[SCI-FI] Steampunk – As Engrenagens de Ouro da Ficção Científica

steampunk_octopus_by_raybender

Steampunk é um desmembramento da ficção científica, que se caracteriza tipicamente pela atmosfera visual detalhada – e atraente – , além do uso preponderante de máquinas a vapor. Seu ambiente é o cenário inspirado pela civilização ocidental industrializada do século 19.

Obras Steampunk são criadas como uma história de um universo alternativo da era vitoriana britânica do século 19, ou americana “Wild West”, em um futuro pós-apocalíptico em que a energia a vapor voltou a ser fonte combustível principal, ou num mundo de fantasia (universo alternativo extreme), que emprega de forma semelhante a energia a vapor.

O aspecto Steampunk mais comum apresenta tecnologias anacrônicas ou invenções retrofuturistas. Essa tecnologia pode incluir máquinas de ficção, como as encontradas nos trabalhos de H.G. Wells e Júlio Verne, ou de autores modernos como Philip Pullman, Scott Westerfeld, Stephen Hunt e China Miéville. Outros exemplos de Steampunk contêm apresentações de estilo histórico alternativas de tal tecnologia, como aeronaves (claro, movidas a vapor), computadores analógicos (a vapor), ou computadores mecânicos digitais como a Máquina Analítica de Charles Babbage (algo com muitas engrenagens). O subgênero Steampunk também pode incorporar elementos adicionais dos gêneros de fantasia, horror, ficção histórica, história alternativa, ou outros ramos da ficção especulativa, tornando-se muitas vezes (eu diria quase sempre) um gênero híbrido. Pense, por exemplo, nos novos filmes de Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr., que seguem o estilo.

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Constance Chesterton and the Cogs of Karma by synthezoideA primeira aparição conhecida do termo “steampunk” foi no ano de 1987, embora agora tenhamos a noção de que o estilo já era vigente antes de ser categorizado como é atualmente posto, e que há muitas obras de ficção criadas sob esta atmosfera mesmo antes da década de 1950 ou 1960.

Uma das coisas que mais chama a atenção neste subgênero é a parte visual, que é, sem dúvida, de arrancar suspiros dos nerds/espectadores/admiradores de artes. O movimento Steampunk é também um evento estético imagético de tendências fortíssimas, abrangendo estilos artísticos, modas de vestuário, ou subculturas, que se desenvolveram a partir do visual dado pela ficção científica em conjunção com os moldes da era vitoriana e design art nouveau.

Como já dito, o Steampunk é influenciado pelo estilo dos romances científicos do século 19, de Júlio Verne, H.G. Wells e Mary Shelley (Frankenstein é Steampunk!).

O precursor mais antigo do gênero no cinema foi a obra-prima de Fritz Lang, Metrópolis (1927), que pode ser o mais importante filme no que tange à representação dos primeiros passos deste movimento intelectual no mundo cinematográfico, fazendo do steampunk um estilo emergente.

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“Expedition Aqua Aurea” de Remedios Varo

Nas artes plásticas, as pinturas de Remedios Varo (artista que atuou no século 20) combinam elementos de vestimentas vitorianas, fantasia e imaginação de cunho tecnológico.

Já na televisão, uma das primeiras manifestações do steampunk foi a série “The Wild Wild West” (1965-1969), que inspirou o filme homônimo em 1999 (no Brasil ele foi “rebatizado” de As Loucas Aventuras de James West).

Conforme já dito (rapidamente acima), embora muitos trabalhos agora considerados pertencentes ao gênero tenham sido publicados em 1960 e 1970, o termo steampunk originou-se no final dos anos 1980 como uma variante do cyberpunk. O vocábulo parece ter sido cunhada pelo autor de ficção científica K. W. Jeter, que estava tentando encontrar um termo geral para obras de Tim Powers (The Anubis Gates, 1983); de James Blaylock (Homúnculo, 1986); dele mesmo (Morlock Night, 1979 e Infernal Devices, 1987). Em uma carta à revista de ficção científica Locus, impressa na edição de abril de 1985, Jeter escreveu:

(Versão limitada e adaptada pela autora deste artigo)

Cara Locus,

Em anexo é uma cópia do meu romance de 1979, Morlock Night; eu agradeceria se tivesse a bondade de endereçá-lo a Faren Miller [….] embora, claro, eu tenha achado sua resenha bastante lisonjeira.

Pessoalmente, acho que as fantasias vitorianas serão a próxima grande coisa, contanto que possamos chegar a um termo coletivo adequado para Powers, Blaylock e eu. Algo baseado na tecnologia apropriada da época; como “steampunks” (punks do vapor), talvez… – K. W. Jeter 

O primeiro uso da palavra em um título oficial foi por Paul Di Filippo, em 1995, na obra Steampunk Trilogy, que consiste em três novelas: “Victoria“, “Hottentots“, e “Walt e Emily“, que, respectivamente, imaginam a substituição de Rainha Victoria por um clone humano, uma invasão de Massachusetts por monstros de Lovecraft, e um caso de amor entre Walt Whitman e Emily Dickinson. (Meio maluco…. né?)

steampunk_relogio_de_pulsoO Steampunk enfatiza o equilíbrio entre forma e função. Como o Movimento de Artes e Ofícios, o gênero mistura (como se misturasse tintas) a linha entre a ferramenta e a decoração. Vários objetos utilitários modernos foram modificados por entusiastas em um estilo mecânico “steampunk” pseudovitoriano. Objetos de exemplo incluem teclados de computador e guitarras elétricas.

O objetivo dessas reformulações é empregar materiais adequados (tais como bronze polido, ferro, madeira e couro) com elementos de design e artesanato consistentes com a era vitoriana, rejeitando a estética do design industrial.

Interessante fato da vida real (e não de um universo alternativo) é que em 1994, a estação de metrô de Paris em Arts et Métiers foi redesenhada pelo artista belga François Schuiten em estilo steampunk, para honrar as obras de Júlio Verne. A estação é uma reminiscência de um submarino, revestida de bronze com engrenagens gigantes no teto e vigias que dão muito bem para reproduzir cenas fantasiosas. Veja abaixo:

Outro evento bacana foi o ocorrido em 2009. O artista Tim Wetherell criou uma peça para a parede da Questacon representando o conceito do universo relógio. A obra contém engrenagens de aço em movimento, um relógio trabalhando, e uma espécie de projetor da Lua em ação. Confira:

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A moda Steampunk é um caso a parte… ela não tem diretrizes estabelecidas, mas tende a sintetizar estilos modernos com influências da era vitoriana. A mistura, apesar de antitética, acaba se tornando harmoniosa. Elementos dos mais diversos são utilizados: isso pode incluir anquinhas, espartilhos, vestidos e saias; ternos com coletes, casacos, chapéus cocos, cartolas, fraques; até mesmo o vestuário militar serve de inspiração. Roupas com influências Steampunk são geralmente acentuadas com vários acessórios tecnológicos: relógios, guarda-sóis, óculos estilosos e armas lasers. Acessórios modernos, como os telefones celulares ou tocadores de música, podem ser encontrados em roupas steampunk, depois de serem modificados para dar-lhes aspecto de objetos vitorianos. Elementos pós-apocalípticos, como máscaras de gás, roupas esfarrapadas e motivos tribais, também podem ser incluídos.

Em 2013, a IBM previu, com base em uma análise de mais de meio milhão de empregos públicos em fóruns, blogs, sites de mídia social e fontes de notícias, que o steampunk seria uma grande tendência a borbulhar e tomar conta do setor de varejo. Na verdade, as linhas de alta moda, como Prada, Dolce & Gabbana, Versace, Chanel e Christian Dior, já haviam introduzido o estilo steampunk nas passarelas da moda. Parece que eles acertaram…

Fugindo um pouco da parte estética e partindo para o lado racional/ intelectual do movimento, tivemos o livro educacional Elementar BASIC – Aprender a programar seu computador em BASIC com Sherlock Holmes (1981) por Henry Singer e Andrew Ledgar, pode ter sido a primeira obra de ficção a descrever o uso da Máquina Analítica de Charles Babbage em uma história de aventura. O livro de instrução, destinado a jovens estudantes de programação, mostra Holmes usando a máquina como auxiliar em suas investigações, e oferece listas de programas para executar tarefas simples de processamento de dados necessários para resolver os casos fictícios. O livro descreve ainda um possível reforço para a máquina de Babbage: um dispositivo que permite utilizá-la remotamente, através de linhas telegráficas. Foram escritos volumes complementares: Elementary Pascal – Aprenda a programar seu computador em Pascal com Sherlock Holmes e De Baker Street para Binário – Uma Introdução à Informática e Programação de Computadores com Sherlock Holmes.

maquina-diferencial-william-gibson-alephWilliam Gibson, com o livro A Máquina Diferencial, escrito em parceria com Bruce Sterling (1990), é muitas vezes creditado como responsável por trazer a consciência generalizada do steampunk. Este romance aplica os princípios dos escritos de Gibson e Sterling (de base cyberpunk) a uma era alternativa vitoriana. O cenário do livro é diferente da maioria das configurações do steampunk, em que é preciso uma visão sombria do futuro, no lugar das versões utópicas mais prevalentes. A Máquina Diferencial foi publicado no Brasil pela Editora Aleph (compre-o aqui).

Enquanto a maioria das obras steampunk originais tinham um cenário histórico, nos tempos atuais o que se trabalha é a colocação de elementos steampunk em um mundo de fantasia, com pouca relação com qualquer época histórica específica. Steampunk histórico tende a ser a ficção científica que apresenta uma história alternativa; ele também contém locais reais e personagens históricos com tecnologia fantástica alternativa. “Steampunks de mundos fantásticos”, como Perdido Street Station de China Miéville , Scar Night de Alan Campbell, e romances da série Jackelian de Stephen Hunt, por outro lado, apresentam o steampunk em um reino de fantasia completamente imaginário, muitas vezes povoado por criaturas lendárias coexistindo com máquinas a vapor e outras tecnologias anacrônicas. No entanto, as obras de China Miéville e autores semelhantes são, muitas vezes, referidas como pertencentes ao gênero “New Weird” ao invés do steampunk.

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Johann Krauss em “Hellboy II”

A série de quadrinhos Hellboy criado por Mike Mignola, e os dois filmes do personagem, interpretado por Ron Perlman e dirigidos por Guillermo del Toro, têm elementos steampunk. Na história em quadrinhos e no primeiro filme de 2004, Karl Ruprecht Kroenen é um cientista nazista da SS viciado em cirurgias, cheio de próteses mecânicas, incluindo um coração mecânico. O personagem Johann Krauss, apresentado nos quadrinhos e no segundo filme, Hellboy II: O Exército Dourado (2008), é um ser feito de ectoplasma (uma forma gasosa) dentro de um traje mecânico. Este segundo filme ainda tem o próprio Exército Dourado, que é uma coleção de guerreiros mecânicos steampunk.

Ainda no campo do áudio-visual, temos animes como Fullmetal Alchemist, A Lenda de Korra, O Castelo no Céu de Hayao Miyazaki e Steamboy de Katsuhiro Otomo, como alguns dos representantes orientais do gênero.

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Outra definição é steampunk “ocidental”, que se sobrepõe com os subgêneros “faroeste estranho” (weird west) e “faroeste de ficção científica” (science fiction western). Várias outras categorias surgiram, compartilhando nomes semelhantes, incluindo dieselpunk, clockworkpunk, e outros. A maioria desses termos foram cunhados como suplementos para o RPG GURPS, e não são utilizados em outros contextos.

Steampunk “histórico” geralmente se inclina mais para a ficção científica do que para a fantasia, mas uma série de romances steampunk históricos também incorporaram elementos mágicos. Por exemplo, Morlock Night, escrito por K. W. Jeter, gira em torno de uma tentativa do mago Merlin ressuscitar o Rei Arthur para salvar a Grã-Bretanha em 1892 de uma invasão de Morlocks do futuro.

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A música Steampunk é amplamente definida e debatida como uma série de diretrizes diversas que envolvem rock, estética apocalíptica e temática de fim dos tempos.

Uma vez que existe pouco consenso sobre como a música steampunk deve soar, há uma ampla gama de estilos musicais e interpretações entre atos musicais steampunk, da dança industrial e música mundial ao folk rock, do cabaret punk ao punk simples e até do hip-hop à ópera.

O steampunk também apareceu na obra de músicos que não se identificam especificamente como steampunk. Por exemplo, o vídeo da música “Turn Me On, de David Guetta estrelado por Nicki Minaj, tem lugar em um universo steampunk onde Guetta cria droids humanos. Além disso, o álbum Clockwork Angels (2012) e sua turnê da banda de rock progressivo Rush, contem letras, temas e imagens baseados em torno de steampunk.

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No fim das contas, em essência, o steampunk é uma forma de reimaginar o passado de maneira futurística, mas de forma que a tecnologia daquela época seja usada para recriar inventos modernos, e até mesmo máquinas que sequer temos ainda (exemplo: carros voadores), movidos a vapor, e muitas engrenagens. Simples assim. Ou não.

Veja na galeria abaixo uma amostra da manifestação do steampunk na cultura pop e nas artes em geral.

Cenários

Veículos

Vestuário, Armas, Acessórios e Próteses

Robôs

DC Comics Steampunk

Homem-Aranha Steampunk

Homem de Ferro Steampunk

Disney Steampunk

Star Wars Steampunk

Transformers Steampunk

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