[QUADRINHOS/TV] Ales Kot: criador de “Zero” fala sobre a adaptação da HQ pra TV

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Ales Kot fala sobre Colaboração, História e Levar ‘Zero’ para a TV

O escritor do thriller de espionagem da Image Comics fala sobre as origens de sua série, sobre “raiva masculina desoladora”, pavor americano, e a possibilidade de transpor isto para um novo meio.

Desde sua estréia nos quadrinhos dois anos atrás com Wild Children (leia uma resenha dela aqui), Ales Kot é um escritor que merece atenção. Misturando seu trabalho com super-heróis da Marvel e da DC (Esquadrão Suicida, Vingadores Secretos e a recentemente anunciada Bucky Barnes: The Winter Soldier – saiba mais detalhes sobre ela aqui), com trabalhos mais pessoais como Change – que criou com Sloane Leong, Morgan JeskeEd Brisson – Kot tem demonstrado disposição para experimentar e se impulsionar em novas direções.

O melhor exemplo disto até o momento é Zero, uma série mensal publicada pela Image Comics que é supostamente uma história de espionagem contada num estilo não-linear em larga escala (leia uma resenha das 5 primeiras edições aqui). Na prática ela é algo mais – uma série genuinamente experimental que, ainda assim, conversa com o mainstream, com artistas mudando a cada edição para redefinir a série visualmente conforme Kot lentamente revela a trama maior em andamento.

“Quando comecei a escrever Zero como um quadrinho, eu queria explorar guerra, violência, natureza e criação,” disse ele ao The Hollywood Reporter. “Cada projeto veio de um lugar real – e neste caso, tive que encarar minha própria escuridão, tanto em termos genéticos quanto como herança cultural. É fácil chafurdar na dor, mas criar algo novo dela – este foi o objetivo.”

A escuridão de que fala, ele sugeriu, é o que ele descreve como “raiva masculina desoladora, um dos grandes problemas que estamos encarando no mundo atual,” apontando para outros personagens icônicos de ação (James Bond, John Rambo, Jason Bourne, e vários protagonistas de histórias de James Ellroy”) como exemplos disto na cultura pop. “Zero tornou-se uma forma de explorar isto através de alegorias de histórias de espião, thrillers de ação e ficção especulativa,” ele diz. “Eu sabia por onde começar – e deixei o trajeto me levar, sabendo de alguns lugares onde eu queria parar pelo caminho. A questão básica é: como criar um evento narrativo que converse com a verdade sobre onde estamos neste momento e como tornar isto tão envolvente e emocionante quanto possível?”

A ideia de deixar a trama conduzi-lo tornou-se de crescente importância conforme a série avançava. “Nós trocamos edições, mudamos linhas temporais, matamos personagens sem planejar e trouxemos outros porque as idéias vinham e pareciam corretas,” Kot explicou. “Sou da opinião de que uma estrutura firme é algo ótimo, porém este não é o fim do processo – seu fim chega quando o projeto sai de minhas mãos. Quando algo novo chega e me diz ‘esta é a forma como isto deve acontecer, é a forma correta,’ eu quero ouvir.”

Este algo pode vir sob a forma das outras pessoas envolvidas em Zero; junto dos diferentes artistas que contribuem com ela há uma equipe central de colaboradores que acompanham Kot em cada uma das edições da série. “Eu não seria nada sem cada um deles – sem os artistas, que mudam a cada mês, com cada história, e sem Tom Muller, o designer, Jordie Bellaire, a colorista, e Clayton Cowles, o letrista,” diz o escritor. “A colaboração está em sua melhor forma quando ela combina criatividade, intimidade, empolgação e um ambiente seguro de trabalho. Juntos, criamos um mundo unificado que, através dos diferentes artistas, refletem a mudança do estado mental de Edward Zero [o protagonista da série].”

Ele continua, “a abordagem colaborativa que me guiou até a bem sucedida criação de Zero como uma história em quadrinhos é minha abordagem central: ela se aplica a cada projeto que faço agora. E é por isto que não vendi os direitos [de adaptação] de Zero, ou a deixei sair do meu controle.” No lugar disto, ele mesmo escreveu o roteiro do piloto da série e o mostrou para alguns de seus amigos produtores – que, em troca, o mostraram para algumas agências.

“O interesse da WME foi tão sincero e dedicado que escolhi assinar com eles, especificamente com Roger GreenPhil D’Amecourt, que agora são meus agentes,” Kot revelou. “Também decidi assinar com a 3 Arts, tornando Ari Lubet meu gerente. Estou encantado com a dinâmica da equipe; acreditamos uns nos outros, e nos apoiamos.”

Esta equipe está agora trabalhando no desenvolvimento de Zero para a TV. “A série de TV não é a mesma dos quadrinhos,” disse Kot, “mas ela tem uma energia tensa muito similar, um interesse em muitos dos mesmos temas e uma atmosfera que se encontra na interseção de um thriller de ação estilizado e cheio de adrenalina e um horror de espionagem existencial. É uma exploração do arquétipo do super agente secreto, dos sonhos e dos medos americanos – uma análise da privacidade, segurança, liberdade e do que fazemos por elas.”

Além de Zero, seu trabalho para a Marvel e de futuros projetos autorais em quadrinhos, Kot voltou sua atenção para os filmes. “Atualmente também tenho três roteiros de filmes em ativo desenvolvimento, e o objetivo é finalizar todos eles – e preferencialmente vendê-los – até o final de 2014,” ele revelou. “Acredito que arte alucinante e entretenimento cativante pode coexistir como uma unidade inflexível, e estou comprometido a dar exatamente isto às pessoas.”

Zero é publicado mensalmente pela Image Comics, assim como Vingadores Secretos, pela Marvel Comics, que lançará em outubro Bucky Barnes: The Winter Soldier.

(o texto acima é uma tradução e adaptação de uma reportagem do site The Hollywood Reporter, livremente editada por Rodrigo F.S. Souza)