[QUADRINHOS] Zero #1 a 5 (ou “Como reinventar as histórias de espionagem”)

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“Edward Zero é um agente secreto. Ele trabalha para a Agência. Esta é a história de sua vida.” A partir desta premissa simples, Ales Kot elaborou Zero, uma das séries em quadrinhos mais interessantes da atualidade.

Contada na forma de um multifacetado quebra-cabeças, cada edição corresponde a uma de suas peças que, numa primeira olhada, parecem não se encaixar perfeitamente, deixando ao leitor a tarefa de descobrir em qual ponto elas se conectam. Parte desse efeito de fragmentação da narrativa se deve aos diferentes desenhistas que cuidaram da arte das 5 primeiras edições. Estruturalmente a série lembra Frequência Global, de Warren Ellis, que teve 10 edições, todas com histórias fechadas feitas por 10 desenhistas diferentes. Coincidência ou não, o ponto em comum entre as histórias de Frequência Global era uma agente conhecida como Miranda Zero. Apesar de fechadas, as histórias de Zero têm um plano de fundo que vai se tornando mais claro conforme avançamos na leitura.

“O Mapa é a Realidade.”

Zero #3 (arte de Mateus Santolouco)

Zero #3 (arte de Mateus Santolouco)

Mesmo ambientando a série num futuro próximo, Kot é bem econômico no uso de alta tecnologia, talvez como uma forma sutil de dizer que, sob seu ponto de vista, o mundo não mudará muito nos próximos anos, e que antigos problemas persistirão em formas superficialmente diferentes mas essencialmente parecidas. Sua abordagem lembra a das séries de TV Alias e Fringe, nas quais máquinas e aparelhos high tech tinham um aspecto de algo montado a partir de objetos que vemos diariamente, tornando o fantástico familiar.

Também é notável a maneira orgânica como Kot entrelaça nossa realidade com seu mundo fictício, sem forçar o leitor a conhecer a fundo a questão abordada tangencialmente. Isto o permite fazer breves e pontuais críticas à política adotada por várias nações de primeiro mundo, por meio de diálogos incisivos. Além disto, ao estabelecer uma ligação entre a Agência e a Inglaterra, Kot abriu espaço para comentar, mesmo que superficialmente, sobre o antigo conflito entre os ingleses e os irlandeses.

Outro elemento que se destaca nos roteiros de Kot é seu conhecimento de técnicas empregadas por espiões e terroristas. Um bom exemplo é a rápida aula que ele dá sobre os métodos usados por uma organização terrorista para contatar convidados para a festa que promove em Shanghai na edição 3. E, claro, a meticulosa abordagem do treinamento de Zero na edição 2.

“Máquina de Guerra”

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Zero #3 (arte de Mateus Santolouco)

Um dos temas abordados por Kot em Zero é o processo de desumanização pelo qual passa o protagonista, resultante de seu treinamento e das missões que realiza para a Agência. Parte disto já é mostrado através dos recordatórios narrados por Zero de forma metódica, concisa, e quase totalmente isenta de impressões pessoais, lembrando um burocrático relatório de alguma missão cumprida pelo agente.

Em “War Machines”, história que introduz a série, vemos Zero numa operação na Faixa de Gaza, em que ele testemunha um embate entre um israelense e um palestino – ambos modificados com biotecnologia para aumentarem sua resistência em combates físicos – que se atacam com selvageria e privados de qualquer tipo de sentimento ou mesmo sensação aparente de dor. Não deixa de ser uma representação física do processo pelo qual Zero passou por toda a sua vida, um cadinho que o filtrou até sobrar apenas reflexos e instinto de sobrevivência, transformando-o numa das “máquinas de guerra” do título.

A violência gráfica da primeira edição contrasta com a relativa paz retratada na edição 2, focada na infância de Zero. Em “I Remember Who You Are” o encontramos ainda com algum resquício de compaixão, que o faz hesitar na hora de matar um homem após observá-lo por dias ao lado de sua família. Neste mesmo número chama atenção a sequência em que ele passa por um treinamento que consiste em prender uma criança dentro de uma caixa no fundo de um lago. Paradoxalmente o gelado túmulo aquático parece lembrá-lo do calor do útero materno, conectá-lo subconscientemente à mãe que perdeu bem cedo, num dos poucos momentos em que o vemos sentir alguma coisa.

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Zero #2 (arte de Tradd Moore)

Para salientar a frieza e hostilidade do mundo de Zero, são raros os momentos em que vemos os personagens expondo seus sentimentos. Talvez um mais tocantes em que isto ocorre seja o diálogo entre Edward e Mina na edição 2, mas mesmo este logo é seguido por uma sequência que retrata a crueza e morbidez do treinamento deles na Agência, no qual são punidos por qualquer demonstração de sentimento por outra pessoa. Isto faz Zero negar várias vezes durante a série que nutre qualquer atração ou preocupação por Mina, embora fique claro que o que ocorre a ela na edição 3 o afeta profundamente, fato que também reforça nele a ideia de que o ocorrido foi consequência de ter se permitido expôr parte do desejo que sente por ela, nas primeiras páginas da história. E quando há o menor indício de que um sentimento está despontando, este é rapidamente suprimido por lavagem cerebral e drogas. A ideia é tê-lo como uma arma humana semelhante aos soldados da primeira edição.

A fim de contrabalançar o comportamento maquinal e militar de Zero, Kot desenvolveu um relacionamento entre o agente e seu treinador da Agência, Roman Zizek, o único que parece se importar minimamente com Edward. Com o desenrolar da trama as reais intenções de Zizek se tornam mais claras, especialmente na quinta edição, que fecha o primeiro arco da série de maneira surpreendente e instigante.

Sobre Cores e Formas

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Zero #5 (arte de Will Tempest)

Os roteiros de Kot estão em completa sintonia com o time de desenhistas que reuniu. Cada um combina perfeitamente com o tom de cada história.

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Zero #4 (arte de Morgan Jeske)

O estilo cru de Michael Walsh mostra-se muito adequado para traduzir visualmente o embate visceral entre os supersoldados israelenses e palestinos em “War Machines”.

Em “I Know Who You Are” o traço mais estilizado, curvilínio e flexível de Tradd Moore retrata com um misto de sensibilidade e crueza a infância do personagem, dando um toque fantasioso a suas lembranças, mas sem ignorar os aspectos mais sombrios de várias passagens.

No terceiro capítulo, “A Needle In Your Eye”, o dinamismo das linhas e diagramações bem executadas de Mateus Santolouco traduzem com muita expressividade a ação (destaque para a sequência dentro de um tubo de ventilação) e a dramática conclusão da história (nas devastadoras páginas finais).

Já o visual sujo, assimétrico e detalhista dos desenhos de Morgan Jeske em “Vision Impairment” combinam com a complexidade caótica das favelas cariocas que servem de cenário e metáfora visual para as intrincadas conspirações políticas da Agência, que são o tema da longa conversa entre Zero e Carlyle, e também com a brutalidade do combate físico entre os dois na metade final da história.

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Zero #5 (arte de Will Tempest)

E o minimalismo sensorial de Will Tempest confere a “The Map And The Territory” uma atmosfera de filme europeu existencialista/intimista assistido em altas horas da madrugada, num estado entre sono e vigília, muito adequado para o torpor experimentado por Zero na maior parte da história.

Combinando com a oscilação dos estilos de desenhos, as cores de Jordie Bellaire também variam conforme o episódio, ambientação e época da história. A cor de terra na empoeirada Faixa de Gaza; o sépia e os tons de cinza que dominam o flashback da infância de Zero; o amarelo, laranja e azul “neon” na glamourosa e luxuriante festa numa cobertura requintada na luminosa Shanghai da terceira edição; o laranja terra e quente das favelas do Rio de Janeiro da edição 4; as cores frias e assépticas combinando com a impessoalidade da Agência, onde Zero é interrogado na parte final do primeiro arco. Por usar sempre cores chapadas, Bellaire consegue criar entre elas contrastes mais pungentes, aumentando mais o impacto visual de cenas que pedem esse recurso.

E mesmo contando com uma equipe de artistas muito competentes, Kot sabe a hora certa de dispensá-los e usar apenas seu texto e o letrista Clayton Cowles para mergulhar o leitor nas percepções subjetivas do protagonista, sendo o melhor exemplo disto a página abaixo:

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Zero #2 (letras de Clayton Cowles)

Uma série que vale mais do que zero

Por sua estrutura, suas tentativas de testar os limites da nona arte, sua inventividade e as surpresas e reviravoltas que reserva ao leitor, incluindo o intrigante final do primeiro arco, digno de figurar num season finale de uma série TV (e não duvido nem um pouco que ela ganhe uma adaptação num futuro próximo), Zero merece ser lida, apreciada e celebrada como um surto de criatividade de uma mídia que a cada dia luta para sobrassair-se em meio a outras mais rentáveis e vistosas, como os games e o cinema. Parabéns a Ales Kot e sua equipe de artistas por tornar o multiverso dos quadrinhos um pouco mais interessante.

ZERO #1 a 5 [Image Comics, 2013-2014]
Roteiros de Ales Kot, desenhos de Michael Walsh, Tradd Moore, Mateus Santolouco, Morgan Jeske e Will Tempest
Nota: 10

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2 thoughts on “[QUADRINHOS] Zero #1 a 5 (ou “Como reinventar as histórias de espionagem”)

  1. ZERO é um dos melhores títulos atuais. Desde que comecei a ler, me interessei completamente pelas outras obras de Kot, como Wild Children, Change, sua pequena fase em Esquadrão Suicida, entre outros. Definitivamente, uma das minhas séries favoritas atualmente, se não a minha favorita!

    • Olá Lucas!

      Também fizemos uma resenha de Wild Children, que você pode conferir aqui: [QUADRINHOS] Wild Children – Você Está Prestando Atenção?

      Obrigado por seu comentário. Kot é um autor que está facilmente tornando-se um dos mais interessantes da atualidade. Estou ansioso pra ver o que ele fará quando assumir sozinho o título Secret Avengers (onde ele já está fazendo a diferença coescrevendo a série ao lado de Nick Spencer).

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