[SCI-FI] Breve comentário sobre os limites invisíveis e fluidos da Ficção Científica

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Nascida das entranhas mais profundas da literatura fantástica, e desta separada pelo avanço exponencial da Ciência (em todos os setores) no século XIX, a literatura de ficção científica popularizou-se na cultura norte-americana a partir das revistas Pulp – revistas baratas e de ampla circulação.

Cena de Blade Runner

Cena de Blade Runner

A Ficção Científica, tida à primeira vista como uma literatura menor, voltada para crianças ou pessoas de pensamento mais rudimentar, tem dominado progressivamente a cultura pop, enchendo enredos de livros, filmes (bons e ruins), podcasts e séries televisivas.

Mas, mais importante do que simplesmente falar naquilo que de fato chama a atenção neste gênero – hoje predominantemente de interesse do público Nerd – é falar nos parâmetros que definem o SCI-FI.

Existe uma espécie de tratado mental tácito, e amplamente partilhado entre pessoas em todo o mundo, que a ficção científica seria determinada como tal a partir da existência, no enredo de alguma de suas obras, de figuras icônicas e cenários pré-determinados, como se para a formação de qualquer trabalho nesta linha fosse necessária uma espécie de fórmula. Assim, não raro, ao perguntar do que se compõem os livros, filmes e obras em geral de Sci-Fi temos os seguintes elementos como primordiais para sua existência:

E por aí vai.

Os saudosos Dr. Brown e Marty McFly da trilogia De Volta Para O Futuro

Os saudosos Dr. Brown e Marty McFly da trilogia De Volta Para O Futuro

Mas, usando como exemplo a ideia de “viagem a satélites”, e ainda pensando se esta tal fórmula seria adequada para a classificação do que, de fato, pode ser considerado um trabalho de Sci-Fi, pensemos na seguinte situação:

Um homem viaja para a lua. Já no solo de nosso satélite natural, o tal homem nada faz além de viver aventuras ou ações que poderia muito bem viver na Terra, de modo que o único elemento extraordinário de sua história seria o lugar onde ele se encontra ( na lua).

Só por causa do local onde nosso protagonista atua, poderíamos dizer que essa é uma situação ficcional científica.

A resposta, embora amarga, é SIM.

O simples fato de ele (o protagonista da historinha acima) estar na lua faz disso uma peça de Sci-fi.

Levando isso em conta, podemos considerar que o uso de todo e qualquer dos artifícios acima citados, joga qualquer história para o âmbito da ciência.

Rick Deckard e a replicante Rachel, de Blade Runner

Rick Deckard e a replicante Rachel, de Blade Runner

Sim, caro leitor. Isso parece enfraquecer, e muito, a ideia de ficção científica. E, muito em razão desse “não-limite”, tantas foram as obras ruins, péssimas e até mesmo fora de classificação, que mancharam revistas Pulp América a fora, e fizeram desgostosos muitos leitores ávidos por algo maior e mais bem elaborado. Também esta espécie de “fórmula” – este uso de variáveis que tornam uma obra de arte numa equação padronizada – foi muito responsável pelo afastamento deste gênero riquíssimo como uma literatura pobre.

No entanto, é interessante notar que os limites da ficção científica não são restritos por esse “molde” cheio de argumentos e artifícios pré-determinados.

A maior prova disso é que toda ficção científica pode abraçar outros gêneros. Uma fantasia pode ser Sci-fi também. Assim como romances policiais, suspenses, histórias de ação e aventura.

Theodore, o protagonista do drama sci-fi Ela, filme que ganhou em 2014 o Oscar de melhor roteiro original.

Theodore, o protagonista do romance sci-fi Ela, filme que ganhou em 2014 o Oscar de melhor roteiro original.

Outra coisa interessante é notar que, de certa forma, a ciência predomina. Um enredo, por exemplo, que traga mil figuras monstruosas – e que seria, originalmente uma fantasia – pode ser facilmente dado como científico a partir do momento que a condição de existência desses seres esteja ligada a um argumento da ciência.

E, mais do que tudo, é interessante notar que, ao contrário do que muitas pessoas fantasiam (não, isso não foi um trocadilho), toda ficção científica – se bem elaborada – será pertencente a um universo paralelo, ou a uma época diversa da nossa, na qual os eventos serão guiados por leis fundamentais de uma ciência artificial criada para e por aquele universo. Tais leis terão sempre – repito, se a obra for bem elaborada – argumentos fortes nos quais toda a trama se equilibrará e das quais ninguém poderá escapar impune.

Um exemplo dessas limitações impostas pela ficção científica é a ideia de inteligência artificial desenvolvida em HER (ELA). O filme – uma história de amor E Sci-fi – fala de uma inteligência artificial que supre as carências do personagem principal, Theodore. Curioso notar que a parte dramática do filme apoia-se justamente na lei base das leis da ficção científica: Sempre deve haver a criação de regras próprias, imutáveis e pétreas dentro do universo ficcional. A dificuldade do protagonista reside justamente no fato de Samantha ser uma inteligência artificial, concreta por meio de uma voz, mas incorpórea.

Outrobotros exemplos da importância das limitações estão nas leis da robótica, criadas por Isaac Asimov, e sem as quais seu universo de homens forjados em aço seria um verdadeiro caos, nas idas e vindas de tantas viagens temporais atrapalhadas ou mesmo interrompidas por pequenos detalhes (pequenos, mas importantíssimos).

A Saber: As Três Leis da Robótica

1- Nenhum robô pode ferir um ser humano, nem permitir que sofra, por inação, qualquer dano.

2- Um robô tem que obedecer às ordens que lhe forem dadas pelo ser humano, a menos que contradigam a primeira lei.

3- A obrigação de cada robô é preservar a própria existência, desde que não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.

Se pensarmos bem, isso se assemelha à ideia exposta na ficção científica de Blade Runner, em que não só o filme tem suas regras internas de ciências e limitações para ocorrência de eventos, mas os próprios replicantes (como se fosse uma réplica miniatura das leis regentes do universo ficcional) têm sua limitação, ou seja, quatro anos de vida – o dispositivo de segurança.

Mas permanece a pergunta que possivelmente não tem resposta…

O que é ficção científica?

Reveja os filmes a que você tem assistido e repense.

Achar a resposta é um desafio que ninguém conseguiu vencer.

One thought on “[SCI-FI] Breve comentário sobre os limites invisíveis e fluidos da Ficção Científica

  1. Um estereótipo parecido é com relação a filme “nacional”. Muitas vezes vc tem categorias: ação, romance, comédia e, separado, nacional. Como assim? O país de origem nada tem a ver com a categoria de filme.

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