[RODRIGO REFLETE] O Apocalipse Zumbi já aconteceu (só que de outra forma)

Se está esperando a pandemia global de uma doença que tornará a maior parte da humanidade canibais sem sentimentos para ter seu tão esperado apocalipse zumbi, eu recomendo que não espere mais, pois ele já aconteceu e talvez você não tenha notado.

Esqueça a parte em que as pessoas começarão a literalmente se devorarem. Isto não vai rolar (por enquanto). No lugar da prática de canibalismo, temos pessoas que se alimentam compulsiva e morbidamente de informações não selecionadas, fofocas de vidas alheias, filmes, séries e novelas, ou que veneram fanática e religiosamente um time esportivo, ou que são devotas de si mesmas, cultuando sua superficialidade  de maneira parasítica e egoísta.

Cena do filme “Celular“, de 2016, inspirado no livro de Stephen King

No livro Celular, Stephen King já havia apontado para o tipo de “zumbificação” que já existe em nossa sociedade, quando definiu em sua trama que a humanidade foi convertida em seres acéfalos através de um vírus propagado pelos onipresentes celulares, que a maior parte da humanidade carrega consigo como se fosse um novo órgão essencial para a sobrevivência de seus corpos. Claro que a trama extrapola a partir disto, afinal, é através do exagero de uma fantasia apocalíptica que um autor torna mais clara a mensagem que quer passar adiante.

Darkseid após converter parte da humanidade em zumbis controlados por ele através da Equação Anti-Vida

Outro autor que havia atentado para o poder zumbificante das tecnologias de telecomunicação foi Grant Morrison em Crise Final (pois é, eu não me canso de citar essa saga), quando fez Darkseid disseminar a Equação Anti-Vida através da internet, infectando a maior parte da humanidade com uma mistura de meme com vírus metalinguístico cujo principal efeito foi anular o livre-arbítrio, e tornar os infectados totalmente submissos à vontade do Novo Deus, ex-regente de Apokolips. Esse evento apocalíptico mergulhou o Universo DC em seus dias mais angustiantes e desesperançosos. A saga foi uma resposta de Morrison aos problemas que ele via em nosso mundo quando a concebeu entre 2008 e 2009. Quase 10 anos depois, a história, subestimada por muitos leitores na época, continua tão atual quanto na data original de sua publicação em seu retrato fantasioso de problemas muito reais de nossa Terra (a número 33 do Multiverso DC).

Existe até um termo para designar essa nossa fome por informações: ansiedade de informação. E há um movimento contrário, como o slow down, que defende a prática de atitudes menos vorazes e mais serenas com relação ao excesso de dados que trafegam na onipresente internet.

Como editor-chefe de um site que trata de entretenimento e cultura pop, parte do meu trabalho é ficar antenado nas novidades que surgem em várias mídias, seja cinema, TV, quadrinhos, games, literatura. Isto pode ser gratificante por um tempo, afinal, estou lidando com coisas que, teoricamente, eu aprecio. Mas todo o excesso é prejudicial. E esse excesso chegou num ponto de ruptura recentemente, sob a forma de crises de ansiedade e depressão.

Vivemos num mundo em que boa parte da população sofre de problemas relacionados a ansiedade e depressão (recomendo assistirem a série de programas que estamos fazendo sobre o tema). Os dois problemas podem ou não estar relacionados. E posso garantir que a fonte de ambos, no caso de muitos que sofrem deles, reside em nossa relação com a tecnologia, e nossa suposta necessidade de fazer parte das redes sociais mais populares da atualidade, como o Facebook, o Twitter e o Instagram, só pra citar três delas.

A pergunta que muitos deveriam fazer é: isto me faz bem? Por um tempo até pode ser uma atividade saudável, uma forma de manter-nos antenados com o que está rolando no mundo, ou pelo menos naquelas áreas que nos interessam.

Mas há um momento, uma linha muito sutil, a partir do qual perdemos o controle, e o que deveria ser uma fonte de conhecimento para desenvolver o intelecto, passa a ser um dreno de atenção, e o início de um processo não muito diferente da zumbificação.

Você já deve ter notado o aumento de pessoas que vê nas ruas mexendo em seus celulares, enquanto andam distraidamente pela calçada, arriscando suas vidas ao atravessar uma rua sem dar muita bola pro que está acontecendo ao redor delas. Este não é um comportamento muito diferente dos zumbis.

Sei que estou tratando de um assunto que está longe de ser uma novidade. Muitos já se deram conta disto. E sei que muitos já apontaram para os riscos de uma sociedade alienada, com os olhos absortos em telas de poucas polegadas, ou mesmo em telonas de grandes estações de trabalho caseiras, onde ainda há a vantagem de podermos imergir em algum universo alternativo fantástico e mais tecnológico que o nosso.

Um dos efeitos dessa zumbificação da sociedade, por meio das tecnologias de acesso à internet via wifi, é o aumento da apatia. As pessoas tendem, atualmente, a se falarem menos umas com as outras cara-a-cara. O contato humano diminuiu, e nos tornamos avatares de nós mesmos.

Nos dias de hoje, podemos interpretar as epidemias zumbis vistas nos filmes de George A. Romero como uma espécie de presságio. Eles servem como contos de advertência sobre quão prejudiciais podemos ser uns aos outros, não porque nos convertemos em comedores de carne, mas por consumirmos informações não filtradas e não processadas. Ou, por nosso vício de registrar tudo através dos olhos frios de uma câmera de celular, sem nos contentarmos em olhar o mundo com nossos próprios olhos:

Engolimos boatos disseminados na rede como verdades, na maioria das vezes sem realizarmos uma pesquisa aprofundada sobre aquilo que afirmam. Alimentamos mentiras disseminando estes boatos e, com isto, aumentamos a poluição de informações, dificultando a assimilação e filtragem, a fim de acessarmos as que realmente importam e são úteis pro nosso aprimimoramento.

Onde isto vai parar? Eu não sei. Mas não é muito difícil chegar à conclusão de que, quanto mais pessoas estiverem simbioticamente ligadas a seus eletrônicos, hipnotizadas por suas telas luminosas, cheias de promessas que raramente se cumprem, e de estímulos ao consumismo e à disseminação de boatos, os poucos que se beneficiam dessa alienação coletiva continuarão no poder às nossas custas. E não estou falando apenas de políticos, mas também de empresários; dos detentores das maiores fontes de energia do planeta; das indústrias farmacêuticas, que têm sempre uma solução paliativa para os problemas gerados por essa nossa ânsia por informações; e a lista continua…

Não alimento a ilusão de que este artigo despertará as mentes dos que chegaram até aqui. É só uma reflexão sem grandes pretensões. Se for de alguma ajuda para alguns de vocês, pelo menos ele servirá pra algo além de dizer o óbvio: ainda somos escravos, embora os grilhões sejam outros, e tenhamos algumas facilidades e confortos (para saber mais sobre isto, recomendo o documentário A Servidão Moderna). Mas, em última instância, somos escravos…

One thought on “[RODRIGO REFLETE] O Apocalipse Zumbi já aconteceu (só que de outra forma)

  1. Eu andei pensando bastante sobre isso ultimamente, e me dei conta que as pessoas não falam mais umas com as outras nem pela internet. No orkut, por exemplo, a coisa funcionava como um forum e o pessoal conversava, trocava umas ideias. Era idiota? Era, mas não é esse o ponto aqui.

    Hoje no Facebook as pessoas não fazem mais isso. Elas apenas marcam as pessoas que já conhecem para ocupar o tempo dela por 3 segundos ou falam sozinhos mesmo sabendo que não tem ninguem lendo. Isso acontece muito no NGF, mas em portais realmente grandes a coisa ultrapassa o surrealismo: centenas, as vezes milhares de pessoas uma ao lado da outra falando sozinhas.

    Claro, as vezes ainda rola uma sessões de xingamentos para o bom e velho minuto da raiva, mas isso é tudo. Imagino um alien chegando e vendo uma coisa dessas, vai ser muito dificil explicar pra ele o pq disso

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