[QUADRINHOS] Rotworld – Parte 01: Homem-Animal

Texto de Nelson Silva

Dentre os títulos da DC Comics nessa sua atual fase chamada Novos 52, Homem-Animal e O Monstro do Pântano facilmente se destacam, o primeiro tendo Jeff Lemire como escritor e o segundo com Scott Snyder na função, dois dos grandes talentos recentes da indústria. Essa dupla conseguiu criar um gigantesco arco envolvendo os dois títulos, os unindo numa mesma instigante mitologia, assim reestruturando os cultuados personagens do título. Aqui vai a primeira parte da minha curta série de postagens sobre esses títulos e o tal arco que os conecta, começando com o digníssimo Homem-Animal.

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Carne e Sangue

Criado em meio a Era de Prata por Dave Wood e Carmine Infantino (este que infelizmente nos deixou nesse mês) em Strange Adventures #180 (título da DC composto por antologias de curtas histórias) no ano 1965, o Homem-Animal é um dos mais curiosos personagens da nona arte, inicialmente um personagem de terceiro-escalão (diria até de quarto) que conseguiu alcançar sua glória pelas mãos do renomado escritor escocês Grant Morrison – mesmo responsável pela revitalização da Patrulha do Destino na mesma época, a gloriosa fase da Liga da Justiça nos anos 90, da monumental minissérie Grandes Astros Superman e entre outras obras-primas – durante a revolução britânica no mercado dos quadrinhos americanos entre a metade dos anos 80 e o inicio da década de 90. Buddy Baker, um dublê de cinema, marido e pai de dois filhos, teve sua vida revirada ao avesso desde que encontrou uma espaçonave em frangalhos após uma explosão, onde foi irradiado por certa energia alienígena que lhe deu a capacidade de se conectar com a “Teia da Vida”, uma espécie de campo morfogenético (um campo hipotético que funcionaria como banco de dados armazenando uma espécie de memória coletiva onde daria sentido a estruturas e padrões de pensamento na nossa sociedade), e assim se apropriar de habilidades das mais variadas espécimes animais do nosso planeta.

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Grant Morrison reinventou literalmente o personagem, começando pelo conceito da “Teia da Vida” e principalmente pela linguagem narrativa. Explorando e extraindo ao máximo dos elementos metalinguísticos, o escritor então levou Buddy Baker para as mais lisérgicas e insanas aventuras, envolvendo vegetarianismo, ecoterrorismo e até a quebra da quarta parede num arco memorável onde Baker acaba encontrando o seu próprio escritor no final, rendendo uma edição histórica. Outra qualidade notável foram as capas do artista britânico Brian Bolland, bastante conhecido por seus trabalhos com o Juiz Dredd e na clássica graphic novel A Piada Mortal, responsável por quase todas as artes nelas ao decorrer do título. Essa passagem do escocês é provavelmente uma das fases mais icônicas e extraordinárias que algum super-herói já teve nos quadrinhos.

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“Olá, me chame de Deus.”

Logo após a saída do Morrison, prontamente a DC pôs o maluco inglês Peter Milligan (também responsável pela reinvenção de outro personagem da DC, o Shade – O Homem Mutável do saudoso Steve Ditko), para com sua psicodelia típica manter o título numa linha de estilo bem próxima ao seu antecessor. Milligan deixou o Homem-Animal devendo nada a Morrison, ao escrever um arco fechado de seis edições que flertava com o mais puro surrealismo. Então Tom Veitch (curiosamente irmão de Rick Veitch, quadrinista que trabalhara em Monstro do Pântano de Alan Moore) surge para sucedê-lo numa passagem bastante aceitável. Respeitando a natureza bizarra do título, Veitch manteve a estabilidade de boas histórias do título, mas sem conseguir alcançar a mesma genialidade de Morrison e Milligan.

A série voltou ao auge quando Jamie Delano, o cara que simplesmente definiu John Constantine nos primórdios da série Hellblazer, assumiu o título sobre o selo da “Vertigo” (braço de publicações autorais da DC), levando Buddy Baker e sua família para inesperados e assustadores caminhos. Com o arco inicial de seis edições “Carne e Sangue”, Delano reestabeleceu uma nova origem para os poderes de Buddy, ligando-o com outro famoso prestigiado da editora nessa linha de quadrinhos não-convencionais: o Monstro do Pântano. Após ser atropelado por um caminhão dirigido pelo psicótico Dudley Frazier, tio-avô materno de seus filhos e o vilão desse arco, Buddy tragicamente morre. O que acontece em seguida demonstra bem o tom perturbado de horror que permearia toda essa fase escrita por Delano. No necrotério, Buddy reconstrói seu corpo a partir do organismo de diversos animais, revelando-se como um “avatar animal” se conectando ao  Vermelho, clara conexão a relação entre o Monstro do Pântano e o Parlamento das Árvores (“O Verde”). Outra característica importante dessa nova fase é a manifestação física das habilidades animais, se antes ele apenas se apropriava em corpo anatomicamente humano, agora elas alteram a formas das específicas partes que são utilizadas, assim o herói ganha asas de morcego ou guelras de peixes dependendo da situação. Delano também centrou sua fase em Maxine, filha de Buddy, e sua também ligação com o Vermelho.

Animal_Man_56_06Buddy Baker na forma de quimera numa passagem da fase do Delano

Sobre as mãos de Delano, a série se encerrou com a edição #79. Logo o personagem se relegou a participar de alguns outros títulos e eventos da editora, como “Crise Infinita” e “52” (onde Grant Morrison retornou a escrever histórias do personagem numa rápida passagem), além de ter ganho uma boa minissérie de seis edições chamada “Os Últimos Dias do Homem-Animal”, pelo veterano Genry Conway e Chris Batista, contando sua aventura final no ano de 2024.

O Vermelho

(Possíveis spoilers a seguir)

Com o reboot da DC, Homem-Animal ganhou uma nova chance entre os diversos lançamentos d’Os Novos 52. Agora sob o comando do escritor canadense Jeff Lemire, um dos promissores quadrinistas recentes em ascensão na editora ao lado de Scott Snyder. Além da sua série Sweet Tooth (publicada atualmente no Brasil pela Panini) na Vertigo, Lemire já havia trabalhado em títulos mensais antes, como algumas histórias do Eléktron e uma fase bem respeitável com o Superboy, que acabou firmando seu futuro como um belo contador de histórias no universo DC. Com o objetivo claro de reinserir o herói de volta ao mundo dos super-heróis, mesmo não tão coloridos e espalhafatosos como antes, e ainda manter elementos que consagraram o título no passado.

Numa maneira brilhante, Buddy Baker já é (re) apresentado ao leitor com uma entrevista dada a um jornal logo na primeira página da edição de estreia. O escritor aqui define que a metalinguagem ainda poderá dar o ar da sua graça, agora de forma tímida, e faz um apanhado da vida de Baker como super-herói com bastante economia. A causa de seus poderes ainda é de origem alienígena, ele continua tendo acesso à teia da vida e um ponto curioso que só será melhor explorado nas próximas edições nos EUA: seus atos heroicos e seus poderes vindos duma ligação com animais selvagens o transformaram como símbolo de grupos militantes contra o abuso e maltrato aos animais, então agora ele é uma celebridade e figura ideológica, o que levou a atuar num filme indie do cultuado diretor Ryan Daranovsky (provável referência a Darren Aronofsky ou uma simples piada com sobrenomes europeus de diretores cults).

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Conheça os Bakers

Família é o tema central nesse novo título, claro que Lemire insere elementos típicos dos quadrinhos de super-heróis para movimentar sua história, mas no fim, tudo se trata sobre os Bakers no seu primeiro arco,”The Hunt” (A Caçada). De inicio, encontramos Buddy questionando sua vida menos ativa como super-herói graças às preocupações constantes de sua esposa, Ellen. Seu filho Cliff se inspira no seu passado enquanto sua filha caçula Maxine parece nutrir uma grande afeição com animais que condiz ironicamente com seu pai. Ao ser avisado por Cliff que alguém havia tomado pacientes dum hospital como reféns, Buddy rapidamente parte para lá como Homem-Animal e logo descobre que o sequestrado era apenas um pai desesperado por ter perdido sua filha para o câncer. Após um diálogo sobre perdas e suas consequências, o homem se torna ainda mais agressivo e Buddy toma uma atitude, nocauteia o sujeito com agilidade.  Por ter acessado a Teia da Vida para tal feito, ele começa a sangrar pelos olhos e, então, desmaia. Logo após, mostra-se plenamente saudável e perplexo pelo o que aconteceu, ao retornar para casa, mal sabendo que as coisas tendem a piorar. Um pesadelo profético o toma pela noite enquanto dorme, Buddy se visualiza num local desconhecido repleto de plantações parecidas com árvores ao seu redor, Cliff surge e lhe avisa que Maxine  representa perigo a todos e então seus órgãos caem,  revelando que teve sua barriga estraçalhada por alguém, provavelmente pela menina, que logo surge em seguida. E o teor de bizarrice aumenta quando Buddy mergulha num lago de sangue a pedido de Maxine, com uma expressão estranhamente inocente em seu rosto e vestindo um uniforme inspirado no mesmo de seu pai. Então três criaturas surgem dignas de serem frutos doentios da mente dum biólogo a lá Frankenstein. Elas apenas pronunciam um aviso que atormentará a vida de Buddy Baker daqui em diante, a ameaça da Podridão.

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Os Caçadores surgem

Durante a madrugada, Maxine aparece com os animais mortos da vizinhança, agora ressuscitados como mortos-vivos, o que revela sua ligação com a mesma fonte dos poderes de seu pai. Buddy então pega Maxine e a leva para uma viagem em prol de descobrir mais sobre sua ligação, eles vão direto para a fonte do Vermelho, a força responsável por suas habilidades. Lá são recebidos por uma espécie de conselho animal, composto por antigos avatares do Vermelho, o título de representante e maior guerreiro dessa força. É revelado que sua filha é a nova avatar e foi apenas foi escolhido como seu guardião e progenitor, seus poderes são do Vermelho e toda a história dos alienígenas era apenas uma ilusão mais plausível criada para justificar o surgimento de suas habilidades, o que é bom já que isso apenas funcionava na lógica nonsense da Era de Prata e da fase do Grant Morrison. O trio de criaturas do pesadelo de Buddy são os Caçadores, antigos avatares do Vermelho que foram corrompidos pela Podridão, outra das três forças fundamentais no equilíbrio da natureza de nosso mundo, o terceiro na balança é o Verde, representado pelo Monstro do Pântano. A Podridão sempre esteve em atrito com o Vermelho e o Verde, mas agora pretende perturbar essa ordem, acabando com o Verde e corrompendo o Vermelho. Sua influência é basicamente como um câncer que se alastra pela Terra, plantações morrem e seres de carne se tornam uma espécie de zumbis monstruosos. Os Caçadores estão no encalço de Maxine para conseguir uma grande vitória para eles se a corrompê-la, resta a Buddy garantir sua proteção, enquanto ela aprende sobre seus poderes com seu mentor felino, Sr. Meias, para grande guerra que estar por vir contra a Podridão. Até a Liga da Justiça Dark, grupo formado por super-heróis sobrenaturais, surge nesse rolo para ilustrar o quão importante o desenrolar desses eventos serão.

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Orgulho do papai

Jeff Lemire é um escritor bem versátil, mas encontra bastante afinidade com temas como “família” e o obscuro, seu Homem-Animal é uma versão bastante inspirada na fase do Jamie Delano, só que com grandes toques de fantasia. A forma como compõe os elementos do Vermelho mostra todo esse lado fantástico, o desenhista Travel Foreman consegue conceber com bastante proeza as proporções bizarras das criações de Lemire ao longo dos capítulos. Foreman se expressa bem em sua arte com traços finos e soltos, onde acerta ao criar o tom macabro que também está presente, as feições tortas ou exageradas das faces dos personagens desenhados por ele dá uma sensação onírica como distorções da realidade, algo fundamental pelas monstruosidades biológicas que surgem. Steve Pugh, antigo artista que havia colaborado com Jamie Delano em sua fase com o personagem, substitui ele com sua arte ainda mais sombria e visceral, acentuando o tom de terror e desespero que a história vai ganhando.

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“Que viagem, mano.”

Nas onze primeiras edições de Homem-Animal, Lemire mantém um clima de filme de estrada, já que os Bakers estão atravessando o país em constante fuga da ameaça dos Caçadores, enquanto tentam encontrar o Alec Holland, o Monstro do Pântano, para se aliarem a ele e conseguirem vantagem na batalha contra a Podridão. O escritor que foi bastante influenciado por títulos sombrios e de terror, aqui cria um refinado jogo de suspense como os bons filmes de serial killers fazem, mesmo nos momentos de tranquilidade há a inquietação de que as coisas sempre tendem a piorar por esse perigo constante em suas vidas. O fato dos Caçadores habitarem corpos humanos, constrói ainda mais a sensação de insegurança, onde qualquer um pode ser suspeito, e no campo das referências,  eles se manifestam duma forma muito semelhante ao alienígena simbionte do filme “O Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter. Fora os sonhos apocalípticos que ganham traços mais perturbadores, com Maxine sendo peça fundamental nos futuros acontecimentos. Mas para o título seguir ainda como uma HQ de super-herói, mesmo sendo o mais bizarro, por exemplo, há boas sequências de ação, principalmente quando o roteirista recupera uma das características mais marcantes da fase de Delano, as habilidades animais se manifestando no corpo do herói, dando-o formas mais animalescas e deixando-o conceitualmente assustador nos combates. Ainda há uma pequena jornada lisérgica de Buddy por dentro do Vermelho no segundo arco, “Extinction is Forever” (Extinção é Para Sempre), após seu corpo ser corrompido pelos caçadores e agora sua consciência tenta conseguir uma nova forma para ressuscitar e retornar a luta, mais ou menos como rolou em “Carne e Sangue” do Delano. Com bastante toque de aventura e descoberta, nesta passagem ele conhece uma figura chamada de Pastor, uma espécie de fauno, seu guia e um dos guardiões do local.

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O Pastor é o  meu senhor… ou algo parecido

Também há espaço para mais brincadeiras metalinguísticas, além daquela entrevista inicial, Jeff Lemire faz uma menção a Grant Morrison. Quando assustado com o quão maluca sua vida se tornou, Buddy lembra de que uma vez sonhou com seu criador, um magrelo escocês, que lhe dizia ter controle sobre sua vida, pois ela era apenas uma história em quadrinhos. Referência clara a última edição de Morrison, onde como já disse anteriormente, ele consegue o feito de se despedir pessoalmente do próprio personagem. Em outro momento, na sexta edição, somos apresentados ao filme que Buddy Baker estrelou, ”Tights” (pela Panini, ficou “Colantes”). Com sutileza, esse capítulo mostra do que se trata o tal longa-metragem, um drama existencialista sobre ser um super-herói através da história de Chas Grant, um aposentado combatente do crime que não consegue encontrar satisfação em seu atual e convencional trabalho, resolvendo voltar a vestir seu colante de Trovão Vermelho novamente. É um conto familiar sobre auto-sacrifício, que poderia soar deslocado no meio da história dos Bakers, mas se correlaciona com a atual situação de Buddy. Jean Paul Leon, o artista responsável por esse breve segmento da história, compõe painéis detalhados e bem comportados, lembrando muito David Mazzucchelli. Vale citar que Jeff Lemire é formado em cinema e em seus trabalhos deixa nítido suas influências vindas da sétima arte. Por isso, já considero esta com uma das minhas passagens favoritas do Homem-Animal, fica o anseio de conferir mais da carreira cinematográfica do personagem.

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Espero ver isso no Sundance algum dia

Após um grande embate entre Buddy, num novo e melhor corpo, e seu antigo possuído por um dos Caçadores, a família Baker finalmente encontra algum momento de paz e segurança,assim como finalmente conhecem Alec Holland, que estava junto com Abby Arcane (outra figura importante neste cenário, mas pretendo comentar melhor sobre ela na segunda parte). Na edição anual do Homem-Animal, aprendemos mais sobre a aliança do Vermelho com o Verde, esta que atravessa gerações. Para terminar, então Buddy e Holland traçam um plano para adentrarem nos domínios da Podridão e conseguirem derrotar o seu respectivo avatar, Anton Arcane, clássico arqui-inimigo do Monstro do Pântano e “tio” de Abby. Assim preparando terreno para o terceiro ato (ou seria arco?) de sua grande história: Rotworld (ou Mundo Podre).

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Com altas doses de bizarrices e sem amarras para ousar cada vez mais, não deixando de lado a relação forte de Buddy e sua família, Jeff Lemire conseguiu manter a originalidade peculiar do título. Mais uma futura clássica fase para se colocar na conta do personagem.

Escrito por Nelson Silva

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