[QUADRINHOS] Marvel NOW!: Wolverine #1, Uncanny X-Men #3, Secret Avengers #2 e Thor – God of Thunder #6

marvel_now_logo18

Esta semana tivemos a enigmática reestréia de Wolverine pelas mãos da dupla Paul Cornell e Alan Davis; o terceiro capítulo de Uncanny X-Men, no qual a equipe de Ciclope tem um confronto tenso com os Vingadores; Secret Avengers #2, onde Nick Spencer começa a apresentar a trama central do primeiro arco da série; e Thor – God of Thunder #6, com a revelação da origem de Gorr, o Carniceiro de Deuses.

Abaixo minhas impressões e análises sobre cada uma delas, com SPOILERS.

Wolverine-v5-001-(2013)-(Digital)-(Nahga-Empire)-01Wolverine #1

“Hunting Season – Part 1 of 4”

Roteiro de Paul Cornell
Desenhos de Alan Davis
Arte-final de Mark Farmer
Cores de Matt Hollingsworth

Pois é, mais um título do Wolverine. Este, ao contrário de Savage Wolverine, é a nova encarnação da série em quadrinhos mais antiga do personagem. A intenção deste relançamento é novamente oferecer ao leitor novato, ou àquele que ficou um bom tempo sem ler histórias do mutante baixinho mais onipresente da Marvel, um novo ponto de partida, sem que eles precisem se informar sobre o que aconteceu com o personagem nos últimos anos. Claro que o lançamento do filme Wolverine – Imortal, com estréia programada para 26 de julho, também criou para a editora uma boa oportunidade para atrair novos e antigos leitores para uma série mensal do bom e velho Carcaju.

Wolverine-v5-001-(2013)-(Digital)-(Nahga-Empire)-02

A história desta primeira edição começa com uma crise já em andamento. Wolverine, com metade do corpo carbonizado, caído sobre uma pilha de dezenas de esqueletos dentro do saguão de um shopping onde uns poucos reféns são mantidos sob a mira de um homem empunhando uma arma estranha. Difícil não ficar curioso sobre o desenrolar da situação, e sobre como tudo chegou àquele ponto.

Ciente de que tem um personagem já estabelecido em mãos, Paul Cornell opta por jogá-lo numa situação em que ele fica tão perdido quanto o leitor, criando, desta forma, um ponto de identificação entre Wolverine e nós. E o autor sabe conduzir o suspense em torno da premissa que imaginou, gerando mais perguntas na cabeça do protagonista, conforme o psicopata demonstra uma total indiferença para com a vida de seus reféns, chegando ao ponto de dizer que não quer nada em troca deles, quando a polícia tenta um acordo. Em contrapartida seu interesse por Wolverine aumenta quando descobre sobre seu fator de cura e seu esqueleto de adamantium.

Wolverine-v5-001-(2013)-(Digital)-(Nahga-Empire)-10

Como esta é a série de um dos heróis mais impulsivos da Marvel não demora para a situação alcançar um ponto de ruptura em que Wolverine é obrigado a usar suas garras para evitar que tudo fique ainda pior, algo que acontece na metade da história, quando ele se vê forçado a matar o criminoso na frente se seu filho, Alex. É aí que tudo começa a ficar mais intrigante. Primeiro porque fica claro que a causa do problema não estava no homem mas na arma. Antes de morrer ele parece recuperar a consciência assim que perde o contato físico com o objeto. E depois porque ela logo encontra um meio de dar continuidade aos seus planos, através do filho do falecido.

Wolverine-v5-001-(2013)-(Digital)-(Nahga-Empire)-15

Alex estranhamente se recupera muito rápido do choque de ver seu pai ser morto por Wolverine, e parece pouco se importar com o ocorrido, demonstrando um interesse obsessivo pela natureza dos poderes do herói mutante. Esta obsessão surge assim que o garoto se aproxima da arma, que aparentemente assume o controle de seu corpo. Mais curioso ainda é o momento em que o garoto se refere a si mesmo como “nós”, levantando as suspeitas de que o aparelho funciona como uma antena usada por um grupo de pessoas ou seres desconhecidos para controlar seu usuário remotamente.

Isto acaba gerando um conflito interessante para Wolverine, que recentemente foi obrigado a matar seu filho Daken no arco final de Uncanny X-Force pré-Marvel Now (fato que é rapidamente citado na história). O que segue é uma perseguição frenética ao garoto, que rouba a arma, eletrocuta policiais, atropela e explode um carro em cima de Wolverine. É como se tudo fosse uma série de testes para medir a potência de seu fator de cura mutante, uma possibilidade que não pode ser descartada.

Wolverine-v5-001-(2013)-(Digital)-(Nahga-Empire)-19

Apesar de ser uma história mais centrada no mistério em torno da arma e do impulso assassino que ela desperta no pai e no filho, Cornell ainda reserva um espaço para encaixar boas sacadas de caracterização em Wolverine. Num momento ele revela que o mutante gosta de ir a cafés pelo prazer que sente de mergulhar seu olfato aguçado nas dezenas de variações de aroma da bebida (realmente é o cheiro que mais se destaca dos outros nos shoppings). Em outro Wolverine instrui uma amiga policial a entrar em contato com um conhecido dele, dono de um bar, onde ele mantém um uniforme reserva para situações de emergência. São pequenos detalhes como este que tornam o personagem mais crível.

Apesar da competência usual, Alan Davis parece bem menos cuidadoso nesta edição. Não que haja uma queda considerável na qualidade de seus desenhos, mas ele já caprichou mais em trabalhos anteriores. Talvez seja a idade finalmente cobrando o seu preço de um artista que até então foi um dos mais consistentes de seu ramo. Ainda assim, está bem acima da média de muitos de sua geração que já não mandam tão bem nos desenhos quanto ele.

Uncanny-X-Men-03-pg-000Uncanny X-Men #3

“Avengers vs. X-Men. Go!”

Roteiro de Brian Michael Bendis
Desenhos e Cores de Chris Bachalo
Arte-final de Tim Townsend, Jaime Mendoza, Al Vey e Victor Olazaba

Bendis está imbatível nesta edição, que em apenas 22 páginas consegue criar um embate totalmente verbal entre os Vingadores e os X-Men melhor resolvido do que todos os confrontos físicos apresentados nas 10 edições da saga Vingadores vs X-Men.

Uncanny-X-Men-03-pg-002

Toda a roupa suja é lavada em diálogos acalorados, desde a culpa do Homem de Ferro por particionar a Força Fênix, gerando o Quinteto Fênix de VvsX e a quebra dos poderes de Ciclope, Magneto, Emma e Colossus (que vem aparecendo em Cable and X-Force), até a culpa do líder dos X-Men na morte do Professor Xavier.

Os diálogos de Bendis estão em seu melhor. Espirituosos, dinâmicos, com um timing de causar inveja em roteiristas de filmes e séries de TV que adoram escrever falas espertas para seus personagens. As tiradas cômicas sempre surgem no momento exato para romper com a tensão crescente, e o autor faz isto como se fosse brincadeira de criança, tornando a leitura ainda mais agradável e estimulante.

Uncanny-X-Men-03-pg-005

Porém o que mais se destaca é o excepcional trabalho de Bendis com Ciclope, que vem se tornando nas mãos dele um líder não apenas respeitável mas um baita estrategista político. A forma como Ciclope tira proveito da situação para fazer sua propaganda pró-mutantes assim que percebe a aglomeração de pessoas com câmeras e celulares, curiosas com o resultado do confronto entre as duas equipes, é brilhante! Como um homem consciente das novas ferramentas de propagação de idéias, Scott Summers sem dúvida sabe que em poucos minutos seu discurso se espalhará mundo afora graças a pessoas em busca de mais “curtidas” em seus canais no YouTube e perfis no Facebook e outras redes sociais. É por esta jogada que Ciclope pode ser considerado o vencedor da disputa ideológica apresentada neste número.

Uncanny-X-Men-03-pg-007

Além disto, demonstrando que, apesar de ter uma quantidade tremenda de poder ao seu dispôr em sua equipe mutante, está disposto a usar apenas o necessário para evitar o pior; expondo com eloquência seu ponto de vista e suas intenções para com os mutantes e os seres humanos; e chamando os mutantes do mundo para apoiá-lo quando até mesmo “os melhores guerreiros de nossa geração” estão contra eles, Ciclope busca redimir-se aos olhos de um mundo a cada dia mais atento a suas palavras. E apesar de todo esse engajamento e seriedade como principal defensor de sua causa, nas mãos de Bendis o personagem vem se tornando menos complexado e dramático (o que não significa que ele deixou de ser complexo e ter um potencial dramático a ser explorado), e bem mais descontraído, especialmente na presença de membros mais jovens.

Aliás, já que citei os novos mutantes da equipe de Ciclope, vale a pena destacar que são eles os responsáveis pelas melhores tiradas de humor da edição. Fabio e Benjamin neste número formaram uma ótima dupla cômica, e o flashback de Eva que abre este número é ótimo, seja por contrastar seu passado com seu status atual de maneira divertida, ou por dar um peso maior ao que ocorre em seguida. E a garota também é a protagonista de outro momento em que o autor reforça que sua intenção é igualar os mutantes às demais minorias do mundo, vítimas de preconceito e racismo.

Outro surto de brilhantismo do autor é a revelação da jogada de Magneto, que torna tudo bem mais interessante do que se ele fosse apenas um traidor da equipe, e renova o interesse do leitor pelo resultado de suas maquinações.

Uncanny-X-Men-03-pg-015

Com os Vingadores desacreditados e humilhados publicamente, a confiança de Ciclope no sucesso de sua revolução mutante só aumenta, e ainda rende um dos momentos mais divertidos da história, quando Illyana sugere ao seu líder o que fazer enquanto os Vingadores estão fora de ação. Bachalo captou com perfeição o sorriso sacana de satisfação contida de Ciclope.

unc_xmen_3_17e-g

Melhor edição da série, disparado! Expectativas nas alturas pelo que ainda vem pela frente!

Secret Avengers 02-000Secret Avengers #2

“Mission 002: Bagalia”

Roteiro de Nick Spencer
Desenhos de Luke Ross
Cores de Matthew Wilson

“O universo ao nosso redor expande rapidamente… por isto precisamos expandir.” – Andrew Forson

Esta edição movimenta algumas peças no que parece ser o grande tabuleiro global onde o primeiro arco de Secret Avengers ocorrerá. Enquanto Andrew Forson, cientista supremo da I.M.A. (Idéias Mecânicas Avançadas), reúne membros para o novo Alto Conselho da organização, Nick Fury Jr. vai até Bagália, uma nação governada por criminosos, resgatar o Treinador, a fim de integrá-lo aos Vingadores Secretos.

Secret Avengers 02-004

O início, com Forson tendo acesso a visões do futuro, lembra muito o estilo de contar histórias de Jonathan Hickman, com seus flashforwards, recordatórios econômicos e proféticas menções nebulosas sobre algo que causou a destruição da humanidade e uma chave para evitá-la. A presença de Forson reforça esta semelhança de estilos e idéias, pois o personagem foi criado por Hickman durante sua passagem pelo título do Quarteto Fantástico pré-Marvel Now (mais precisamente em Fantastic Four #610). Nick Spencer parece disposto a explorar o potencial de expansão desta versão da I.M.A., reimaginada por seu colega como uma organização mais progressista e, por isto, mais aberta a novas idéias, além de pouco interessada em conflitos tolos e insignificantes contra super-heróis, um empecilho para sua busca por novos avanços da ciência. Baseado no que Spencer já apresentou neste número, dá pra dizer que ele está indo pelo caminho certo.

Forson quer realizar uma revolução perfeita, movida por novas idéias, filosofias, paradigmas, e ir atrás de novos mistérios para desvendar. Esta é outra abordagem que casa muito bem com a de Hickman. Spencer segue a mesma tendência de amadurecer vilões e organizações antigas da editora, adaptando-os aos novos tempos, com o intuito de convertê-los em novos desafios para os super-heróis do Universo Marvel. Portanto, não é nenhuma coincidência que a Ministra do Estado da ilha nação da I.M.A. é Yelena Belova, ex-Viúva Negra, e recentemente transformada num Adaptóide, um andróide capaz de copiar poderes, habilidades, características físicas, padrões vocais, entre outros aspectos de um indivíduo, fazendo dela a espiã perfeita, e um baita problema a ser enfrentado pelos Vingadores Secretos. E a escolha de Spencer para os demais membros do Alto Conselho da I.M.A. é bem curiosa por incluir, em sua maioria, vilões pouco conhecidos da Marvel. Não são muitos os leitores que já ouviram falar de Mentallo, Superia, Graviton e Jude, o Homem Entrópico. Por isto, fica a curiosidade pra saber qual será a importância de cada um deles dentro do esquema imaginado por Forson.

Secret Avengers 02-015

E o clima de espionagem já esquenta bastante nesta edição. Nick Fury Jr. ganhou um pouco mais de destaque, a fim de estabelecê-lo como o correspondente ao pai no cenário atual da Marvel. Fora isto, carros voadores, agentes disfarçados e infiltrados completam o quadro, no que promete ser um cenário que tende a se tornar ainda mais complexo e cheio de reviravoltas, se levarmos em conta a natureza dos indivíduos envolvidos neste jogo internacional que Spencer já começou a armar aqui.

Fiquei surpreso com o grande avanço que esta edição representou para o título, e com isto ele conquistou um pouco mais do meu interesse. Já estou ansioso para conferir o próximo número.

Thor-God-of-Thunder-06-pg-000Thor: God of Thunder #6

Roteiro de Jason Aaron
Desenhos de Butch Guice
Arte-final de Tom Palmer
Cores de Ive Svorcina

Nesta edição descobrimos em detalhes o que motivou Gorr a tornar-se o temível Carniceiro de Deuses, e Jason Aaron faz um ótimo trabalho tornando a dor e o drama do vilão mais compreensíveis, a ponto fazer com que o leitor simpatize um pouco com ele. Não dá pra discordar totalmente das atitudes do vilão diante do que descobrimos a seu respeito.

Logo nas primeiras páginas acompanhamos um episódio da infância de Gorr, quando já demonstrava uma personalidade contestadora, especialmente no que diz respeito ao papel dos deuses nas vidas de sua espécie.

Thor-God-of-Thunder-06-pg-002

Não há grandes surpresas quanto às razões de Gorr odiar tanto os deuses. O cara já nasceu ferrado num planeta que era basicamente um grande deserto. Perdeu a mãe, a esposa, grávida de um de seus filhos, e toda a sua linhagem. Para um sujeito que já não tinha praticamente nada na vida isto tudo foi o bastante para acabar com qualquer gota de crença que tivesse num poder maior.

Isto acaba alcançando sua culminância quando, ao perder o único filho que lhe restava, Gorr explode em revolta e ira blasfemas contra seus semelhantes, todos crentes fervorosos, que o expulsam da tribo, fazendo dele um pária.

Thor-God-of-Thunder-06-pg-008

O interessante é que no final do flashback ele é forçado a mudar parte de suas crenças, pois dois deuses caem do céu na frente dele, na primeira grande ironia de sua vida. Mas isto acaba sendo a gota d’água para Gorr, pois, apesar de ser forçado a admitir a existência de deuses, sua descrença na capacidade dos mesmos de ajudarem seres mortais acaba aumentando a ponto de converter-se num ódio que tudo consome, e alimento do único objetivo de sua vida miserável. Paralelo a isto ele se deixa dominar pelo poder e imortalidade conferidos a ele pela arma que rouba do deus negro, simbolizando sua transformação interior.

Apesar de não apresentar grandes novidades para a trama, este capítulo complementar de transição entre o primeiro o segundo arco da série é uma conclusão lógica do que já foi apresentado no primeiro arco. Como eu havia apontado no review da edição 5, Gorr, em sua caçada aos deuses do universo, acabou ele próprio transformando-se num deus, talvez o último de todo o cosmos, embora ele mesmo não admita isto, o que é a grande ironia de sua história. Afinal, não é fácil um indivíduo aceitar que, no fim, converteu-se naquilo que ele mais odeia.

Thor-God-of-Thunder-06-pg-018

Também descobrimos no final desta edição o que Gorr criou nos últimos 500 anos (contados a partir do futuro do Rei Thor, visto nas últimas edições): um mundo em que os poucos deuses cuja vida ele poupou trabalham como seus escravos na construção de algo ainda foi revelado.

Infelizmente este número não conta com a bela arte de Esad Ribic, ficando nas mãos de Butch Guice a tarefa de cobrir as férias do colega. Seu traço é mais rústico, o que, até certo ponto, combina com esta história fechada, em sua maior parte ambientada no mundo natal de Gorr, um planeta cheio de uma precariedade rochosa e seca que se reflete na miséria de seus habitantes, anos-luz de distância da suntuosidade dos mundos divinos belamente retratados por Ribic nas primeiras edições. Mas a história é boa o suficiente pra compensar aqueles que não curtem o estilo do desenhista.

Esad Ribic volta no próximo número para o início do arco Godbomb, que promete mostrar os três Thors suando um pouco mais pra descobrirem uma forma de deter Gorr.