[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Avengers #7 – “The Last White Event”

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Depois das seis enigmáticas edições iniciais, que prepararam caminho para o Evento Branco, Hickman abre o jogo neste primeiro capítulo de seu segundo arco, que girará em torno do misterioso fenômeno, cujo mecanismo de funcionamento, função e consequências são explicados aqui. É o capítulo mais revelador dos planos do autor para as próximas edições e para a futura saga que comandará para a Marvel, e há muito pra ser dito sobre o que foi introduzido nesta edição.

O texto abaixo contém SPOILERS.

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As páginas iniciais apresentam um nível superior de realidade que, por si mesmo, promete reformular a estrutura do Multiverso Marvel, e criar um plano de fundo em comum para futuros eventos envolvendo os universos paralelos da editora. Já correm boatos de que a saga Infinity também envolverá o Universo Ultimate, para o qual Hickman escreveu a série Ultimate Comics – The Ultimates (que recomendo ler o mais depressa possível, pois nela certamente existem mais sementes plantadas pelo autor para serem usadas na futura saga).

A Máscara Noturna de newuniversal recém-chegando no Superfluxo. Reparem na representação dos sonhadores.

A Máscara Noturna de newuniversal tendo seu primeiro contato consciente com o Superfluxo.

Nesta edição Hickman explicita seu apreço pelas idéias introduzidas por Warren Ellis na reformulação que o escritor britânico fez do Novo Universo, entre 2006 e 2007, nas mini-séries newuniversal e newuniversal: Shockfront (nenhuma delas publicadas no Brasil até o momento). Nelas Ellis havia apresentado o conceito do Superfluxo (Superflow, no original), e a idéia de que uma estação criada por uma raça alienígena do outro extremo do universo foi lançada neste Espaço dos Sonhos (Dreamspace, no original). Segundo a própria Estação de Comunicações, “o Superfluxo é para onde seres inteligentes vão quando sonham, é de onde as idéias vêm, além de ser o espaço através do qual a telepatia atua”. Ainda segundo a Estação, o clima do Superfluxo gera os grupos de conceitos associados, inovações e movimentos artísticos e políticos conhecido por nós como Zeitgeist. Isto tudo é revelado em newuniversal #2 (e se eu fosse você eu correria atrás dessa mini-série agora, como eu fiz antes de escrever este review).

Outro ponto estabelecido por Ellis em newuniversal é que o universo pende numa teia feita de matéria estranha, uma estrutura construída por uma espécie muito antiga dentro do Superfluxo, cujos fios se estendem através de milhares de anos-luz. Quando um mundo entra em contato com a Teia, ela altera vários seres daquele mundo para atuarem como arautos dos novos tempos, e facilitar a mudança de paradigma sofrida pelo planeta onde vivem.

O que Hickman faz nesta edição é dar continuidade aos conceitos introduzidos por Ellis,  e estruturá-los melhor (eu particularmente achei confusos alguns pontos da “arquitetura” sugerida por Ellis em newuniversal). Na concepção de Hickman o Multiverso é um conjunto de Superfluxos, cada um correspondendo a/contendo um universo, supervisionados por uma frota das chamadas Estações de Ascensão/Comunicação. Não fica muito claro onde se encaixa a Teia neste sistema, mas supõe-se que ela seja a Máquina, que está quebrada, segundo as falas codificadas de Adam/Máscara Noturna, vistas nas edições anteriores, além de ser um meio de ligação entre as várias estações, cuja função é detectar mundos prestes a sofrer uma mudança de paradigma no Superfluxo onde foi construída. Ok, agora pare um pouco pra refletir sobre os três parágrafos anteriores! Pode reler que eu espero.

Pronto? Então podemos prosseguir.

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Todas as estações respondem a uma estação maior, a Teia Central, posicionada no Nexo de Todos os Superfluxos, que se localiza no que pode ser interpretado como o lado de fora do Multiverso (embora o espaço exterior à Teia Central sugira que ela se localiza dentro de um universo antes de penetrar o Espaço dos Sonhos, o que torna tudo ainda mais complexo/confuso). Lá vivem o Zelador (Caretaker, no original), cuja aparência lembra a dos Construtores, rapidamente vistos na história que Ex Nihilo conta aos Vingadores em Avengers #2. Fica subentendido que o Zelador é um descendente dos Construtores, que ele considera seus Mestres. O segundo habitante da estação central é um robô conhecido como Curador (Curator, no original), que monitora as atividades de todas as Estações da Teia. Descobrimos através dos diálogos entre eles que os Construtores, após desenvolverem o sistema de Jardineiros para controlar a evolução da vida no universo, se dedicaram à criação de um sistema mais complexo e abrangente: a Teia e sua Frota de Estações de Ascensão/Comunicação. Vale lembrar que nas falas codificadas de Adam/Máscara Noturna na edição 2 (decifradas na parte 15 de minha série de reviews da Marvel Now!), ele diz que “os Construtores abandonaram a Máquina”, ou seja, a Teia do Universo-616. Agora sabemos porque: eles voltaram suas atenções para um plano mais elevado, para a Superestrutura do Multiverso, cuja integridade, quando ameaçada, afeta mais do que apenas seu universo natal.

Este sistema envolvendo estações criadas pelos Construtores lembra muito a relação entre o Multiverso DC e a raça de Monitores, surgida como consequência da saga Crise Infinita, que tiveram um papel muito importante na Crise Final, o que traz novamente à tona um boato que vem circulando há algum tempo: o de que Jonathan Hickman está preparando sua própria versão da Crise nas Infinitas Terras dentro do Universo Marvel. Ele já apresentou uma ameaça que afeta todo o Multiverso nas três primeiras edições de New Avengers, e no início desta temos um vislumbre do que está destruindo os universos, embora não fique totalmente claro se estamos diante da mesma entidade cósmica enfrentada pelos Illuminati no outro título (vale lembrar que até agora há indícios de que as histórias de New Avengers ocorreram antes de Avengers #1).

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Outro ponto das idéias de Ellis que Hickman torna menos “hermético” é a causa do Evento Branco. Segundo as explicações que o Máscara Noturna dá aos Vingadores neste número, ele ocorre “quando um mundo está prestes a ascender na escala universal, criando e alterando arautos para pastorear a ascensão”, e um Máscara Noturna, segundo o próprio, “age como o precursor/mensageiro da mudança.”

O fato do Máscara saber tanto sobre o Evento Branco é indiretamente explicado no início da história quando o Zelador pede ao Curador para enviar um comando às  Estações de Ascenção/Comunicação remanescentes para que disparem um Evento Branco em seus respectivos universos (reparem que a do Universo 3281809 também consegue antes de ser atingida pela “ameba cósmica”). Fica subentendido que foi uma delas que transmitiu diretamente para o cérebro de Adam/Máscara Noturna, em Avengers #2, o aviso da proximidade de um Evento Branco, embora também não possa ser descartada a possibilidade dos próprios Construtores terem feito isto de uma dimensão ainda mais elevada que o Nexo de Todos os Superfluxos (há um breve momento em que o Curador pergunta ao Zelador se ele deve alertar alguém, que pode ser o superior deles, pouco antes de penetrarem o Espaço dos Sonhos). Aquela mesma transmissão massiva de informações deve ter enchido sua memória de tudo aquilo que ele explica ao longo desta edição para os Vingadores, enquanto constrói máquinas para localizar outros seres humanos diretamente afetados pelo Evento Branco.

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O primeiro dos arautos a se manifestar é o Estigma (Starbrand, no original), que segundo o Máscara Noturna é um “sistema de defesa planetário”, alguém com “poder para defender um planeta inteiro” e “a capacidade de destruir um.” Este conceito de um ser humano transformado pelo universo num sistema de defesa é muito parecido com o dos Bebês do Século, das histórias de Authority e Planetary escritas por Warren Ellis, outra indicação do apreço de Hickman pelos conceitos do autor britânico.

Além de toda essa quantidade de idéias fascinantes, dignas de ficções científicas de alto nível, o restante da história é outra aula de narrativa de Hickman.  A ansiedade e tensão geradas em torno do mistério sobre a identidade dos arautos a partir de pistas falsas é outro exemplo da excepcional habilidade do escritor. Suspense de primeira qualidade, com direito a recapitulação reveladora que deixa o leitor boquiaberto, e com vontade de aplaudir o autor por conseguir enganá-lo até o último instante.

Desta vez Hickman conta com o excelente Dustin Weaver nos desenhos, seu parceiro nas mini-séries S.H.I.E.L.D. (outro trabalho do autor que merece ser lido, e sobre o qual ainda quero escrever a respeito), cujo detalhismo dos cenários torna a história tão grandiosa e impressionante quanto merece, ao mesmo tempo que capricha em sutilezas que dão peso a momentos que poderiam facilmente mergulhar indivíduos em sua insignificância diante de fatalidades maiores que eles (aquele close nos olhos lacrimosos do Zelador quando vê a obra de seus mestres sendo destruída é de cortar o coração).

Repito aqui o que eu disse no Facebook quando terminei de ler esta edição: com ela meu amor pelo trabalho de Jonathan Hickman aumentou um pouco mais. Sua capacidade de sintetizar e estruturar idéias de outros autores vem tornando-o um mestre do ofício, e é muito gratificante acompanhar seu amadurecimento, ao mesmo tempo em que eleva o nível das histórias de super-heróis como anteriormente o fizeram Grant Morrison, Alan Moore e Warren Ellis, só pra citar alguns dos revolucionários. Hickman vêm se mostrando um amálgama dos três, e tem grandes chances de figurar na mesma lista que eles em alguns anos. Até aqui seu trabalho em Avengers é irretocável, e isto é algo raro de se ver hoje em dia numa série de uma editora tão mainstream quanto a Marvel. Glorioso, pra dizer o mínimo.