[SÉRIE] KAMEN RIDER GAIM (ou apocalipse e frutinhas)

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Lembra do Kamen Rider? Aquele que vive a cada instante combatendo um inimigo fatal, o nosso eterno vigilante, um mutante contra as forças do mal?

O que talvez você não saiba é que no Japão, Kamen Rider é uma franquia anual mostrando um motoqueiro (embora às vezes seja piloto de carro, pois “Rider” tem o mesmo problema de tradução que o Motoqueiro Fantasma) mascarado combatendo monstros de borracha ainda em exibição no Japão. Ok, é bem provável que isso você saiba. Acredito no seu nerd-fu.

O que talvez você não saiba mesmo é que em 2013 o japa do henshin teve uma temporada escrita por Gen Uroboshi. Quem? Talvez você não esteja ligando o nome a pessoa, mas Gen Uroboshi (apelidado de “O Açougueiro” pelos fãs) é o japa pirado que adora escrever sobre futuros distópicos, total colapso mental, barganhas faustianas, gente de terno e desconstrução de gênero. Em outras palavras, é o roteirista de nada menos que Puella Magi Madoka Magica, Psycho Pass e Fate/Zero.

Com efeito, dá até pra fazer um joguinho de bingo quando se assiste uma obra escrita por ele:

gen-urobuchi-butcher-bingoEntão, quando eu soube que esse cara escreveu uma série do Kamen Rider (que basicamente é um programa infantil destinado a vender brinquedos), eu soube que tinha que ver isso.

EMPALAMENTO COM BANANA, PISTOLA DE UVA E OUTRAS BIZARRICES

Todo ano a série Kamen Rider tem um tema diferente. Como mutantes (Kamen Rider Black, de 1987), magia (Kamen Rider Wizard, de 2012) ou astronautas (Kamen Rider Fourze, de 2011). Pois bem, dito isso o tema de Kamen Rider Gaim são… frutinhas. Sério. De verdade. Kamen Rider Gaim é uma série onde o motivador da história e o que dá poderes aos nossos heróis são frutas.

Acha que eu to brincando?

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ENTÃO TOMA UM MANGUAL DE ABACAXI NAS FUÇAS!

Com essa temática, Kamen Rider Gaim nos brinda com diversos momentos de absurdidade e bizarrice que rivalizam com Jojo’s Bizarre Adventure (o que quer dizer muita coisa). Você assiste, assiste de novo e então assiste mais uma vez, sem realmente acreditar que mesmo o Japão foi capaz de fazer uma coisa dessas. Sério, parabains Japão!

Eu não sei o que colocaram no saquê dos executivos da Bandai e da Toei que um dia eles saíram para cantar em um karaokê e decidiram que a melhor forma de vender brinquedos para as crianças seria fazer os seus heróis serem baseados em frutas. Eu sequer consigo imaginar como essa linha de raciocínio começou. Ainda assim, o tema é esse.

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Da esquerda para a direita: Kamen Rider Pêssego, Limão, Melão e Kamen Rider Cereja. Sério.

PUELA MAGI KAMEN RIDER MAGICA

Como eu disse, o objetivo das séries como Kamen Rider é vender tralhas para as crianças. Bonecos, morfadores, chiclé de frutas (o que nesse caso é fácil, né?) e até cuequinhas personalizadas se der. Só que para fazer isso as crianças têm que achar o seu produto legal. E como diabos crianças vão achar super legal se o maior poder do seu herói é combinar laranja e limão na sua armadura (sério isso)?

Resposta: chamem um cara que já fez isso antes. Vamos ver, onde o Japão poderia encontrar um homem que pega uma fantasia juvenil completamente boba e desconstrói ela em um cenário complexo e pesado, com implicações sinistras? Muito simples, a Toei então pegou o telefone do Gen Uroboshi (que quase como todo nerd que cresceu no Japão, é fã da franquia) e disse: “Te vira, magron-san, né?”

E ele se virou com o que tinha.

Nossa história começa na dançante e animada cidade de Zawame, uma cidadezinha da putaquepariu do interior nordeste do Japão que cresceu subitamente nos últimos anos quando a gigamegafucker corporação Yggdrasil se instalou lá. A grande diversão dos jovens de Zawame são competições de dança entre suas ganguezinhas de amigos coloridos, chamados de Beat Riders.

Então é, os Beat Riders são uma gangue de piazada superdivertida e do bem que competem uns com os outros para ver quem é a gangue mais descolada e maneira da cidade. Isso tudo inundado em tanta cor que eu acho que perdi a visão de uns três tipos de cores devido à superexposição dos primeiros episódios. Acho que eu jamais conseguirei enxergar vermelho-magenta novamente.

Nosso protagonista, Kouta Kazuraba, é um ex-membro da equipe Gaim (daí o nome da série) de Beat Riders. Ex-membro porque agora ele quer ser hominho adulto, cheio de responsabilidades de gente grande que não tem tempo para ficar por aí dançando de forma pouco cristã. Neste dilema de passagem de fase para nosso herói, as coisas começam a mudar quando a corporação Yggdrasil lança uma nova moda entre os jovens: digimons de rinha virtuais conhecidos como “Lockseeds”.

É o que todos os garotos legais estão fazendo agora: os beat riders de uma turma pegam seus lockseeds e desafiam os beat riders de outra para uma rinha de monstros virtuais.

TÁ. MAS E O HENSHIN, CARALHO? EU QUERO HENSHIN, PORRA! ME DÁ HENSHIN! EU PRECISO DE HENSHIIIIINNNNNNNNNHEEEEE!!!

Ah sim. Um belo dia, provavelmente numa terça-feira (malditas sejam), o líder da equipe Gaim desaparece misteriosamente, mas não sem antes marcar um encontro com Kouta e a fêmea-alfa do grupo, Mai. Quando eles chegam no local do encontro não havia sinal algum do cara, apenas um portal para outra dimensão. E eles entraram, é claro que eles entraram, é a primeira coisa que você faz quando vê um portal aí aberto dando sopa. Você pensa “opa, não sei o que tem lá, nem sei se vai dar para respirar, ou se o meu saco não vai explodir por causa da gravidade, é claro que eu vou entrar!”.

Enfim, lá ele acha um cinto muito doido e frutas mais estranhas ainda. Eles são atacados por um monstro nativo (ó o que eu disse de portais para outras dimensões, hein!), e Kouta faz o que qualquer um faria no lugar dele: veste o cinto e equipa a fruta nele (no caso, uma laranja). Sim, é óbvio, essa seria minha primeira linha de pensamento também.

Assim sendo, Kouta se transforma em Kamen Rider Gaim, e passa a lutar contra os monstros invasores da dimensão-floresta, chamados de Invés. Eventualmente outros lideres das turminhas de Beat Riders também ganham cintos e frutas intercambiáveis, se transformando em Kamen Riders e lutando uns contra os outros, assim como contra os Invés.

Os primeiros episódios são isso: muita dança, tudo muito colorido, tretas entre os beat riders no nível malhação, chutando a bunda de um Invés aqui e acolá. E por um tempo foi bom.

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Gen Uroboshi uruboshizando

AGORA É ONDE O KYUBEI TORCE O RABO

Só que, então, as coisas começam a ficar sinistras. Inexplicavelmente sinistras, se considerarmos que estamos falando de uma série em que os personagens usam armas chamadas de “Manga Justiceira”. Acontece que os outros Beat Riders não ganharam seus próprios cintos para se transformarem em Kamen Riders por acaso. Eles foram distribuídos secretamente pela Yggdrasil como parte da agenda sinistra e secreta da empresa.

E quando eu digo sinistra, é sinistrona mesmo. Coisas envolvendo o holocausto de 5/6 da população da Terra, uma batalha de vida ou morte para se tornar o novo Deus da porra toda, muitas traições, as invasões de Invés ficando mais frequentes a um ponto “apocalipse zumbi” de tão frequentes, desconstrução da psique que resulta em gente perdendo a sanidade no processo. Ou seja, Gen Uroboshi sendo Gen Uroboshi.

O que eu posso dizer é que a Yggdrasil sabe muito bem da onde as “frutas especiais” vêm e o que é essa dimensão paralela que achou legal sair abrindo portais por aí como se não fosse da conta de ninguém, e esté se preparando para isso. Se é necessário usar jovens dançantes coloridos como cobaia e bode expiatório para a opinião pública caso algo dê errado (spoiler: muita coisa dá errado), bem, então que seja.

No começo da série eles são jovens, coloridos e dançantes, ao fim são um grupo de resistência tentando sobreviver ao apocalipse Invés dentro de traições traindo outras traições. Uau, eu não esperava isso vindo.

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“Me revele o segredo do seu cabelo fabuloso, Takatora!”

CORRIGINDO A MAIOR FRAQUEZA DO AUTOR COM MUITA JAPONEZICE

Qualquer um que já tenha assistido uma obra escrita por Uroboshi sabe como o cara é bom em criar ambientes megalomaníacos, distópicos e depressivos (incluindo Kamen Rider Gaim nisso), mas também sabe que o que ele tem de talento para ideias é o quanto ele se embanana com personagens. Inclusive eu disse que o maior problema para Psycho Pass funcionar são justamente os personagens, porque um thriller noir não funciona sem excelentes personagens, não importa o quão criativo o cenário seja.

Kamen Rider Gaim não é exceção: não tem nada de particularmente fabuloso na escrita dos personagens. Só que isso não é um problema.

Ué, mas como?

Simples: em uma série live action esse problema pode ser sanado com bons atores. E Kamen Rider Gaim os tem. Eu não sou exatamente um espectador assíduo das mídias humanísticas japonesas, mas, de modo geral, o que eu vejo do estilo de atuação nipônico não é algo que me agrada muito. Essa série é uma notável exceção, até mesmo no que ela se propõe a fazer.

As atuações são um tanto dramáticas e estereotipadas demais, só que isso se encaixa bem em uma série infantil, e acaba ficando um resultado bastante divertido. Com destaque especial para “os quatro generais do mal” (toda série tem que ter isso, né?) da Yggdrasil e o Kamen Rider Durião (sim, isso é uma fruta), que é interpretado por um armário tão imponente quanto afetado, que mais parece um personagem saído de Jojo’s Bizarre Adventure (que, aliás, provavelmente nunca vai ganhar uma adaptação live action, porque o Japão não tem homens grandes o suficiente para fazer o elenco dessa porra, mas eu adoraria ver um filme com o The Rock e o Montanha divando fabulosamente, isso eu adoraria)

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Puta merda, o cara tem um cabelo legalzão mesmo…

O QUE FODE É O MEIO CAMPO

Infelizmente, nem tudo são flores nas frutas que transformam nossos heróis em combatentes pela justiça que fizeram pactos faustianicos com organizações do mal, que querem salvar o mundo promovendo um genocídio em escala global (mas oi?). A série tem um sério problema de desenvolvimento.

Deixa eu colocar assim: Kamen Rider Gaim tem um excelente começo. Você não dá nada pela série: jovens dançando, tudo é muito colorido, heróis que ganham poderes de frutas, blablabla. O final é melhor ainda: batalhas épicas pelo destino do mundo, traições dentro traições traindo outras traições, viagens no tempo, os atos dos “heróis” tendo consequências imprevistas, dimensões paralelas, uma civilização em ruínas presa em ecos dos seus erros passados, luta pela sobrevivência no melhor estilo George Romero e gente cedendo à insanidade. Pura arte.

O problema é o meio de campo que liga o ponto A até o ponto B. Acontece que a série atrasou em um mês seu lançamento, estreando apenas em  outubro. Ok, mas e daí? Por que isso é um problema?

Gen: Gaim foi atrasado por um mês e começou em Outubro. Isso porque, caso contrário, o item de power up iria coincidir com a primeira leva de brinquedos durante o Natal. Isto significa que eu não pude apresentar novos itens e personagens até depois desta época.

Porque isso acarreta toda uma questão de logística com a produção de brinquedos para o natal, e dessa forma Uroboshi teve que segurar a introdução de elementos e personagens que ele queria em vários meses. O que resulta em problemas muito sérios no desenvolvimento de personagens e da narrativa, dando uma sensação muito truncada à série.

Você olha e entende que o personagem tal chegou do ponto A até o ponto B, mas COMO ele chegou lá não é tão fácil assim de entender. Não foi um desenvolvimento tão fluído quanto deveria ter sido, e isso prejudica muito a experiencia da série como um todo.

kamen-rider-gaim-43-mkv_snapshot_04-41_2014-10-30_01-27-132É O JUSTICEIRO QUE ACREDITA NA VERDADE QUE É SEMPRE BONITA

Kamen Rider é uma série da Toei tradicionalmente mais pesada e sombria do que os super sentai de cada ano. Só lembrar do próprio Kamen Rider Black, que termina sozinho, sem família, sem amigos, não conseguindo salvar o irmão, e até a Battle Hopper morreu (e não vem me reclamar de spoilers de uma série de VINTE E OITO ANOS ATRÁS, MA A VA PA PUTA QUE O CARREGUE!)

Apesar do seu começo dançante e colorido, melhor dizendo, justamente por causa dele, Kamen Rider Gaim faz jus ao legado da série. E tanto quanto pode, Gen Uroboshi é Gen Uroboshi entregando questões existenciais sobre a vida, o universo e tudo mais, sobre relações familiares e sobre o que maturidade significa. Infelizmente tudo isso teve um desenvolvimento abaixo do que poderia ter sido, mas, se como eu, você não assistia Kamen Rider desde a época da Manchete, e quer saber o que eles andam passando na TV do outro lado do mundo, essa ainda é uma boa recomendação.

nota-3