[SERIADO] Flash (resenha até a metade da 1a temporada)

The Flash

Não faz muito tempo, eu falei aqui de Arrow (Arqueiro, para os íntimos) e que, no geral, apesar de ter boas intenções, a série mais erra do que acerta. Ora, isso não é a descoberta da Fórmula de Bhaskara para ninguém – tanto que a própria Warner vem trabalhando nos defeitos da série, e ela melhorou bastante mais para o final da segunda temporada e na terceira em comparação a si mesma.

Por isso era meio que de se esperar que Flash, o seriado “irmão caçula” do encapuzado esmeraldino, já viesse com alguns problemas resolvidos e fosse de uma qualidade bem maior. Não que seres humanos sejam conhecidos por aprenderem com os erros do passado (hey, vamos atacar a Rússia no inverno DE NOVO!), mas não custa ter esperança, né?

Barry Allen não é um criacionista, aparentemente...

Barry Allen não é um criacionista, aparentemente…

Barry Allen é um nerdim loser que, apesar de ser brilhante, tem um emprego merda (não que não seja foda, mas ninguém dá realmente valor para o que ele faz) ,e é rudemente friendzonado pelo grande amor da sua vida, sua irmã de criação (Mas oi? Eu já assisti animes o suficiente para não ligar para isso, mas eu realmente esperava uma onda de pitis moralistas quanto a isso, e as pessoas parecem ter aceitado surpreendentemente bem). Ah sim, e seu pai está na cadeia pelos próximos 84 anos por um crime que ele não cometeu – o assassinato da mãe de Allen.

Ou seja, Barry Allen é um fodido. Qualquer um de nós ficaria chateado, quem sabe até mesmo desmotivado, mas não este homem! Por Deus, não Barry Allen!

Barry se diverte com o que faz, sabe rir de si mesmo, leva a vida numa boa, e apronta altas confusões, até que um dia um acidente de laboratório o transformou em algo impossível, e ele usa isso agora para proteger as pessoas e combater o crime.

Eu não sei quanto a vocês, mas essa descrição evoca muito o conceito do Homem-Aranha, e isso é muito bom (visualmente, inclusive, o Barry Allen lembra o Homem-Aranha do Andrew Garfield, que é um Espetacular Homem-Aranha… embora tudo mais nos filmes não seja, mas o moleque é ótimo no personagem). Porque parece existir uma regra não escrita sobre os heróis da DC que eles não podem ser divertidos, e que os deuses de Themyscira os ajudem se um deles contar uma piada. O que é isso, estamos ainda nos anos 2000, onde tudo tem que ser preto, de couro e muito, muito, muito, muito sério? Por favor, né…

Porque o primeiro resultado de busca para "darki e du mau" cair em um perfil de League of Legends realmente não me surpreende?

Por que o primeiro resultado de busca para “darki e du mau” cair em um perfil de League of Legends realmente não me surpreende?

Esse, na verdade, é o grande trunfo da série em comparação a Arqueiro ou Smallvile, por exemplo: não se levar tão a sério. Cara, é um super-herói usando uma roupa colorida e poderes impossíveis para combater bandidos não menos impossíveis, dá pra tirar esse taco da bunda e tentar se divertir?

O Flash usa, sim, uniforme vermelho com raiozinhos desenhados, e chama a si próprio de Flash (inclusive tem zoação por ele falar dele mesmo na terceira pessoa) porque, na moral, é muito legal. Ser um herói é legal, porra, vamos parar com essa viadagem de que tudo tem que ser o Batman, e sombrio, e melancólico, e depressivo, e preto, e sei lá mais o quê!

Um dos seus colegas da equipe de apoio até dá nome de vilão aos bandidos apenas porque, novamente, é muito mais legal assim. O Velocista Escarlate abraça, sem medo de ser feliz, elementos dos quadrinhos fantasiosos como armas que disparam raios congelantes e mutantes que podem controlar o clima, sem tentar fazer aquela “adaptação realista para nossa realidade”, como foi feito em Arrow e Smallville, ou mesmo nos primeiros filmes da Marvel. Esse é o clima da série, e funciona muito bem, se você abraçar a proposta descompromissada.

Fato curioso: o pai do Flash é interpretado por John Wesley Shipp, ninguém menos que o Flash do seriado dos anos 90. Cool, bro!

Fato curioso: o pai do Flash é interpretado por John Wesley Shipp, ninguém menos que o Flash do seriado dos anos 90. Cool, bro!

Isso não quer dizer, claro, que esse seja o pilar de sustentação do seriado – apenas a sua tonalidade. Quando não está salvando o dia de meta-humanos (que é basicamente qualquer pessoa com poderes que não seja herói), ou protegendo sua identidade secreta (essas tretas clássicas de herói), ou tentando dar um jeito na sua vida fodida, Flash gira em torno de vários mistérios bem interessantes.

Esse foi outro erro do começo de Arqueiro que a Warner corrigiu aqui: ao invés de girar em torno de dramalhões mexicanos, a série gira em torno de mistérios que dão vontade de continuar assistindo para descobrir. O que realmente aconteceu na noite que a mãe de Barry Allen morreu? Qual é a do Dr. Wells, afinal? Quem, ou o que, é o Flash Reverso? Qual o limite da velocidade do Flash? Todas estas questões dão vontade de continuar assistindo a série, muito mais do que o “monstro do dia” do episódio.

Flash, é claro, não é uma série para todos, e não faz nenhum milagre. Se você é o tipo de cara que tem um piti lendo qualquer dialogo que não trate sobre a semiótica da natureza humana através de diálogos sobre cortar a grama (True Detective mandou um abraço), ou se você reclama que Godzilla é (oh!) um filme de monstros gigantes se treteando, e não um candidato a todos os troféus de bambu no Festival de Sundance (ou seja lá como se chama o prêmio nessa porra, até porque, duvido que eles adotem coisas tão ocidentais e mainstreams como “prêmios”), essa série não é pra você.

Temos diálogos fracos, muitos clichês (herói que não pode ficar com a mocinha, oh!), e muita ciência ruim (tipo, o cara que pode multiplicar todas as células do seu corpo… e a roupa que está usando também). Mas quer saber? Quadrinhos sempre foram sobre coisas absurdas, clichês e ciência ruim, e se você não quer assistir uma série que parece uma história em quadrinhos… talvez você não devesse estar assistindo uma série sobre um herói de quadrinhos, quem sabe.

O magrelinho de Prison Break fazendo cosplay de Riddick com  uma arma que dispara gelo. Seu argumento é inválido!

O magrelinho de Prison Break fazendo cosplay de Riddick com uma arma que dispara gelo. Seu argumento é inválido!

Para quem é fã dos quadrinhos, o índice de referencias por metro quadrado é espantoso (até porque, a história parece girar em torno da morte do Flash no futuro, o que sempre foi um pilar de grandes acontecimentos nas histórias da DC), e o fato de compartilhar o mesmo universo que o Arqueiro Verde abre um potencial muito divertido e interessante. Com efeito o episódio dos dois é um dos mais legais da temporada, e não é sem razão que eu digo que estou botando mais fé numa Liga da Justiça nos seriados do que nos cinemas (inclusive com a possibilidade de inclusão da Supergirl em um futuro próximo).

A maior virtude de Flash não é ser boba e leve, e sim saber disso e abraçar toda bobeira de uma forma divertida – porque de vez em quando é bom a Warner lembrar que não estamos mais nos anos 2000, e nem tudo precisa ser darkkkkkkkk, sombrio e du mauuuuuuu para ser legal. Muito pelo contrário.

Não é atoa que a série foi aclamada pelos novinhos na premiação de popularidade no People’s Choice Awards 2015.

nota-4

3 thoughts on “[SERIADO] Flash (resenha até a metade da 1a temporada)

  1. Essa classificação que vocês bolaram no final é genial hahaha Gostei do texto, é isso mesmo, conseguir pegar o que “The Flash” é para mim, uma série descompromissada, divertida e espero que marque história no gênero super-herói.

  2. O ator John Wesley Shipp ainda é o melhor flash que já foi interpretado. Eu assisti todo o seriado quando passou na Globo. Inclusive o tipo físico dele é perfeito para o herói.

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