuristas (tipo Flash Gordon), ou quem sabe viagens no tempo. Acho que você consegue adivinhar qual foi a ideia triunfante.

Então, a equipe da BBC divisou o esqueleto do programa: haveriam dois professores, que seriam os “adultos” da coisa toda; haveria uma adolescente para os jovens se identificarem… Mas faltava alguma coisa. Faltava algo mais, algo que tornasse a série… única.

Foi então que veio a ideia de acrescentar um anti-herói misterioso e um tanto indiferente, detentor de tanto poder e conhecimento (e Deus Ex-Machina) quanto mistérios. Um tal de Doutor… quem?

Doutor empilhando noivas abandonadas desde o começo

Doutor empilhando noivas abandonadas desde o começo

QUEM É O DOUTOR QUEM?

Definido o que a BBC queira fazer, agora era a questão de COMO fazer. Alguns atores da época foram cogitados, mas ou recusaram o papel (bola fora, hein, amigão?), ou não era bem o que os produtores queriam. Vê, eles queriam algo novo, algo diferente, algo que prendesse a atenção dos jovens e adultos…

Eis aí que brilhou uma oportunidade única que mudaria para sempre a história da televisão. Acontece que, por aqueles tempos, William Hartnell era um ator veterano conhecido por fazer personagens durões, como generais, gansters e etc – só que ele estava meio que cansado disso. Ele queria fazer algo diferente. A equipe de produção do programa viu essa oportunidade e ofereceu a Hartnell um papel bastante diferente disso: um alienígena um tanto arrogante, mas cujo maior poder seria sua inteligência e a capacidade de levar qualquer um na conversa.

Isso serviria aos propósitos da série: os jovens teriam um anti-herói esperto e intrigante, e os adultos veriam um ator conhecido fazendo algo completamente diferente de tudo que ele já havia feito na televisão – certamente as pessoas veriam isso, nem que fosse por curiosidade.

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A ideia original da abertura era mostrar o rosto do Doutor no meio do Vórtice. Felizmente alguém percebeu que seria traumatizante, para dizer o mínimo.

Com efeito, Heather Hartnell (viúva de William) conta que quando seu irmão Terry (agente de Hartnell na época) falou sobre o papel, a primeira coisa que ela perguntou é se ele seria um “cara durão”. Terry respondeu que não, que era o script mais criativo que ele já havia visto, e que não sabia o que William ia dizer, mas era para uma série infantil.

Heather ficou bastante animada com a ideia. Ela tinha certeza que seu marido Bill ia adorar, porque era exatamente o tipo de coisa que ele estava procurando. Mais tarde naquele dia, William recebeu o script e leu em silêncio do começo ao fim, sem emitir uma única observação. Quando terminou, ele virou para sua esposa e o cunhado (seu agente) e disse: “Meu Deus! Eu quero esse papel!”.

Isso foi em 1963. Ao fim de 1964, William Hartnell não conseguia sair na rua sem causar uma comoção de crianças e fãs do programa. Apesar de passar a maior parte da sua carreira interpretando pistoleiros, generais e coisas do tipo, Hartnell havia finalmente encontrado o papel da sua vida no homem que jamais empunharia uma arma, e que resolveria todos os problemas através da inteligência. Ou um bocado de sorte, às vezes era isso também.

UMA OBRA PRIMA QUE NASCEU DAS LIMITAÇÕES  E TODAS AS COISAS BOAS CHEGAM AO FIM

Doctor Who, ainda hoje, é uma série cujo universo é construído muito mais através de limitações técnicas que acabam sendo adaptadas para um propósito maior da coisa. Por exemplo, originalmente a TARDIS deveria assumir a forma de objetos da época em que estava, mas na hora de colocar isso na ponta do lápis os custos seriam proibitivos – então aconteceu que a TARDIS ficou “presa” na forma de cabine de policia azul, o que não poderia ter sido melhor.

William Hartnell, por mais empolgado que estivesse com o personagem, possuía um sério problema de saúde: arteriosclerose. Isso quer dizer que as artérias vão parando de funcionar como artérias – ou seja, levar e distribuir sangue – e por conta disso nada funciona como deveria. Os músculos falham, e mesmo o funcionamento do cérebro é seriamente prejudicado.

doctor-who-i-william-hartnell-tribe-of-gum-quoteDurante a série você vê varias vezes Hartnell errando nomes ou comentando coisas aleatórias ao texto (como os recursos de edição na época eram muito limitados, não tinha “CORTA!”, e quase tudo ia ao ar). E é aí que entra a genialidade do sujeito: ele usou isso a seu favor, e abraçou esse seu problema como uma característica do Doutor. Com o tempo, essa se tornou uma das características principais do personagem.

Então, sim, o Doutor erra nomes e fala coisas aleatórias, mas é porque ele é um alienígena que transcende o tempo, e nem sempre realmente se importa com as nossas bobagenzinhas cotidianas. Isso deu um ar muito mais distante e misterioso ao misterioso “Doutor quem”, e por mais que o personagem mude com cada novo ator, essa é uma das poucas constantes para o Doutor.

Às vezes é porque ele simplesmente está cagando para você (como o 12º Doutor), às vezes é porque ele é muito antigo e é realmente difícil lembrar de tudo (como o 11º Doutor).

Infelizmente, com o tempo, a condição de saúde de Hartnell foi se deteriorando, e ele passou a aparecer cada vez menos no programa, ao ponto de que haviam arcos inteiros sem a presença do Doutor. E como você pode imaginar, Doctor Who sem o Doctor Who é uma série menos do que estelar.

Desde a primeira temporada houveram arcos que tiveram que ser adaptados para não contar com o Doutor, com a visível queda na qualidade do mesmo, como o das chaves de Marinus, mas ao fim da terceira temporada a situação estava insustentável.

The Celestial Toymaker foi o arco que deixou bem claro que as coisas não podiam mais continuar do jeito que estavam. O roteiro do arco teve que ser jogado fora quase em cima da hora, e foi gravada uma série de episódios que claramente parecem encheção de linguiça. Infelizmente a série precisava mudar.

Em 2013, em comemoração aos 50 anos da série, a BBC produziu o filme 'An Adventure in Space and Time" contando os bastidores por detrás da criação da série, onde David Bradley - o senhor Filch ou Walter Frey, se preferir - interpretou William Hartnell

Em 2013, em comemoração aos 50 anos da série, a BBC produziu o filme ‘An Adventure in Space and Time” contando os bastidores por detrás da criação da série, onde David Bradley – o senhor Filch ou Walter Frey, se preferir – interpretou William Hartnell

E foi aí, em seu momento mais triste e sombrio, que nasceu a ideia mais brilhante de todo o programa. Uma ideia tão boa, tão incrível, tão única que faria o programa não apenas durar, mas ser um sucesso de audiência mais de cinquenta anos depois: a regeneração.

Muitas séries simplesmente substituem atores sem dar explicação alguma – na verdade, produções milionárias modernas ainda fazem isso, como o Máquina de Combate nos filmes da Marvel – mas os produtores da série tiveram uma ideia bem mais ousada e melhor: dizer que foi intencional.

Mas é agora que entra o lance de gênio: o Doutor não apenas mudaria seu rosto, e sim sua completa personalidade, dando ao novo ator carta branca para começar como quisesse. De fato, quando Patrick Troughton assumiu como o Doutor, ele não tentou imitar a atuação de William Hartnell, e sim encontrar o seu próprio Doutor – o que também se tornou um tema recorrente ao personagem.

Doctor Who sempre foi, e ainda é, uma série que tanto erra quanto acerta, mas que usa esses erros para improvisar e crescer com isso.

UMA SÉRIE A FRENTE DO SEU ESPAÇO E TEMPO

Quando eu comecei a assistir as antigas temporadas de Doctor Who, minha maior preocupação é que a série parecesse muito antiga. “Oh, duh, no shit, Sherlock!”. Sim, é uma série de 1963 em preto e branco, mas não é disso que eu estou falando.

Recentemente eu assisti os primeiros episódios de Star Trek, e puta que pariu, como essa série envelheceu mal. Não que as ideias de Gene Roddenberry não sejam boas, pelo contrário, puta merda, aquele homem não ficava devendo nada a ninguém em matéria de ter ideias originais, e com certeza ele comeu o pão que o diabo amassou por colocar um russo ao lado dos americanos nos anos 60, para mostrar que no futuro nós não seriamos tão babacas assim – era meio que a época errada para ser otimista em qualquer coisa relacionada à União Soviética.

Mas, ainda assim, Star Trek é meio embaraçoso de se assistir. Não por causa dos efeitos especiais ou dos cenários baratos, eu tenho espaço no meu coração geek para abraçar isso de boa e lidar com essas coisas. O que realmente me incomoda é que Star Trek é um produto do seu tempo: a atuação canastrérrima (não por falta de qualidade dos atores, mas sim porque era assim que “galãs” deveriam atuar na época) do elenco, e o sexismo blatante da produção.

Então eu meio que esperava isso de Doctor Who de 1963, porque era assim que o bonde rolava.

Verity Lambert e Russel T. Daves dando um role com a TARDIS

Verity Lambert e Russel T. Daves dando um role com a TARDIS

Para minha grande surpresa, Doctor Who foi uma série muito elegante e ciente das suas limitações desde o começo, e muito disso vem, claro, da atuação inspiradíssima de William Hartnell, mas os grandes heróis da história aqui são a produtora Verity Lambert e o diretor Waris Hussein.

Verity assumiu como produtora aos 26 anos de idade, a pessoa mais jovem a produzir uma série da BBC até então, e a única mulher como produtora naquela época. Nos anos 60, isso significava que as pessoas diziam na cara dela nos corredores que ela certamente deveria ter dormido com alguém para chegar até ali. Verity era uma mulher à frente do seu tempo, e assim foi a série que ela produziu.

Doctor Who é uma série muito elegante em todos os aspectos, tanto na forma com que lida com as mulheres, como na forma com que lidava com os monstros. Embora claramente inspirada nos quadrinhos pulp, a série tentava dar um padrão BBC de qualidade a isso. Então não haviam monstros ridículos em roupas de borracha, robôs ridículos com raios da morte, ou discos voadores toscos pendurados em cordinhas, e quando haviam eles eram bem mais do que isso.

Ela lutou muito para transformar algo visualmente ridículo em algo com uma mensagem profunda ou algum sentido, tudo isso com o orçamento de uma xícara de café e uma caixinha de grafite 0.2B.

Um dos meus arcos favoritos é Galaxy 4, onde o Doutor e sua gangue encontram uma tripulação de belas mulheres lutando para sobreviver contra uma raça de monstros asquerosos (que para parecerem menos ridículos, apareciam apenas através de um vidro embaçado) em um planeta condenado à destruição em pouco tempo. As novinhas precisam da ajuda do Doutor para consertar sua nave e fugir. Agora aqui o plot twist: os monstros asquerosos é que são os caras legais aqui, e as mulheres bonitas é que são os verdadeiros monstros.

Quantas vezes uma série usou ficção cientifica para elaborar tão bem e de forma tão inteligente a mensagem de “não julgue pela aparência”? Até os dias de hoje, bem poucas.

Verity sempre lutou por esse nível de qualidade e de mensagem em sua série, e tenho certeza de que hoje ela ficaria bastante orgulhosa em ver Doctor Who usando estas mesmas ferramentas para falar de temas atuais:

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ESSA cena.

Para mim, boas obras de ficção conseguem criar cenários instigantes que aticem nossa curiosidade, mas que, ao mesmo tempo, tracem paralelos com problemas debatidos pela sociedade. O elemento fantástico nessas histórias por vezes cria o distanciamento emocional necessário para que o espectador possa refletir melhor sobre determinados temas, e Doctor Who já fazia isso desde sua primeira temporada.

Apenas uma série produzida por uma mulher e dirigida por um diretor “marronzinho” (o diretor era indiano, e os ingleses não levavam isso nada esportivamente) nos anos 60 entenderia como usar a ficção cientifica para falar de algo sobre o qual precisa ser falado.

doctor-who-cyber-men-vs-daleksE talvez disso a criação mais icônica da série seja o fruto do trabalho do roteirista Terry Nation: um saleiro com um desentupidor de pia e uma batedeira de bolo. Como algo tão bobo, que Terry deve ter juntado enquanto lavava a louça, pode ter se tornado um dos vilões mais icônicos da cultura pop? Resposta: o significado.

Os Daleks não são apenas robôs ridículos com raios da morte, eles já foram pessoas como nós, que foram mutiladas pela guerra e pela radiação (na época a ameaça de uma guerra nuclear era uma preocupação constante, tanto quanto o terrorismo hoje em dia), até se isolarem em conchas de ferro, e passarem a odiar tudo que não seja exatamente como eles.

Abra seu Facebook em 2016 e verá que a mensagem está ainda mais válida do que em 1963.

Ah sim, os Daleks fizeram tanto sucesso em 1963 que a BBC passou a ganhar com merchandising. Praticamente toda criança na Inglaterra queria brincar de ser uma pequena máquina da morte repleta de ódio. Não é adorável? Seja como for, o retorno comercial que a emissora teve com um programa infantil gravado num estúdio furreca estava além de seus sonhos mais molhados.

E POR ÚLTIMO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE, O HOMEM QUE COMEÇOU ESTA FESTA

No curta Time Crash o Doutor (em sua décima regeneração) disse:

Lá no inicio, quando eu comecei, eu estava sempre tentando ser velho e rabugento e importante, como você faz quando é jovem.

Assistindo a série original com a perspectiva moderna, não tem como não se surpreender em como o Doutor é jovem nesse começo. Como um adolescente querendo se passar por alguém mais velho e sábio do que é realmente (todos nós fizemos isso antes de percebemos o quão idiota isso é) e, de certa forma, justamente o oposto do 11º Doutor.

O Doutor tocando guitarra sobre um tanque enquanto enfrenta um viking. Imagino que era exatamente esse tipo de coisa que eles tinham em mente quando começaram a série.

O Doutor tocando guitarra sobre um tanque enquanto enfrenta um viking. Imagino que era exatamente esse tipo de coisa que eles tinham em mente quando começaram a série.

O Doutor interpretado por Matt Smith é alguém fabulosamente velho e cansado, mas que se esforça para parecer jovem e despreocupado. O Doutor de William Hartnell é claramente alguém muito jovem e inexperiente se esforçando para parecer “adulto”. Considerando os padrões dos Senhores do Tempo (conceito que nem existia naquela época), o Doutor era praticamente um adolescente naquela época.

doctor-who-the-gunfighters-the-dentistEssa miríade de camadas se deve à atuação magistral de William Hartnell, que ao mesmo tempo conseguia transmitir a sensação de ser um velho sábio com o coração de um moleque atrevido. Hartnell inventou e deu vida a todas as coisas que amamos no Doutor: sua capacidade de resolver qualquer problema conversando e, não raramente, enrolando as pessoas, como na vez em que ele enrolou um vendedor ao ponto de o cara comprar dele as roupas que o Doutor havia acabado de roubar do próprio vendedor.

O Doutor consegue ser adorável e cativante, ao mesmo tempo que você quer socar sua cabeça por sua arrogância de Time Lord, tudo isso graças à grande atuação de Hartnell. Nas primeiras temporadas, inclusive, o Doutor parece muito mais com o comportamento dos Time Lords que nos acostumamos a ver. No primeiro arco ele quase pisa em alguém que está caído, simplesmente por não se importar o bastante. Novamente, vendo a perspectiva do todo, é fascinante ver o quanto ele parecia muito mais um membro do seu povo (Time Lords são babacas arrogantes, afinal) antes de “amolecer” pela convivência com os humanos.

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Se em seu primeiro arco ele não liga em pisar em alguém caído, em seu último ele não hesita em meter o dedo na cara de um cyberman por ameaçar seus bródis.

E ao mesmo tempo em que ele claramente é um adolescente, e faz merdas que a gente só faz quando é jovem, ele passa uma aura de autoridade e confiança de que, se há algum problema, o Doutor pode resolve-lo. Ele passa uma aura de mistério e magia, vendendo completamente a ideia de que, a qualquer momento, ele pode tirar uma solução mágica do bolso (ou de seus conhecimentos de Time Lord, para esse propósito).

Com efeito, seu modus operandi padrão era deixar os companions correndo por aí e ir direto a quem manda na parada, sentar com ele e falar com ele até conseguir o que quer. De fato algumas coisas não mudaram tanto assim, e esse é o ponto aqui: Hartnell não estava simplesmente interpretando o Doutor, ele estava criando isso do nada.

Ele é o Doutor com todos os flashes de brilhantismo que viríamos a ver posteriormente, mas ao mesmo tempo completamente inescrutável. Mais do que qualquer um, ele levou a cabo o mistério de ser o “Doutor Quem?”. Tanto que o máximo que ficamos sabendo sobre ele é uma descrição que a Susan dá sobre Gallifrey (que não tinha nome ainda na época), muito bonita e melancólica na verdade, de seus céus vermelhos e sua grama prateada.

Contudo, apesar de todos os méritos para a sua época, os roteiros ainda eram produtos da sua época. Sobretudo porque a BBC administrava a série, com uma política muito estranha sobre o prazo de validade dos companions – após mais ou menos um ano eles eram chutados da série sem formalidade nenhuma, às vezes menos do que isso.

Enquanto alguns tiveram um arco de desenvolvimento de personagem e um final (correto ou não, ele ter deixado a Susan foi uma daquelas cagadas de adolescente), mais pro final da encarnação do Doutor as coisas eram feitas meio a toque de caixa, sem nenhum desenvolvimento dramático. A Dodô nem despedida teve, apenas sua substituta disse que ela tinha vazado e era isso (o que teve uma resposta ótima por parte do Doutor, pelo menos).

Ainda assim, minha sensibilidade moderna gostaria de um pouco de drama mais elaborado. A despedida de Matt Smith como Doutor foi uma cena linda e marcante, e o velho Bill não merecia nada menos do que isso. Ao contrário, muitas cenas dramáticas na série pareceram não desenvolvidas o suficiente, parte porque metade da série era no improviso, parte porque era uma coisa da época mesmo. Essa coisa de cenas dramáticas com música de fundo incidental é uma exigência relativamente moderna.

Todas as coisas consideradas, a primeira encarnação de Doutor Quem foi bastante acima das minhas expectativas. Ideias muito criativas, história sendo contada por outros ângulos, personagens femininas fortes (em um tempo que o papel da mulher era ser a mocinha indefesa, Barbara já estava atropelando Daleks com um caminhão), histórias ambiciosas, e a semente de tudo aquilo que viríamos a conhecer como “o Doutor” em um velhinho adoravelmente sapeca. Bem além das minhas expectativas e poesia pura, meu rapaz!

"That is the dematerialising control and that, over yonder, is the horizontal hold. Up there is the scanner, those are the doors, that is a chair with a panda on it. Sheer poetry, dear boy. Now please stop bothering me.

“That is the dematerialising control and that, over yonder, is the horizontal hold. Up there is the scanner, those are the doors, that is a chair with a panda on it. Sheer poetry, dear boy. Now please stop bothering me.