[REVIEW] Ghetto Brother – Uma Lenda do Bronx (Editora Veneta)

Ex-senhores de guerra viraram DJs e membros das facções batalhavam na pista de dança, apresentando seus passos misturados com técnicas de artes marciais.

Nova York, anos sessenta, o bairro Bronx consistia nos restos de um antigo bairro ‘perfeito’ depois de um problemático processo de favelização devido à construção de uma via expressa. Onde viviam desde os anos vinte italianos, irlandeses, alemães e judeus; chega uma enorme onda migratória porto-riquenha para dividir o que sobrava do espaço com negros vindos do intensamente discriminatório sul dos EUA. Dentre estes porto-riquenhos estava Benjamin Melendéz, o “Yellow Benjy”, protagonista do quadrinho sobre o qual aqui escrevo.

Baseado em fatos reais, “Ghetto Brother – Uma Lenda do Bronx” conta como a gangue fundada e liderada por Yellow Benjy construiu uma cultura de paz nos guetos norte-americanos que propiciou o surgimento do hip hop. Com o abandono estatal e a violência policial e urbana, as gangues funcionavam por vezes como milícias onde os membros se protegiam e protegiam suas famílias e territórios, inclusive de ataques de gangues rivais em disputas de território. Até que, diante da morte de um de seus integrantes, a gangue Ghetto Brothers decidiu dar um basta na violência.

Os GBs surgem no ano das mortes de Martin Luther King e de Robert Kennedy. No meio da Guerra do Vietnã. Os negros e os latinos dividiam as favelas nova-iorquinas sem muito gosto uns pela cultura dos outros. Assim, ao invés de lutar contra o sistema que os mantinha na pobreza, lutavam uns contra os outros. Isso antes das gangues. Em geral, as gangues eram territoriais, o que deixava a tensão racial e cultural em segundo plano em prol de uma união e uma coletividade periféricas.

Cada gangue possuía seu brasão, um símbolo próprio costurado nas costas de suas jaquetas. Os GBs escolheram três latas de lixo, simbolizando a decadência do lugar onde viviam no South Bronx. Quando começaram, haviam mais de cem gangues na região. Logo se tornaram uma das maiores, com dois mil integrantes. Em prédios abandonados, as gangues faziam suas sedes, com abrigo, conforto e proteção para seus membros. Em colégios aconteciam a maior parte das brigas de gangues. Se você fazia parte de uma gangue e tinha algum problema na escola, a gangue inteira se mobilizava para ‘resolver’ esse problema. Se o seu problema fazia parte de alguma outra gangue, um enorme ciclo de violência se criava.

Outro problema afligia os guetos dos anos setenta: As drogas. E em cada território, as gangues lidavam com esse problema de formas diferentes. Haviam gangues que forneciam drogas, gangues que impediam a entrada de drogas em seus territórios, gangues que não se posicionavam sobre… Os GBs de Yellow Benjy trabalhavam para manter seus integrantes limpos. Isolavam os usuários para evitar que recorressem aos vícios, e os acompanhavam nesse isolamento até que estivessem bem. Um dos submetidos a essa ‘desintoxicação’ foi Black Benjy, outro Benjamin membro da gangue, que cresceu junto de Melendéz e era chamado de Black Benjy por ser negro. Black Benjy é um personagem central na trama desta HQ.

Outro personagem central é Joe Matumaini, membro dos Panteras Negras, que no meio de uma grande guerra de gangues visitou os GBs para conversar sobre seus ideais e mostrá-los que “as outras gangues não são o inimigo. Aqueles que estão oprimindo nossa comunidade são o verdadeiro inimigo.” Falou sobre educação, saúde, emprego, plantou ideias na mente de Yellow Benjy. Pouco tempo depois, Black Benjy morreu, no dia dois de dezembro de mil novecentos e setenta e um. Com a enorme tensão entre as gangues, os GBs decidiram convocar uma reunião de emergência entre membros de diversas gangues no Central Park. Black Benjy foi representá-lo, agora como Conselheiro da Paz da gangue. Foi assassinado durante a reunião.

Os GBs ficaram muito agitados, e uma enorme vontade de vingança tomava conta do grupo. Mas Yellow Benjy e outros membros reforçaram que as gangues precisavam de paz, e mantendo essa mensagem, não atacaram a gangue responsável pela morte de Black Benjy. A notícia dessa decisão espalhou-se rápido pelas gangues, e logo encontraram apoio de outras gangues do Bronx, que queriam somar à luta de Benjy. Assim, mais uma vez, Benjy reuniu líderes de diversas gangues para discutir o futuro dessa cultura. Assistentes sociais, professores e jornalistas também compareceram, o encontro se deu dentro do ginásio de uma escola. Benjy promoveu ali um acerto de contas, pois apesar das gangues quererem resolver seus problemas de forma pacífica, resquícios de seus históricos de violência sempre voltavam à discussão. Ali, as gangues de acordo assinaram um documento como A Família, onde concordavam em proteger todo o Bronx e transformar a comunidade num local melhor de se viver para todos. Um longo período de paz ali começou, e nesse período de paz a antiga gangue Black Spades se tornou a Universal Zulu Nation, ONG de Afrika Bambaataa tida por muitos como a fundadora do hip hop!!

Para além de toda esta história de luta, o quadrinho traz também uma biografia de Melendéz, informações diversas sobre a cultura de gangues e sobre o hip hop, mapas do Bronx dos anos setenta, e alguns registros fotográficos que foram essenciais na criação da obra. Em seu lado mais biográfico, o quadrinho mostra como Melendéz lidava com a pressão de ser líder da gangue, de viver um casamento inter-racial numa época onde isso era deveras mais complicado, de descobrir a ascendência judaica de sua família porto-riquenha, etc. Em seu lado mais histórico, temos curiosidades sobre a favelização do Bronx e a história da fotografia no hip hop. A arte de Claudia Ahlering possui uma simplicidade muito expressiva, com alguns momentos de linhas mais sujas e tensas e outros mais curvos e divertidos, casa muito bem com o texto cheio de nuances de Julian Voloj. Os extras são bastante informativos, o papel e a impressão tem qualidade e a tradução lida bem com o texto.

Ghetto Brother – Uma Lenda do Bronx é uma história em quadrinhos em preto-e-branco de 120 páginas, escrita por Julian Voloj e ilustrada por Claudia Ahlering. A tradução é de Alexandre Matias e Mariana Moreira Matias, pela editora Veneta. Vale a compra!


ghetto brother julian voloj claudia ahlering veneta capaVeneta

Brochura

25,8 x 18,8 x 0,4 cm

128 páginas

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