[SÉRIES] CASTLEVANIA – 2ª Temporada (ou a adaptação perfeita de um videogame não exi- Oh, deixa pra lá)

Via de regra, eu não costumo fazer textos temporada-por-temporada de uma série porque… bem, qual é o propósito? Na verdade, qual é o propósito de qualquer coisa? Qual a utilidade holística de qualquer ação neste pálido ponto azul no qual viajamos através do Cosmos?

Bem, mas divago. O ponto onde eu queria chegar é que eu, usualmente, não faço isso, salvo algumas exceções. E Castelo do Vania 2 é o que eu considero uma dessas exceções, porque a segunda temporada é, tematicamente, algo completamente da primeira. Então, pegue seu frangão assado escondido dentro da parede, e vamos ver como isso funciona.

Na temporada anterior de Castlevania, a humanidade sentou na graxa ao achar que era uma boa ideia queimar a esposa do Dracula por bruxaria, o que levou a resultados bem pouco agradaveis a todos os envolvidos. Assim, nossos heróis se juntaram como um time do bem para vencer o mal e espantar o temporal, enquanto Drácula passou um ano reunindo seu exército das trevas para varrer a raça humana da face da Valáquia… e depois da Terra. Eu nunca entendi porque o primeiro parece ser mais importante e trabalhoso que o segundo (a humanidade é tipo “a Valáquia e o resto”?), mas, até então, eu também nunca fui um senhor da trevas foderoso e tal.

Agora, tem uma pergunta importante nesse conceito: o que, exatamente, significa “reunir seu exército das trevas”? Quero dizer, na prática, como isso funciona? Como se “declara uma guerra contra a humanidade”? Não é como se nós tivéssemos uma base central que, se for destruída, todos os outros humanos do planeta cairão mortos eventualmente.

Então, como isso vai funcionar, exatamente, seu Vladmir Tepes?

Surpreendentemente, a segunda temporada de Castlevania é sobre esse tipo de questionamento. Drácula não é um Senhor do Mal onipotente com seu exército infindo de trevosidades acéfalas. É um pouco mais complicado do que isso.

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Aquele momento constrangedor em que você salva o jogo antes de enfrentar o boss… até lembrar que você é o boss.

Isso porque, em primeiro lugar, vampiros são um saco de gatos. Se você está familiarizado com alguma coisa sobre vampiros na cultura moderna, sabe que eles estão mais interessados em jogar seus próprios joguinhos de poder e atender suas agendas pessoais, do que serem generais  disciplinados e silenciosos de uma força do mal opressora. Eu diria até que dá para fazer um RPG firmemente baseado nessa coisa de joguinhos de poder, e interesses duplos dos vampiros. Me pergunto como ninguém pensou nisso ainda…

Então, quando Drácula reúne líderes vampiros de todas as partes da Europa para líderar sua “guerra contra a humanidade”, o que ele está realmente fazendo é convidando uma corte de egoístas, traídores, manipuladores e imortais para dentro do seu castelo. Isso acaba se desenrolando tão bem quanto a proposta soa. Que um golpe contra o próprio Drácula comece a ser arquitetado antes que você consiga dizer “ragatangas meliconísseras” é algo apenas esperado.

Adicionalmente, no que “extinguir a raça humana do planeta” vai beneficiar os vampiros, exatamente? Claro, suponho que deva existir o equivalente vampírico ao vegetarianismo, em que só se alimenta de fontes não-humanas… Mas, dificilmente essa seria uma proposta tão popular de forma geral entre sua corte da noite.

“Gente, o véio tá louco. #partiuimpeachmeant?”

E, digamos que, por algum milagre, você consiga reunir todos os vampiros a marcharem sob a mesma bandeira… para onde você vai daí, exatamente? A menos que o Drácula tenha algumas ogivas atômicas no porão do seu castelo e pretenda deflagar um inverno nuclear; ou coloque seu castelo para produzir CO² a moda louca, e espere uns 100 anos pelo aquecimento global matar a todos nós… qual é o grande plano aqui, exatamente?

Existem muitas formas da humanidade ser derrotada ou dominada, mas pegar cavalos e sair de vila em vila matando geral é a menos eficiente delas. Então… como essa guerra vai ser, exatamente?

Mas ok, ok. Digamos, então, que Drácula consiga arrebanhar os vampiros sob a mesma bandeira (ha), tenha um plano para exterminar a humanidade de uma tacada só (duplo ha), ele vai fazer isso… com que exército?

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Lady Carmilla:  meu livro saiu 25 anos antes do Drácula e foi chupinhado na cara dura por Bram Stoker em vários pontos, e ainda assim eu não sou a chefe final desse anime. Isso parece certo para você?

Da onde, exatamente, vem suas hordas da noite? Eu sei que “abrir os portões do inferno e trazer todos os demônios” soa muito poético, mas não é assim que funciona realmente, não é? Como explicado na própria série, “criaturas da noite” OU existem desde o inicio dos tempos, OU surgem espontaneamente, devido a situações muito especificas de malignidade (tipo, o lugar onde uma vila inteira morreu de peste pode dar origem a um demônio desse tipo). Ok, show de bola… Mas isso não parece suficiente para “travar uma guerra contra a humanidade”, parece?

Eu não acho que seja. Se Drácula quer um exército robusto e trevosão, ele provavelmente vai ter que construir um. O que significa que os seus recursos não são ilimitados e, mais importante, ele vai precisar de alguém que faça isso para ele. Mesmo que ele saiba como criar um exército de trevosidades assombrosas (suponhamos que ele saiba, já que é o fucking Drácula, afinal), isso significa que ele teria que passar dia e noite na forja martelando cadáveres. Hmm, não me parece uma forma muito eficiente para se liderar uma guerra…

A saída mais lógica para isso é sabonetar o trabalho para alguém, e é aí que entram os dois mestres de forja que ele conseguiu: dois humanos que farão o trabalho sujo para ele (com efeito, Isaac e Hector do jogo Castlevania: Curse of Darkness). Legal, legal, isso resolve um problema… mas apresenta outro. Bem, se você está utilizando necromancia terceirizada… quer dizer que o seu exército das trevas não é realmente seu, não é? Digo, os mortos-vivos e demônios obedecem necessariamente ao mestre que os criou… E se você não é esse cara, bem, nós temos um ponto fraco de logística a ser explorado aí.

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TREVOR: Gente, se nós três estamos aqui fora… quem ficou cuidando do forno?
S
YPHA: Que foi? Só porque eu sou mulher vocês acham que eu tenho que … Aff, como eu odeio o século XVIII!
ALUCARD: Se perguntarem, vamos só dizer que a mansão da sua família queimou por causa de camponeses supersticiosos

Pois é, seu Drácula, parece que esse negócio de “exterminar a humanidade” dá muito mais trabalho do que você pensou inicialmente, e, honestamente, acho que você nem pensou direito sobre isso. E, vamos ser sinceros, você nem queria ter todo esse puuuuta trabalho de logística, não é?

Não, você queria apenas vingar a morte da sua esposa. Honestamente, não acho que você acredite que esse trabalho todo valha a pena. Para ser mais sincero ainda, seu Drácula, não parece que você sinta que qualquer coisa a este ponto realmente valha a pena. Parece que você quer apenas curtir o seu luto e descontar a raiva em alguém, não esse circo de horrores todo que uma “guerra contra a humanidade” implica.

Mas então, apenas depois de levantar todas estas questões… a série  responde “o que Dracula esta realmente pensando, afinal”, e a resposta é realmente surpreendente – embora totalmente coerente com o apresentado até aqui.

Surpreendentemente também, então, é que a segunda temporada de Castlevania é muito menos sobre um bando de aventureiros tendo aventuras muito loucas (os heróis passam a maior parte da série na biblioteca dos Belmont estudando), e muito mais sobre o que acontece quando você coloca um bando de vampiros traiçoeiros no mesmo lugar para lutar uma guerra que não faz realmente muito sentido em termos práticos, líderada por um líder que está apenas deprimido demais para se importar.

Eu posso dizer que é uma abordagem bastante inesperada para uma série sobre Castlevania, mas uma de que eu gostei bastante. Melhor que isso seria só se eles enchessem as cenas de ação com referencias aos jogos…

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A lista completa de referencias pode ser encontrada aqui

… uau, gente! Pára!, que vocês vão me fazer chorar.  Só falta agora dizer que toca Blood Tears e…

… uau. Apenas uau. A segunda temporada de Castlevania é apenas a melhor adaptação que eu já vi de um videogame na minha vida. O que ela faz é pegar os conceitos dos personagens e usá-los para contar sua própria narrativa, extrapolando essas ideias para personagens emocionalmente tridimensionais.

Porque é assim que se faz uma adaptação: use os conceitos, caralho! Não tente reproduzir quadro-por-quadro as cutscenes de outra mídia QUE VAI DAR RUIM! Não, Adi Shankar parece realmente entender o que faz uma adaptação funcionar (além de Castlevania, ele é o produtor executivo daquele filme foda do Juiz Dredd de 2012). Acaba que esta é uma história trágica sobre heróis tentando salvar uma humanidade que não merece ser salva de um vilão que não realmente merecia morrer.

Adi Shankar: The story’s based on Castlevania III, right? The way I see it, the game provided a really great core blueprint and it’s an issue of connecting the dots and knowing what elements to focus on. Here’s what it comes down to. If you’re a fan of a game, or a world—because they’re not really games, they’re worlds—that has a deep, rich mythology and you’ve really spent a lot of time in it, you start developing a sixth sense about that world. The best comparison I can give is, it’s like a musician who’s covering his or her favorite, iconic song. Right? Once you’ve lived with that song for a long time, like, years—a lifetime—you know what notes you have to hit. You know, straight up, “Yo, I have to hit this note.” And you know what notes you should make your own.

Tradução livre:

Adi Shankar: A estória é baseada em Castlevania III, certo? Da forma como eu vejo, o game oferece um modelo central muito bom e esta é uma questão de ligar os pontos  e saber em quais elementos focar. Aqui está o resultado. Se você é fã de um game, ou de um mundo – porque eles não são jogos realmente, são mundos – que tem uma mitologia rica e profunda, e passou muito tempo nele, você começa a desenvolver um sexto sentido sobre esse mundo. A melhor comparação que posso fazer é a de um músico que está cantando sua canção favorita e icônica. Sacou? Uma vez que ele viveu com essa canção por muito tempo, tipo, anos – uma vida inteira – ele sabe que notas tem que tocar. Ele sabe, de cor, que “Cara, eu tenho que tocar essa nota.”  E ele sabe que notas deve tocar por conta própria.

É uma narrativa triste, mas tem cenas de ação muito fodas; é fantasticamente bem animado (o uso das magias da Sypha é uma das coisas mais inteligentes que eu já vi para um mago em combate); e é um show genuinamente divertido de se assistir. Se os rumores de que Adi Shankar está sendo o produtor executivo da série de Zelda na Netflix forem verdadeiros, eu realmente não estou preocupado com isso.