[SÉRIES] As muitas faces de Orphan Black

orphan-black-tatiana-maslany-clones-sarah-alison-cosima-helena-rachel

Quem tem acompanhado este espaço aqui deve ter percebido que eu estive assistindo avidamente a quarta temporada de Game of Thrones, com reviews semanais e mais outras coisinhas. O que você talvez não saiba é que minha atenção neste período andou profundamente dividida, pois tem uma outra série cujos episódios eu não perdia por nada, e cuja segunda temporada também encerrou logo agora: Orphan Black, uma produção canadense dos canais Space e BBC America.

Um misto de ficção científica e série policial, Orphan Black conta a história de Sarah, uma punk trambiqueira que encontra uma mulher exatamente idêntica a ela, bem no momento em que esta comete suicídio. Ao assumir a identidade da misteriosa mulher, Sarah vai pouco a pouco desvendando uma trama complexa que envolve clonagem, grandes corporações, crime, fundamentalismo religioso, ciência de ponta e mais um bando de coisas doidas. Um enredo bastante envolvente para quem gosta de conspirações, investigação, e de boa e velha ficção científica (mais pro lado da engenharia genética), pode ter certeza.

A série é relativamente despretensiosa em sua origem e produção, e passaria mais ou menos despercebida, não fosse por dois detalhes importantes, que têm causado bastante discussão aí pelas internetes: em primeiro lugar, esse negócio de ter um monte de personagens interpretadas por uma única atriz, Tatiana Maslany, que tem feito um trabalho excelente. Mas o segundo ponto (e o que mais tem gerado frisson) são as discussões que a série traz sobre questões de gênero, sexualidade, identidade e outras afins, que a colocaram no radar do movimento feminista. Em homenagem às múltiplas formas que a atriz principal assume ao longo da série, resolvi comentar sobre esses e outros tópicos que compõem as muitas faces de Orphan Black.

orphan-black-ladies

Clonagem

O mais óbvio dos temas (é meio que um spoiler pro comecinho da primeira temporada, mas que se dane, não dá pra discutir a série sem revelar isso) é o fato de que Sarah é uma dentre diversas pessoas geneticamente idênticas – ou seja, clones. Essa descoberta, e a investigação de quem está por trás disso, por quais motivos e como isso foi feito, é o fio condutor da trama principal de Orphan Black. O tema já foi abordado por uma infinidade de filmes, séries, etc., claro, mas o mais interessante aqui (e relativamente pouco explorado em outras obras) não é o fato de as clones serem iguais, mas é justamente suas diferenças. Ao contrário do clichê que geralmente encontramos, aqui as clones tomaram diferentes rumos na vida, têm diferentes personalidades, aparências, interesses, habilidades, e por aí vai. A graça é justamente descobrir as inúmeras variantes que podem haver sobre uma única pessoa.

E uma curiosidade sobre o tópico da clonagem: as personagens interpretadas por Tatiana Maslany nasceram todas em 1984. Isso pode parecer pouco realista para quem acompanhou as notícias da ovelha Dolly, amplamente divulgada como o primeiro clone de um mamífero, mas somente em 1997. Entretanto, ao pesquisar sobre o assunto, descobri que a grande novidade de Dolly foi o fato de ela ter sido clonada a partir de uma célula adulta. Clones feitos a partir de células embrionárias, no entanto, são bem mais antigos, e o primeiro mamífero clonado desta maneira (também uma ovelha) é de… 1984. Não sei se a data é coincidência ou não (ou mesmo uma referência ao livro de George Orwell), mas o fato é que, em princípio, a tecnologia para fazer os clones mostrados na série existia sim na época de sua concepção.

Admirável Mundo Novo

Por falar em 1984, um outro livro famoso que mostra uma sociedade distópica e totalitária é Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Neste livro, a maior parte da população (as castas inferiores) são pessoas clonadas a partir de células embrionárias… da mesma maneira que as personagens de Orphan Black. Pra não dizer que é coincidência, um personagem importante da série e ligado ao plot de clonagem chama-se Aldous Leekie, nome bastante semelhante ao do autor de Admirável Mundo Novo.

dd4b59c4e31081bf0e1cb5492c10ffca

Darwin e a Biologia

A temática da clonagem obviamente faz com que a série se foque muito nas ciências biológicas, e os autores fazem questão de mostrar esse conhecimento através de outras referências sutis. Foi mencionado acima o personagem Aldous Leekie, cujo nome lembra o de Aldous Huxley, mas com um sobrenome alterado. Pois este sobrenome (com uma grafia um pouco diferente – Leakey) pertence a uma célebre família de biólogos, cujo patriarca, Louis Leakey, foi um dos maiores nomes no estudo da evolução humana. Outra homenagem pode ser encontrada em Felix Dawkins, irmão de criação de Sarah, cujo sobrenome remete a outro famoso biólogo evolucionário, Richard Dawkins. Cosima, uma das personagens principais (cujo nome é inspirado na consultora científica da série, Cosima Herter) estuda biologia evolucionária. A influência da biologia evolucionária é tanta que os nomes da maioria dos episódios são retirados do texto de A Origem das Espécies, o célebre livro de Charles Darwin que deu início à moderna Teoria da Evolução.

Transumanismo

Um dos estranhos grupos que Sarah e suas irmãs-clones encontram ao longo da série são os “Neolucionistas”, adeptos do uso da engenharia genética e outras alterações biológicas para tornar-se algo além do humano. Pois esta filosofia tem muitos adeptos no mundo real, sendo mais conhecida como transumanismo (ou trans-humanismo), que concerne também formas tecnológicas de melhorar a humanidade, além das biológicas. Aliás, esse termo foi criado pelo biólogo Julian Huxley, irmão de, adivinhem… Aldous Huxley.

Teorias da Conspiração

Já que estamos no tópico de homenagens em nomes, não pude deixar de reparar que um dos primeiros personagens a serem introduzidos é um policial chamado Art Bell. Este é o nome de um radialista americano, criador e antigo host do programa de rádio Coast to Coast AM, famoso por lidar com tópicos como paranormalidade, ocultismo, OVNIs e teorias da conspiração. Apesar de não haver nada de paranormal ou geralmente “Arquivo X” na série, as maquinações e intrigas do pessoal por trás dos clones (e seus inimigos) é o tipo de conspiração sinistra que o Art Bell da vida real adoraria estudar.

eye_of_god

Fundamentalismo Religioso

Logo desde o princípio torna-se claro que há dois grandes grupos interessados nos clones: o pessoal que os criou e uma organização de cunho religioso, que aparenta ser contra sua existência. Isso para mim é uma referência clara aos grupos religiosos que, no mundo real, se opõem não só a pesquisas genéticas como também a outras formas de ciências biológicas como pesquisas com células-tronco, ou mesmo coisas como controle de natalidade e aborto, temas caros ao feminismo, que pauta grande parte da série. Claro, os religiosos mostrados na série são um grupo extremista, algo bem exagerado e fora da realidade da maioria das pessoas, mas sua ideologia e argumentos refletem aquilo que você vê no noticiário todos os dias, trazendo essas discussões para dentro da série.

Feminismo

Isso nos leva àquele que é identificado por muitos como o verdadeiro tema central da série, ou ao menos algo que ela traz à mesa de forma magistral: o feminismo. Pra começar, Orphan Black é uma série que não só tem uma protagonista feminina, mas tem um monte delas, todas interpretadas fantasticamente por Tatiana Maslany. E vai mais além: suas mulheres não são os simples estereótipos encontrados por aí, de mocinha indefesa, ou mesmo suposta badass que na hora do perigo precisa de um homem para salvá-la, ou sedutora sexy que existe mais pra provocar o desejo do espectador feminino. As clones (principalmente a Sarah) podem se virar muito bem sozinhas, e muito dificilmente a gente vê qualquer tipo de fanservice do sexo feminino. Por outro lado, os homens da série geralmente não chegam a ter tanta importância assim como personagens, costumam ser ou obstáculos ou aliados para as personagens femininas, e inclusive fornecem uma boa dose de fanservice pra quem gosta de corpos masculinos sarados (Paul Dierden que o diga).

Mas a coisa vai muito além de inverter a lógica machista do entretenimento de massa. Orphan Black aborda, de forma direta ou indireta, a maioria das questões mais prementes do feminismo, como direitos reprodutivos, violência doméstica, dominação sexual, entre outros. O tema da clonagem é muito usado como metáfora para a luta do feminismo para dar à mulher o controle sobre seu próprio corpo (que é o mote de reivindicações como o acesso ao controle de natalidade e descriminalização do aborto). Muitas vezes você vê personagens dizendo algo como “é a minha biologia, portanto a decisão é minha“, o que soa bastante familiar para quem já frequentou discussões sobre o aborto. Pessoas (geralmente homens) tentando literalmente controlar o corpo das (mulheres) clones e fazer coisas com elas, frequentemente envolvendo reprodução, são uma imagem comum na série, e sempre algo retratado como perverso e profundamente perturbador. E isso parte tanto dos religiosos quanto dos cientistas responsáveis pela clonagem. Também há, por exemplo, um namorado abusivo de Sarah, e a série deixa bem claro que o comportamento abusivo dele ocorre não porque ela “deixa” ou mesmo “gosta”, mas apesar de todo o enorme esforço que ela faz para se livrar desse traste. E por aí vai – não é sem motivo que Orphan Black caiu nas graças das feministas.

felix-dawkins-en-orphan-black

Sexualidade e identidade de gênero

Continuando nessa linha progressiva, Orphan Black também procura explorar questões relacionadas à sexualidade humana e identidade de gênero, tendo inclusive um gay e uma lésbica entre seus personagens principais. Felix, irmão adotivo de Sarah, é não só um homossexual, ele é uma bixa lôca que chega a ser quase uma caricatura de tão afetado… exceto que ele não se resume a ser “o cara gay engraçado”, mas é um dos personagens-chave, sendo inclusive o único não-clone em quem as clones confiam plenamente (e, de maneira bastante significativa, a única pessoa do sexo masculino que está inequivocamente entre os “mocinhos” da série). A lésbica é uma das clones, o que inclusive suscita todo aquele debate de a sexualidade ser ou não uma característica de nascença – e, nesse caso, seu homossexualismo é um detalhe tão trivial que chega a passar despercebido. A certa altura surge até mesmo um clone transgênero (que nasceu mulher, mas fez um tratamento para tornar-se homem), em um episódio recheado de discussões sobre identidade de gênero.

Movimento punk

Como mencionado acima, Sarah é uma punk, tanto em vestimentas e gosto musical quanto em atitude, o que é refletido também por seu irmão Felix. Além da trilha sonora, a temática punk de rebelião contra o sistema capitalista e rejeição tanto das corporações, quanto do governo, quanto da igreja pode ser vislumbrada no comportamento sinistro e manipulador dessas instituições, que se apresentam como antagonistas da série.

Política e ativismo

A mãe adotiva de Sarah, “Sra. S.”, menciona que Sarah tomou gosto pelo lado musical do punk, mas não pelo lado político, e isso reflete outro tema subjacente à série. Com o tempo vamos descobrindo que a Sra. S., que tem um tremendo sotaque irlandês, participou ativamente de movimentos revolucionários em sua juventude, atuando inclusive em ações armadas, e ainda mantém esses contatos na atualidade. Isso lembra, claro, o movimento revolucionário irlandês IRA e sua luta armada pela independência da Irlanda, mas também outros tantos movimentos militantes de tempos mais recentes, principalmente os de tendência esquerdista, o que se conecta bastante com o lado ideológico mais à esquerda do movimento punk.

orphan_black_simpsonized__by_adn_z-d6i2hln

Atuando por muitas

Não podemos deixar de mencionar um dos aspectos mais fascinantes da série – a atuação de Tatiana Maslany, que faz o papel das clones. Naturalmente, ela faz várias personagens ao mesmo tempo, frequentemente interagindo umas com as outras (ou ela consigo mesma?), o que não só é um feito impressionante de efeitos especiais, mas também mostra um enorme talento por parte dela. É muito fácil a gente esquecer que todas essas personagens são feitas pela mesma pessoa, pois a sensação é que são realmente pessoas completamente distintas. Quando aparece uma clone na tela, na hora você sabe quem é – mesmo que ela esteja “disfarçada” como outra clone (o que às vezes acontece). Pois a caracterização vai bem além da aparência, envolvendo sotaque, tom de voz, maneirismos, maneira de se movimentar, olhar, tudo muda de uma para outra.

Há muito mais o que se explorar em Orphan Black, claro… mas o melhor mesmo é ver por si só. A primeira temporada está disponível no Netflix, e a segunda não deve demorar muito (espero), agora que sua exibição se encerrou.

Curta nossa página no [Facebook] e nos siga no [Twitter] para mais bugigangas do universo Nerd Geek!

5 thoughts on “[SÉRIES] As muitas faces de Orphan Black

  1. Pingback: Orphan Black: é possível fazer diferente |

  2. Pingback: Orphan Black: é possível fazer diferente | EVS NOTÍCIAS.

  3. Eu tô na metade da 2ª temporada, vi a 1ª no Netflix num pulo também! E fazendo umas pesquisas sobre a série pela net caí no seu post. Nossa, primeiro queria te parabenizar pelo seu texto, muito bom mesmo, ainda que eu tenha lido sobre esse fato do personagem transgênero ahha mas tudo bem,
    Eu tô curtindo a série, às vezes fico aguniada como algumas coisas se desenvolvem muito fáceis, ou, basicamente, a habilidade da Sarah de deixar a filha com qualquer pessoa, mas desde o primeiro episódio já deixava claro que ela não era uma mãe-modelo hahah suas observações também foram geniais, me ajudaram e levar em consideração muitas outras informações apresentadas na série. Vou seguir e continuar vendo mais um episódio, que ainda tenho a 3ª temporada para ver! 😀

    Adriana

Comments are closed.