[REFLEXÕES] Watchmen e Evangelion arruinaram a cultura pop

Por mais criticado que seja, eu não acho que o episódio III de Star Wars seja um filme ruim. Ele parece muito pior do que realmente é porque ele tem que usar muita coisa de dois filmes que são absolutamente miseráveis, mas ele por si só não é essa desgraça toda. E mesmo que você não concorde comigo, ao menos há de convir que tem uma cena que é icônica – talvez pelos motivos errados, mas icônica.

Quando eu penso no que Watchmen e Neon Genesis Evangelion acabaram se tornando, eu não consigo deixar de pensar “Vocês deveriam salvar a nerdice, não arruiná-la!” Ainda assim, Hideaki Anno e Alan Moore foderam a porra toda.

Nos anos 80, e depois nos anos 90, essas duas obras mudaram para sempre a forma como pensamos entretenimento. Embora Watchmen seja discutivelmente mais literário, a verdade é que os dois pegam um conceito infantil do passado e os distorcem para uma realidade sombria, suja e incomoda. Moore fez isso com os super-heróis, cravando um punhal de ouro na Era de Prata dos quadrinhos. Anno o fez com os até então inocentes animes de robô gigante, em que um garoto aprende a pilotar um mecha acidentalmente e com o poder da amizade salva o mundo.

Verdade que eles não inventaram a desconstrução de gênero. O próprio Anno já havia brincado com alguns conceitos disso em Gunbuster, e Moore já havia escrito Miracleman àquela altura. Ainda assim, foram suas duas grandes obras que entraram para o canon da história como “nada mais será como antes”.

Caso você esteve viajando a negócios nos últimos 30 anos, Watchmen foi uma HQ produzida por Moore em parceria com Dave Gibbons. A história livro procurou humanizar o conceito de super-heróis e eventualmente expô-los como absurdos morais, terminando com o bilionário e ex-super-herói Ozymandias (SPOILER), fabricando um monstro lula alienígena alimentado com o cérebro de um garoto psíquico e teleportando para Nova York para fingir um ataque alienígena que destrói metade da cidade e força o fim da Guerra Fria. O único verdadeiro super-humano no livro voa para o espaço, porque ele deixou de se preocupar com a humanidade, e basicamente o conceito de super-herói termina, exposto como uma farsa.

Evangelion toma o já citado arco padrão da história do robô gigante – o menino encontra um robô gigante, aprende sobre a coragem e a amizade, triunfa sobre o mal – e o subverte inteiramente em uma história polêmica sobre o dano psicológico causado pelo isolamento auto-imposto, um tema que Anno esperava que ressoasse com os otakus reclusos que compõe o fandom de animes em praticamente qualquer lugar do mundo.

Moore já disse em mais de uma oportunidade que odeia o “gênero” de super-heróis com a fúria de mil sóis amarelos. E o que foi EXATAMENTE que o Watchmen dele conseguiu? Eternizar os super-heróis na cultura ocidental. “Oh, veja, Roger! Agora super-heróis são metáforas políticas, sombrias e existenciais! Isso permite que eu possa continuar comprando quadrinhos como adulto até o fim dos tempos!”

E enquanto, por um lado, é bom que quadrinhos meio que existem hoje como mídia de respeito por causa do Alan Moore, isso veio com um efeito colateral terrível: ele basicamente criou os anos 90 nessa jogada. Pior ainda: ele criou o pior lado dos anos 90 com isso.

Porque, veja, agora tudo tem que ser dark, sombrio, desesperançado. “Maduro” na forma que um adolescente de 14 anos acha que ser maduro é. O filme do Mario? Culpa do Moore. Nicks na internet como “dark_angel_killer_dumau”? Culpa do Moore. A Morte do Super-Homem? Personagens pavorosos como Cable e Carnificina, que gritam “anos 90” por todos os poros? Saga do Clone e “crises de identidade“? Tudo Moore. BATMAN V SUPERMAN é cria do Moore.

Não dele intencionalmente, claro. Ele fez uma obra magnifica, mas que foi interpretada pelas pessoas apenas com “agora tudo tem que ser niilista, dakiiiiiiiiiii e du mauuuuuuu!!!”.

Levou quase trinta anos para conseguirmos tirar essa aura de ranço de cima da cultura pop, e essa tem se mostrado uma mancha muito difícil de sair. Claro que hoje nós temos filmes e séries que tentam passar uma mensagem positiva e otimista (e graças ao shakiti de Brahma, nós tivemos Reino do Amanhã, afinal), mas a cultura pop ainda está meio que congelada na adolescência que começou em 1985.

MAIS TARDE, NA SALA DE JUSTIÇA (VIUUUM-IUMMM-UUUUSSSSHHHH)

Enquanto isso, no outro lado do mundo, um otaku safado juntou todos os clichés de anime que conseguiu encontrar e entregou para seus irmãos otakus se deleitarem. Um menino ganha um robô gigante, vai morar com cocotinhas gostosas (cumprindo os estereótipos de anime), que meio que gostam dele, tudo é festa, samba e gooooool.

Então, lá pelo meio da coisa, Anno nos pergunta: “Olha só, que bacana isso. Mas como será que a mente de um adolescente de 14 anos reagiria se ele fosse realmente colocado no meio dessa bagunça toda. Não, sério. Como será que uma pessoa de verdade reagiria?”

É, eu diria que é bastante acurado.

E daí pro final a merda só rola bolo abaixo. Anno dirigindo Evangelion em uma série sobre a gradual perda da sanidade e da realidade ao seu redor, até dois episódios finais que se passam inteiramente dentro da cabeça do protagonista. Bom ponto.

E o que os otakus absorveram disso tudo? “Hã… anoo Anno-san (uau, fiz um trocadilho em japonês aqui)… Nós não entendemos muito essa coisa aí. Podia voltar para a parte que tem mais, você sabe, coisas de anime como estamos acostumados?”

A resposta de Hideaki Anno foi: “Ah, vocês querem monstros gigantes, lutas de mechas, mortes melodramáticas, o protagonista tomando as rédeas da situação e musiquinha Pop safada?”

“Hai, hai, Anno-sama! É exatamente o que queremos!”

“Então tomem, seus putos!”

Qualquer coisa que os otakus pedissem de Evangelion, Anno atirava na cara deles uma versão debochada e distorcida do seu próprio fanatismo. Isso vai ensinar uma lição a eles, certo? Bem, não…

Tal qual a Arlequina em um filme do David Goyer sem a interferência da DC, os otakus adoraram tomar umas bifas do seu macho. E voltaram querendo mais. E mais. E mais. Aconteceu que Evangelion, que era uma obra intimista que ridiculariza os clichés da cultura otaku, se tornou o maior paragon do otakismo de todos.

Travesseiros de waifu. Máquinas de pachinko. Cup Nuudles com uma logomarca safada da série. Tal qual Moore, que tentou desconstruir o gênero de super-heróis em algo sujo e mundano, o escaánio de Anno sobre a cultura otaku se tornou o avatar do que ser otaku significa.

Sério, parece que eu estou zoando, mas apenas repare no que as pessoas absorveram de Evangelion: “É, tinha que ter menos aquele guri bundão e mais robôs gigantes e peitos, hue hue hue cara!”. Tanto que a expressão “Entra na porra do robô, Shinji!” se tornou um meme. Se você assistir o anime, e é um bom anime, vai entender porque ele não entra na porra do robô. Mas os otakus pegaram só a parte que Anno estava parodiando.

O resultado é que Evangelion deu luz a uma moda bizarra que todo anime agora tinha que ter um drama pseudo-intelectual sobre sanidade (NÃO ACHA QUE EU NÃO TE VI ESCONDIDO AÍ NO CANTINHO, FINAL FANTASY VII!) e uma edição mais porca que o necessário para “passar por arte”. Ele revitalizou como nunca o elenco do anime de harém (em séries que não são animes de harém, isso é). O Evangelion de Anno inspirou a industria de animes pelos próximos 20 anos… só que o tiro saiu pela culatra.

Os novos filmes da tetralogia Rebuild of Evangelion são tão meticulosamente tocados e retocados após o lançamento, que eles têm números de versão (nota do editor: Evangelion 1.0, 1.11, 2.0, 2.22, e assim por diante). Onde Moore continuou a criar novos conceitos e distanciar-se tanto de Watchmen e seu legado quanto ele podia, Anno simplesmente não conseguia parar de bater na mesma história, esculpindo e remodelando, talvez pensando que desta vez o público vai finalmente entender que porra ele está tentando dizer, e parar de jogar máquinas pachinko e comprar pão enlatado com rótulo dos seus personagens.

No entanto, tanto quanto suas carreiras pós-definitivas de trabalho têm sido diferentes, Anno e Moore são ambos criadores essenciais de obras extremamente importantes que tentaram assassinar cuidadosamente seus respectivos alvos: a cultura otaku / estilo de vida, e o domínio dos quadrinhos de super-herói. Ambos falharam em suas missões, criando obras que, ao invés de matar seus alvos, foram aclamados como celebrações que permitiram os piores excessos de tudo o que eles queriam evitar por décadas e décadas.