[SÉRIES] DEFENSORES (ou três solteirões e um bebê)

Netflix, senta aqui, minha filha. A gente precisa conversar. Sim, isso é uma intervenção. Nós estamos fazendo isso porque te amamos. Nós queremos te ajudar, queremos que você melhore. Mas suas escolhas de vida estão nos deixando extremamente preocupados.

Primeiro, tem aquele filme do Death Note. Sério que vocês não mostraram o filme pra ninguém, e essa pessoa não rachou a cara rindo em cenas que deveriam ser sérias? Mas tudo bem, inicialmente eu pensei que a ideia de vocês era fazer uma comédia desde o começo (se foi, parabéns). Só que, então, eu terminei de assistir Defensores, e percebi que aquilo não foi uma tentativa de fazer comédia, foi um pedido desesperado de ajuda.

Por isso estamos tendo essa conversa agora. Nós queremos te ajudar, nós nos importamos com você. Por favor, pare de tentar fazer isso mudar!

Porque nada em todos os 52 universos da DC (exceto talvez pela Terra-31, que é basicamente Waterworld com o Batman como Kevin Costner) justifica você ter três dos personagens mais legais da televisão atualmente e focar a série justamente no chato do grupo. Aquele cara da rodinha de amigos que, quando ele chega, todo mundo revira os olhos e suspira.

Mas vamos começar pelo começo.

A Starbucks ainda está tentando entender como isso aconteceu #justjessthings

A melhor coisa de Defensores são os seus primeiros episódios. Cada um dos quatro heróis está seguindo sua vida mais ou menos como terminou em suas séries de origem: Matt está tentando largar essa coisa de ultraviolência; Jéssica está tentando que não encham o saco dela; Luke está… bem, ele saiu da prisão, porque a Netflix não tava mais afim de falar sobre isso, basicamente; e o Danny… honestamente, quem liga?

É muito interessante como a série mantém a estética e a temática de cada uma das séries originais, costurando suas tramas gradualmente até o ponto que todos se juntam no final do terceiro episódio. É como assistir um pouquinho de Demolidor, um pouquinho de Luke Cage, um pouquinho de Jessica Jones e… uma boa hora para ir fazer pipoca. É feito de uma forma orgânica, crível, e mantendo todas as coisas que deram certo nas séries originais (exceto o David Tennant, infelizmente).

É exatamente o que esperamos para ver, e é muito legal.

Após o Tentáculo ter atormentado o Atrevido (ué, não era pra usar os nomes traduzidos?) na sua última temporada, depois que os heróis finalmente se unem, é revelado o objetivo final de seus líderes: recuperar mais da “substância”, o que garantirá que eles possam continuar evitando a morte. Hã… Na melhor das hipóteses, isso é um enredo de vilões genéricos e digno de cartoon dos anos 80, mas é um que poderia ter funcionado se não fosse por uma pequeeeeeena coisinha – a série passa a depender muito Punho de Ferro para esse objetivo.

Exatamente os meus sentimentos, Jess

Não obstante a isso, em um frenesi de shit nunca visto antes na história desse streaming, a série decide que vai focar também na parte MENOS interessante das duas temporadas de Defensores: na Elektra como chosen one das trevas. Como eu disse na minha review da segunda temporada de Demolidor, eu adorei a ideia da Elektra como uma ninja bilionária que não liga em matar pessoas porque ela é ricaaaaaaaaaaaa e está pouco ou nada se fodendo.

Porém, quando ela ganha um “propósito místico”, a série se arrasta como se tivesse âncoras de tungstênio presas nas bolas, porque tira todo o foco da parte legal do Matt de vigilante com problemas de raiva, que se sente culpa porque a sua religião diz que é errado fazer os dentes do próximo irem passear (doido, né?), para uma versão pobre de anime shonen de trazer seu amigo de volta para a luz. E é claro que a Netflix escolheu essa parte, que tem a profundidade emocional de Shurato. É óbvio que eles iam escolher isso, né?

I know, right?

Tudo que sobra para Jéssica Jones e Luke Cage na série é revirar os olhos e soltar um “aham, claro” quando a conversa vai para ninjas imortais e dragões reais. De uma forma estranha, eu realmente me relacionei bastante com eles – o que só aumentou o desperdício que são dois personagens tão legais assim apenas como figurantes.

Se depois de assistir as séries dos dois, que são sobre temas sérios calcados em problemas do mundo real, não conseguia imaginar como a Netflix ia fazer a transição para um universo fantasioso light… bem, aparentemente a Netflix também não imaginou. Luke e Jéssica meio que só estão lá sendo legais, mas meio que isso é tudo.

O que é realmente uma pena, porque eu diria que, na verdade, eles são as melhores coisas da série toda. Como quando o Luke, conscientemente, se esforça pra ser legal com o Danny Rand, apesar de ele ser um babaca, porque o Luke é um cara super gente boa, ou quanto a Jéssica revira os olhos e faz uma cara de “hoje é um péssimo dia para estar sóbria” toda vez que o Matt insiste nessa frescura de “identidade secreta”. São as partes mais sinceras e interessantes do show. É realmente uma pena MESMO que o show não seja sobre eles, e que eles meio que só estão ali pra tomar tiro ou arremessar coisas. Porque até quando eles fazem “” isso é legal pra caralho.

Jéssica Joana me representa

De muitas maneiras, The Defenders é meio como Iron Fist Season 1.5 (com uma forte dose de Daredevil Season 2.5). E isso não é justo para Jessica e Luke, cujo desenvolvimento é deixado de lado para que Danny possa protestar que ele é o Punho de Ferro imortal mais uma vez.

O principal problema no roteiro da série é bastante simples: Danny não é um personagem suficientemente interessante para suportar o peso que o show coloca sobre ele. Ele é a chave do plano do Tentáculo, então o show é, em última análise, sobre o destino dele. Supostamente deveríamos nos importar com isso, mas a única reação que eu realmente tive foi “pelamor das tetas giratórias da Elvira, leva essa peste embora de uma vez, por favor!”.

Não que Daniel Mão ajude muito. A angústia do Danny é muito difícil de se relacionar – cara, você é um super-herói bilionário, do que você está reclamando? Uau, seus pais morreram há 15 anos, e isso é muito ruim mesmo, mas adivinha só? Os pais de muita gente morreram há bem menos tempo do que isso (os meus, inclusive), e as pessoas não ficam tendo chiliques homéricos toda vez que o assunto é levemente mencionado. Mesmo as que não são bilionárias ou não têm super poderes. Doido, né?

Sério, move on, dude! Porra, cadê o teu treinamento zen? Meditação? Coisas de monge, sei lá? Não? Nada? Aliás, eu não acho que a Netflix faça muita ideia do que meditação seja além de ficar sentado, porque o Danny vai sentar puto da cara e levanta tão boladão quanto.

Se rir, já sabe né?

É difícil realmente. E não ajuda que seu personagem não tenha nenhuma profundidade ou nuances. Então, apesar dos outros Defensores tentarem salvá-lo a todo custo, e a série estabelecer genericamente o que vai acontecer se eles falharem, é difícil realmente se importar.

Não por acaso, as melhores cenas do Danny são justamente com o Luke Cage, que quase o fazem parecer um adulto e não um adolescente chiliquento. Quase. Pena que essas cenas têm mais cara de referencia (porque Luke Cage e Punho de Ferro foram uma dupla nos quadrinhos) do que desenvolvimento de personagem. Pena mesmo.

O pior é que não era tão dificil assim ter consertado o personagem. Em alguns momentos, Danny é o novato otimista da equipe. Eles são fugazes, mas divertidos, e devíamos ter tido mais desse lado do Danny. Teria sido fácil torná-lo o personagem otimista que só quer juntar a gangue, cuja inocência os outros personagens encaram com um certo desdém – e então descobrem que ele realmente passou por muita merda. Isso seria cool, isso seria zen. Inner peace, saca bro?

Alem disso, Danny não contribui muito para a equipe. Luke Cage é a prova de balas, Matt é um sonar humano, Jessica é uma detetive muito boa (quando quer, o que não acontece com tanta frequência assim) e Danny… ele luta … igual a todo mundo, um pouco pior até. E só. Sua maior contribuição para a equipe é ser rico, o que funciona como alivio cômico, mas é uma falha enorme na produção. O Iron Fist deveria ser um dos maiores mestres de artes marciais do universo Marvel, ele devia ser respeitado por isso e, ainda assim, ele é facilmente espancado por todos os outros Defensores, para não mencionar os vilões. Mesmo o poder imenso em seu punho incandescente é subutilizado (honestamente, ele não parece nada diferente da super força da Jéssica Jones ou do Luke Cage), o que nos deixa, mais uma vez, perguntando por que ele deveria ser tão importante.

Você tem a substancia?

OS VILÕES DO MAL QUE ODEIAM O BEM

Se o (sic) protagonista da série é um problema, a liga extraordinária da maldade que eles enfrentam é outro. Logo na primeira temporada de Demolidor ficamos sabendo que Mateus Murloque estava enfrentando um vilão cujo um dos parceiros era uma organização de proporções nefastas. Ao longo da maior parte das outras séries, o conceito do que é o Tentáculo foi sendo expandido: uma organização global que possui recursos políticos e financeiros praticamente ilimitados, além de NINJAS ASSASSINOS IMORTAIS. Oh boy, agora sim estamos falando de uma ameaça a se levar a sério!

E, supostamente, Defensores deveria ser a catarse dessa coisa toda. A culminação de mais de oitenta horas de televisão, uma batalha épica e dramática entre nossos heróis e… cinco caras. É. Só isso. Por algum motivo que eu falho entender, o Tentáculo subitamente foi reduzido a cinco vilões do mal e só. Sem recursos, com meia dúzia de capangas, com tanto poder político quanto o PSTU em um comício neo-nazista.

Espera, o que está acontecendo aqui, gente? A explicação mais simples é que a Netflix mordeu mais do que conseguia engolir e simplesmente não sabia como escrever uma batalha com uma organização complexa de escala global em 8 episódios, então fez o que todos animes shonen fazem há mais de 30 anos: reduza todo império do mal ao vilão e seus quatro generais das trevas que, se derrotados um a um, dispersarão todas as trevas.

Eu não estou brincando aqui, o Tentáculo é “o vilão e seus quatro generais”. Bastante decepcionante, hein?

Se a Sigourney Weaver é a vilã da série, e essa não é a batalha final, e ninguém foi demitido por isso, algo muito errado está acontecendo…

Mas calma que piora. No primeiro episódio vemos a Madame Gao pagando pau para a chefe do Tentáculo, e essa seria a Tenente Ellen Ripley. Ok, isso é impressionante. Quer dizer, a Madame Gao é uma das personagens mais fodas e respeitáveis de todo universo cinemático da Marvel, então, se ela está baixando a cabeça para alguém, essa pessoa já começa com altos níveis de fodabilidade.

E nós esperamos que, a qualquer momento, ela mostre porque todo mundo diz que ela é tão foda. A qualquer momento agora… a qualquer momento, certamente ela vai ter uma cena à lá Wilson Fisk com a porta do carro e mostrar “uau, essa mulher é da pá virada, realmente não dá pra mexer com ela mesmo”… Estamos chegando, falta pouco… e… A série termina e não tem o menor vestígio de qualquer coisa remotamente especial a respeito dela. Exceto que os personagens ficam FALANDO como ela é foda, sem nunca mostrar isso na tela.

Como assim você quer ser chamada de Paul Heyman?

Como desgraça pouca é bobagem, a Netflix decide cagar no pau de vez com a força de mil vulcões que entram em erupção, sua lava vai espalhar e verá toda fúria do dragão, Cha-la head cha-la… Err, digo, enfim, eles foderam a porra toda de verde e amarelo.

Porque não basta eles terem pego a pior parte de Demolidor (a Elektra como anticristo – eu gostava dela quando ela era só uma ninja bilionária) ou de Iron Fist (o que seria qualquer coisa da série). Não, é claro que não: eles tinham é que pegar A PIOR PARTE DE LUKE CAGE TAMBÉM! MAS É CLARO QUE TINHAM! COMO NÃO, NÉ, DONA NETFLIX?

Ah, vão se foderem em Tangamandápio!

Porque o que acontece em Luke Cage? Você tem um ator puta foda construindo um vilão interessante. Em LC tínhamos Mahershala Ali (vencedor do Oscar esse ano, aliás), em Defensores temos Sigourney Fucking Weaver. Então, como você usa um(a) ator/atriz desse calibre? Exatamente, você tira ele de cena para, artificialmente, empoderar um vilãozinho chumbrega de quadrinhos. Ah não fode, porra!

Se em Luke Cage tivemos o acidente de trem nuclear que foi o Diamondback – que cagou uma série que vinha vindo muito bem, agora temos a versão zumbi sem falas da Elektra como principal ameaça da porra toda. O resultado não é tão ruim quanto (porque eu não acho que seja fisicamente possível), mas Amaterasu é testemunha que eles tentaram. Ah, como tentaram.

Eu vou perguntar apenas uma vez, e você me dê a resposta mais sincera que conseguir, ok? Lá vai: como você faz o que é essencialmente um “culto de assassinos místicos/mágicos do mal” parecer chato? Quer dizer, até assistir Defensores eu sequer achava que isso era possível!

“Heh?” é um sentimento que te acompanha a série toda, de fato.

A clara sensação que a série passa é que eles foram inventando as coisas conforme foram filmando. Quando você entende o que é a “guerra” entre o bem e o Tentáculo, anunciada desde o começo; quando você entende o que o Tentáculo quer, na melhor das hipóteses sua reação será algo como “ah, é isso? Sei lá, deixa eles, então…”.

Eu não vou nem entrar na discussão do que é ou deixa de ser a porra do Céu Negro, porque claramente a Netflix não decidiu isso ainda. Mais uma vez, muita coisa é dita mas nada é mostrado. Eu não vi uma única coisa sequer especial que a Elektra tinha que qualquer outro dos cinco líderes do Tentáculo não tivesse também. Ok, ela luta bem e… é isso? Só isso? Então eles podiam ter contratado o Brock Lesnar, se era esse o problema!

Mas, sei lá, uma organização cujos membros têm supostamente mais de mil anos de experiência apanhando de pessoas comuns que começaram a lutar há dez, quinze anos (se tanto), é mais do que a minha suspensão de descrença está pronta para aceitar. Você pode dizer que uma batalha final entre uma Elektra com a personalidade de um papelão molhado e o Punho de Ferro seria brochante, mas eu diria que é a altura do que a série te faz esperar.

Honestamente, para ficar melhor a cena só faltou tocar essa música ao fundo:

VAMOS FALAR DE COISA BOA!

Existem algumas coisas interessantes na série, além dos momentos em que nossos três heróis estão socializando entre si. A fotografia da série é realmente criativa. Cada um dos nossos heróis tem uma paleta de cores própria quando estão tendo suas cenas solo (nas cenas do Matt sempre tem algo predominante vermelho; nas da Jéssica arroxeado; nas do Luke amarelo; e, se você conseguir ver as cenas do Punho de Ferro sem revirar os olhos em impaciência, me conte qual a dele). Isso ficou muito legal, de verdade.

As cenas de ação melhoraram bastante e, embora não sejam tão viscerais quanto da primeira temporada de Demolidor, também não é a comédia de Trapalhões que são as cenas de luta de Jéssica Jones, ou o espetáculo de desinteresse que são as lutas do Punho de Ferro (à exceção da luta com o Mestre Bêbado – puta merda, aquele cara tinha que ser o protagonista da série!).

Oh meu Deus, uma velhinha lutando! Quem teria coragem de..? JESSICA FUCKING JONES! É POR ISSO QUE A GENTE TE AMA, JESS!

Tão bom quanto isso é que, pela primeira vez, a Netflix desistiu completamente da coisa do universo compartilhado com os cinemas. É PRA GLORIFICAR DE PÉ, IGREJA! Porque, com exceção da primeira temporada de Demolidor, todas as referencias aos filmes da Marvel sempre soaram forçadas e muito fora da realidade das séries – meio que pareciam estar ali apenas por força contratual. Agora a Netflix abandonou completamente isso, e não há uma única menção a nada do universo cinematográfico da Marvel. Com efeito, a coisa mais estranha que aconteceu na cidade que é mencionada é a história do Kilgrave (que meio que se tornou uma lenda urbana). O que ficou bem mais natural e orgânico.

Assistir esse gif me dá tanto prazer. Série valeria só por essa cena. É POR ISSO QUE A GENTE TE AMA, POWER MAN!

TL;DR

Defensores começa muito bem, sendo exatamente o que esperávamos que a série fosse. Mas, então, ela começa a se perder em uma série de escolhas que, honestamente, eu não acho que eles tenham pensado muito a respeito na hora de fazer.

A melhor coisa que Defensores faz é nos dar uma palhinha do que seriam novas temporadas de Jéssica Jones, Luke Cage e, em alguns momentos, Demolidor (quando ele não entra no modo Naruto de querer trazer a Elektra de volta para a Vila da Folha… e quando os poderes do Matt simplesmente não desligam, porque daria trabalho fazer a cena contornando o fato de que ele DEVERIA SABER muito mais coisa do que ele sabe). Que são todas séries muito boas no que se propuseram a fazer. Quando não está fazendo estritamente isso, no entanto, o que temos é Punho de Ferro 1.5, com a qualidade de escrita que a série do bocaberta bilionário nos acostumou. Infelizmente.

É apenas bom, e algumas vezes é bom no sentido Death Note tão ruim que é bom“. O que é bastante decepcionante, na verdade.

E, pra encerrar, claro que é o Danny Rand levando mais porrada. Sério, o que você esperava? TACA-LE PAU, CEGUETA VÉIO, DESCENDO O MORRO DA VÓ SALVELINA!

PS: Netflix, demita seu editor de som. Sério, depois de colocarem Rosana no filme de Death Note, a cena de luta final de Defensores é estragada por uma música tão fora de contexto que eu achei que o Super Choque estava chegando na cena. De verdade. O que teria sido muito legal até. Mas não, era só, MAIS UMA VEZ, uma escolha de trilha sonora profundamente infeliz…

2 thoughts on “[SÉRIES] DEFENSORES (ou três solteirões e um bebê)

  1. Concordo com tudo,mas o pior é que nunca sabemos exatamente qual a ameaca e como exatamente a cidade sera destruida com todos seus habitantes

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