[CIÊNCIA] Viagem no tempo: Dá ou não pra mudar o passado?

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Por Fernando Sacchetto

Aproveitando o ensejo do post de ontem (bem-vinda de volta, Raquel!), gostaria de conversar um pouco sobre um dos temas mais populares da ficção científica, e de longe o meu favorito: viagem no tempo.

Algumas histórias, como A Máquina do Tempo de H.G. Wells (e o filme de mesmo nome) focam em viagem para o futuro, geralmente como forma de mostrar a visão do autor sobre uma sociedade mais avançada tecnologicamente (ou até o contrário, como na obra de Wells). Por mais que haja obras interessantes a respeito, eu vou ignorar sumariamente essa modalidade por um motivo muito simples: isso não muda nada em relação ao Universo como o conhecemos. Afinal, a gente está viajando em direção ao futuro o tempo todo, a 60 minutos por hora. Progredir mais rápido ou mais devagar (o que a gente faz o tempo todo, aliás, de acordo com as Teorias da Relatividade de Einstein) não muda o funcionamento essencial do mundo; causa e consequência continuam funcionando normalmente. No fim das contas, se transportar pra daqui a 100 anos via máquina do tempo não é nada diferente de dormir hoje e acordar na data em questão (provavelmente se congelando pra sobreviver até lá).

Com resultados às vezes bem duvidosos.

Com resultados às vezes bem duvidosos.

O que realmente interessa, quando se fala em viagem no tempo, é reverter o fluxo normal do tempo – em outras palavras, viajar para o passado. Entrar numa máquina em 2014 e sair em 2013 (ou 1973, ou 8113 antes de Cristo). Isso porque, ao contrário da situação anterior, tudo funciona diferente quando a gente “anda pra trás”, pois a causa acontece DEPOIS da consequência, não antes. É isso que se chama de “paradoxo temporal”. O exemplo mais conhecido, o “paradoxo do vovô“, mostra muito bem o problema: Digamos que, por algum motivo bizarro, você resolve matar o seu avô (sempre ele, coitado) ANTES que ele possa conceber o seu pai (assumimos que seja o avô paterno), o que portanto tornaria impossível você nascer. De posse da sua máquina do tempo, você volta pra 10 meses antes do seu pai nascer (só pra garantir) e queima o velhinho (ou, no caso, o jovenzinho). Pronto, nada de papai, e nada de você. Entretanto, se você não nasceu, quem matou o pobre azarado? Isso leva a uma situação contraditória: seu avô só morre antes de conceber seu pai se você voltar para matá-lo; entretanto, se isso acontecer, você não existe, e não volta para matar ninguém. Portanto, paradoxo. A causa disso é a inversão entre a consequência (você existir) e a causa (seu avô não morrer antes do tempo); quando a consequência tenta agir sobre a causa (você, existindo, volta pra matar seu avô), isso fode todo o meio-de-campo e faz bebê Einstein chorar.

Você não tá violando o fluxo de causalidade, né, tio?

Você não tá violando o fluxo de causalidade, né, tio?

Existem duas vertentes principais pra resolver esse problema. Bem, na verdade existem três; a terceira é a mais usada no entretenimento, que consiste em simplesmente dizer “foda-se, é só um filme/livro/série/quadrinho/fita cassete etc.”, fingir que não viu nada e tocar o barco. Na sua maior parte, a série de filmes De Volta para o Futuro funciona desse jeito. Não me leve a mal, eu adoro a trilogia, que rivaliza com Indiana Jones como minha predileta (eu disse TRILOGIA, viu, Shia OBife?), mas o tratamento que ela dá à questão do paradoxo temporal é beeem de qualquer jeito. (Sumir o pessoal na fotinho? Mesmo? Adoro o efeito, lembro até hoje, mas… quem tiraria uma foto de um mato sem ninguém na frente, já que seria esse o resultado final?) Mas quem se debruça mais sobre o assunto tende a cair pra um dos seguintes dois lados: Auto-Consistência ou Linhas do Tempo Alternativas.

O primeiro dos conceitos é talvez o mais intuitivo: A linha do tempo é uma só, o que aconteceu aconteceu, o que vai acontecer vai acontecer. O exemplo máximo disso é Os Doze Macacos, no qual Cole (personagem de Bruce Willis) volta no tempo para investigar o vírus que devastou a humanidade, e no final das contas acaba sendo parte integrante do passado não só dele mesmo mas do próprio problema que ele voltou pra investigar. O que mais chama atenção no filme é como tudo se encaixa perfeitamente; tudo o que os viajantes do tempo fazem no passado já fazia parte da História. Nada é mudado no passado, pois ele já incorporava desde sempre as ações dos viajantes temporais. Por mais que tentassem mudar o rumo das coisas, eles acabavam fazendo com que tudo acontecesse do mesmo jeito; afinal, a viagem JÁ aconteceu.

Aconteceu mesmo, eu vi...

Aconteceu mesmo, eu vi…

Existe uma formulação científica para isso, chamada de Princípio de Auto-Consistência de Novikov, segundo a qual é impossível existirem paradoxos temporais pois a linha do tempo é auto-consistente, mesmo com eventuais viagens temporais; tudo o que existe segue cadeias de causa e consequência (linhas de mundo, no linguajar da Teoria da Relatividade Geral), por mais que elas eventualmente deem voltas sobre si mesmas e às vezes corram em direção contrária ao fluxo normal de tempo. Se alguém tentar mudar o passado de forma paradoxal… ALGUMA COISA vai acontecer pra impedir isso. Afinal, o passado é um só.

A auto-consistência pode funcionar muito bem e deixar tudo bem bonitinho e organizado, mas não tem graça a ideia de não ser possível mudar o passado. Entretanto, existe uma outra hipótese, que permite mudar a História o quanto você quiser sem se preocupar com paradoxo nenhum: as linhas de tempo alternativas. A ideia é apresentada em De Volta para o Futuro 2 (por isso eu disse que a maior parte da trilogia, não ela toda, larga a mão de explicar a viagem no tempo direito). No filme, a história toda do almanaque de esportes leva a uma realidade alternativa na qual Biff Tannen é um tremendo magnata que domina Hill Valley como uma espécie de ditador. Conforme explicado por Doc Brown, a linha do tempo “original” continua existindo, apesar de ser inacessível a não ser que Marty viaje para lá a partir de um passado no qual Biff NÃO ficou com o almanaque.

Ah, o sonho da vida de tantos nerds...

Ah, o sonho da vida de tantos nerds…

Mas e quanto aos paradoxos e tals? Se Biff virou magnata, isso quer dizer que Marty é um panaca e Doc Brown foi internado antes de inventar a máquina do tempo (pois é assim que as coisas acontecem na linha de tempo alternativa do filme). Sendo assim, como eles podem voltar no tempo e corrigir tudo? A sacada é que o Doc Brown que está no sanatório (a título de exemplo) não é o mesmo que formula o plano mirabolante para salvar Hill Valley. Afinal, essa distopia dominada pelo Biff ocorre em um universo paralelo. O Doc Brown original viveu sua vida normal (bem, não exatamente normal, mas… você entendeu), fez a máquina do tempo, pegou Marty, foi pra 2015, e depois voltou para um mundo bastante similar ao seu, mas com algumas diferenças (a 1985 alternativa); quem foi internado foi o Doc Brown desse outro mundo. O que eles estão tentando fazer o filme todo não é na verdade “corrigir a História”, mas sim voltar para seu próprio Universo (ou algum que seja praticamente equivalente). Nessa vertente da teoria, quando você viaja no tempo, você não volta para seu próprio passado, mas para o de um outro mundo idêntico ao seu em todos os aspectos. Pode bagunçar o quanto quiser a História, que o mundo que será alterado não é o mesmo de onde você veio, e portanto você não vai deixar de existir ou algo assim. Exemplos dessa abordagem incluem PrimerDragonball Z (a saga de Trunks e Cell), pra ficar em dois extremos opostos da escala de intelectualoide vs. povão.

Dragonball Z também é cultura!

Dragonball Z também é cultura!

10 thoughts on “[CIÊNCIA] Viagem no tempo: Dá ou não pra mudar o passado?

  1. Existem três escolas de pensamento de viagem no tempo:

    DE VOLTA PARA O FUTURO: o passado pode ser mudado e ao ser mudado cria uma nova realidade alternativa. Isso não explica pq alguem tiraria uma foto de uma lapide vazia, mas enfim

    HARRY POTTER: o passado não pode ser mudado pq se ele fosse mudado já teria sido e nós veriamos isso no presente. Tanto que antes de voltar no tempo o Harry do presente vê ele do futuro no seu passado e… ouch, minha cabeça dói… Essa lógica também pode ser aplicada no Terminator embora eu não realmente entenda como o John Connor mandou ele o cara de volta no tempo para se tornar o pai dele em primeiro lugar…

    AUSTIN POWERS: Tem uma cena ótima em que ele começa a pirar e fazer essas perguntas e o agente diz pra ele relaxar e apenas aproveitar a viagem

    • Harry Potter é um exemplo ótimo de linha de tempo auto-consistente. Gosto bastante de como ele mostra a necessidade de “censurar” parte da informação que circula no tempo para que a cadeia de eventos funcione – por exemplo, os bruxinhos precisavam acreditar que o Bicuço realmente morreu decapitado para ir salvá-lo, daí a importância do cara dar uma machadada nas abóboras.

      Terminator já é bem mais complicado… tem uma porrada de sites dedicados a explicar como funciona a viagem no tempo na série. O negócio é que o passado PODE ser alterado, mas vai gerar um ciclo de linhas de tempo divergentes que só se fecha se você conseguir fazer com que a história se torne auto-consistente. Essa história de ciclos explica inclusive coisas como a origem da tecnologia da Skynet, já que no segundo filme ela vem aparentemente do chip que tinha no T-800, que por sua vez foi criado pela mesma Skynet que se originou a partir dele e por aí vai. Aparentemente isso é um círculo vicioso sem começo, e esse conhecimento surgiu completamente do nada, o que também faz bebê Einstein chorar (paradoxo ontológico). Mas, na explicação mais comumente aceita, na linha do tempo original os seres humanos inventaram a Skynet mesmo, e esse conhecimento passou pras outras linhas do tempo através do T-800. Ou algo assim. É de dar enxaqueca mesmo.

      Como eu disse, De Volta para o Futuro leva bem na flauta essa questão do paradoxo. Eles vêm com uma história de que a história se reescreve em “ondas”, que levam um certo tempo pra entrar em efeito, daí sumirem os irmãos mais velhos do Marty antes dele (pois a “onda” ainda estava chegando nele). O que ainda não resolve o paradoxo: se Marty não nasceu, ele não volta no tempo e não impede que seus pais fiquem juntos, e portanto ele nasce normalmente. A não ser que você me diga que as ondas ficam batendo pra sempre e o Marty nasce e desnasce várias vezes infinitamente. (tudo isso assumindo que ele não conseguisse reverter o problema, claro). Sem contar as questões de por que alguém tira foto de uma lápide em branco ou um jardim vazio, e por que o segundo filme funciona tão diferente do primeiro. Não que isso realmente desmereça os filmes – eles são comédia, e são divertidos pra caramba. Como eu disse, uma das minhas trilogias favoritas. Só não dá pra pensar demais a respeito.

      • O maior problema do primeiro De Volta Para o Futuro é o Marty gerar uma nova linha do tempo em que os pais se deram bem melhor do que na linha temporal de onde ele partiu no início do filme, e não topar com um outro Marty lá na casa dele. Porque se ele gerou um presente alternativo, era pra existir um Marty alternativo filho daquela versão dos pais dele.

        Ou isto, ou ele, automaticamente, absorver a versão alternativa dele assim que entra na linha temporal que gerou, assim como os conhecimentos e experiências acumuladas por seu duplo.

      • Isso pra mim só evidencia como o negócio era nas coxas mesmo. Como eu disse, a proposta de viagem no tempo muda totalmente do primeiro pro segundo filme – no primeiro, claramente a linha do tempo é uma só, e os personagens se “ajustam” automaticamente ao chegar em um presente alterado. Só no segundo que aparece essa história de universos alternativos. Apesar de não ficar claro, o segundo filme deixa em aberto a possibilidade de que as versões “alternativas” dos personagens estão lá também – veja que eles estão convenientemente afastados (Marty na Suíça, e Doc no sanatório). Do contrário, fica mesmo essa coisa de “absorver” a versão alternativa de si, o que poderia levar a consequências estranhas pra caramba, do tipo (por exemplo) fazer Marty se teletransportar da Suíça para Hill Valley instantaneamente.

  2. Eu fico com a explicação de linhas do tempo paralelas. Desde que existam infinitas delas. E aí entra uma coisa que geralmente na ficção eles não abordam: segundo a teoria do caos, uma mínima alteração no passado pode resultar em um universo totalmente diferente no futuro. Vc não precisa matar o seu avô pra deixar de existir. Digamos que vc consiga ir para o passado e ficar invisível. Ainda assim, o fato de vc ter pisado em uma folha de grama pode fazer com que não nasça uma flor ali, que não vai polinizar outra flor a quilômetros de distância, que não vai dar um fruto que o irmão da vizinha da sua avó comeu estragado (…) blábláblá (…), que resultou numa guerra nuclear. A única ficção que vi abordar isso foi em um episódio do Family Guy (mas apesar de os universos serem bem diferentes, incrivelmente eles continuavam sendo uma família, o que é bem estranho). Deve haver outras obras que não conheço.

    O caso é que isto leva a uma consequencia direta para viagens no tempo ao passado: vc nunca (NUNCA!) vai conseguir voltar para seu universo original. Por mais que vc tente consertar as coisas, vc nunca vai corrigi-las o suficiente para que o Universo volte a ser o que era e vc estará para sempre preso àquela linha do tempo que está gerando. Do mesmo modo que, talvez, exista um universo paralelo inacessível onde vc chamou aquela garota pra sair aos 17 anos.

    • O filme Efeito Borboleta mostra um pouco esse lado, apesar de ser bem bagunçado no aspecto de viagem no tempo – o negócio de Evan enfiar a mão nos espetos, fazer as feridas aparecerem nas mãos e as pessoas LEMBRAREM que ele não tinha marcas antes não faz o menor sentido. Mas o “efeito borboleta” em si tá lá.

      Mas essa coisa de você nunca mais poder voltar para seu próprio universo é um aspecto que eu acho bastante interessante, e poderia ser melhor explorado. Falta um pouco dessa reflexão sobre o que significa você se relacionar com pessoas que tecnicamente você nunca viu na vida, por exemplo, mas que (na medida do possível) correspondem a pessoas que você conhece bem.

  3. Outra coisa de De volta para o futuro II: o que é o paradoxo temporal que pode destruir o continuo espaço-tempo? Pelo que eu entendi, se a mesma matéria no pode existir ao mesmo tempo em dois lugares diferentes isso esculhambaria a linha do tempo deixando um enorme vacuo. Minha fisica-quantica-fu não é tão boa assim para ter certeza da lógica disso.

    Alias fato curioso: o corpo humano renova as suas celulas e moleculas completamente a cada dez anos, aproximadamente (algumas mais rapido, outras menos). O que significa que a Jen de 2015 não tinha nada fisicamente da Jen de 1985, então não haveria real problema delas se encontrarem porque não seria “a mesma matéria”

    • Essa parte me pareceu uma invenção só pra gerar tensão mesmo (e talvez economizar nos efeitos especiais, evitando ter que duplicar atores). Não vejo problema nenhum em estar no mesmo lugar que seu “eu” de outro tempo, aliás, deve estar em algum manual de viagem no tempo que experimentação erótica com seus “clones” é obrigatoriamente um dos primeiros usos para a viagem temporal 😛

  4. “experimentação erótica com seus eus do passado/futuro” seria classificado como sexo ou masturbação?

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