[SÉRIE] Demolidor – 1ª temporada (resenha)

netflix-daredevil

Este foi um final de semana atípico para muitos, pois sexta-feira estreou Demolidor na Netflix, a mais recente adaptação de um herói da Marvel para a TV, segunda versão áudio-visual do Homem Sem Medo criado por Stan Lee e Bill Everett. Assisti todos os 13 episódios da 1ª temporada, da qual falarei aqui.

A integração de Demolidor ao Universo Marvel Cinemático foi realizada de maneira bem discreta, usando com inteligência o grande conflito visto no filme Os Vingadores como o evento que levou ao surgimento de uma organização criminosa multinacional no submundo de Nova York, mais especificamente na Cozinha do Inferno. Um dos cabeças dessa organização é Wilson Fisk, o grande adversário dessa primeira temporada.

Construindo o Demolidor

daredevil-black-mask

Dezenas de filmes e séries depois, já tornou-se cansativo ver o início de qualquer adaptação de super-heróis para o cinema ou a TV dedicar grande parte da trama para desvendar a origem deles. Em Demolidor isto foi trabalhado de uma maneira bem mais interessante. Pra começar, não é mostrado o acidente que cegou Matt Murdock (Charlie Cox). No lugar disto, é apenas sugerido o que aconteceu, em takes rápidos dos carros envolvidos na batida, do senhor salvo por Matt, das latas de produtos químicos, e dos olhos do menino molhados e irritados.

The Devil of Hell's Kitchen by renato pastor

Demolidor por Renato Pastor

Embora mostrada em poucos flashbacks, a relação de Matt com o pai, o boxeador Jack “Batalhador” Murdock (John Patrick Hayden), foi condensada de maneira eficaz pelo roteiro, assim como toda a tragédia que marcou a morte de Jack. Gostei muito da sutileza de não nos mostrarem a luta entre ele e Crusher Creel, adotando o ponto de vista de Matt ao nos apresentar este episódio de sua vida. Se ele apenas ouviu a luta pela TV, é adequado que nós, espectadores, tenhamos acesso apenas aos sons desta lembrança dele.

Outra escolha inteligente da produção foi a iluminação do ginásio usado por Matt para treinar: predominantemente amarela e vermelha, fazendo referência tanto ao primeiro uniforme usado pelo herói nos quadrinhos, que não veremos na série de TV, como às cores usadas por Jack Murdock quando lutava boxe.

Já os flashbacks focados no treinamento de Matt com Stick – Scott Glenn excelente no papel – estão entre os melhores e mais fiéis aos quadrinhos. Também foi neles que a série mais investiu no aspecto “fantástico” do herói, mas fez isto de maneira cuidadosa, sem destoar muito da abordagem mais realista usada na primeira metade da temporada, e nos episódios posteriores. E Stick está entre os personagens mais fascinantes da série, mesmo aparecendo em apenas um episódio. É inevitável conter a ansiedade para que ele volte a aparecer, o que certamente ocorrerá no futuro, pois ele é responsável por uma das pontas soltas deixadas nesta primeira temporada.

daredevil-red-costume

Por fim, um dos momentos em que eu mais temia que a série pudesse “pesar a mão” na hora de adaptá-lo pra TV – a origem do traje mais estilizado e super-heroico do Demolidor – felizmente foi tratado com muita elegância, e sem exageros. Há uma justificativa bem plausível para sua criação e a motivação do herói para usá-lo, além de funcionar como um símbolo do novo papel que ele assume.

Ouvindo a Cozinha do Inferno

daredevil-listening

Por ser uma série que confia na inteligência de seus espectadores, Demolidor não rendeu-se a redundâncias visuais e diálogos expositivos. Assim, quando mostram o funcionamento dos sentidos aguçados de Matt, no lugar de grafismos, temos o uso meticuloso da sonoplastia, que realça os barulhos nos quais ele está foçando sua audição, e leves distorções na imagem das pessoas de quem está escutando os batimentos cardíacos, que exibem uma irradiação de calor, que sugere o sentido de radar do herói.

A primeira luta que exemplifica ao espectador como o Demolidor usa seus sentidos para defender-se do oponente e atacá-lo é outro ótimo exemplo da cuidadosa direção e montagem, e do excelente design de som da série. Nela a câmera lenta é usada com precisão, guiando-nos pelos sons ambientes nos quais o herói está focado durante o combate, sem comprometer o ritmo da ação.

Também merece elogios a forma como diferenciaram o uso dos poderes de Matt quando ele atua como advogado. Neste caso há o emprego de focos múltiplos e distorções focais da câmera, que dão insights sobre como ele “mapeia” o ambiente com sua audição, identificando pessoas em um salão lotado, colhendo impressões auditivas delas, que ele usa mais tarde para rastrear uma delas nas ruas.

Outra decisão que comprova a confiança dos produtores na inteligência de seus espectadores, é o tratamento dado a personagens estrangeiros. Em Demolidor não ocorrem aqueles momentos – muito comuns em filmes e séries – nos quais dois personagens começam a conversar em seu idioma natal, pra logo em seguida passarem a falar em inglês. Aqui mafiosos russos conversam em russo, chineses falam chinês, e assim por diante.

Desmistificando o Rei do Crime

BLOODY FISK

Bloody Fisk por Aélsio Viégas

Mesmo que já saibamos a aparência de Wilson Fisk, devido à campanha de marketing da série, todo o mistério que precede sua primeira aparição contribui para dar ao personagem uma aura de ameaça que vai muito além de sua presença em cena. E apresentá-lo num ambiente tão limpo e refinado como uma galeria de arte, além de simbolizar o isolamento proporcionado por seu poder, torna o personagem memorável desde o primeiro instante em que ele surge na tela.

Vincente D’Onoffrio fez um trabalho impecável de atuação ao explorar os dois lados de Wilson Fisk, que procura passar uma imagem civilizada para a sociedade, mas que entrega-se à mais brutal selvageria quando sua máscara social ameaça a cair, especialmente quando este risco ocorre diante de Vanessa (Ayelet Zurer), seu par romântico. Um exemplo da qualidade da atuação de D’Onoffrio é o trabalho que ele faz com as mãos, sempre inquietas. Isto o faz parecer um animal em cativeiro, esforçando-se para controlar seus impulsos mais selvagens. Quando estes sobrepujam sua racionalidade, o grau da violência que ele causa é comparável à dos personagens interpretados por Joe Pesci nos filmes de Martin Scorsese.demolidor-rei-do-crime-vincent-d-onofrio-01

E ainda que se entregue a seus impulsos violentos, Fisk consegue agir com a inteligência de um enxadrista ao lidar com as consequências de sua impulsividade, usando os resultados de seus arroubos violentos a seu favor, como, por exemplo, quando ele faz da morte de um mafioso russo um meio de acabar com alguns de seus adversários no submundo de Nova York, e ao mesmo tempo lidar com o incômodo que vem sendo o Demolidor para ele. Tal frieza na hora de resolver problemas causados por ele próprio fazem de Fisk um adversário temível e desafiador.

Uma das decisões mais felizes tomadas nesta primeira temporada foi posicionar o episódio que explora as origens de Wilson Fisk logo após o que mostra trechos do treinamento de Matt com Stick. Assim, os episódios 7 e 8 funcionam como as duas faces de uma só moeda: de um lado a origem do herói, e do outro a de seu nêmese.

E “Shadows in the Glass“, o episódio focado em Fisk, é tão bem escrito e dirigido, e sua direção de arte tão refinada – especialmente nos flashbacks, ambientados nos anos 70 – que ele não fica devendo nada para os melhores episódios de Família Soprano, que foi “apenas” uma das melhores séries de TV sobre a vida pessoal de criminosos.

Os aliados do herói

daredevil-allies

Você constata quão bem escrita, dirigida e atuada é uma série, quando passa a importar-se com a segurança de todos os personagens. Em Demolidor essa preocupação é constante, pois estão todos envoltos numa verdadeira rede de ameaças, que não param de surgir. Quanto mais eles se aproximam de desvendá-la, maior e mais sufocante é o perigo. E é admirável como a equipe de roteiristas fez todos os personagens da série desempenharem papéis importantes para o andamento da trama. Nenhum dos coadjuvantes é desperdiçado, e as conexões entre eles são bem estabelecidas e estruturadas.

Por exemplo, a decisão de envolver Karen Paige (Deborah Ann Woll) com Matt e Foggy (Elden Henson) logo no primeiro episódio, construindo um vínculo forte entre os três, que vai tomando novas formas, e ganhando novas nuances conforme eles desvendam juntos todas as peças que compõem o quadro maior formado pela organização da qual Wilson Fisk faz parte.

Também merece elogios a atuação, muito contida mas bem marcante, de Vondie Curtis-Hall como Ben Urich. O ator foi competente o bastante para transmitir ao espectador seu idealismo, seu desejo de fazer justiça através do jornalismo, sua preocupação com a esposa doente e seus problemas financeiros em seu episódio de estreia.

daredevil-matt-and-claire

Embora tenha uma participação menor nesta primeira temporada, outra que causa forte impressão é Rosario Dawson como Claire Temple, que além de ser o par romântico do herói – algo que é usado de maneira econômica pela série – é bem empregada para demonstrar o quanto a atuação do Demolidor pode afetar a vida daqueles com quem se importa.

daredevil-matt-and-father

Outro personagem importante, que também aparece pouco, é o padre amigo de Matt. Os diálogos entre ele e o padre são escritos e interpretados com primor, além de essenciais para abordar o conflito interno de Matt, quando ele pesa em sua balança moral sua fé católica e sua quase compulsão de fazer justiça com as próprias mãos.

Usando as referências corretas:

daredevil-oldboy-reference

Além da violência gráfica, que envolve sangue, fraturas expostas e mutilações, também contribui pra este tom mais pesado da série as coreografias mais “brutas” e menos “ensaiadas” das lutas, e a excelente fotografia de cores sujas e saturadas, e o alto contraste, que lembram os filmes de crime dos anos 70, como Serpico – que é citado na série, inclusive – além de também fazer referência à arte de Alex Maleev na fase dos quadrinhos escrita por Brian Michael Bendis. Demolidor é o mais próximo que chegaremos de assistir um filme de super-herói dirigido por Martin Scorsese, com roteiros da equipe de Breaking Bad e 13 horas de duração.

Muitas das coreografias de luta são claramente inspiradas naquelas desenhadas por Frank Miller, especialmente quando o Demolidor luta contra Nobu (Peter Shinkoda), uma das melhores lutas da temporada, que além disto serve de pista para uma das próximas ameaças que veremos o herói enfrentar, talvez na 2ª temporada.

Mas, sem dúvidas a que mais se destaca, dentre todas as sequências de luta da série, é a que encerra o episódio 2. Além de fazer referência à antológica cena do corredor de Oldboy, e às lutas mais viscerais e realistas de filmes como Ong-Bak e O Protetor, ela foi tão bem concebida que dá pra sentir a dor dos golpes, e a exaustão do herói, em suas breves pausas entre um adversário e outro para tomar um fôlego, o que contribui muito para torná-lo mais humano, apesar de suas habilidades sobre-humanas. Desde aquela sequência de Homem-Aranha 2, em que o herói impedia um trem lotado de descarrilhar, eu não vibrava tanto com um ato de heroísmo.

Um exemplo a ser seguido

Eu não tenho dúvidas de que Demolidor servirá de referência para as adaptações de super-heróis pra TV e para o cinema nos próximos anos. Estamos diante de um produto acima da média, e perfeitamente capaz de iniciar novas tendências em seu gênero. Com Demolidor a Marvel chegou à maioridade na TV.

nota-5

2 thoughts on “[SÉRIE] Demolidor – 1ª temporada (resenha)

  1. Eu pensei que a série ia ser boa, mas FOI EXCELENTE.
    Ao meu ver o que fez ela ser tão boa, foi por ser mais realista.
    O heroi lutando contra o crime. Nada de algo sobrenatural ou sobre vingança(até agora).
    A série ficou com mtas pontas soltas, ansiosa pela 2 temp e as séries da marvel.
    Essa luta do corredor é demais!!!!!!!! Realmente vc percebe que ele está no limite.

Comments are closed.