[SCI-FI] Semana Sci-Fi: A História da Ficção Científica

A ficção científica geralmente está atrelada a um olhar para o futuro, mas suas raízes são tão antigas que tem seu germe na fantasia e nos mitos. Ao olharmos para as origens desse gênero imaginativo, veremos como a ficção científica acompanha a própria evolução humana e nos faz refletir sobre a nossa própria natureza e desejos. No decorrer de sua história, a ficção científica permite ao homem “profetizar” o futuro e perceber e questionar a própria realidade.

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Júlio Verne

Poderíamos apontar em Mary Shelley ou em Julio Verne os precursores da ficção científica, mas isso pode nos limitar, pois um olhar para o passado pode ser bastante revelador sobre as origens do gênero. Se partirmos do pressuposto que a ficção científica é também moldada pela nossa realidade, não podemos esquecer que desde a antiguidade, a realidade moldava os mitos fantásticos, onde deuses, semideuses e heróis alimentavam a curiosidade humana em busca de entender o próprio universo.

Muito antes de Julio Verne, considerado o pai da ficção científica, em livros como “Viagem ao Centro da Terra” (1864) e “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870), outros autores dedicaram obras, onde certos elementos nos fazem entender que ali está o embrião da ficção científica. O alemão Johann Kepler, em “Somnium” (1634), fala sobre uma viagem à Lua num aparelho conduzido por demônios. Francis Bacon, em “Nova Atlântida” (1624), descreve câmaras de ressonância, aviões e submarinos. Podemos encontrar também em Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne e em Fitz-James O’Brien elementos que estarão presentes nas ficções científicas como desafiar a inteligência dos leitores.

O que podemos dizer com tudo isso é que não se pode determinar com exatidão o momento em que surge um gênero literário, pois como vimos, ele pode ser formatado por todo um legado que fornece as bases da sua distinção.

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Isaac Asimov

Em termos históricos, a ficção científica tem sua trajetória dividida em períodos ou eras, mas não há aí um consenso, pois tais periodizações podem variar. Segundo um estudo publicado por Isaac Asimov, a história da ficção científica está divida em três períodos: a “Era Clássica” (que vai até 1926), período onde o gênero não está bem delineado e ainda não possui as características que o diferenciasse das histórias fantásticas. No entanto é neste período que surgem as primeiras narrativas sobre viagens espaciais, criaturas e monstros.

O segundo período, conforme aponta os estudos de Asimov, é a Era Gernsback, que vai de 1926 a 1938. Para o autor, é com a publicação de revistas especializadas e as “Comics Strips” predominando durante esses anos que a ficção científica começou a ganhar sua própria identidade. Esse segundo período é assim chamado em homenagem a Hugo Gernsback, criador da revista Amazing Stories e quem cunhou o termo “ficção científica”, sendo considerado por estudioso como o pai da ficção científica moderna. Mesmo não sendo um gênero literário levado a sério nesse momento, a ficção científica se populariza.

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Hugo Gernsback

A última era, segundo Asimov, é a “Terceira Era” (1938 – hoje), período no qual a ficção científica ganha seu status de gênero literário por trabalhos do próprio Isaac Asimov assim como livros de Arthur C. Clarke, Robert Heinlein, John W. Campbell e Ray A. Bradbury. Nessa fase, John W. Campbell possui um papel importantíssimo. Foi editor da Astouding Stories que a rebatizou de Astounding Science Fiction, onde passou a publicar textos de autores que viam na ficção científica um gênero promissor. Essas publicações contaram com textos de Aldous Huxley, C.S. Lewis e Kourt Vounegut.

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Capa de uma das edições de “Astounding Science Fiction”.

Em 1941, Wilson Tucker cria a expressão “Space Opera” para designar um subgênero da ficção científica, onde o gênero cai em descrença e passa a ser visto como um entretenimento pobre.

Além da periodização proposta por Isaac Asimov, existem outras formas de compreender a historiada ficção científica. Existe a divisão histórica feita em “Era Clássica” (1918-1938), “Era Dourada” (1938-1960), “New Wave” (1960-1980) e a fase “Cyberpunk” (1980-hoje).

A fase “New Wave” é marcada pelo desenvolvimento da Social Science Fiction, onde as viagens espaciais, os monstros e os heróis servem de alegorias para questões sociais, questionamentos da própria natureza humana utilizando de cenários sombrios e de pessimismo sobre e evolução tecnológica. Neste período destacam-se os trabalhos de William Burroughs, J.G. Ballard e Philip K. Dick. O Cyberpunk é caracterizado por elementos como computadores, hackers e a dominação mundial por grandes corporações. Destacamos William Gibson em seu trabalho Neuromancer (1984).

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Cena do filme “Blade Runner: O Caçador de Androides” que foi baseado no livro “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick.

Seja qual for a forma de se periodizar a história da ficção científica, estaremos também periodizando a própria evolução do pensamento humano moldado pela sua realidade. Seja crendo nos mitos ou na evolução da ciência, a ficção nos permite aprofundar nosso conhecimento percebendo o melhor e o pior que nossas realizações são capazes de produzir. Graças a autores como Julio Verne, H.G. Wells, Isaac Asimov e Arthur C. Clarke viajamos ao futuro do mais promissor ao mais apocalíptico, viajamos através de realidades onde a tecnologia ou seres do espaço nos submetem e nos fazem refletir sobre o nosso próprio comportamento. Hoje, a ficção científica é um dos gêneros que mais atrai fãs no mundo inteiro, seja em livros, filmes, jogos ou série de TV, imaginar como será o nosso futuro e as tecnologias das quais podemos disponibilizar, alimenta a nossa imaginação e o desejo de se alcançar o que ainda é ficção.

One thought on “[SCI-FI] Semana Sci-Fi: A História da Ficção Científica

  1. Muito antes de Julio Verne, de Johann Kepler, de Francis Bacon, de Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne e Fitz-James O’Brien temos Luciano de Samósata, que no século II escreveu Uma história verdadeira, onde imaginou uma viagem à Lua, além de mencionar vida extraterrestre e de antecipar vários termos atuais da ficção científica.

    E por favor, cuidado ao usar o termo ‘homem’ para se referir à humanidade. Ele é excludente e deixa o restante da humanidade de fora.

    Abraço.

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