[SÉRIES] A T.A.R.D.I.S. de Dr. Who na vida real

TARDIS

No ritmo de “esquenta” para o Day of the Doctor (aniversário de 50 anos de Dr. Who, próximo dia 23), apresento a vocês algo bastante inusitado: um trabalho acadêmico, feito por dois físicos e fãs da série, que procura explicar com base na física do mundo real o funcionamento da TARDIS. A ideia é bastante semelhante ao famoso trabalho do mexicano Miguel Alcubierre, que em 1994 bolou uma mecânica de funcionamento totalmente plausível para o warp drive (motor de dobra) de Star Trek, considerada até hoje uma das alternativas mais viáveis para viagem interestelar mais rápida que a luz.

A dupla de canadenses, Dr. Benjamin Tippett e Dr. David Tsang, apresenta uma TARDIS (no trabalho, uma abreviação de Traversable Achronal Retrograde Domain In Spacetime, ou “Domínio Atravessável Acronal e Retrógrado no Espaço-tempo”) que consiste basicamente de uma região altamente deformada da estrutura espaço-temporal, parecida com o motor de dobra de Alcubierre, só que no formato de um pneu quadridimensional (ou rosquinha, como preferir). Para quem manja da língua da terra que nos deu o Big Mac, o trabalho original está aqui, e tem também uma versão simplificada para leigos aqui.

esquema TARDIS

“Um esquema de espaço-tempo da trajetória da bolha TARDIS. As flechas demonstram a direção em que flui o tempo em cada local. As Companheiras Amy (A) e Barbara (B) vivenciam coisas diferentes dentro e fora da bolha. A vida dentro da bolha é colorida, sexy e divertida. A vida fora da bolha é cinzenta e sem-graça, e se veste como uma professora dos anos 60.” (legenda do trabalho original)

Essa maluquice se baseia na Teoria da Relatividade Geral de Einstein, segundo a qual espaço e tempo estão intimamente ligados em um contínuo de quatro dimensões (três de espaço e uma de tempo), o qual pode ser deformado pela presença de matéria e energia – a gravidade, aliás, é uma consequência de tais deformações. Este tipo de distorção, dependendo do formato, da maneira como nos deslocamos nela, etc., permite viajar mais rápido que a luz – o que, além de tornar possível alcançar lugares distantes do Universo rapidamente, também abre o potencial para viagens no tempo. Afinal, segundo a Teoria da Relatividade, quanto mais rápido viajamos, mais devagar o tempo passa; qualquer coisa viajando na velocidade da luz é atemporal (não percebe a passagem do tempo), e ultrapassar a velocidade da luz significaria voltar no tempo. A física propriamente dita da história é na verdade muito mais complexa (envolvendo a aceleração, o efeito que ela tem no espaço-tempo, a massa do objeto, entre várias outras coisas), mas a ideia geral é essa.

Voltando à TARDIS, ela aqui toma a forma de um circuito fechado, que permite que o viajante dentro dela viaje em círculos tanto no espaço quanto no tempo. A pessoa parte de um ponto inicial, dá uma volta, e na metade do círculo começa a perceber as coisas no mundo exterior acontecendo ao contrário (o tempo passa a progredir na direção inversa), até emergir no mesmo local e momento em que entrou. Para quem olha de fora, o efeito é bastante bizarro: o viajante do tempo parece se dividir em dois, com um deles viajando normalmente em uma direção e o outro se movendo “de trás para frente” no tempo (como um filme sendo rebobinado) na direção oposta. Os dois então descrevem um semicírculo cada um, até se encontrarem e “desaparecerem”.

Esquema da TARDIS vista de fora

Esquema demonstrando como a TARDIS é vista por pessoas fora dela. No lado esquerdo, o tempo aparenta passar de trás para frente.

Claro, ficar andando em círculos não tem a menor graça, e por isso mesmo eles bolaram um jeito de viajar para qualquer ponto do espaço e tempo que você quiser: basta “recortar” trechos desse tubo quadridimensional e depois “colar” os pedaços de forma que a outra ponta desemboque onde (e quando) você quiser. Entretanto, ao fazer isso (só na teoria, claro), os físicos notaram um efeito surpreendente: se você sair enquanto está andando para trás no tempo, você sairá “do avesso” – não só com a direção do tempo invertida, mas invertido também no sentido horizontal (uma imagem espelhada) e com a carga de todas as partículas de seu corpo ao contrário. Em outras palavras, feito de antimatéria.

O resultado disso não é nada bonito (uma explosão equivalente a cerca de 200 mil bombas atômicas como a que destruiu Hiroshima), mas leva a uma conclusão interessante: o “loop” descrito anteriormente, no qual aparentemente surge um par de viajantes (um dos quais “ao contrário”) que se “cancelam” ao final de uma volta, é bem semelhante ao processo de criação de partículas de matéria e antimatéria aos pares que se aniquilam logo em seguida, o que acontece o tempo todo segundo a física quântica. Quem sabe se essas partículas não estão na verdade viajando no tempo em uma TARDIS…

Amy e o Doutor

Um quark e um antiquark

A pergunta mais óbvia é: quando vamos poder entrar numa cabine telefônica e sair no tempo dos dinossauros?? Infelizmente, a resposta para isso é “sem previsão”. Assim como o warp drive de Star Trek, a TARDIS depende de algo chamado “matéria exótica”, o que é nada mais do que um nomezinho chique para “alguma coisa que quebra as leis da física tal como conhecemos” (no caso, matéria com massa negativa – isso mesmo, e não, não faz muito sentido). Ou seja, não dá nem pra imaginar SE é possível existir esse troço (e, até segunda ordem, não é), muito menos COMO conseguir. Bem… pelo menos fica aí a sugestão para futuras gerações.

Para quem tiver a curiosidade (e for versado no vernáculo de Beverly Hills), o Dr. Ben Tippett, que é também autor de pérolas como a Teoria Unificada de Superman e um trabalho explicando a geometria “não-euclidiana” de Call of Cthulhu, deu uma entrevista sobre esta pesquisa em seu site – o entrevistador é um coelhinho branco que só existe na cabeça dele (sério). Ele também comanda um podcast chamado The Titanium Physicists, onde explica conceitos complexos da física como buracos negros e mecânica quântica para convidados leigos, em linguagem acessível e com muito bom humor (também, claro, só para quem domina o idioma de Miley Cyrus). Vale muito a pena para quem se interessa por ciências.

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