[RESENHA] DIVERGENTE (Divergent, 2014)

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O sonho dourado de qualquer aspirante a escritor de ficção juvenil é ser o próximo Harry Potter ou o próximo Jogos Vorazes, qualquer um que já tenha pensado em escrever um livro nos últimos anos sabe disso. Veronica Roth (deve ser sobrinha do Celso) também sabe disso, só que ela não parou por aí. Ela se dedicou furiosamente a escrever o próximo Harry Potter ou o próximo Jogos Vorazes, levando a expressão à sua literalidade máxima: ela chupinhou o que pôde de Jogos Vorazes com Harry Potter, bateu em um liquidificador, adicionou idéias próprias a gosto e daí nasceu Divergente.

E enquanto eu não li o livro, eu tenho algumas coisas a dizer sobre o filme. Talvez a mais importante é que quando eu fui no cinema a sala estava repleta de garotas, e isso é mais do que suficiente para fazer soar o sinal de alerta. Eu concordo que uma garota possa ser inteligente e ter bom gosto, mas quando o coletivo da espécie se algaravia sobre alguma coisa, é um sinal que boa coisa não vem daí… Você pode me amaldiçoar e me chamar de misógino o quanto quiser, mas até que um exemplo de respaldo surja eu mantenho minha opinião.

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Se você assistir Cinderella de trás pra frente, é sobre uma mulher que aprende o lugar dela

Então, Divergente se passa em Chicago 2XXX – é dito apenas que se passa cem anos após a “Grande Fucking Guerra” – a cidade foi cercada por uma série de torres de alta tensão (pelo menos pareceu isso pra mim), chamada de “A Cerca”, para proteger a cidade dos gigantes.

Quer dizer, seria realmente épico se fosse isso, e cada vez que a tal da “Cerca” aparecia eu ficava torcendo para um gigante meter o carão ali. Mas isso não acontece. Embora eu tenha visto uma ruiva baixinha no shopping com a camiseta do Attack on Titan, o que é quase tão incrível quanto.

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Voltando ao Detergente, então Proto-Panem Chicago sobreviveu à guerra e, para manter a ordem, as pessoas foram divididas em cinco casas facções: Griffinória Audácia, Lufa-Lufa Amizade, Corvinal Erudição, Sonserina Sinceridade e ONG das Testemunhas de Jeová Vegans Abnegação.

Ao completar algum momento da vida, as crianças vão para a colheita o teste de aptidão (o filme não deixa claro qual, mas os dois irmãos que não são gêmeos vão para a colheita ao mesmo tempo, de modo que não deve ter haver com idade), quando são submetidas ao chapéu seletor monte de drogas que dizem qual casa facção ele vai pertencer dali para frente.

O moleque pode discordar do resultado do chapéu seletor (“Sonserina não, Sonserina não”) mas raramente alguém o faz (a ilusão da escolha é a maior de todas as prisões, aqui vai um elogio sincero para a autora). Claro, você pode questionar como um adolescente drogado pra caralho pode decidir o que ele vai ser para o resto da vida mas, francamente, é tão diferente assim de como as universidades funcionam?

Após passar pelo chapéu seletor de dorgas, o jovem, caso não permaneça na mesma facção, dá adeus à casa dos pais em uma despedida dramática (chupinhadaaaaaaaça de Jogos Vorazes para parecer com a Colheita) e inicia uma admirável vida nova no campus da universidade em sua nova facção.

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A Colheita do Chapéu Seletor no teste de aptidão e… espera, o que?

Veronica Roth pode ter muitas qualidades, mas certamente ser discreta, ou mesmo elegante com as metáforas, não é uma delas…

Existe ainda a possibilidade do sistema de drogas não te indicar nenhuma facção ou mais de uma, e isso te torna um “Divergente“, uma ameaça ao sistema que deve ser imediatamente eliminada. Mas chegaremos logo a isso.

Agora que o cenário foi explicado, acompanhamos as aventuras de Beatricce Kiddo (que foi? gostei desse botãozinho que faz esse efeito) e de como ela descobriu ser uma Detergente. Apesar de ser forçadamente puxado para parecer com A Colheita de Jogos Vorazes, esse primeiro arco da história não é de todo ruim e, embora ninguém explique claramente o que diabos faz esse tal Divergente (ele tem poderes? pode clonar a si mesmo nos outros como o agente Smith? os peidos dela apagam hardwares?), a construção da Chicago pós-apocalíptica é bem feitinha.

O mesmo não pode ser dito da nossa nada adorável Tricce, oriunda da mais humilde de todos os distritos, o distrito 12 todas as facções, a Abnegação. Aqui Veronica tenta chupinhar a lazarentice da vida de Katniss (e se tem uma coisa que Jogos Vorazes faz bem é passar a sensação de pobreza do Distrito da protagonista), mas ao menos no filme a ideia é abandonada depois de duas cenas, para nunca mais se tocar no assunto.

Mas eu falava de Beatricce, que se mostra uma tonga sem iniciativa de marca maior. Basicamente, tudo que ela faz durante a primeira metade do filme é repetir o que lhe dizem como um Cavaleiro do Zodíaco (“Vocês jamais despertarão o sétimo sentido! /”O sétimo sentido?”) e andar de um lado para o outro cumprindo ordens com o carisma um de nabo enjaulado.

Sério, sabe aquela parte do Harry Potter que você queria agredir o Harry por ele ser um automato sem personalidade, e não ter iniciativa sequer de perguntar quem eram os pais dele (sério, ele passou um verão inteiro com o padrinho dele – o melhor amigo dos seus pais – e não tocou no assunto uma única vez)? Pois é, agora imagine o Harry banana com uma cara mais redonda, e com uma cintura de modelete hollywoodiana, essa é a Tricce.

A apresentação das facções consegue ser pior ainda: é simplista ao extremo e, até onde podemos entender, a Audácia é para os heróis badasses, a Amizade para os ripongos manezões, a Erudição para os nerds sem sentimentos, a Sinceridade para os advogados e a Abnegação… vou te dizer que não entendi muito bem qual é a deles realmente.

Seja como for, quando a Beatricce escolhe (numa cena dramaticamente previsível) ir para a Audácia, eu pesei profundamente se valia mais a pena gritar “GRIFINÓRIA!” no cinema, ou não ser linchado por adolescentes furiosas. Pensando com calma agora, acho que sei sim qual eu deveria ter escolhido…

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Eu juro que estou cogitando ir assistir esse filme de novo só para gritar na cena em que ela escolhe a facção “SONSERINA NÃO! SONSERINA NÃO!”

O segundo arco do filme é sobre o treinamento da Tricce na Audácia (que são os militares da parada, que mantém a ordem e a paz), e ela tem que ficar entre o melhor do melhor para não ser cortada da Audácia e virar uma indigente sem facção. Confesso que eu fiquei confuso nesta parte.

Tudo bem, eu realmente entendo a importância tática de ter um exército, e do treinamento militar, que parece desnecessariamente violento para transformar crianças em fuzileiros, mas… Para que exatamente? Porque toda essa parte é claramente chupada da preparação pré-jogos de Jogos Vorazes, só que com a diferença de que não existe um “evento principal”. Não existe uma ameaça a Chicago realmente, até onde se sabe todo o mundo além da Cerca é só um deserto radioativo, e a coisa mais importante que a Audácia faz é dar multas de trânsito.

Seria como fazer Attack on Titan sem que os Gigantes invadissem o primeiro muro, e os Corps treinassem suas bundas apenas para ficar ali coçando o saco. Me pareceu muito sem propósito isso.

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Fodam-se os detergentes, esse post é meu e eu coloco quantos gigantes eu quiser!

Além disso, nesta fase tem todo o drama da Tricce tentar esconder  que era uma Divergente… sem que ninguém ainda explicasse o que diabos é um Divergente na prática! Ela faz cocô azul? Seus pensamentos são em klingon? Qualé gente, já passou da metade do filme e ninguém ainda me explicou o que o tal do Divergente é! Como que eu vou comprar o drama dela ter que esconder que é uma Divergente, sem que eu faça ideia do que seja isso? Alou?

Bom, temos aqui um punhado de clichês da carreira militar de Tricce (cenas de treinamento com instrutores sem noção, o cláaaaaaassico jogos de guerra, etc) e algumas coisas legais, outras idiotas (sobretudo aquele estilo de combate que inventaram, dá pra ver que foi uma mulher que escreveu esse livro mesmo), e muito papo sobre esconder a tal Divergência, seja lá o que isso seja.

Inicialmente eu achei que Divergente seria tipo Avatar (o desenho que é bom): todo mundo teria um “talento especial” para alguma facção e o Divergente seria o coringa, o joker, o palhaço. Mas não, não tem nada especial nas facções, não tem nenhum poder ou aptidão ou nada. Então ainda estou no escuro aqui.

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“Se os seus amigos pulassem de uma ponte, você pularia?” Caralho, Veronica Roth não é NADA sutil com figuras de linguagem mesmo. Basicamente ela pegou TUDO que ela ouviu da mãe dela enquanto adolescente e colocou a versão literal no livro

Também somos introduzidos a um mundo de politicagem e intriga entre as facções. Aparentemente a casa Stark Abnegação detém o poder por um motivo que não é explicado, e os Lannister a Erudição quer tramar um golpe de estado para mandar de novo na cidade. Uma parada meio gangsta, saca?

Mas como não é entrado em maiores detalhes sobre como a politica funciona (Por que a Abnegação está no poder? Se todo mundo acha que eles são manezões, por que não tem uma eleição ou algo do tipo, sei lá? Como é que funciona essa joça para que um golpe de estado seja necessário? Por que quem manda no negócio são as Testemunhas Vegans de Jeová e não a nata da inteligência?), eu realmente não vejo como eu poderia fazer para me importar com isso.

Honestamente, eu duvido muito que ao menos isso o livro não explique e credito como falha de roteiro do filme…

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Sou má e desalmada porque não se faz omelete sem quebrar alguns ovos e apenas através do total controle a humanidade obterá a verdadeira felicidade! HAIL HYDRA!

Na reta final desse segundo arco, começa um romance entre Tricce e seu instrutor Quatro (sim, igual aquele outro livro), o que nos prova que infelizmente Veronica Roth também leu Crepúsculo. Na verdade, o relacionamento deles começa em sessões de treinamento especiais que ela faz com ele para ajudar a esconder que é uma Divergente nos testes finais de cadetes da Audácia (e não, ninguém ainda explicou o que o tal divergente é).

As cenas românticas, por assim dizer, são repletas de vergonha alheia, embora eu não tenha certeza se isso foi a autora tentando ser engraçada, ou se ela realmente leu Crepúsculo. Como estou de bom humor, vou partir do principio que ela escolheu ser divertida, e de certo modo o romance dos dois consegue ser bastante bobo, mas ao menos não é sacal…

Então, passados os tais “exames finais”, Tricce consegue ser aprovada como membro oficial da Audácia sem que ninguém saiba que ela é Divergente (seja lá o que isso for), e daí começa a reta final do filme, e o anunciado golpe de estado da Erudição e… ALELUIA, VOCÊ FINALMENTE DESCOBRE O QUE DIABOS SIGNIFICA SER A PORCARIA DO DIVERGENTE!

ALELUIA IRMÃOS! HOSANA NAS ALTURAS! GLORIA A DEUS PAI! ALELUIA! ALELUIA!

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Depois de quase duas horas sofrendo com a tal “Divergencia” sem que ninguém explicasse o que essa porcaria era na pratica, me senti quase como quando soube que um certo rei ia se casar…

E quer saber? Sabe qual é realmente a pior parte? O pior é que o lance do Divergente… é um troço bem bolado. Juro que eu gostei da sacada, gostei tanto que não vou fazer spoiler. E não só isso, é explicado um pouco mais sobre o plano da Erudição, e você percebe que na verdade Veronica Roth é uma autora bastante inteligente, e sabe contar uma boa história. Não é genial, não é minha nossa é o novo Game of Thrones, mas com certeza é uma historinha bem sólida de uma mente criativa.

Eu honestamente apenas gostaria que ela parasse de ficar tentando copiar Harry Potter e Jogos Vorazes tão desesperadamente, e se focasse mais nas suas próprias idéias, porque ela não é ruim quando faz isso. Eu não diria que é um desperdício de talento, porque ela tá ganhando dinheiro pra caralho com essa merda – e isso não pode ser chamado de desperdício afinal – mas na reta final do filme (e imagino que no livro também), dá pra ver que se ela aplicasse essa mesma energia e boa amarração desde o começo, teríamos uma obra original digna de nota.

Eu Sou O Numero 4

Esse é o 4, o par romântico da Bea… CARALHO VERONICA, VOCÊ NÃO DÁ UMA FOLGA NÉ MULHER?!?

O que não é o caso. 20 minutos bons (não geniais, mas bons) não salvam as outras duas horas em que as melhores partes são as que você tem que rir porque não acredita no quanto ela copiou Jogos Vorazes e Harry Potter na cara dura desse jeito.

A minha esperança é que daqui pra frente, agora que ela já tem todos os holofotes que precisa, ela decida se focar mais em suas próprias idéias e criar um mundo digno de nota. Com alguns gigantes talvez, porque gigantes sempre são legais.

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Ok, eu até entendi o que é o tal do “Divergente”, mas porque eles lutam como se só tivessem os cotocos dos braços é algo que vai levar muito mais tempo para entender…

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