[RODRIGO REFLETE] “A Vida em Um Dia” (crítica)

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Esta é minha tentativa de começar uma coluna semanal aqui. Como nosso site se chama Nerd Geek FEELINGS, creio ter o direito de expôr neste espaço alguns de meus sentimentos e opiniões (as quais, querendo ou não, são geradas, em parte, por eles). O tema de hoje gira em torno de uma crítica que fiz ao documentário A Vida em Um dia, mas nasceu no Facebook, quando postei o seguinte em minha timeline:

Deixa eu resumir a coisa toda pra quem ainda não sacou: tudo que termina com “ismo”, querendo ou não, é um tipo de religião, e toda religião tem fanáticos. Portanto, não adianta ficar aí batendo no peito e falando com orgulho que não segue nenhuma religião, quando você fica compartilhando coisas que dizem respeito a uma dessas outras coisas que terminam com “ismo”. Sim, você tem uma religião. Lamento ser o arauto das más notícias (pra você, pois não tenho problemas com isto, só com os fanáticos mesmo).

Que o Thiago Ferreira Dantas resumiu muito bem citando este trecho de Curtindo a Vida Adoidado, o qual apenas reforça o fato de ser é um dos melhores filmes da década de 80:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=4Ep6YVqc6Ks/]

E como um terceiro elemento dessa dissertação filosófica, compartilho com vocês minha breve crítica/desabafo de A Vida em Um Dia, que publiquei originalmente no Filmow cerca em 2012:

a-vida-em-um-dia-posterVenho aprendendo cada vez mais a abraçar o cinema como a arte que me permite viajar pelo mundo inteiro, ver e experimentar fatos e sentimentos que dificilmente terei a chance de vivenciar pessoalmente ao longo de minha vida, por mais que ela dê uma guinada inesperada, e eu consiga embarcar numa jornada [global] como a do ciclista coreano que aparece pontualmente em vários momentos deste documentário.

Este ano [2012] fiz questão de me distanciar o máximo que pude de produções norte-americanas, [dando] uma atenção especial para filmes de outros países, e tive sorte de ter à minha disposição toda a filmografia de Werner Herzog, que apesar de alemão, é um diretor que viajou o mundo inteiro, e registrou episódios curiosos e inusitados nos vários países em que esteve, trazendo um pouco desse multiplicidade cultural que este planeta abriga em si para seus espectadores.

A Vida em Um Dia é a coroação desta minha peregrinação cinematográfica, que só fez aumentar minha paixão por documentários, aumentando, igualmente, minha sede por mais deles.

É uma experiência arrebatadora e enriquecedora para alguém como eu – que vive [em Guaxupé] no interior de Minas Gerais, sem muitas perspectivas para conhecer outros países – encontrar um filme deste nível, que dá acesso a um pedacinho da vida de cidadãos do mundo inteiro. Eu o definiria como uma experiência religiosa, no sentido de tornar-me mais ligado e mais envolvido com o que há de mais essencial e definidor daquilo que chamamos humano.

Este documentário transpira humanidade, e vez ou outra tudo que precisamos para nos sentir mais completos, mais integrados a uma entidade maior, é ter acesso a experiências semelhantes vindas de pessoas diferentes, de nacionalidades e culturas [distintas]. E quando falo de “entidade”, não falo de um deus, mas do que todos nós formamos, deste corpo [e consciência] coletivo(a) que todos nós – e toda a vida neste planeta – forma(mos). Às vezes é desta noção que tanto precisamos para sentir que estamos no lugar certo, e fazemos parte de algo que está além de nós. Apenas saber disto faz com que nos sintamos mais especiais.

É como a garota ao final, que sintetiza todo o projeto com seu relato um tanto egocêntrico, mas, acima de tudo, muito verdadeiro. No fundo todos nós queremos que alguém saiba que um dia existimos, que deixamos nossa marca no mundo, se não como indivíduos, pelo menos sob a forma de um registro que indique que fazemos parte da mesma coletividade que tanta riqueza produz a cada dia, nas situações mais rotineiras. É quando o extraordinário surge a partir da soma de inúmeros acontecimentos ordinários. Este é um dos milagres da vida. E fico profundamente grato pelos realizadores deste filme que me proporcionaram tamanho enternecimento.

O filme, brilhantemente montado por Kevin Macdonald e Alejandro Romeo, pode ser assistido na íntegra abaixo, pois foi oficialmente lançado no YouTube, a plataforma que possibilitou sua realização. É possível habilitar legendas para os trechos em inglês, mas recomendo não fazer isto, pois parte da ideia do filme foi deixar que as situações filmadas falassem mais alto que o idioma de cada pessoa. Mas não é necessário assistir o filme antes de ler o restante desse texto.

[youtube www.youtube.com/watch?v=JaFVr_cJJIY]

Caso ainda não tenha ficado claro pra você que chegou até aqui, minha concepção de religião é até bem simples: o ato de um indivíduo acreditar e defender uma ideia que não é apenas dele, mas compartilhada por outros indivíduos. Alguém pode estar pensando que estou falando de ideologia, mas esta é uma outra palavra pra religião, que essencialmente não necessita da crença em um ou mais deuses, ou entidades maiores e mais poderosas que nós, se assim preferir definir tais conceitos. Em outras palavras, religião é o desejo do indivíduo em ligar-se a algo que – enxergue ou não dessa forma – é maior do que ele. E se estamos falando de ideologias, estamos falando de ideias, que por sua vez são conceitos maiores que nós. Maiores porque são pré-existentes à nossa presença no mundo – pois, em sua essência, as ideias são derivações de conceitos fundamentais que são inerentes à “estrutura” de nosso aparelho psíquico – e continuarão existindo após partirmos deste plano de existência (ou simplesmente sumirmos dele, dependendo de suas crenças). Ideias são, em suma, conceitos, muitos deles abstratos, que são poderosos o bastante pra ligarem pessoas de diferentes culturas, etnias e sexos, reuni-las em torno deles, e até mesmo fazer com que lutem por essas coisas intangíveis.

Isto, pra mim, merece ser definido como religião, tanto quanto qualquer conjunto de crenças e dogmas, terminem ou não com “ismo”.

Dito isto, o que proponho a você, caro(a) leitor(a), é que, antes de atacar a religião, a ideologia, ou a sexualidade alheia – tenha você ou não uma crença religiosa – pare por alguns minutos e reflita se não está sendo tão fanaticamente religioso(a) na defesa de suas ideias/preconceitos referentes àquela religião/ideologia/sexualidade que pretende atingir com seus ataques – sejam eles verbais e/ou físicos – quanto um extremista religioso que se explode no meio de um mercado lotado.

Você pode até dizer que não acredita nos preceitos de alguma religião, ou que discorda de determinada ideologia, ou que acha antinatural uma orientação sexual, mas você continua sendo um ser humano, e seres humanos têm concepções geradas por suas impressões do mundo. Essas concepções se aglomeram, formando opiniões, que por sua vez são conjuntos de ideias, as quais – queira você ou não – tomam emprestadas estruturas de pensamento pré-existentes, que são coisas maiores do que você, que é só uma parte delas.

Eu e você somos meros indivíduos que fazem parte de uma rede de ideias formadas por outras individualidades. E também não se esqueça que somos seres sociais, que dependemos de outras pessoas para sobrevivermos neste mundo, e que você tem esse desejo intrínseco à espécie humana de encaixar-se em algum lugar dela, um grupo, um aglomerado de indivíduos que pensem de forma parecida com a sua, não idêntica, mas que compartilhem de algumas opiniões com as quais você concorda. Isto, queira você ou não, é um desejo de ser parte de algo maior que você, e este desejo se chama religião, do latim religare, que significa religação.

Portanto, esqueça um pouco de quão egoístas todos nós somos – em maior ou menor grau – e pense um pouco sobre isto: ninguém está, de fato, desligado do resto do mundo. Nascemos ligados fisicamente a nossas mães através do cordão umbilical, mas a separação que nos é imposta quando essa ligação é cortada não nos desliga de algo maior do que você, ou sua mãe, ou sua família. Você ainda faz parte da espécie humana, e em algum momento vai precisar sentir-se acolhido por uma parte dela, ou sentirá a necessidade de integrar-se a um grupo de indivíduos, pois disto depende sua sobrevivência, seu sucesso e suas realizações neste mundo.

Ninguém é totalmente independente. Somos todos filhos deste planeta. Fazemos parte de uma rede de relações que remonta às origens de nossa espécie e da Vida. Humanidade é o nome dessa religião. E sob esta ideia, mais poderosa e mais antiga que nós, somos todos um só.