[REVIEW] O Prisioneiro (The Prisoner, 1967-1968) [ATUALIZADO]

the-prisoner-series-1967-1968

Aproveitando a 1ª parte da análise do Lucas Sathyago de Os Invisíveis, resolvi resgatar para o NERD GEEK FEELINGS o texto abaixo, onde falo da série de TV The Prisoner, que mais adiante se revelará uma das principais influências da série em quadrinhos de Grant Morrison (uma delas sendo o nome de Dane McGowan, cuja sonoridade faz referência a Patrick McGoohan, ator que interpreta o protagonista de Prisoner).

Um agente secreto pede demissão e vai embora pra casa, onde faz as malas e se prepara para sair de férias. Porém seus planos são frustrados quando é posto inconsciente, sequestrado e levado para uma vila estranha, habitada por pessoas de diversas nacionalidades que não respondem por nomes, mas números. O lugar lhe é apresentado apenas como A Vila, e é informado de que a partir de então ele será o Número 6. Como se o cenário já não fosse estranho o bastante, ele deve lidar com o Número 2, o responsável pela administração da Vila, que insiste em saber por que motivo o agente pediu demissão, e para tanto não hesita em empregar os mais variados métodos de coerção e extração de informações.

O Prisioneiro (The Prisoner) é uma das séries mais estilosas já concebidas. A começar pela abertura (que vocês podem conferir no vídeo logo abaixo), que sempre apresenta sua premissa, desde o momento que ele pede demissão, seu sequestro, e seu despertar na Vila. A montagem dinâmica, acompanhada pela ótima música tema, dá o tom que dominará todos os 17 episódios da série.

Se adequando à arquitetura peculiar do local, que gera estranheza, os habitantes da Vila usam roupas coloridas e espalhafatosas, além de quase todos carregarem guarda-chuvas igualmente coloridos. A direção de arte também merece elogios. Para superar as limitações técnicas da época, e dar mais valor às ideias e conceitos apresentados, foi sabiamente usada uma representação estilizada da alta tecnologia empregada pelos personagens. Os telefones sem fio usados pelo Número 2 para se comunicar com outros setores da Vila, a cadeira esférica de onde ele observa as atividades do Número 6, a sala de vigilância circular, com sua gangorra giratória, são todos elementos que merecem uma atenção especial enquanto acompanhamos o desenrolar de cada episódio.

Mas o aspecto surreal da série não pára por aí. O Número 6 logo descobre que suas tentativas de fugir do local são quase sempre frustradas por uma estranha criatura (?) denominada Rover (Errante, em português), que “nasce” do leito oceânico, tem a aparência de um grande balão branco, e anuncia sua chegada com um rugido semelhante ao de um leão (!). Além disto suas tentativas de se encontrar com o Número 1, a mente por trás de todo aquele complexo e engenhoso esquema, sempre são recebidas de maneira evasiva pelas várias encarnações do Número 2. E este é outro aspecto curioso da série: cada episódio apresenta uma pessoa diferente ocupando o posto de administrador da Vila, e empregando estratégias variadas para descobrir o segredo por trás da demissão do Número 6. É justamente na variedade de técnicas e estratagemas usados por cada novo Número 2 que os roteiristas da série encontram espaço para experimentações narrativas.

Entre episódios tão variados há pérolas como “A. B. and C.”, em que usam contra o Número 6 uma tecnologia para manipular seus sonhos, e através deles terem acesso à informação que tanto desejam. Vale mencionar que Christopher Nolan, diretor e roteirista do filme A Origem (Inception), já declarou que é fã da série, e manifestou diversas vezes seu desejo de adaptá-la para o cinema. Portanto não é nada difícil que este episódio em especial tenha sido uma das fontes de inspiração do filme estrelado por Leonardo DiCaprio.

Número 6 e seu sósia (ou seria o contrário?)

Número 6 e seu sósia
(ou seria o contrário?)

Outro episódio que merece ser comentado é “The Schizoid Man”, no qual o Número 6 é substituído por um sósia idêntico a ele. O excelente roteiro não se contenta em criar apenas este problema, e faz com que o protagonista passe por uma avançada técnica de hipnose que o leva a acreditar que na verdade ele é o sósia, enquanto o sósia alega ser o Número 6 original. O roteiro de Terrence Feely é tão engenhoso que passamos o episódio inteiro partilhando das mesmas dúvidas que atormentam o Número 6, especialmente por já conhecermos o personagem, e sabermos que ele seria capaz de enganar seus inimigos fingindo ser o sósia. A história é conduzida de tal forma, e de maneira tão atordoante, que a dúvida persiste até a última cena, quando tudo é esclarecido.

A grande liberdade que os roteiristas tiveram ainda gerou episódios ousados como “Many Happy Returns”, cuja primeira metade não apresenta nenhum diálogo, e se sustenta unicamente pela excelente montagem e o talento de Patrick McGoohan. Nele o Número 6 acorda em seu quarto na Vila e a encontra totalmente deserta. A partir daí acompanhamos sua solitária tentativa de fugir do local em uma jangada.

Já em “Do Not Forsake Me, Oh My Darling”, Patrick McGoohan é substituído por Nigel Stock, que interpreta o Número 6 durante quase todo o episódio. Uma jogada arriscada, pois além de tratar-se do protagonista da história, McGoohan é o único ator recorrente da série. Na época ele estava impossibilitado de gravá-la, mas não queria que a produção fosse interrompida, e sugeriu a ideia de que o novo Número 2 usasse uma tecnologia que permitiria trocar uma mente por outra, uma premissa nada original, mas que na época rendeu um dos episódios mais curiosos da série, e um final que trouxe uma das melhores e mais inusitadas reviravoltas.

O Prisioneiro ainda encontrou espaço para debater temas como o papel da educação na sociedade, e os riscos de ela ser pervertida e usada como instrumento de condicionamento mental (“The General”); as estratégias de manipulação da consciência coletiva em eleições “democráticas” (“Free for All”); e a massificação de comportamentos em detrimento da iniciativa individual (“A Change of Mind”).

Número 2 em sua cadeira esférica

Número 2 em sua cadeira esférica

Por trás de toda a história de um homem lutando contra um sistema que lhe foi imposto, visando a supremacia da individualidade sobre uma sociedade de gados, há ainda uma segunda possível leitura, em que toda a série funciona como uma grande alegoria da luta que todo ser humano trava para aflorar seus verdadeiros valores, seu eu profundo, indo contra a maré do que a sociedade espera de nós. Em diversos episódios seus roteiristas indicaram que a intenção não era apresentar uma história que busca ser apreendida de maneira superficial e objetiva, mas uma obra que permitisse várias leituras, construindo diversas camadas de realidade.

Vemos, por exemplo, no episódio “The Woman Who Are Dead” uma história de espionagem fantasiosa, cheia de exageros, e passagens que vão do cômico ao ridículo. Muitos podem considerá-lo um filler, uma enrolação, um desvio da trama principal, quando no final ele se mostra uma grande paródia, uma extrapolação da irrealidade presente na grande maioria dos filmes de espionagem da época. Mas o roteiro vai além, e quase literalmente acena a seu público, sugerindo que a própria série tem sua parcela de irrealidade, e que nada daquilo que foi visto até então pode ser levado ao pé da letra. O mesmo pode ser dito do episódio “Living in Harmony”, em que logo na primeira cena somos jogados num cenário de Velho Oeste, algo que deve ter gerado alguma confusão para o público da época, mesmo após identificarem Patrick McGoohan no papel principal. Durante quase todo o episódio não há qualquer menção à Vila, ao Número 2, e o protagonista não é mais chamado de Número 6, mas de Xerife. Sabemos que trata-se da mesma série pelo letreiro no início anunciando seu nome, mas, fora isto, parece tratar-se de uma versão alternativa da história. Toda a farsa é revelada apenas no final, e o episódio acaba funcionando como outra dica para que o público não dê tanta importância para o que é apresentado na superfície, mas para a mensagem que se esconde por trás do que é visto.

Quanto ao final da série, sobre o qual não entrarei em detalhes, ele é o ponto de convergência de todos os temas abordados nos 16 episódios que o antecederam. Há uma densa camada de símbolos, metáforas e alegorias que envolve cada ação de cada personagem em cena. Não é o tipo de conclusão que responde diretamente todas as perguntas que a série gerou na mente de seus espectadores. Muito fica aberto a interpretações, mas não há como negar a genialidade por trás do que foi feito.

A interpretação de Patrick McGoohan como o Número 6 é essencial para que a série cative seu público. Sua atuação é intensa, frenética. Seus diálogos em diversos momentos adquirirem um nervosismo e urgência que são refletidos na montagem excepcionalmente dinâmica, cheia de cortes rápidos e precisos, que inserem o público naquele cabo de guerra disputado entre um homem e todo um sistema.

Patrick McGoohan e Leo McKern

Patrick McGoohan e Leo McKern

Merecem destaque também alguns dos atores que interpretaram o Número 2, como Patrick Cargill, que faz uma das encarnações mais cruéis do vilão, levando o Número 6 a armar um engenhoso plano que volta suas estratégias contra ele próprio (“Hammer Into Anvil”). E Leo McKern, cuja participação foi tão marcante no início da série que foi chamado de volta para interpretar seu Número 2 num dos episódios mais fulminantes de O Prisioneiro, “Once Upon a Time”, considerado por muitos o melhor de todos. Nele o Número 6 e o Número 2 ficam presos juntos numa instalação subterrânea, onde entram numa verdadeira guerra psicológica que dura o episódio inteiro. O atrito entre os personagens é palpável, e fica evidente que cada ator está atuando em sua capacidade máxima. É o penúltimo episódio da série, e conduz o público de maneira brilhante ao seu ato final.

Aclamada e objeto de discussões até hoje, O Prisioneiro trás consigo uma enorme carga de criatividade e temas para reflexão que ainda continuam pertinentes. Mais de 40 anos depois de seu lançamento, ela permanece como uma série obrigatória aos admiradores de um ótimo suspense, mas, acima de tudo, àqueles que apreciam uma história bem contada.

Número 6 em seu Lotus 7

Número 6 em seu Lotus 7

(texto originalmente publicado no blog Existindo na Inexistência, em 2 de junho de 2011)


Atualização de 13/10/2015:

Neste domingo, Leandro Luigi Del Manto divulgou imagens raras de uma adaptação da série em quadrinhos feita por ninguém menos que Jack Kirby, que pode ser conferida aqui, com um instrutivo texto do Leandro contextualizando a história que impediu a HQ de ser publicada.

One thought on “[REVIEW] O Prisioneiro (The Prisoner, 1967-1968) [ATUALIZADO]

Comments are closed.